O relógio da praça marcava quase meio-dia. A luz forte do sol recortava sombras curtas no chão de pedra, e o jovem estava sentado na beira do chafariz seco, olhando o fluxo de pessoas que passava alheio à própria existência.
Ele respirava levemente ofegante, um pouco cansado, um pouco inquieto, mas, acima de tudo, frustrado… Desde o combate da manhã, aquilo martelava em sua cabeça: ele precisava antecipar os Velkur, não podia continuar sendo apenas uma muralha que chegava tarde demais.
Ele olhou para as palmas das mãos, mãos tão comuns, tão humanas… “ - Como poderia me antecipar a algo tão… Sobrenatural?" Pensou… Será que havia algo dentro dele, adormecido, esperando só por um empurrão? Era absurdo imaginar que um simples humano pudesse sentir o “elo” de possessão antes dele se formar, mas também era absurdo estar vivo e compartilhar a existência com uma entidade ancestral feita de fogo e propósito, e ser apenas capaz de enviar tais obsessores de volta, de onde vieram...
Ele ergueu a cabeça, respirou fundo, e falou baixo, para dentro de si mesmo, mas sabendo que o outro ouviria: “ - Eryon… posso te perguntar uma coisa?” O ar ficou mais quente, o espaço ao redor pareceu vibrar como se alguém girasse lentamente uma lâmina incandescente no centro do peito dele… Era confirmado, a presença estava ali.
“ - Pergunte, jovem, no entanto... Não há promessas de uma resposta ao agrado…” respondeu a voz profunda, grave, ecoando na mente como um trovão distante ou uma lembrança em chamas… O rapaz hesitou, engoliu seco, mas arriscou: “ - Eu… eu queria entender um pouco mais do que aconteceu hoje. Não no combate, antes dele, aqueles segundos… Aquele aperto que quase me levou até o menino antes de você se manifestar… eu senti algo. Não sei explicar, foi como… como se algo estivesse errado no ar, mas eu não consegui identificar o quê. ”
O silêncio de Eryon era quase físico, a brisa parou, era como se o mundo quisesse escutar a resposta, mas diante do silêncio, o jovem continuou, com a voz um pouco tremida, mas honesta. “ - Eu queria poder sentir esses elos, antes, como você deve saber fazer, para me antecipar, para… salvar mais pessoas…”
Alguns segundos a mais em silêncio, e então o rapaz deixa a polidez de lado, e basicamente “chuta o balde” em busca de algum retorno ao seu tormento pessoal: “ - Poxa, Eryon… você sabe como fazer isso. Você nasceu para isso. Por que não me ensina? ”
A resposta então veio sem demora, mas não sem peso… “ - Porque vós não é um de nós. ” A frase caiu como um machado, o jovem chegou a piscar, devagar, levando um segundo inteiro para respirar. “ - Ah…” murmurou...” - Entendi...” Mas, na verdade, não tinha entendido, não ainda.
Eryon então, em uma rara demonstração de consideração, prosseguiu, numa calma antiga, como quem fala de leis escritas antes do primeiro deserto existir: “ - Tu, humano, deves compreender: percebemos os Velkur´s não por desejo, mas por natureza. Somos o fogo que reconhece a sombra, a chama que percebe o abismo antes que ele se abra. Tal dom não esboça razão de ser passado adiante, tampouco ensinado. ”
Houve uma pequena pesada pausa, e então a voz continuou: “ - Nossa união… ela existe porque tu a permitiste em teu íntimo, e porque teu coração não se curva ao egoísmo… Entretanto, não te iludas: isso não te concede acesso aos segredos da minha espécie. ”
Essa havia doído, o jovem abaixou o rosto, não queria admitir, mas sentiu um aperto infantil no peito, uma pontada injusta, “ - Poxa, mas eu estou arriscando minha vida aqui também…” Ele fechou os olhos, e novamente arguiu: “ - Então… minha missão será sempre chegar atrasado? ” Perguntou, num sussurro, e o silêncio sepulcral foi novamente sua resposta… E isso não o aliviou, de maneira alguma…
A praça continuava igual, o mundo seguia igual, mas aquelas palavras, de alguma forma, tinham mudado algo dentro dele naquele instante… Ele apertou os punhos e falou, com uma firmeza que surpreendeu até a si mesmo: “ - Tá bom, Eryon. Se você não quer me ensinar… eu vou descobrir sozinho. Eu vou estudar tudo que existe sobre esses elos, sobre Velkur´s, sobre Erebus e sobre vocês… Eu vou entender como isso funciona, e vou encontrar um jeito de aprender o que vocês fazem instintivamente. E quando eu conseguir…”
Abriu os olhos, encarando o chão, mas falando para dentro da mente flamejante: “ - …vou me antecipar a essas criaturas, não vou ser alguém que só aparece depois da tragédia, eu vou chegar antes, porque eu tenho que chegar antes. ”
Eryon permaneceu em silêncio por longos segundos, longos demais, e então, apenas disse: “ - Que seja como deseja sua vontade jovem humano… “ A presença recuou lentamente, como brasas apagando-se sob cinzas profundas, o jovem soltou o ar preso no peito... Uma determinação nova, crua e ainda inexperiente, queimava dentro dele, não equiparava-se ao ser das chamas, mas real, humana, teimosa…
Ele ficou ali sentado por mais um minuto, e depois se levantou, limpando a poeira da calça. “ - Pois é…” disse consigo mesmo. “ - Vamos ver se eu deveria ter dito tudo isso… Mas agora a promessa está feita, e eu preciso aprender a perceber esses acontecimentos antes…” Era assim que começavam as revoluções pessoais, não com poderes… mas com decisões firmes, e o jovem estava decidido a fazer seu melhor.
O rapaz então apanha seu laptop da mochila que estava ao chão, o coloca sobre a mesa mais próxima e então, se senta começando a fazer buscas na internet sobre os tópicos que cogitou, enquanto ainda um tanto ofendido, resmungava para si mesmo: “ - Podia pelo menos me chamar pelo meu nome… É sempre, 'jovem humano', poxa, eu tenho nome… ”
Retornando no tempo alguns minutos, mais precisamente ao local da fábrica de bebidas, o trabalho da manhã havia sido árduo, mas nada que a moça ruiva não estivesse acostumada a enfrentar desde o cataclismo que revirou o mundo. Assim que desligou a câmera, respirou fundo, deixou o vento quente do Rio de Janeiro sacudir alguns fios dispersos e guardou o último pendrive no bolso interno da bolsa.
A jovem terminou sua coleta de informações na fábrica: tirou fotos dos destroços, registrou ângulos improváveis, recolheu pequenos fragmentos chamuscados que julgou relevantes, conversou com guardas, bombeiros e socorristas, todos exaustos, mas dispostos a dar ao menos algumas palavras. Cada depoimento, cada registro, reforçava a sensação de que algo ali ultrapassava o natural, como ela esperava do fundo de sua alma.
Quando finalmente percebeu que não havia mais nada a colher, guardou a câmera, fechou o bloco de notas e chamou um aplicativo de transporte, e, enquanto esperava, revisava mentalmente as evidências. Foi então que ela surgiu.
Uma mulher, por volta dos sessenta anos, trajando uniforme de faxineira doméstica e um lenço amarrado na cabeça, colidiu contra ela sem qualquer controle, o impacto fez ambas perderem o equilíbrio e caírem, vindo a senhora apressada, a cair de joelhos no asfalto, arranhando a pele no mesmo instante. Embora o susto, a jovem reagiu rápido: “ - Senhora… A senhora está bem? ”
A mulher tentou se levantar apressada, mas o joelho recém–esfolado traiu sua pressa, havia lágrimas nos olhos, não apenas de dor, havia desespero, algo enorme, urgente, esmagava aquela mulher por dentro. “ - Me desculpa…” ela sussurrou, a voz trêmula. “ - Eu não a vi… eu… me desculpa mesmo…” A ruiva tentou ajudá-la a ficar de pé: “ - Você se machucou, eu posso ajudar, quer sentar? Chamo alguém, uma ambulância, qualquer coisa! ”
Mas a mulher recuou dois passos, negando com a cabeça com veemência: “ - Não tenho tempo pra isso moça, eu preciso chegar lá rápido, desculpa… muito obrigada…” E então continuou a correr, mancando, mas determinada, desaparecendo no meio da multidão como alguém que estava realmente tentando chegar a algum lugar com muita urgência…
A jovem jornalista permaneceu ali, imóvel por alguns segundos, observando a direção em que a desconhecida sumira, algo naquela expressão, aquela mistura de medo, urgência e culpa, a perturbou profundamente. Ela sentiu o instinto jornalístico se acender, quase perguntando se deveria segui-la, mas naquele instante, o carro do aplicativo encostou ao seu lado, a fazendo reconsiderar e então, dando de ombros, guardou a inquietação para depois e entrou no veículo.
Passou quase toda a viagem revisando mentalmente pedaços do caso, juntando pistas deste caso e de outros, como quem costura sombras e cerca de meia hora depois, o carro parou diante do prédio onde ficava a pequena sala comercial que ela e mais duas colegas usavam como redação. Não era um jornal, muito menos era uma grande sala, era quase uma sala intelectual, elas escreviam, apuravam e vendiam suas matérias para veículos maiores, o que barateava custos. O foco da ruiva? Casos estranhos, sobrenaturais, inexplicáveis, e desde o cataclismo… havia material de sobra sobre essa vertente.
A sala comercial era pequena, mas organizada com carinho. Três mesas simples formavam um semicírculo diante de uma janela ampla, por onde entrava luz suave, plantas discretas traziam frescor ao ambiente, e prateleiras alinhadas guardavam pastas, anotações e recortes de jornal. O cheiro de café recente misturava-se ao de papel novo, criando uma sensação de “lar intelectual”, tudo transmitia limpeza, boa energia e aquele conforto de um pequeno QG onde ideias importantes ganhavam vida.
A jovem então empurrou a porta com o ombro, ainda falando ao telefone sobre uma possível fonte, e já entrou na sala despejando palavras. “ - Lorien, você não acredita no que eu vi hoje! ” Falou antes mesmo de largar a bolsa. “ - A fábrica estava uma loucura, tinha marca de luta, de fogo, de… sei lá! Ninguém sabe dizer nada concretamente, mas todo mundo sentiu alguma coisa diferente. Eu juro, parece que tem uma mão invisível operando por trás dessas tragédias! ”
Lorien, a colega de empreendimento ergueu apenas os olhos, com aquele jeito calmo de quem já estava acostumada ao tornado ruivo que atravessava a porta todos os dias: “ - Bom dia pra você também…” murmurou, sorrindo. A ruiva sorriu de volta, meio sem graça, meio elétrica demais para sentir vergonha de verdade, e se jogou ao trabalho de novo, se acomodando na própria escrivaninha. Em poucos segundos, pendrives estavam conectados, arquivos sendo transferidos, gravações organizadas por horário e testemunho. Era seu ritual, silencioso, preciso, impecável.
Mas o silêncio não durou, trinta minutos depois, enquanto revisava a sequência de fotos tiradas perto do portão lateral da fábrica, algo chamou sua atenção. Uma imagem, uma composição aparentemente banal… até que ela ampliou… Um rosto… Um olhar breve, de canto, um rapaz com moletom escuro, cabeça baixa, claramente fugindo do campo das câmeras, mas não o suficiente para escapar daquela foto específica…
Ele estava ali, no instante exato em que ela disparara o flash involuntário, e ela franziu o cenho… “ - Espera…” murmurou, aproximando mais a imagem. ” - Eu já disse isso hoje e repito agora de novo… Eu conheço você de onde? ” Recuou na cadeira, pensativa, puxando pedaços de memória como quem recolhe papéis levados pelo vento... Sim, além do café hoje pela manhã, pulsava-lhe na mente a ideia de que já o tinha visto antes, em algum lugar, em algum… Caso talvez?
O impulso veio automático: abriu pastas antigas, puxou arquivos de matérias anteriores, buscou imagens de ocorrências estranhas registradas nos últimos meses no Rio de Janeiro, havia centenas, nem todas trágicas como a da fábrica, mas ela sabia exatamente o que procurar… Rostos que não pertenciam às vítimas, testemunhas frequentes demais para serem casuais. E então ela o encontrou.
Não uma vez, mas pelo menos cinco… Cinco aparições do mesmo rapaz, sempre na periferia dos acontecimentos: ao fundo de um incêndio inexplicável; observando de longe o resgate de um acidente improvável; saindo discretamente de um prédio onde uma explosão silenciosa havia assustado o bairro; e em outra imagem, ajudando a retirar uma mulher ferida antes mesmo dos bombeiros chegarem.
Ela sorriu, não de alegria, mas de descoberta! Seus olhos brilharam, sua respiração acelerou. “ - Então é daí que te conheço…” sussurrou, com uma satisfação quase infantil. “ - Você já esteve em vários outros casos estranhos… Você está sempre mais vezes do que a coincidência permite nesses lugares, porque será? Sempre antes dos outros, sempre perto demais para ser apenas o acaso…"
Endireitou a coluna, a mente já estava fervendo, conectando peças como um motor sob tensão. “ - Eu preciso descobrir quem é você, senhor moço. ” Fez os backups finais, conferiu tudo duas vezes, ela confiava no instinto, mas nunca negligenciava o trabalho técnico, e então se levantou, segurando a bolsa e os pendrives.
“ - Vou almoçar, Lorien! ” Avisou à colega… “ - Mas na verdade é meia mentira, porque eu vou almoçar, mas também vou investigar umas fotos, acho que acabei de tropeçar numa matéria grande, daquelas que mexem com a gente."
Lorien sorriu sem levantar da cadeira: “ - Sua histórias sempre te deixam assim, ruivinha, é a nova 'matéria grande', mas o que seria de nós sem teu entusiasmo! ”
“ - Desta vez é diferente…” respondeu ela, séria, com um brilho quase febril nos olhos. Saiu da sala e mal conseguiu ouvir Lorien à pedir que lhe trouxesse um sorvete no retorno, com passos rápidos, a cabeça um redemoinho de pensamentos, e focada em chegar ao restaurante universitário que ficava à algumas quadras dali. Lugar simples, cheio de vida jovem e ideias soltas no ar, perfeito para ser criativa e pensar muito enquanto comia, e ela tinha muito, muito no que pensar. Porque, pela primeira vez, havia encontrado alguém que parecia estar sempre um passo à frente dos eventos que ela investigava, e isso… isso era história.
Não muito longe dali, a Central de Polícia que, geograficamente falando ficava mais próxima da fábrica de bebidas dos acontecimentos matinais, fervilhava com o vai-e-vem de agentes, portas batendo, rádios chiando com códigos incompreensíveis para qualquer civil, um prédio cansado, paredes manchadas de umidade, cheiro de suor, café velho e burocracia estagnada.
Foi para ali que a mulher do lenço na cabeça, Dona Expedita, correu, quase tropeçando nos próprios pés, ainda com o joelho latejante pelo tombo anterior. A respiração era curta, o peito ardia, mas nada disso importava, o que importava era o que os vizinhos haviam informado pela ligação: “ - Levaram o Leonel! Levaram ele de novo! A polícia pegou seu neto! ”
Aquela frase martelava como um sino fúnebre dentro de sua mente, a cada passo, a cada olhar, a cada respirada, pois Expedita sabia, reincidentes, ainda mais favelados, nem sempre voltavam para casa após serem levados pela polícia!
Ao entrar na delegacia, aproximou-se do balcão com o coração prestes a rasgar a pele: “ - Por favor… meu neto… disseram que ele foi trazido pra cá… o Leonel… ele… eu preciso ver ele! ” O policial do atendimento, um homem de meia-idade, barriga estufada, olhos de quem já esqueceu como deveria ser um humano, lançou lhe um olhar preguiçoso e entediado, sem disfarçar o desdém, ergueu a sobrancelha.
“ - Nome do menor? ”
“ - Leonel de Moraes Silva… por favor, moço… eu imploro… ”
Ele bufou, acionou algumas teclas, fez uma pausa longa demais apenas para aumentar a angústia dela, e então respondeu: “ - Senta e espera, se depois dos procedimentos padrão tu ainda estiver aí, alguém te chama. ”
“ - Moço, por favor… ele não é mau… é só desvirtuado… eu criei ele sozinha, mas eu sempre trabalhei muito… precisava dar de comer pra casa… aí acabava deixando ele muito tempo sozinho... ele só tem a mim… a mãe dele morreu… e o pai… “
O policial ergueu a mão, estalando a língua, como se a conversa já tivesse ultrapassado o limite da paciência dele, mas como ela tentava insistir e de repente, sua expressão mudou, endureceu, os olhos ficaram mais frios, mais vazios… “ - Eu disse pra sentar e esperar. “
O tom era quase um rosnado, um aviso, claramente uma ameaça. Dona Expedita, com o corpo trêmulo e sem mais recursos para dispor, obedeceu, sentou-se numa cadeira de plástico duro, abraçando a bolsa contra o peito como quem tenta segurar o próprio coração para que ele não caia no chão. Minutos viraram uma hora, depois duas, o mundo ao redor continuava girando, mas o dela estava preso em um único ponto: a porta dupla que levava aos corredores internos da delegacia.
Foi então que outro guarda chegou. Jovem, uniforme alinhado, olhar ainda intacto pela crueldade do sistema, ele falou algo ao policial do balcão, ao passo que o mais velho então sorriu de canto, um sorriso sujo, curto, que fez o estômago da mulher congelar. “ - Aproveita…” disse ele ao recém-chegado “ - … e comunica pra velha ali o que o santinho dela fez. ”
O jovem hesitou, respirou fundo e se virou em direção a Dona Expedita, seus passos eram lentos, pesados, como se cada metro fosse mais difícil que o anterior. “ - A senhora é… Expedita de Moraes Silva? ”
“ - Sou sim senhor… “ ela respondeu, a voz quebrada, mas cheia de esperança. “ - O Leonel tá bem? Eu posso ver ele? Por favor, senhor policial… me diz que eu posso ver ele… “
Havia algo no olhar dela, um pedido que ia além de palavras, era o pedido de uma vida inteira marcada por perdas, se podia perceber claramente, e então, o jovem guarda tragou seco, seu olhar não carregava ironia, nem deboche, apenas peso, e humanidade… “ - Dona Expedita…" disse, baixando levemente a cabeça... “ - Nós recebemos o relatório do sistema prisional…"
Ela agarrou a bolsa com mais força. “ - O que… o que houve? O Leonel… ele…" O policial prendeu a respiração por um instante, como se isso pudesse tornar o momento menos cruel: “ - O Leonel reagiu à prisão… e… acabou sendo morto no conflito."
Silêncio. Um silêncio tão profundo que parecia puxar o ar para dentro de um buraco negro. “ - Senhora…" ele completou, com voz baixa “ - Eu sinto muito…” Mas ela não ouviu o restante, a expressão de Dona Expedita se esvaziou como uma vela que apaga após lutar contra o vento por tempo demais. Os olhos perderam o brilho, o corpo perdeu forças, tudo nela pareceu encolher, desabar por dentro primeiro… depois por fora.
O mundo ficou distante, abafado, como se sua alma estivesse sendo puxada para longe, e então tudo turvou, a bolsa escorregou de seus dedos, suas pernas cederam, Dona Expedita tombou para o lado, desmaiando por completo no chão frio da delegacia.
Voltando ao centro da cidade, ele agora vibrava em seu eterno caos ordenado: buzinas, passos apressados, vozes cruzadas e vendedores oferecendo desde frutas picadas até capas de celular, e próximo a tudo isso, aquela praça existia como um quadrado de respiro, bancos de madeira gasta, árvores lutando contra o asfalto, pombos disputando migalhas, e à volta, pequenos comércios que nunca fechavam completamente: chaveiros, lojinhas de conserto, papelarias, cafés baratos.
Era ali, que entre os diversos restaurantes modestos que atendiam variada gama de pessoas, trabalhadores e até mesmo quem por ventura estivesse apenas de passagem, que ficava o restaurante universitário que a ruivajá frequentava quase todos os dias.
Ela, absorta no que tinha em mãos, caminhou direto para dentro do estabelecimento, sem realmente olhar para ninguém na praça. Talvez tivesse passado a poucos metros de situações interessantes, talvez até tivesse visto pessoas que lhe chamariam a atenção, mas naquele momento sua mente estava ocupada demais, fervendo com possibilidades e fragmentos de pistas.
No balcão, pegou a bandeja de plástico verde, seguiu a fila e montou o prato de sempre: arroz branco, batata frita crocante, salada verde, frango grelhado, e claro, um refrigerante de guaraná, seu favorito, sempre gelado o suficiente para quase arder nos dentes. Sentou-se perto da parede envidraçada, onde podia observar a praça sem realmente observá-la, tirou o celular do bolso, abriu a pasta recém-criada com as fotos onde o rapaz aparecia e começou a revisitar seus próprios arquivos mentais.
As imagens eram como cicatrizes dos últimos anos do mundo, o caso do filho que matou o pai e depois se suicidou, da mãe que incendiou a casa com os próprios filhos dentro, da neta furiosa que espancou até a morte o avô paraplégico, da menina de sete anos que asfixiou o irmão de três anos, e do idoso que atirou nos vizinhos que zombavam da prótese de madeira. E agora… a fábrica dos irmãos russos.
Esse era um caso ainda fresco, ainda pulsando, e o jovem aparecia de corpo inteiro, por acaso, no canto da foto que ela tirou da estrutura avariada… Ela mordiscou uma batata frita, pensativa, e sua mente, tão treinada para montar quebra-cabeças, começou a girar engrenagens. Teorias… hipóteses… delírios racionais.
Talvez o tal jovem fosse um repórter amador que tentava chegar antes da imprensa, mas nesse caso, por que sempre desaparecer tão rápido e não estar em nenhuma coluna atual? Talvez fosse da polícia civil, infiltrado, tentando entender padrões que ela mal conhecia, mas… Não parecia o rapaz deter postura policial comum… Talvez fosse um sensitivo, um desses que afirmavam sentir “ondas negativas” após o cataclismo, mas ela sentia que não podia ser nada daquilo, havia algo mais… algo além de misticismo barato.
Talvez fosse um "desencadeador", ela já havia ouvido teorias sobre, um tipo de pessoa que, sem saber, atraía tragédias ao redor, como uma antena viva para tais fatos… Ou pior: e se ele não fosse causa, mas efeito? E se ele aparecesse não porque queria, mas porque havia algo seguindo ele, e ela só não sabia o quê? Ela franziu o cenho, chupando o canudinho do refrigerante.
“ - Não, isso já é maluquice… Foco, eu preciso manter o foco..." murmurou, mas sua intuição gritava o contrário. Porque, de todos os lugares do estado, em todos os dias aleatórios… A única constante era ele. Seu coração acelerou… “ - Eu preciso descobrir quem é você… senhor moço misterioso… Mas como? ”
Ela então riu, em sua mente zombando de si mesma, deixando escapar: “ - Como se minha sorte fosse me permitir olhar para fora e o ver sentado em um daqueles… Quiosques…”
Ela mastigava distraidamente o frango quando a cena aconteceu… Instintivo como um estalo, seus olhos se ergueram para a praça, vista pela vidraça do restaurante, parecia a mesma de sempre… mas um movimento, uma silhueta familiar, um corte de cabelo, uma postura que seu cérebro reconheceu antes mesmo de sua consciência entender.
Ela arregalou os olhos… “ - Não… pode ser… ‘ A bandeja quase escorregou da mesa quando ela se inclinou para frente, colando o rosto no vidro… Era ele, o rapaz da foto, o rapaz "DAS" fotos, o rapaz de todos os casos. Sentado ali, na mesma praça, a poucos metros do restaurante, em carne e osso, vivo, real, respirando.
Por um instante ela ficou completamente imóvel, como se alguém tivesse apertado “pause” nela, depois, num rompante, puxou o celular e abriu as imagens. O dedo tremia. Primeira foto, caso do pai assassinado: sim, o formato do rosto era o mesmo. Segunda, a mãe incendiária: o mesmo jeito de inclinar o corpo ao observar algo. Terceira, o reflexo na janela: o mesmo corte de cabelo, a mesma postura rígida. Quarta, o bairro da prótese de madeira: aquele perfil… era inconfundível.
Ela engoliu seco e avançou para a foto da fábrica dos irmãos russos, e quando comparou a roupa… quase deixou o celular cair. “ - Não… não é possível… ele está usando até a MESMA roupa… O mesmo moletom, a mesma camiseta escura por baixo, até o mesmo amassado na barra da manga."
Se fosse apenas semelhança, ela poderia duvidar, se fosse só coincidência, ela poderia racionalizar, mas aquilo… aquilo era prova. Seu coração disparou tão forte que ela achou que poderia inclusive passar mal se não se controlasse… “ - É ele. É ele mesmo… MEU DEUS, É ELE MESMO!"
Ela bateu a mão na mesa, e alguns estudantes olharam para ela; fingindo naturalidade, ela sorriu amarelo e voltou a olhar o prato, tentando parecer alguém que apenas lembrou de um meme engraçado e não de uma bomba jornalística prestes a explodir. E então veio a parte difícil: Como diabos falar com o rapaz, assim do nada?
Ela começou a imaginar abordagens, todas terrivelmente carentes de melhores ponderações…
“ - Certo, vamos lá, quem sabe ´Oi, eu tenho fotos suas em cenas de crime, podemos conversar? ´ Credo, vou é ser presa. Então quem sabe, ´Você frequenta tragédias sempre ou é um hobby? ´ Meu Deus, que horrível de onde tirei isso? Parece até uma ameaça. Tá, então eu poderia fazer assim… ´Oi, te conheço de algum lugar. Tipo… de todos os lugares onde acontece algo bizarro.´ Não, isso daria internação compulsória em 3, 2, 1… Talvez algo mais direto então, do tipo, ´Olá, eu sou repórter e você é suspeito.´ Sem chance, esse é PROCESSO. Na certa.”
“ - Certo, vamos lá, quem sabe ´Oi, eu tenho fotos suas em cenas de crime, podemos conversar? ´ Credo, vou é ser presa. Então quem sabe, ´Você frequenta tragédias sempre ou é um hobby? ´ Meu Deus, que horrível de onde tirei isso? Parece até uma ameaça. Tá, então eu poderia fazer assim… ´Oi, te conheço de algum lugar. Tipo… de todos os lugares onde acontece algo bizarro.´ Não, isso daria internação compulsória em 3, 2, 1… Talvez algo mais direto então, do tipo, ´Olá, eu sou repórter e você é suspeito.´ Sem chance, esse é PROCESSO. Na certa.”
Ela afundou o rosto nas mãos. “ - Putz… que horror. Eu não sirvo pra abordar ninguém que não seja para um depoimento…" Então, uma ideia muito simples - e muito desesperada - passou pela cabeça dela: “ - Eu preciso falar com ele de qualquer jeito, agora, antes que ele suma outra vez. Eu vou fazer o que sei, eu vou coletar seu depoimento! ”
Ela então respirou fundo, pegou algumas batatas fritas e comeu de três em três, numa tentativa completamente inútil de normalizar o fluxo sanguíneo, tomou um grande gole do guaraná, depois outro, e mais um, o suficiente para que o gás quase a fizesse tossir.
Então, antes que o pânico vencesse a coragem, ela levantou. Com um plano capengo na ideia, segundo ela mesmo, sem uma frase pronta, sem a devida dignidade para com ela mesmo - e para com o rapaz, provavelmente - ela saiu do restaurante, passou abrindo a porta de vidro e sentiu o calor da praça bater no rosto como um empurrão do destino! Ali estava ele, ainda concentrado no celular e no laptop.
Ela caminhou devagar, tentando parecer casual, disfarçou olhando uma árvore, depois fingiu que viu algo no chão, quase tropeçou em um cachorro que não estava lá no instante anrterior, e finalmente, conseguiu se aproximar o bastante para ver a tela dele, ‘Lendas do Oriente Médio.´ Ela franziu o cenho, sussurrando de forma que somente ela ouvia sua voz... “ - Mas o que você está procurando…?"
Uma última respiração profunda, uma última revisão mental do desastre que estava prestes a cometer, ela deu dois passos, ficou atrás dele, estendeu levemente o pescoço e… Mudou tudo que tinha planejado, e a frase simplesmente saiu: “ - C-com licença…" sua voz mais aguda do que imaginou. O rapaz vira-se, olha para ela surpreso, então ela engoliu seco, recompondo-se, e, com toda a coragem que conseguiu reunir naquele instante, completou: “ - Sabia que eu gosto muito desses assuntos também?"
O jovem então levou um susto discreto quando ouviu a voz da moça novamente, não porque estivesse com medo, mas porque achou o timbre familiar, seus olhos encontraram o rosto da ruiva, e por um instante a expressão dele oscilou entre surpresa e… cálculo. Era claro que ele a conhecia de algum lugar, mas levou alguns segundos até ligar os pontos.
Ela, por sua vez, exibia um sorriso tenso, daqueles que tentam parecer naturais, mas que carregam um sentido de ‘por favor, diga alguma coisa antes que eu morra de vergonha’. “ - Ah…” disse ele, piscando algumas vezes... “ - Você é… da cafeteira, né? ”
A ruiva corou na hora… “ - Isso… Nossa, nem sabia que você… Tinha me notado… Digo, não dessa forma… Quero dizer, que tenha visto que eu estava ali… Ai meu Deus... “
A frase saiu num tropeço tão honesto quanto humilhado, ela leva a mão ao rosto, mas percebe que esse gesto seria pior, e então, muda o trajeto da mão e apenas a passa pelo cabelo, tentando normalizar. “ - Eu… Sempre… Vou até lá." Os dois ficaram em silêncio por um instante que pareceu muito mais longo do que foi.
Ele desviou os olhos para o banco ao lado, fazendo um gesto com a mão para que ela sentasse; ela hesitou antes de aceitar, parte por nervosismo, parte porque queria observar cada micro expressão dele de perto. O jovem soltou um riso breve, quase nervoso, como quem tenta aliviar a tensão, e descobrir porque ela estava ali, apesar de que ele tinha a noção, só poderia ter a ver com a foto surpresa, pela manhã: “ - Então… você gosta de lendas também?”
“ - Gosto, sim…" respondeu ela, sentando-se com cuidado. “ - Sempre pesquiso coisas antigas, casos curiosos, histórias marcantes…”. Ela parou, percebendo que estava prestes a entrar no território perigoso… “ - Bom, você deve entender. Eu trabalho com jornalismo investigativo, então é meio que parte do pacote.”
Essa foi a primeira vez que ele realmente a olhou nos olhos com atenção, deu para notar um pequeno endurecimento no maxilar, quase imperceptível, mas que ela captou. “ - Interessante… “ murmurou ele. “ - Eu trabalho com… redes sociais. Gestão de imagem. Nada muito emocionante. Mas viajo muito, acabo vendo muitas coisas por aí."
Ela sentiu o golpe, a frase parecia casual demais… ensaiada demais, e ele percebeu que ela percebeu. Ele se apressou em complementar: “ - Às vezes estou em uma cidade por umas horas, outras vezes por uns dias… Depende dos clientes, dos contratos. É por isso que… bem… eu apareço em lugares diferentes com frequência."
Ela ergueu uma sobrancelha, apenas uma, com elegância e incredulidade milimetricamente combinadas. “ - Imagino…" Sua voz veio suave, mas com um quê de provocação. “ - Viajar tanto… deve te colocar em umas coincidências muito interessantes." Ele engoliu seco, ela notou, e ele percebeu que ela notou.
“ - Coincidências sempre acontecem, né?” Respondeu o jovem, com um sorriso torto que não escondia nada... "- Principalmente quando a gente está sempre andando por aí."
“ - Claro…" ela disse, ajeitando o cabelo atrás da orelha. “ - Coincidências são incríveis. Algumas até demais, dependendo dos casos…"
O silêncio caiu de novo, dessa vez mais carregado, ela respirou fundo e tentou suavizar: “ - Olha, eu não quis te assustar ou me meter nos seus assuntos, eu… Eu só vi você aqui, pesquisando…" olhou discretamente para o título da página aberta no celular dele, Lendas do Oriente Médio… " - E pensei que talvez tivesse encontrado alguém com um interesse parecido com o meu."
Ele riu pelo nariz. “ - Bom… você realmente encontrou." Enquanto falava, o rapaz cruzou os braços, “postura defensiva” pensava ela. Já ela, apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se um pouco para frente, “postura investigativa” pensava ele. Pareciam dois jogadores de xadrez movendo peões enquanto tentavam adivinhar a estratégia do outro.
“ - Sabe…" ela começou, cuidadosamente... " - Quando você disse que lembrava de mim da cafeteira, eu fiquei aliviada, senão você poderia até pensar que eu estava… Sei lá, te seguindo.”
“ - Não pensei isso não, fique tranquila!" Ele respondeu rápido demais, rápido demais para ser verdade, ela mordeu a língua para não sorrir, e ele mordeu a língua para não perguntar o que exatamente ela sabia, até que, após alguns segundos de silêncio desconfortável, ela comentou: “ - Então, você realmente parece gostar dessas histórias antigas né?"
“ - É, mas… alguns assuntos eu prefiro não comentar muito, sempre tem gente que interpreta errado." Ela sentiu a indireta, ele percebeu que ela sentiu, e ela percebeu que ele percebeu que ela sentiu. A tensão virou quase um jogo divertido, embora perigoso.
Foi quando ela soltou uma leve risada, sincera, mesmo carregada de nervosismo, sentindo que havia uma pequena chance de conseguir respostas: “ - Olha… eu não vou mentir. Eu realmente fiquei curiosa, mas não é nada demais, juro."
“ - Curiosa exatamente com o quê?“ ele questionou baixinho. " - O que teria eu para deixar alguém curioso, ainda mais uma repórter?" Os dois se entreolharam, duas pessoas cheias de segredos ali pelo menos, mas que, pela primeira vez naquela conversa, estavam avançando naquilo que realmente as interessava naquele encontro inusitado... Ela então respirou fundo e disse: “ - Então… Quem sabe a gente recomeçar? Eu sou Clarisse… Minha mãe dizia que esse nome significa 'Iluminada', 'a que vê claramente', 'a que revela', mas eu só gosto da sonoridade dele mesmo! E você?, qual seu nome?"
O jovem chegou pensou alguns segundos e se acomodou em direção a ela para responder, a conversa entre os dois ia finalmente tomando um rumo menos tenso quando algo, na periferia da visão do jovem, puxou sua atenção de maneira estranha… Uma senhora atravessava a praça, mas não caminhava, deslizava, em passos rígidos, mecânicos, como se cada movimento estivesse desconectado do corpo. Os braços pendiam ao lado do tronco, as mãos semiabertas, e cada passada dela parecia medir exatamente a mesma distância da anterior, como um metrônomo humano quebrado.
O jovem franziu o cenho imediatamente… “ - …Você está vendo aquilo?" Murmurou ele, quase sem mover os lábios, Clarisse virou o rosto, e o susto a estampou na hora.
“ - É a senhora de hoje de manhã…" sussurrou, levando a mão à boca. “ - Essa senhora esbarrou em mim hoje cedo… lá na fábrica. Ela já estava… estranha, muito estranha…”
O jovem encarou de volta a mulher, sua mente conectou os pontos com rapidez inquietante: Fábrica… comportamento alterado… murmúrio repetitivo… ausência de foco… expressão distorcida. Aquilo não era apenas "estranho". “ - Como ela está caminhando não me parece menos estranho…” disse ele, levantando-se num pulo.
A ruiva levantou também, o coração acelerado, a senhora continuava avançando pela praça sem desviar de nada: passou por uma bicicleta, bateu de ombro no tronco de uma árvore, empurrou uma lixeira metálica com o quadril, e não reagiu a absolutamente nada. Parecia não sentir o mundo, ou pior… parecia não estar nele.
Os dois correram em direção a ela. “ - Senhora?” Chamou Clarisse. ” - A senhora está bem? Se lembra de mim de hoje de manhã?" Quando ela parou de se mover, ouviram, baixo, contínuo, desesperado…
“ - me… deixem… ver… meu… neto… me… deixem… ver… meu… neto…"
Era como se repetisse uma frase que alguém estava obrigando-a a lembrar, ou como se tentasse implorar… presa dentro do próprio corpo. A ruiva estendeu a mão com cuidado e tocou o ombro da mulher, a senhora se manteve parada, parecia tremer devagar, travada, como se alguém tivesse puxado o fio de energia que movia seu corpo. E então ela virou o rosto.
O jovem rapaz empalideceu na hora ao observar a idosa aos olhos, num gesto instintivo puxou Clarisse com força suficiente para romper qualquer dúvida: “ - NÃO!" Gritou ele, já avançando. “ - SE AFASTE DELA!" Mas já era tarde.
Os olhos eram estáticos, como que mortos, mas riscados de veias vermelhas intensas, como fissuras de lava num vidro prestes a quebrar, nenhuma pupila se movia, nenhum foco se ajustava. A ruiva seguiu a recuar um passo de cada vez, instintivamente, no exato instante que o jovem rapaz confirmava, os olhos da idosa, tinham o mesmo tom, aquele mesmo padrão… Aquele “arrasto” que parecia deformar o ar ao redor dela…
A senhora arfou, um único puxão de ar, seco, agudo, como se algo dentro dela tivesse finalmente encontrado o que buscava. “ - SAIA! RÁPIDO! SE ESCONDA!' Gritou novamente o jovem, mas a ruiva mal teve tempo de virar-se para tentar obedecer, porque naquele segundo, a energia indescritível explodiu.
Continua…
Galeria de Imagens
O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:
O jovem anfitrião e protagonista da saga:
A moça "desastrada" do café, agora definida, repórter dedicada à histórias "estranhas":
A avó atemorizada, que tentou em vão falar com seu neto na delegacia:
Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys
Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?
Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã
Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?
Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu
Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir
Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?





Mais um excelente capítulo meu amigo.
ResponderExcluirSem ação, mas com 100% desenvolvimento dos personagens.
Agora a entidade ganha nome e mostra que realmente o convívio com o rapaz não será tão hamonioso. Eu gostei demais da conversa entre eles.
A apresentação mais "formal" da Clarysse ficou excelente ela ganha a simpatia do leitor de imediato, mostrando qualidade que podem ajudar muito, ou atrapalhar o protagonista, é algo prá se prestar atenção.
O arco da senhora Expedita ficou perfeito também, mostra que mesmo os piores criminosos podem ter familiares que não compartilham de suas péssimas escolhas e, quase sempre, para essas pessoas, eles sempre terão salvação, mesmo que os próprios não a queiram.
O final dela, que também veio muito bem desenhado desde lá trás, se encerra literalmente de forma explosiva, o que vai gerar um bom drama quando ela precisar ser combatida.
E, não podia deixar de destacar, eu saquei o que você veio fazendo para esconder o nome do "jovem humano" viu? Ficou muito legal.
Meus parabéns por mais esse excelente capítulo!
Meu grande amigo Norb, que alegria ler um comentário desses, obrigado mesmo pelo cuidado, pela leitura atenta e por perceber tantos detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos numa leitura mais rápida. Fico muito feliz que o capítulo tenha funcionado mesmo sem ação direta, porque a intenção era não ser repetitivo ao estilo tokusatsu, que sempre tem o "monstro do dia", e como compensação, exatamente aprofundar os personagens e deixar as tensões se construírem aos poucos. A entidade, a relação com o rapaz ainda será melhor trabalhada, estamos apenas "pincelando" essa "parceria" e pretendo deixar ela bem mais legal emais detalhada, para se compreender a complexidade da coisa! Quanto a Clarysse, seria impossível tocar essa história sem mais personagens, uma vez que nosso personagem "não sabe de tudo", ele está indo aos poucos e aprendi a lição lá nos primórdios de NeoChangeman, e também com outros escritores no MindStorm, que os personagens não ficam legais quando sabem tudo e entendem tudo, assim, espero, Clarysse venha a ajudar nisso, de completar o personagem principal em tudo que ainda precisa ser explorado e trabalhado! E saber que tudo isso gerou empatia e curiosidade no caríssimo leitor me deixa extremamente satisfeito. O arco da dona Expedita foi escrito com bastante carinho (e dor também), justamente por esse contraste entre o crime e o afeto familiar. Às vezes, o drama mais pesado não está nos vilões, mas em quem permanece acreditando neles, quero mostrar que não é todo mundo, que as pessoas não são 8 ou 80 e que a consciência humana está muito além dessa "simplicidade" de bom ou ruim. Agora, confesso que ri quando você comentou sobre o “jovem humano”, só sair apresentando todo mundo não dá, kkk, e fico muito contente que a construção e o mistério tenham funcionado como planejado. Muito obrigado pelas palavras e pelo apoio constante, comentários assim dão ainda mais força pra seguir escrevendo e criando esses universos que surgem na minha mente, um grande abraço Norb e obrigado por tudo!!
ExcluirGrande Lanthys!
ResponderExcluirEsse episódio foi o preparativo para a tempestade que virá no próximo episódio, com o gancho no final.
Espero que Clarisse sobreviva, pois toda a construção dela e do seu modo de agir foi muito bem construída.
A intuição jornalística dela foi retratada de modo perfeito.
Jornalistas são assim...
Mandou bem demais na caracterização.
Outra parte bacana foi o conflito do jovem hospedeiro da entidade Eryon.
Eu entendo que certos segredos são difíceis de revelar.
Mas, também entendo o sentimento do jovem...
Agir, e enfrentar as entidades que dominam as mentes e almas dos infelizes que sucumbem à possessão , sem um porquê plausível, não é algo fácil...
É angustiante.
É como um cego num tiroteio.
Esse conflito também ficou muito bem narrado, dando todo o uma tenso que será o tom do próximo episódio.
A coitada da senhora Sebastiana, ao perder o neto nessas condições, morreu por dentro e abriu vreca para o Velkur a dominar.
Mais uma vítima de si mesma.
Estou ansioso pelo desfecho.
Meus parabéns!
Grande amigo Jirayriderr, muito obrigado pelo comentário tão cuidadoso e sensível. Dá gosto demais ver alguém percebendo exatamente o que foi plantado neste episódio como preparação para a tempestade que vem pela frente. A Clarysse foi pensada para isso mesmo: alguém guiada pela intuição, pela curiosidade e por um senso quase instintivo de verdade. Saber que a essência dela, especialmente esse olhar jornalístico, ficou clara para você me deixa extremamente satisfeito - e também torcendo junto para que ela sobreviva ao que vem por aí... O conflito do jovem hospedeiro da entidade Eryon era algo que eu queria que fosse sentido, não apenas entendido, essa sensação de agir no escuro, de lutar sem todas as respostas, de enfrentar algo maior do que si mesmo, acho que fica muito legal e mostra muito mais sobre a índole do jovem do que da história em si, e isso é bom! Fico muito feliz que essa angústia tenha chegado ao leitor do jeito certo. Quanto a senhora Expedita… o drama dela é talvez um dos mais cruéis, porque nasce da dor, da perda e do vazio de alguém que você tinha a responsabilidade íntima de querer cuidar, quando isso acontece com alguém, a pessoa “morre por dentro”, e como você disse tão bem, acaba abrindo espaço para coisas que jamais imaginaria permitir, tudo por conta da dor incessante... Obrigado mesmo pelas palavras, pelo apoio e pela expectativa sincera pelo desfecho, comentários assim são combustível puro para continuar contando essa história, abração meu amigo!!
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