segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 1)



"Após a morte brutal de seu irmão, Shimaru abandona qualquer vestígio de uma vida comum. Escolhido por uma espada antiga e assombrado por um poder que pode consumi-lo, ele inicia uma jornada solitária contra a Mantor — uma seita que transforma homens em monstros. Esta é uma história de vingança, silêncio e escolhas irreversíveis, onde cada passo rumo ao inimigo final cobra um preço."

A tarde ainda respirava e calma, o vento balançava o bambuzal, o farfalhar imperava e mesmo o som do riacho era possível ouvir ainda ao longe, quando a tranquilidade daquele dia, que nunca mais deixaria de existir na mente do jovem, começou a pesar.

Shimaru estava em sua moradia, simples, afastada das rotas principais, cercada por árvores antigas e pelo som constante da água correndo entre pedras, o lugar não era um esconderijo, mas também nunca fora um lar comum. Ali repousavam os pertences do irmão: armas cuidadosamente limpas, pergaminhos enrolados com disciplina, um elmo repousando em respeito sobre uma mesa baixa, Shimaru cuidava de tudo como se o irmão pudesse voltar a qualquer momento, como se a ordem daqueles objetos fosse, por si só, uma promessa de continuidade.

Shimaru carregava dois baldes de água quando sorriu sozinho… - Ainda havia esperança, mesmo com Manto atacando o Japão!

Era isso que o irmão lhe ensinara, que mesmo em tempos de guerra, o Japão precisava acreditar que o amanhã ainda podia existir. Shimaru não era um líder, mas aprendera a sorrir como quem sustenta algo frágil com as próprias mãos, pensava no próximo encontro, nas palavras curtas do irmão, na maneira como ele sempre partia com o peso do mundo nos ombros… e ainda assim retornava.

Foi então que o som dos cascos rompeu o ar. Shimaru parou. Não foi um som apressado, não foi o ritmo confiante de quem retorna vitorioso… Era pesado. Irregular. Exausto. Ele virou-se a tempo de ver o cavalo surgir entre as árvores, somente o cavalo….

Era a montaria pessoal do irmão. Branco, robusto, marcado por antigas batalhas, agora coberto de poeira seca, suor escurecido e cortes mal fechados. O animal avançava devagar, a cabeça baixa, os flancos tremendo a cada respiração difícil, seus olhos não buscavam ninguém, apenas caminhavam… como se soubessem que não havia mais quem conduzir.

Shimaru deixou os baldes caírem, a água se espalhou pela terra, sem importância alguma. O cavalo parou diante dele, não relinchou, não se agitou, apenas ficou ali, imóvel, carregando um peso invisível demais para ser ignorado. Shimaru deu um passo à frente, depois outro…

Sua mão tocou o pescoço quente do animal, sentiu as cicatrizes, o tremor contido, o cansaço profundo de quem correu mais do que devia. Não havia sela ajustada. Não havia marcas recentes do irmão. Apenas o vazio… assentado como uma certeza brutal.

Shimaru respirou fundo. Não houve visão. Não houve dor imediata. Houve ausência. O tipo de ausência que não deixa espaço para dúvidas, o tipo que só existe quando algo essencial deixa de existir no mundo. Shimaru fechou os olhos, e, pela primeira vez naquele dia que ainda insistia em ser comum, o dia ficou mais silencioso. Seu irmão estava morto.

Ele passou o resto do dia sem sair dali, cuidar do cavalo foi a única coisa que encontrou paz e determinação para não se desfazer por dentro. Limpou os cortes com água morna, improvisou faixas, retirou fragmentos de metal presos ao pelo. O animal não resistiu ao manejar de outro, estava debilitado, aceitou o cuidado em silêncio, como se também soubesse que aquele era o único gesto possível naquele momento. Shimaru falava pouco, apenas o necessário para acalmar, para manter as mãos firmes, para não permitir que o vazio se tornasse maior do que já era. E quando a noite chegou, não trouxe descanso.

Sentado ao lado do cavalo, apoiado contra o tronco de uma árvore antiga, Shimaru permaneceu desperto por horas. O mundo ao redor parecia suspenso, como se até os insetos tivessem decidido respeitar o luto. Pensou no irmão, não no guerreiro, não no líder da resistência, mas no homem que lhe ensinara a sorrir em meio ao caos, que acreditava que sobreviver ainda era um ato de rebeldia. Pensou em tudo o que foi feito em silêncio para manter o Japão de pé, pensou em como ele mesmo nunca fora feito para liderar nada além do próprio passo.

E de tanto refletir solitário, e em silêncio, em algum momento, o cansaço venceu. O sono o tomou ali mesmo, sentado, com a cabeça baixa e as mãos ainda manchadas de sangue seco. E foi naquele sono, naquele vagueio desfocado entre o desperto e adormecido, que o som rompeu a noite. Um rugido.

Shimaru despertou de súbito, o corpo inteiro tenso, a respiração presa no peito. Seria um dos monstros humanos que diziam que Mantor tinha, pensava o jovem! O som não veio de longe, não veio de perto, veio de um lugar que não obedecia à distância. O cavalo por sua vez não se moveu, continuava deitado, respirando de forma lenta e profunda, alheio a tudo. Isso tornou o som ainda mais perturbador.

Shimaru se levantou devagar. Entre as árvores, à frente da clareira, algo brilhou, não era fogo, não era lua. Era uma luz estranha, oscilando entre tons dourados e arroxeados, como se duas naturezas incompatíveis ocupassem o mesmo espaço. O coração de Shimaru pesou, não havia medo, apenas a certeza de que ignorar aquilo seria uma forma diferente de perda.

Ele caminhou até a origem da luz, ali, suspensa no ar, estava a espada. Não era uma katana, era curta demais para isso. Shimaru força a visão e percebe, era uma kodachi, flutuando imóvel, a bainha completamente adornada de runas, o punho antigo, marcado por detalhes que não pareciam decorativos, mas funcionais, como se cada entalhe tivesse sido feito para suportar algo além da mão humana. Não havia fios, não havia apoio, não havia explicação.

O rugido soou novamente, mais próximo. Shimaru olhou para trás, para o cavalo, o animal continuava imóvel, tranquilo, como se nada existisse além da noite comum, aquilo não era para todos, aquilo era… para ele. Com um peso crescente no peito - não apenas pela morte do irmão, mas por tudo o que aquela ausência exigiria a partir dali - Shimaru deu um passo à frente, depois outro. A espada permaneceu suspensa, imóvel, aguardando.

Shimaru estendeu a mão, e no instante em que seus dedos tocaram o centro da kodachi, o mundo para o jovem, deixou de ser o mesmo. Shimaru caiu de joelhos como se o chão tivesse cedido sob o peso daquilo que lhe foi imposto, e não fora o impacto da visão que recebia abruptamente, mas a sequência implacável dela.

Ele viu seu irmão, viu a emboscada se fechar com precisão calculada, homens da Mantor surgindo não como guerreiros, mas como algo deformado, armaduras irregulares, máscaras que escondiam rostos já entregues à perversão, risadas baixas demais para serem humanas.

Viu o irmão cercado, não em combate justo, mas em um espetáculo de escárnio. Ouviu os insultos, as tentativas de manchar seu nome, chamando de ingênua a esperança que ele espalhava, zombando da crença de que o Japão ainda poderia ser salvo sem se tornar um reflexo do próprio mal.

Viu lâminas entrarem sem pressa, como se cada golpe fosse uma mensagem, e, misturado à violência, vieram as memórias: o irmão corrigindo sua postura com paciência, dizendo que a força sem propósito era apenas brutalidade; o sorriso cansado ao falar de um futuro que talvez ele mesmo não visse; a convicção serena de que o bem não precisava vencer rápido, apenas precisava resistir.

Instintivamente, diante da fúria que tomava o jovem, todas essas boas lembranças, foram sendo empurradas para o fundo, comprimido, fechado como algo que não podia mais ocupar espaço. No lugar, algo diferente cresceu, não era loucura, era ódio direcionado, denso, lúcido. Não contra o mundo, também não contra a guerra, mas unicamente contra a Mantor, contra cada mão que segurou uma lâmina naquela noite.

Nisso, o último pensamento do irmão atravessou tudo como uma lâmina inversa: ”- Pelo menos, Shimaru está bem!”

Ele não morreu acreditando na vitória, morreu feliz pela proteção ao irmão, sua missão de proteger o Japão como queria falhou, mas seu irmão, seu pequeno irmão estava seguro, e isso, valia qualquer sofrimento! Naquele instante algo dentro de Shimaru se quebrou, seu sorriso foi lacrado, sua feição perdeu qualquer benevolência, e ele ainda não sabia, mas havia decidido que o sonho interrompido não morreria ali.

E em sua mente apenas borbulhava a intenção que o guiaria nos próximos dias… Cada homem ou monstro que ajudou a tirar aquela esperança do Japão - e do próprio Shimaru também - deixaria este mundo pela sua lâmina vingativa.

Assim, o rugido voltou a ecoar dentro de sua mente, mais forte, mais urgente, acompanhado por uma energia estranha que envolveu seu corpo como um cerco invisível. Algo antigo tentou se impor, moldar sua carne, empurrá-lo para além do humano, oferecer-lhe uma forma que não precisava mais escolher, apenas destruir.

Shimaru sentiu o limite se aproximar, sentiu a promessa de poder absoluto… e o preço. Seus dedos se fecharam com força, o maxilar travado, a respiração firme: - Não! A palavra não foi dita para fora, mas o mundo pareceu ouvi-la, ele não aceitaria ser tomado, não aceitaria trocar um tirano por outro, não deixaria a fúria o converter naqueles que mataram seu irmão!

Se aquele poder existia, se achou que poderia vir iludi-lo e destruí-lo pela raiva, Shimaru mostraria que podia não ser um líder, mas era dono absoluto de sua vontade, e esse poder agora serviria a um único propósito: pôr fim à Mantor do Diabo. O rugido cresceu, duelou, lutou pelo controle, mas novamente a palavra negativa reverberou pelos confins da mente do jovem, e então o rugido cessou, contido, não vencido, mas submetido.

Quando Shimaru se levantou, não era mais o homem que carregava água naquela tarde. A kodachi agora repousava em sua cintura, silenciosa, obediente. Ele se ergue, voltou para sua moradia sem olhar para trás. Durante o resto da noite, enquanto o cavalo repousava após os cuidados recebidos, Shimaru se preparou, ajustou o que precisava, separou o que levaria. Não havia pressa. Não havia hesitação. Ao amanhecer, ele partiria, e o mundo jamais seria o mesmo, para ele ou para Mantor!

Continua...

2 comentários:

  1. Um excelente primeiro episódio.
    Apresentou perfeitamente o Shimaru, deixou claro o quanto será uma versão diferente da original, não houve exagero em nenhum ponto, tudo foi perfeitamente equilibrado, fazendo de imediato ao leitor se importar com o personagem e, mostrando pouco do que vem por aí.
    A tristeza do Shimaru ficou muito bem representada, evitando totalmente se tornar algo piegas, muito pelo contrário.
    Aí estpá uma versão do Lionman que, aposto, vai ficar à altura, senão muito acima dos títulos de fanfic que tu já fez.
    Parabéns pela estréia!

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