domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ekzyliön - Caso 4 - Luto e libertação!


A energia trevosa, densa e opressiva, atingiu seu limite e, em segundos, eclodiu em uma explosão violenta. Partindo do corpo da própria idosa, manifestando-se como uma névoa escura e agressiva, cuja onda de choque se lançou com velocidade devastadora, atingindo com força tudo e todos ao redor. Não foi apenas violenta, foi invasiva, quente, opressora, carregada de uma energia que não atingia somente o corpo, mas rasgava algo mais profundo. 

Para o jovem, não havia dúvida: aquilo era fétido, um odor invisível de desolação, de corrupção antiga, algo que tocava o íntimo, esmagando o espírito antes mesmo de alcançar a carne.

A idosa então mudou, não de forma gradual, mas de forma abrupta, como se algo tivesse finalmente tomado posse do que restava de controle. Os olhos tornaram-se rubros, intensos, antinaturais, a expressão antes vazia se contorceu em algo ameaçador, predatório, mas Clarysse naqueles poucos segundos onde tudo aconteceu, não teve tempo de compreender.

O impacto a lançou contra a parede lateral da praça, o choque roubou-lhe o ar, a visão se apagou em pontos brancos, e o corpo cedeu antes que a consciência pudesse reagir, ela desfalecia, alheia ao que se erguia naquele instante, ao passo que qualquer transeunte que estivesse naquele local, naquele momento, mesmo sem ser atingido como ela, também não conseguia compreender o ocorrido, não ainda pelo menos.

O jovem sentiu, não podia e não devia desviar seu foco, a presença agora era irrefutável, um Velkur havia se manifestado diante dele, embora ainda oculto sobre a forma de uma idosa senhora… A mente se incendiou em fúria contida, o sangue pulsou como se quisesse romper as veias, e o corpo foi tomado por uma descarga brutal de adrenalina.

Ele travou os pés contra o chão, o solo instável, ele firme como um pilar em meio ao caos, seus olhos brilharam em um prata intenso, quase líquido, e o mundo ao redor pareceu se distorcer novamente, dobrar-se àquela mudança silenciosa, à vontade de alguém mais forte que ela, e então o jovem falou, não gritou, na verdade quase sussurrou, mas de uma forma que até mesmo criaturas antigas aprenderam a temer.

“- Eryon…” - disse, com a voz baixa e carregada de decisão. “- É a sua vez. ”

Em frações de segundo, imperceptíveis para qualquer humano que ainda estivesse consciente, a realidade foi rasgada. Aos olhos de quem pudesse testemunhar, a senhora e o rapaz simplesmente desapareceram, deixando para trás apenas um ar ionizado, pesado, com um cheiro estranho, impossível de comparar a qualquer coisa conhecida. Mas para o jovem… tudo era diferente.

A caverna surgiu ao redor deles, as lavas pulsavam com força viva, rios incandescentes iluminando o ambiente com um brilho feroz e no centro daquele inferno controlado, o jovem permanecia de pé, imponente, enquanto à sua retaguarda se erguia a silhueta flamejante de Eryon. As labaredas o envolviam, dançavam sobre sua pele, e ainda assim, não lhe causavam qualquer dano.

No jovem no entanto, havia frieza em seu olhar, havia uma calma assustadora… Ele observou a idosa, agora tomada pela influência sombria, mas não se dirigiu a ela diretamente, suas palavras foram lançadas ao vazio… e ao que se escondia nele. “- Saia. ” - Disse, firme. “- Deixe ela em paz. Manifeste quem é e nos enfrente sem um escudo humano, maldito. ”

Eryon nada disse, a criatura flamejante apenas observava, imóvel, porque a razão era clara: um humano ainda estava na linha de frente, e Eryon não caçava humanos. O jovem avançou um passo, era necessário mudar sua tática, em resposta a senhora tentou atacá-lo, as mãos distorcidas em garras, o movimento guiado por algo que não lhe pertencia, mas que encontrou resistência, não força bruta, mas sim convicção.

“- Há poucos instantes…” - começou o jovem, com a voz firme, mas carregada de algo mais profundo. “- A senhora sofria. Estava chorando por alguém… Foque nesse sentimento. Retome seu controle…” Ele se aproximou mais um pouco, sem agressividade, e continuou: “ - O corpo cansado é apenas uma casca, sua força de verdade está lá dentro... Seu espírito é indestrutível, é você quem manda em sua mente e em seu corpo. ”

O jovem mantém o silêncio por segundos, e então completa: “- Expulse o que lhe invade… retorne ao seu eu… distancie-se das trevas que assaltam o seu coração, me permita pela primeira vez salvar ao invés de apenas destruir…”

Os olhos rubros começaram a vacilar, a expressão da senhora se fragmentou, lágrimas escorreram por aquele olhar aterrador, enquanto as mãos tremiam, como se lutassem contra ordens opostas, o corpo inteiro entrou em conflito. Então veio o grito, um som dilacerante que se partiu em duas vozes distintas: a de Expedita, carregada de dor e esforço desesperado… e a do Velkur, transbordando ódio, frustração e fúria por perder o controle.

Uma nova explosão de energia rasgou o ar. Uma massa escura foi expelida violentamente de dentro da idosa, lançada como um projétil disforme, enquanto seu corpo finalmente cedia, prestes a cair ao chão. E naquela fração de segundos, naquele momento onde humanamente ninguém poderia fazer coisa qualquer, as vozes ecoaram, e o mundo parecia em câmera lenta…

O jovem chamando e se movendo em direção à idosa, a idosa clamando por alguém que ele ainda não conseguia definir… e o Velkur, cuspindo palavras de maldições, algumas incompreensíveis, mas a voz que realmente dominou o cenário foi outra… Naquele instante tão pequeno, que um humano mal conseguiria se mover corretamente, Eryon parecia quebrar as leis conhecidas do espaço tempo, se ergueu, as chamas ao seu redor se transformando, assumindo uma forma ainda mais imponente, mais antiga, mais feroz, completa.

“ - Jovem humano…” - censurou, sua voz reverberando pela caverna. “- Cuida da anciã humana, o Velkur não é tua carga, é minha responsabilidade. ”

O jovem não aguardaria qualquer ordem nesse sentido, mas se sentiu extremamente motivado com tal concordância, pois mesmo que Eryon nada tivesse dito, seu corpo já se movia no limite do que lhe era possível - o que com certeza estava além do que um humano normal conseguiria - interceptou a queda da idosa no último instante, oferecendo o próprio corpo como suporte, amparando-a com cuidado e firmeza entre os braços.

Ao fitá-la, percebeu que seus olhos agora começavam a perder o brilho antinatural, retornando lentamente ao tom comum, embora a confusão ainda lhe toldasse a mente. Sem dizer nenhuma palavra, o jovem humano apenas encostou o rosto da mulher contra o próprio peito, protegendo-lhe o olhar, ela não precisava ver o que ele veria, não precisava testemunhar o que agora se revelaria diante deles.

O Velkur, após se chocar violentamente contra a parede da caverna, escorreu até o chão como uma massa enegrecida, viscosa e amorfa. Então, diante de todos, começou a se recompor, com ossos se delineando, carne pútrida se esticando sobre uma estrutura quase cadavérica, e uma expressão de sofrimento profundo que lhe adornava o semblante, expressando uma agonia tão intensa que, parecia exalar um odor, um fedor invisível que impregnava o ar.

Ao mesmo tempo, Eryon revelava sua verdadeira magnitude. Sua forma cresceu e se expandiu numa fusão ancestral entre homem e besta de quase três metros de altura, um corpo colossal, envolto quase por completo em chamas vivas, pulsantes, qualquer ser humano se o contemplasse, o chamaria de ser infernal, mas naquele instante, suas chamas eram a barreira absoluta entre o Velkur e tudo o que ainda podia ser protegido.

Mesmo que se ignorasse sua composição ígnea, ou seu porte físico, o olhar penetrante e a presença esmagadora já impunham respeito, e então, com um único rosnar, Eryon abriu os braços. a onda de calor que se seguiu varreu a caverna como um presságio, atingindo o Velkur não como ataque final, mas como presságio do fim que se aproximava do monstro.

A criatura sombria se ergueu, exibiu garras deformadas, escancarou a bocarra de dentes desiguais e amarelados, tentando justificar-se: “- Ela quer justiça! ” - Rosnou, a voz distorcida pela dor. “- Eu posso dar justiça a ela… e aliviar minha própria agonia! Não sou eu quem cometeu crimes, foram os homens da justiça, não tens nada contra mim, maldito! ” E então atacou!

Em um espasmo de ódio e desespero, o demônio lançou-se contra Eryon com violência selvagem, garras rasgando o ar, mandíbulas escancaradas buscando carne e fogo, o corpo deformado se contorcendo em ataques sucessivos, frenéticos, como um animal encurralado, pronto para desferir  mordidas, estocadas, cada tentativa carregada de rancor e urgência.

Mas algo impossível acontecia igualmente, pois a cada golpe desferido contra a entidade em chamas, os punhos de Eryon já estavam lá. Não havia passos, nem esquivas, nem preparo visível, apenas bloqueios perfeitos, interceptações absolutas, como se o tempo obedecesse unicamente à sua vontade. Garras eram detidas no ar, mandíbulas barradas a centímetros do impacto, ossos perfurantes desviados com precisão cirúrgica, para qualquer olhar comum, parecia que o Velkur atacava um ser etéreo, no entanto, os impactos se mostravam reais, desafiando completamente qualquer lógica humana.

Então, no último avanço, quando a criatura concentrou tudo em um ataque desesperado, Eryon moveu-se diferente, um único bloqueio, mais rápido, mais pesado, com um dos punhos, deteve a investida, com o outro, golpeou devastadoramente. O impacto lançou o Velkur para trás com violência esmagadora, arremessando-o contra a rocha incandescente, deixando no ar a certeza absoluta: o combate já estava decidido muito antes dele se iniciar.

A resposta de Eryon ao ataque enfurecido do Velkur foi outro rugido, mais profundo, mais antigo, em suas mãos surgiram esferas de fogo que pulsavam em crescimento ritmado, uma após outra, expandiam-se até se tornarem pouco maiores que suas próprias mãos. Então, ele as uniu, a massa ígnea dobrou de tamanho, uma vez, duas, três!

Com um gesto brutal, arremessou a esfera para o alto, a cerca de cinco metros do chão, e, no instante seguinte, saltou e desferiu um soco colossal contra a própria estrutura de fogo criada, fazendo a matéria incandescente rasgar o espaço entre os dois seres, atingindo o Velkur em cheio com um impacto fulminante!

Os guinchos da criatura obsessora tomaram conta do local, o fogo consumindo-o por completo em chamas vorazes, e então depois de segundos que pareceram minutos, as chamas começaram a diminuir, a matéria de trevas que o permeava começou a evaporar, e em poucos instantes a mais, nada restara além do eco do impacto e dos lamentos do demônio… Eryon falou, e sua voz carregava o peso de eras, respondendo ao demônio que já não estava mais presente: "- Não te encontras diante de um julgamento, para que clames por justiça, Velkur… Isto é apenas a execução de uma sentença selada desde os primórdios da criação. "

O gigante voltou-se lentamente para o jovem humano, que ainda mantinha a idosa protegida em seus braços, seu olhar ardente, agora não trazia fúria, mas aprovação, talvez até orgulho e finalmente, Eryon assentiu de leve. O jovem por sua vez, ainda ofegante, sorriu, um sorriso discreto, satisfeito, e retribuiu a gentileza do gigante, com um simples mover de cabeça em sinal idêntico de concordância.

Então, como nas outras vezes, tudo começou a se desfazer, lentamente, silenciosamente até desaparecer por completo…. Cinco segundos depois, o jovem surgiu novamente no mesmo local onde tudo havia começado, agora porém, estava ajoelhado, acomodava a idosa com cuidado no chão, ainda confusa. Tocou-lhe o ombro com delicadeza, chamou-a em voz baixa, pouco a pouco, ela começou a voltar a si, e quando abriu os olhos, já não havia nada além da rua normal da cidade onde estavam antes, e do rapaz ao seu lado, sorrindo como uma criança que acabara de viver algo extraordinário.

“- A senhora está bem? ” - Perguntou com calma. “- Teve um mal súbito… mas consegui impedir que batesse ao chão…”

Dona Expedita piscou algumas vezes, como quem retorna de um lugar muito distante. O ar parecia pesado em seus pulmões, e o chão frio sob as costas lhe causava uma estranheza incômoda, quando tentou se mover, sentiu mãos firmes e cuidadosas lhe oferecendo apoio.

“- Devagar…” disse o jovem, a voz baixa, tranquila demais para o caos ao redor. “- A senhora está segura agora. ” - Insistia ele, fraternalmente…

Ela aceitou a ajuda sem entender bem por quê, sentou-se com dificuldade, apoiando-se nele, as mãos trêmulas agarradas ao tecido de sua camisa como se aquele contato fosse a única coisa sólida que restava no mundo. O olhar vagava, perdido, até finalmente se fixar no rosto do rapaz.

“- Eu…” - a voz falhou. “- Eu não sei o que aconteceu…” Ela levou a mão à testa, pressionando-a, como se tentasse segurar pensamentos que escapavam. “- Eu só lembro…” - respirou fundo, o peito tremendo. “- Eu lembro do policial… o mais novo… ele foi gentil comigo… me ajudou a levantar… disse que eu precisava me sentar… que respirasse…”

As palavras começaram a se atropelar, misturadas à dor. “ - Ele disse que meu neto…” - a frase morreu antes de nascer, os olhos marejaram. “- Que o Leonel… tinha morrido. ” O jovem manteve-se em silêncio, não havia nada a dizer, apenas ficou ali.

“- Depois disso… tudo ficou turvo. ” Ela balançou a cabeça lentamente. “- Eu me lembro de pensar… por quê? Por que fizeram isso com ele? Ele não era mau… nunca foi. ” As lágrimas começaram a cair sem controle.

“- Ele cuidava de mim… me ajudava quando podia… tentou trabalhar… tentou mesmo… mas sempre diziam que ele era novo demais, que não podia, que a lei não deixava…” - soluçou. “- Aí vieram as más companhias… eu sei… mas ele nunca roubou… nunca matou ninguém… nunca…” - a voz quebrou de vez. “- Por que ele atacaria um policial? Por que fariam isso com ele? ”

Ela apertou o peito com força. “- E então…” - sussurrou, quase com medo da própria memória. “- Eu ouvi uma voz… Ela dizia que eu tinha que me vingar, que era justo, que eles mereciam…” - o rosto se contorceu em repulsa. “- Mas aquilo não era eu. Eu não queria isso. Eu só queria… ver meu neto mais uma vez…”

Ela ergueu o olhar, confusa, quase assustada. “- Como eu vim parar aqui, meu filho? ” - Perguntou, a voz embargada. "- Eu nem lembro de ter saído da delegacia…” O choro veio forte, incontrolável, o corpo curvou-se para frente, como se todo o peso do mundo finalmente tivesse sido colocado sobre seus ombros. O jovem a segurou novamente, firme, permitindo que ela se apoiasse, que desabasse.

Ao redor, algumas pessoas já se aproximavam, murmurando, oferecendo água, palavras soltas de conforto, um homem chamava por ajuda, alguém apontava para o estado da senhora. O mundo retomava seu barulho.

Pouco depois, um policial surgiu apressado, avaliando a situação com rapidez. “- Chama o socorro! ” - Ordenou. ”- Ela está em choque. ” O jovem permaneceu ali até sentir que outras mãos assumiram o cuidado, apenas então afrouxou o abraço, levantando-se devagar, o olhar ainda preso à senhora enquanto ela era amparada.

Por um breve instante, ela voltou os olhos para ele, não havia mais trevas ou ódio algum ali, apenas dor… e um vazio profundo. E, mesmo sem entender quem ele era, ou por que se sentia estranhamente em paz ao vê-lo, ela murmurou, quase inaudível: “- Obrigada… Meu jovem...”

Ele não respondeu, apenas assentiu, em silêncio. Sua missão estava cumprida!

Uma vez que agora a idosa já estava sob cuidados e a movimentação começava a se organizar, o jovem afastou-se alguns passos, o olhar procurando outra figura em meio aos socorristas, e não demorou a encontrá-la. Clarysse estava sentada na parte traseira de uma das ambulâncias, apoiada, enquanto um socorrista avaliava seus sinais com atenção profissional...

- Não há hematomas aparentes, nem ferimentos…” - dizia ele, enquanto anotava algo. “- Nenhum sinal que indique trauma pelo impacto, ainda assim, vamos levá-la à unidade de pronto socorro para exames mais detalhados, apenas para garantir. ” Ela assentiu, ainda um pouco pálida, mas consciente, foi então que o socorrista percebeu a aproximação do jovem.

“- Vocês se conhecem? ” - Perguntou, rápido. “- Sim. ” - Respondeu Clarysse antes mesmo que ele pudesse falar.

“- Certo! ” - Disse o socorrista: “- Ela vai precisar aguardar aqui alguns minutos enquanto finalizamos outros atendimentos, depois será conduzida para exames. ” - Olhou para o rapaz. “- Pode ficar com ela por enquanto, mas sem se afastarem daqui, ok? ” O jovem concordou com um gesto curto de cabeça.

Assim que o socorrista se afastou, ele subiu no degrau da ambulância e sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, o silêncio pairou por alguns segundos antes que ele falasse, a voz mais baixa do que antes.

“- Você… está bem? ” - Perguntou. 

”- Estou sim! ” - Respondeu ela “- Assustada, mas inteira. ” 

Ele respirou fundo, o olhar desviando por um instante… “- Eu sinto muito…” - disse, enfim. “- Por você ter se envolvido nisso tudo. ” A frase mal terminou de ecoar quando Clarysse franziu levemente a testa, os olhos se estreitando com atenção aguda.

“- Se você está pedindo desculpas por eu ter me envolvido nisso…” - disse ela, de forma afobada: “- É porque você sabe exatamente o que foi isso! ” Ela virou o rosto para ele, agora plenamente focada. “- E isso só confirma que eu não estava errada sobre achar que você sabe o que é isto que está acontecendo. ”
O jovem a encarou por um breve segundo… e então percebeu o erro, o pequeno deslize que entregava mais do que pretendia. O maxilar se contraiu de leve, e ele não respondeu de imediato. Clarysse, porém, também percebeu algo mais, a mudança sutil na postura dele, o fechamento quase imperceptível.

“- Ei…” - disse ela, rápido, erguendo a mão em um gesto conciliador. “- Desculpa. Isso soou pior do que eu quis. ” Ele manteve o olhar baixo.

“- Digo, eu não tive a intenção de... Olha, eu sei que parece que eu estou só atrás de uma matéria…” - continuou ela, a voz agora mais sincera, menos afiada. “- E… bom, eu não vou mentir, eu tenho muito interesse em coisas inexplicáveis, sempre tive, está no meu sangue. Quando vi as fotos e você nos locais onde as coisas aconteciam, eu te procurei porque achei que você podia me ajudar a entender o que está acontecendo…” - Respirou fundo. “- Mas eu não queria te deixar desconfortável. Eu só… me empolguei. Senti que estava no caminho certo, que minha dedução não falhara... ”

Ela fez um pequeno gesto com as mãos, quase um encolher de ombros. “- Olha só, eu até me disponho a, se você preferir, eu não falo mais nisso, prometo, vou buscar outras fontes e esse assunto fica morto e enterrado…” O silêncio voltou a se instalar, frio, denso.

Por alguns segundos, ele apenas observou o chão da ambulância, mas logo então ergueu o olhar novamente para ela, como quem toma uma decisão que vinha sendo evitada. “- Na verdade... Já faz um bom tempo…” - disse, por fim. “- Que eu só converso com clientes, quase exclusivamente. ” Ela o ouviu sem interromper.

“- Eu não vou prometer grandes revelações…” - continuou ele. “- Tampouco gostaria de ver minha vida exposta em uma matéria de jornal…” - Houve uma pausa breve. “- Mas… talvez fosse interessante compartilhar um pouco do que venho vivendo com alguém mais próximo da minha idade. ” Ele a encarou com seriedade tranquila.

“- Se pudermos definir de forma justa o que pode ir a público e o que não pode… eu não consigo entender o porquê de pensar desta maneira, mas algo me diz que poderíamos tomar um café. O que me diz? ” Por um instante, Clarysse esqueceu completamente onde estava, o sorriso surgiu rápido, aberto, quase impossível de conter, o coração parecia martelar no peito, e ela teve que se segurar para não responder de forma exagerada.

“- Eu concordo com tudo! ” - Disse, rápido demais, rindo de si mesma. ”- Absolutamente tudo. ” Então, inclinou-se levemente para frente, os olhos brilhando com astúcia. “- Mas com uma condição minha também, para acordo ter validade…” Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.

“ - Eu não abro mão de saber seu nome. Agora. Não só da próxima vez. ” O jovem sorriu, um sorriso verdadeiro, raro e então estendeu a mão para ela.

“- Khalamyr! ” - Disse. “- Acho que, por enquanto, só meu nome já é suficiente… assim como Clarysse. ” Ela apertou a mão dele sem hesitar. “- Combinado! ”.

Ao perceber os socorristas se aproximando novamente, ela rapidamente puxou um pequeno pedaço de papel, rabiscou algo e lhe entregou. “- Me manda uma mensagem quando puder, assim que os aprendizes do Dr. House me liberarem eu vejo! ” - Disse, num tom quase conspiratório. “- E a gente marca esse café, senhor Khalamyr! ”

Ele sorriu mais uma vez, desceu da ambulância e se afastou, os atendentes entraram, fecharam as portas, e o veículo partiu em direção à unidade de pronto socorro, ao passo que Clarysse o observava pela janela enquanto ele ficava para trás. E, pela primeira vez desde que tudo começara, sentiu que não estava apenas perseguindo uma história, mas se aproximando de algo muito maior.

O dia já se despedia quando dona Expedita, deixou o pronto-socorro, os exames não apontaram fraturas, hematomas ou qualquer sinal de lesão interna, o corpo, ao menos, resistira. Já o coração estava completamente triturado… Enquanto caminhava, contrariada e inconformada, a triste senhora se questionava como alguém que acabara de perder seu neto, não podia estar com ele naquele momento, era necessária fazer os procedimentos e uma vez existente a tragédia, realizar o funeral e seu sepultamento, mas segundo os policiais, isso ainda não era possível...

Recordava ela, lentamente, das palavras do policial gentil, o que lhe falara com respeito desde o início, e que parecia com cuidado, medir cada palavra: “- Dona Expedita… agora o melhor que a senhora faz é ir pra casa. Fica por lá, mantém o celular carregado, eu vou cuidar dos trâmites e entro em contato assim que puder. ” Ele respirou fundo antes de continuar: “- Quando chegar, toma um banho, descansa um pouco, se hidrata… tenta comer algo leve. Não adianta a senhora ficar por aqui agora, é necessário todo um trabalho pericial e burocrático antes da senhora poder vê-lo... Assim que for necessário, ou permitido, eu mesmo ligo. Eu prometo. ”

Era tudo o que restava a ela, não por opção, mas por força da situação... Pegar o coletivo e voltar para casa, para a periferia que sempre fora seu mundo, e esperar... esperar a ligação, esperar o direito de ver Leonel, esperar o momento de velar e sepultar o neto que criara como filho.

Mas, durante todo o trajeto, uma outra pergunta martelava sem cessar, apertando-lhe o peito a cada solavanco do ônibus: Por quê? Por que Leonel teria agredido policiais? Aquilo não fazia sentido, nunca fizera, e quanto mais pensava, mais a resposta se impunha, amarga e inevitável: aquilo fora uma mentira. Uma desculpa, uma história pronta para justificar o injustificável.

Quase duas horas depois, ela descia do coletivo e seguia a passos lentos até sua casa, o cansaço era profundo, mas algo no ar lhe causava estranheza. Os olheiros da comunidade a observavam de longe... alguns estavam mais próximos do que o habitual, atentos, silenciosos.

Ao chegar à porta, um deles se aproximou. Era jovem, magro, olhar duro... abaixou-se levemente, falando baixo, como se aquela conversa fosse, ao mesmo tempo, um aviso e uma promessa. “- Dona Expedita… o chefe mandou avisar que, a partir de agora, a senhora tá na nossa proteção. ”

Ele engoliu seco antes de continuar, dona Expedita engoliu seco, sem entender aquela postura repentina: “- A gente já tá sabendo, o Leonel foi guerreiro. Não abriu o bico, não bancou X9. Foi firme até o final. Por isso, ninguém que quiser te fazer mal, vai chegar perto da senhora. Aqui agora é responsa nossa. ” Fez um gesto com a cabeça, sério: “- Pode entrar, fica tranquila. A senhora não tá sozinha não. Agora é nóis que cuida da senhora no lugar do irmão Leonel. ”

Expedita ouviu tudo em silêncio, aquilo apenas confirmava que havia muito mais por trás da morte de Leonel do que lhe haviam contado, mas não era a hora de questionar os donos do morro, não havia forças para tal confronto, não agora, não sem sequer ter visto o corpo do neto ainda… Ela apenas assentiu, concordou com um gesto de cabeça e abriu a porta, entrando e a fechando atrás de si... Pausou por alguns segundos ponderando o turbilhão de informações e emoções, e então... ela viu.

Sobre a mesa simples da sala, repousava uma carta. O envelope gasto, o papel dobrado com cuidado. Não havia dúvida alguma: aquela era a letra de Leonel.

O coração de dona Expedita disparou, as mãos tremeram ao alcançar o papel. Ali, ela tinha total certeza, finalmente estava a resposta que sua mente buscara em desespero durante todo aquele dia, a verdade que ela ainda não sabia, lhe causaria dor imensa… mas também daria algum sentido, mesmo que sofrido, para tudo aquilo.

“Vó,

Se a senhora tá lendo isso, é porque eu não consegui te dizer olhando no teu olho. E eu achei que jamais ia conseguir fazer isso mesmo, por isso é que me dói tanto.

Eu queria começar pedindo perdão. Perdão por tudo que a senhora passou por minha causa. Perdão por cada noite que a senhora foi dormir preocupada, por cada prato que a senhora deixou de comer pra eu comer um pouco mais. Eu vi tudo, vó. Mesmo quando a senhora achava que eu não tava vendo.

A senhora sempre dizia que eu era seu orgulho. Mas eu sempre senti que a senhora carregava o mundo nas costas… e eu era mais um peso.

Eu tentei fazer do jeito certo. Juro que tentei. Desde pequeno. Vender bala, pedir serviço, ajudar em qualquer canto. Toda vez vinha alguém dizer que eu não podia. Que eu era novo demais pra trabalhar… mas nunca fui novo demais pra ver a senhora chorar escondido.

Quando a fome bateu de verdade, eu fiz o que deu. Não foi porque eu quis vida fácil. Foi porque eu não aguentava mais ver a senhora se acabando por mim.

Eu nunca fiz maldade, vó. Nunca levantei a mão pra ninguém. Nunca roubei, nunca matei, nunca traí ninguém. Eu só fiquei ali, sentado, olhando quem entrava e quem saía. Só isso. Mesmo assim, isso já foi o bastante pra me prender num caminho sem volta.

Com o tempo eu entendi uma coisa: dali eu não ia sair inteiro. E a senhora também não. Um dia iam vir atrás de mim… e a senhora ia pagar junto. Eu não podia deixar isso acontecer.

Então eu fiz minha escolha. Não foi por coragem. Também não foi por fraqueza. Foi por amor.

Eu falei pra eles que, se um dia desse ruim, eu não ia falar nada. Que eu segurava até o fim. Fiz isso pra que a senhora pudesse ficar em paz, eles nunca vão saber, então fica como seu eu tenha sido interrogado e resisti. Assim ninguém nunca te culpar, nunca te cobrar, nunca te machucar.

Agora a senhora tá protegida, eu sou guerreiro pra eles, e tudo que precisei fazer provavelmente, foi dar uma cusparada em um dos guardas, eu sei como eles vão reagir. É isso que eu queria.

Não se culpe, vó. A senhora me deu tudo que podia. Me deu amor, caráter e dignidade. Se eu fui homem até o fim, foi porque aprendi com a senhora. Agora é minha hora de fazer pela senhora, seus dias que ainda tiver por aqui, vão ser mais fáceis sem ter que se preocupar comigo.

Mas vó, em troca, eu quero uma coisa... Eu quero que a senhora lembre de mim como aquele menino que te abraçava forte quando o mundo parecia pesado demais. Porque é assim que eu vou lembrar da senhora, onde quer que eu esteja agora.

Vive, vó. Descansa. Sorri quando der. Teu neto te ama mais do que qualquer palavra consegue explicar.

Leonel.

Dona Expedita leu a carta sentada, as mãos trêmulas segurando o papel como quem segura algo vivo, os olhos corriam pelas linhas, mas o coração tropeçava em cada palavra. Logo na primeira, o ar lhe faltou, na segunda, as lágrimas já desciam sem pedido de licença, não era um choro alto, era um choro antigo, contido, desses que parecem morar no peito há anos esperando permissão para sair.

Ela levou a mão à boca quando leu os pedidos de perdão, não porque concordasse com eles, mas porque doíam, doíam por revelar o quanto ele havia carregado sozinho. “- Meu menino…” - murmurou, a voz quebrada, como se ele ainda pudesse ouvi-la.

A cada parágrafo, algo dentro dela se desfazia… e algo novo, inesperado, se construía. A dor era imensa, quase insuportável, mas misturada a ela vinha um conforto silencioso que ela não sabia explicar, profundo, quase sagrado... Leonel não era um erro, nunca fora, ele era exatamente quem ela sempre acreditou que fosse.

Quando leu que ele nunca havia feito maldade, que nunca levantara a mão para ninguém, que jamais traíra quem quer que fosse, Dona Expedita apertou a carta contra o peito, chorou como se estivesse embalando o neto novamente, como nos tempos em que ele acordava assustado à noite e só se acalmava com o som do seu coração.

“- Eu sempre soube… eu sempre soube, meu filho…” - repetia, entre soluços. “- A vó sempre soube da tua honestidade…”

Ao chegar ao fim da carta, ela permaneceu em silêncio por um longo tempo. A casa parecia diferente, apesar de vazia, de alguma forma ela o sentia presente, como se Leonel ainda estivesse ali, não no corpo, mas naquilo que realmente importava. O choro e a dor vieram de novo mas as palavras de Leonel pedindo que ela sorrisse e vivesse surgiam com força também... 

Seu coração se despedaçava pela atitude triste do neto, mas ao mesmo tempo, conseguia enxergar a visão de fazer o que achava certo, ela teria tomado essa decisão sorrindo se fosse deixar Leonel em situação melhor, ela sabia disso, como contestar seu neto diante da mesma atitude?

Foi então que o pensamento veio, suave no início, depois claro como um sussurro que não vinha de fora, mas de dentro, e ela se lembrou de algo... A voz… Daquela voz ruim, daquela pressão invisível que havia se infiltrado nela, empurrando ódio, confusão, sede de vingança, a mesma sensação de estar sendo levada a algo que não queria fazer, e um arrepio percorreu-lhe a espinha. “- Será que ele ouviu também…” - disse em voz baixa. “- Meu Deus… ele pode ter ouviu a mesma coisa que eu ouvi. ”

Dona Expedita se levantou devagar. Enxugou o rosto com o dorso da mão, dobrou a carta com um cuidado quase sagrado e a guardou junto ao peito, como quem protege um talismã. "- Descansa, meu filho…" - disse, com a voz firme apesar das lágrimas.

Ela respirou fundo, sentindo o aperto no coração que parecia não ter fim. "- Leonel… desculpa a vó não ter estado contigo quando você precisou. Talvez, se eu tivesse percebido… eu pudesse ter sido pra você um anjo sorridente como o que a vó encontrou hoje...  Alguém que te puxasse de volta quando a escuridão apertou demais. "

A voz falhou por um instante, mas ela continuou. "- Eu não estava lá… e você fez o que achou certo.
A vó vai sentir tua falta todos os dias, meu filho… mas nunca vai te recriminar." Ela apertou a carta contra o peito. "- Descansa. Não se preocupa comigo… eu vou ficar bem. E vou esperar o dia em que a gente vai se encontrar de novo. Descansa, meu Leonel…"

Ela fechou os olhos e respirou fundo. Chorou muito, por longos minutos a fio, e então, de um jeito que nem ela esperava, como se uma brisa suave lhe tocasse o rosto e a renovasse, pela primeira vez desde a notícia, o peito já não parecia prestes a explodir.

A dor continuava ali, e sempre continuaria, mas algo havia mudado. Era como se tivesse descarregado a tensão acumulada, como se tivesse finalmente expirado parte do sofrimento. Não havia mais ódio. Nem culpa. Nem aquela vontade de destruir o mundo, ou os culpados, que quase a consumira.

Sem saber dessa verdade, Expedita manifestava o sentimento que definiria que um Velkur não teria mais espaço ali, nunca mais…. Leonel, com sua última escolha silenciosa, havia feito o que nenhum confronto poderia fazer: fortalecer o coração dela, não com revolta, mas com verdade, não com vingança, mas com amor.

Lá fora, a tarde morria devagar, e, pela primeira vez, aquele vazio e solidão não parecia tão ameaçador...

Continua...

Galeria de Imagens

O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:

O jovem anfitrião e protagonista da saga:

A moça "desastrada" do café, agora definida, repórter dedicada à histórias "estranhas":

A avó atemorizada, que tentou em vão falar com seu neto na delegacia:

O Velkur que obsediou dona Expedita:

Eryon - A poderosa entidade ígnea destruidora de Velkur em sua magnitude:


Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys


Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?

Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu

Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

2 comentários:

  1. Grande Lanthys!

    Episódio de fazer as lágrimas escorrerem sem medo de julgamentos.

    Episódio repleto de imagens fortes e lições, preciosas e profundas...

    Primeiro com o gesto humano de acolhimento do jovem Khalamyr (finalmente revelado o nome, rsrs) com a pobre Expedita.

    O surgimento da entidade Eryon em sua plenitude , também foi muito bem narrado.

    A luta contra o Velkur , como sempre, escrita como se fosse uma sequência cinematográfica, que prende o leitor.

    A evolução da interação de Khalamyr com a repórter Clarice, também é digna de nota .

    Se vai virar romance ou não, só o tempo vai dizer...Mas, a construção dos dois personagens está sendi feita co muito cuidado e sem pressa e isso me agrada muito.

    Mas, a cereja do bolo , sem dúvida foi a carta do neto da sofrida Dona Expedita....

    Você, de modo muito tocante e com muita sensibilidade,trouxe luz onde só havia trevas. Isso me surpreendeu.

    O alento que as palavras do neto amado trouxe à sofrida senhora, nos faz acreditar que, apesar das trevas aparentemente se instalarem e reinaram, a luz existe e brilha .

    Parabéns!

    Mandou bem demais !

    Te agradeço pela leitura tão reconfortante!


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  2. Um capítulo muito bom. A batalha do começo, do Eryon contra o Velkur, enquanto o agora nomeado Khalamyr protegia a dona Expedita foi muito bem descrita, gostei muito de como você deixava claro a imponência do Eryon, em total contrapartidada à degradação e putrafação do demônio, sem deixar de lado as ações do jovem que divide sua existência com o ser divino.
    Gostei muito tbm do destaque para o que aconteceu com a Dona Expedita e a carta de seu neto foi muito comovente, traendo à tona que, às vezes, as pessoas conseguem se manter à parte do meio em que vivem, mas, na maioria delas, o ambiente acaba por corrompê-las.
    Curti tbm o lance dela ter percebido que seu neto deveria ter ouvido a mesma voz demoníaca e, ainda assim, as palavras dele, conseguiram dar um pouco de paz à pobre senhora.
    Tá mandando bem demais nesse título amigão! Parabéns!

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