sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Ekzyliön - Caso 8 - Muitas perguntas, poucas respostas!


A noite já havia tomado conta das ruas quando os dois finalmente se afastaram da casa. As sirenes continuavam ao longe, perdendo-se pouco a pouco entre os edifícios e o ruído habitual da cidade, enquanto motores passavam pelas avenidas, portas de estabelecimentos se fechavam e vozes indistintas se misturavam ao movimento noturno. Ainda assim, nenhum dos dois parecia realmente prestar atenção àquilo.

Clarysse caminhava ao lado de Khalamyr em silêncio.

Não chorava. Não tremia. Tampouco havia em seu comportamento qualquer tentativa evidente de fingir que nada acontecera. Havia apenas uma expressão difícil de definir em seu rosto, uma mistura de concentração, incredulidade e esforço, como se sua mente estivesse tentando reorganizar, uma por uma, todas as certezas que possuía antes daquela noite.

De tempos em tempos, seus olhos desciam para as próprias mãos. Ela ainda lembrava. Lembrava da raiva., da força que parecia percorrer seu corpo, da vontade quase irresistível de atacar aquelas pessoas.

Lembrava da sensação de que a mulher, o homem e a criança diante dela não eram mais pessoas, mas obstáculos colocados entre ela e algo que precisava ser revelado, e lembrava, principalmente, de uma coisa que a incomodava mais do que qualquer criatura que tivesse visto naquela casa. Por alguns instantes... aquilo havia parecido certo. 

Clarysse apertou discretamente os dedos, como se ainda pudesse sentir neles o peso daquela vontade., não queria admitir aquilo em voz alta, tão pouco para si mesma.

Khalamyr percebeu o silêncio dela, mas não tentou preenchê-lo. Sabia que havia coisas que não podiam ser arrancadas de alguém à força, nem mesmo com as melhores intenções, algumas perguntas precisavam encontrar seu próprio momento para nascer. E, depois de alguns minutos caminhando, Clarysse finalmente falou.

Você sabe que não posso simplesmente ir para casa depois disso, não sabe?

Khalamyr virou o rosto para ela, a preocupação estava evidente em sua expressão, mas havia algo além dela, algo mais profundo e silencioso. Compromisso. Ele havia prometido.

Eu sei... A resposta saiu firme, quase enfática mesmo diante do barulho da rua.

Clarysse o observou por um instante e rapidamente acrescentou, antes que qualquer interpretação errada pudesse ocupar a mente do jovem: — Não estou dizendo isso como uma cobrança, compreende, não é como se eu tivesse colocando qualquer culpa em você, é que...

Havia sinceridade em sua voz, ela não estava tentando pressioná-lo, tampouco responsabilizá-lo pelo que acontecera, apenas precisava entender. Clarysse respirou fundo, o ar noturno estava frio, mas ela ainda sentia o corpo quente, como se a lembrança daquilo que acontecera continuasse presa à pele.

Quando tornou a falar, sua voz veio mais firme. — É só que... eu preciso entender o que aconteceu. — Fez uma pequena pausa, procurando as palavras certas. — Eu sei que não existe a menor possibilidade de entender tudo hoje, e talvez eu nem consiga entender tudo algum dia, mas... Eu não tenho como continuar sem pelo menos tentar alguma mínima resposta...

Khalamyr ergueu os olhos para ela e assentiu novamente, com firmeza, como se quisesse transmitir alguma segurança que ele insistia, era prioridade naquele momento. — Eu prometi que explicaria tudo o que pudesse, e vou fazer.

A ruiva sustentou o olhar dele por alguns segundos, a satisfação e confiança nas palavras do jovem se mostravam como uma esperança forte de que ele cumpriria sua palavra, e então iniciou sua tentativa de entendimento.... Havia firmeza em sua voz, mas nenhuma agressividade. Era quase uma súplica racional, de alguém que precisava recuperar alguma forma de controle sobre a própria realidade. Mas antes que Khalamyr pudesse dizer algo, ela completou:

E por favor Khalamyr... Não quero uma versão simplificada só para que acredite que eu vá conseguir dormir melhor esta noite ou nas próximas... Te peço que você não crie respostas porque acha que eu não vou conseguir lidar melhor com elas. Se não souber alguma coisa, tudo bem. Eu prefiro ouvir um “não sei” do que uma mentira. — Ela fez uma pausa e o encarou com atenção. — Mas aquilo que você souber...

Khalamyr assentiu. — Manterei minha palavra Clarysse, é o mínimo que posso fazer depois de tudo. Por alguns segundos, Clarysse simplesmente o observou, e então sorriu, foi um sorriso pequeno, cansado, mas genuinamente aliviado. — Obrigado Khalamyr.

Uma pizzaria movimentada surgiu diante deles, derramando luz quente sobre a calçada. Pelas grandes janelas de vidro era possível ver dezenas de pessoas espalhadas pelas mesas, conversando, rindo, gesticulando. O cheiro de massa assada e queijo derretido escapava pela porta cada vez que alguém entrava ou saía, misturando-se ao ar frio da noite.

Talheres batiam contra pratos, garçons atravessavam o salão carregando bandejas, pedidos eram anunciados ao fundo, enquanto várias conversas diferentes se sobrepunham umas às outras em um ruído contínuo.

Para Clarysse, aquilo parecia perfeito. Se precisavam falar sobre coisas que ninguém mais deveria ouvir, nada melhor do que um lugar onde todos falassem ao mesmo tempo. Ela segurou a mão de Khalamyr e o puxou para dentro. — Eu pago a pizza. Vem.

O jovem ainda pareceu surpreso com a naturalidade daquele gesto, principalmente depois de tudo o que haviam acabado de viver, mesmo assim, acompanhou-a. Clarysse escolheu uma mesa mais afastada, em um dos cantos do salão, dali, poderiam observar praticamente todo o movimento ao redor, enquanto ninguém ficaria diretamente atrás deles.

Era um detalhe pequeno, mas, depois daquela noite, pequenos detalhes haviam adquirido um significado completamente diferente. Ter uma parede às costas, enxergar quem entrava, saber onde estavam as saídas, poder ouvir o ambiente.

Talvez nenhum dos dois dissesse isso em voz alta, mas ambos pareciam apreciar aquela pequena sensação de controle. Assim que fizeram o pedido ao garçom, Clarysse voltou-se para Khalamyr. — Eu acho que podemos começar pelo que mais está incomodando... O que exatamente aconteceu comigo lá?

Ele sabia que esta deveria ser a primeira pergunta, era fato que qualquer um que passou pelo que Clarysse passou iria ter isso como primeira questão, e ele queria escolher bem as palavras, mas primava ainda mais por manter o foco em ser sincero, então, usou o que tinha... – Você foi possuída por uma entidade, que assumiu o controle de seu corpo e sua mente, te dando poderes e capacidades para fazer o que ela queria fazer... Essa criatura assumiu total força sobre você e te obrigou a fazer coisas que naturalmente você não faria!

O olhar dela permaneceu firme com a resposta, embora ainda carregasse aquela sombra de incredulidade que parecia acompanhá-la desde que haviam deixado a casa. Khalamyr por sua vez permaneceu alguns segundos em silêncio aguardando uma reação ou uma nova pergunta.

Ao redor deles, a pizzaria continuava perfeitamente normal. Uma criança ria em alguma mesa próxima, alguém reclamava que a pizza ainda não havia chegado em outra mesa, uma garçonete passou carregando copos, e o cheiro de orégano e queijo quente se espalhou pelo ar.

Era quase absurdo pensava Khalamyr, o mundo continuava funcionando como se nada tivesse acontecido, mas a verdade era brutal... O mundo não sabia, ou não se importava, ele continuava, e as pessoas que passavam por tal situação, é que ficavam, quebradas internamente pelo caminho...

Khalamyr baixou os olhos para a mesa e passou o polegar discretamente pela lateral do copo de água que havia recebido, e depois de alguns segundos, tornou a encará-la. Foi então que ela saiu da espécie de transe em que parecia ter ficado com a resposta, e reagiu... – Se eu não tivesse vivido isso... Eu diria que era impossível... Mas como isso pode acontecer, a gente vê falar sobre isso na missa, nos cultos, nas pregações religiosas e lendas, mas... Isso é real... 

Khalamyr a interrompeu com um gesto, tentando ser prestativo, e tentando lhe fornecer mais material para responder suas perguntas: — Vamos começar pelo que eu sei. Fez uma pequena pausa. — Aquela criatura que estava dentro daquele homem, e depois de você, era um Velkur.

Clarysse assentiu lentamente, repetiu baixinho o nome, entretanto, despertara imediatamente para outra pergunta. — Você já conhecia esse nome antes de hoje?

Khalamyr assentiu, e a expressão da ruiva mudou. Não precisou perguntar diretamente, seu olhar dizia claramente: “Então me conte o que eles são.” O jovem, claro, percebeu, e de novo por alguns instantes, procurou as palavras.

Eu encontro com eles há algum tempo. Na verdade... há bastante tempo. — Khalamyr respirou fundo. — São, basicamente, criaturas que atravessam para o nosso mundo, assumem o controle de pessoas e usam aquilo que encontram dentro delas para permanecer aqui e compartilham poderes e vontades nefastas com o hospedeiro. E eu aprendi que é possível destruí-las, pelo menos nunca vi duas vezes o mesmo Velkur, então, creio que tenham sido destruídos...

A jovem repórter estava quase catatônica, de tão imersa nas palavras de Khalamyr, e percebendo que ela esperava que ele continuasse, ele não tardou em atender. - No começo, eu sequer conseguia reconhecê-las direito, com o tempo, comecei a perceber alguns sinais. Uma presença diferente... uma sensação ruim. Não acontece sempre, mas geralmente me sinto desconfortável quando estou perto de alguém que está sendo controlado por um deles.

Clarysse permaneceu em silêncio, não o interrompeu, era a expressão clara de “continue, vamos, continue!” E Khalamyr continuou: — Eu tenho uma teoria.

A ruiva ergueu levemente as sobrancelhas. — Uma teoria?

Sim. — Ele hesitou antes de completar: — Eu acredito que os Velkur sejam espíritos humanos.

Clarysse parou. Não fisicamente, porque já estavam sentados, mas alguma coisa em sua expressão pareceu congelar. Seus olhos se estreitaram ligeiramente. — Espíritos humanos?

Khalamyr assentiu. — Pessoas que morreram há muito tempo e que, por alguma razão, não seguiram adiante. Permaneceram presas a sentimentos, desejos, ódio, medo... coisas que foram se tornando parte delas durante tanto tempo que talvez tenham deixado de conseguir enxergar qualquer outra coisa.

Clarysse olhou discretamente para os lados, não havia ninguém prestando atenção neles. Ainda assim, ela se inclinou um pouco sobre a mesa e baixou a voz. — Então você acredita que eles foram humanos? Em algum momento?

Khalamyr assentiu novamente. — Acredito. O jovem fez pequena pausa para que a ruiva assimilasse sua resposta e então continuou: — Em algum momento, foram pessoas como eu e você. Andaram pelas mesmas ruas, tiveram suas próprias famílias, medos, desejos... cometeram seus próprios erros.

Clarysse ficou alguns segundos em silêncio novamente, apertou levemente a borda do guardanapo sobre a mesa, absorvendo aquela ideia, mas ela ainda era bem intragável: — Assim como eu e você? Andando pelas ruas como qualquer outra pessoa?

É o que acredito. Khalamyr baixou os olhos por um instante. — Não posso provar, Clarysse, mas, creio que um mundo cheio de monstros que vem para cá e usam sentimentos humanos como arma, não me parece algo minimamente lógico... Já almas corrompidos e demônios, estamos cheios de lendas e relatos... Me parece mais crível, apesar de como disse, não poder provar, pelo menos ainda.

A jovem meneou lentamente a cabeça e optou por se expressar. — Nossa... Isso... Isso muda bastante coisa. Khalamyr franziu levemente a testa enquanto Clarysse apoiou os braços sobre a mesa e se inclinou um pouco mais na direção dele.

Porque, se forem humanos desencarnados, então não estamos falando de monstros que nasceram monstros. — Sua voz diminuiu ainda mais. — Estamos falando de pessoas que se perderam em algum ponto do caminho.

Khalamyr sustentou o olhar dela, e assentiu. — É exatamente o que penso.

Clarysse demorou um pouco antes de continuar. — E isso explica por que eles parecem tão diferentes entre si. Khalamyr permaneceu atento, e ela continuou:

Não falo de... Velkur em si, não sei se agem da mesma forma, mas... Os relatos que estudei ao longo dos anos sobre esse tipo de criaturas, demônios no caso, sempre foram contraditórios. Em algumas histórias, essas entidades pareciam agressivas, em outras, manipuladoras. Algumas apareciam ligadas a lugares, outras a pessoas, outras a determinados acontecimentos. — Ela respirou lentamente. — Eu sempre pensei que isso fosse justamente a prova de que não existia um fenômeno único e que monstros nasciam monstros e por isso agiam diferentes, cada monstro com sua... Técnica, digamos assim...

Seus olhos encontraram novamente os de Khalamyr. — Mas, se você estiver certo, talvez seja justamente o contrário. Talvez exista um mesmo ponto de partida... e o que muda seja aquilo que cada um carregou consigo, e por isso são tão diferentes como pessoas o são... Cada qual com seus traumas, medos, desejos e maneiras de usar isso...

Khalamyr assentiu lentamente. — É... Olhando por esta perspectiva... Talvez seja realmente isso, eu nunca parei para estudar esse ponto, apenas... Os enfrentava tentando salvar os possuídos...

Por alguns segundos, os dois permaneceram em silêncio. A primeira parte daquela conversa já havia sido suficiente para desmontar algumas das certezas de Clarysse, mas, ao mesmo tempo, começava a construir algo novo em seu lugar. Não respostas, ainda não, mas hipóteses, conexões, possibilidades.

E também, sensações novas aos dois, como por exemplo, pela primeira vez desde que a vida começara para eles, ambos tinham a noção de que não precisavam mais carregar sozinhos todas aquelas perguntas, e isso era novo, era bom.

Clarysse ergueu novamente os olhos, a curiosidade profissional ainda estava ali, mas agora havia algo diferente misturado a ela, uma necessidade muito mais pessoal de compreender aquilo que quase a destruíra. — E como eles conseguem chegar até alguém? Você sabe explicar?

Khalamyr bebeu um longo gole do refrigerante antes de pousar o copo sobre a mesa. O vidro deixou uma pequena marca de condensação sobre a superfície, enquanto ele se inclinava para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e unindo as mãos diante do rosto. Por alguns segundos, pareceu procurar a melhor maneira de explicar algo que ele próprio ainda não compreendia inteiramente.

É aí que entra uma coisa que descobri recentemente... — começou baixando um pouco a voz, enquanto os ruídos da pizzaria continuavam a preencher os espaços entre suas palavras. — Eu já ouvi os Velkur chamarem as pessoas que eles possuem de "ressonantes".

Clarysse repetiu a palavra quase para si mesma novamente, experimentando o som dela. — Ressonantes... Khalamyr assentiu.

Não sei se esse é realmente o nome correto ou se é apenas a maneira como eles próprios descrevem o fenômeno. Mas, até agora, parece fazer sentido. Algumas pessoas... emitem alguma coisa que essas entidades conseguem perceber.

Clarysse inclinou levemente a cabeça para o lado. O olhar investigativo voltou a surgir em seu rosto, aquele mesmo que provavelmente já havia desmontado dezenas de entrevistas em busca de uma contradição escondida... — Você diz algo como uma espécie de frequência?

Khalamyr permaneceu alguns instantes pensativo, seus olhos se desviaram para o movimento de um garçom que passava entre as mesas, carregando uma bandeja, antes de retornarem à ruiva, e em seu íntimo ele concordava, era melhor ver ela questionando e o até o deixando sem respostas, que lhe permitir tempo para recordar os momentos com o Velkur na casa. — Talvez. Mas eu acho que é algo mais próximo de uma... Utilidade.

Ele fez uma breve pausa, escolhendo cuidadosamente as próximas palavras.

Não acho que isso precise ser necessariamente algo ruim ou que sempre há uma afinidade, mas creio que foca mais em ser algo que possa ser utilizado para os fins que esse ser tenha em mente. Pode ser uma convicção muito forte, uma emoção intensa ou uma preocupação que domina a pessoa. Ou ainda um desejo que, aos poucos, se torna maior do que todo o resto, ou ainda uma vontade tão forte que passa a ocupar cada pensamento, cada decisão... 

Clarysse permaneceu imóvel, o barulho dos pratos, o cheiro de massa assada e queijo derretido, as conversas espalhadas pelo salão pareciam ter ficado mais distantes para ela. Seus olhos estavam fixos em Khalamyr, mas era evidente que sua mente trabalhava muito além daquela mesa. Khalamyr percebeu e continuou: — E quando alguma coisa cresce demais dentro de alguém, parece alcançar o outro lado, e um Velkur que percebe nisso uma utilidade, encontra um caminho para se aproximar e finalmente, se liga a essa pessoa à utilizando como a uma marionete... É assim que eu entendo...

A jovem parecia ainda absorvendo tudo, era como se estivesse a ouvir as palavras de Khalamyr sem parar para poder assimilar todos os detalhes, e claro, comparar com o que ela própria sentiu... Finalmente, ela respirou fundo e depois de mais alguns segundos como se finalmente tivesse conseguido formular sua visão, ela expressou seu ponto de vista: — Então uma pessoa se torna um ressonante quando aquilo que sente ou acredita, se torna tão grande, forte e intenso, que é suficiente para atravessar essa tal barreira...

Essa é a minha teoria. — Khalamyr fez questão de enfatizar a última palavra. — E eu ainda estou tentando entender até onde essa teoria tem sentido, pois até uma vontade genuinamente boa, desde que seja levada longe demais, parece chamar a atenção deles. Uma vontade inabalável que a pessoa já não consegue colocar em segundo plano, se torna uma porta, e uma arma nas mãos de um Velkur.

Clarysse baixou lentamente os olhos para a mesa. — Qualquer coisa que seja levada longe demais... Khalamyr não respondeu imediatamente, a conclusão estava ali, entre os dois, e ambos sabiam disso. A jovem passou a ponta do dedo pela pequena marca de água deixada pelo copo sobre a mesa, acompanhando distraidamente o círculo úmido enquanto reunia coragem para transformar a nova conclusão em palavras. — Isso significa que eu...

Ela parou, e Khalamyr entendeu em silêncio. Não iria completar a frase por ela, ela precisava dessa oportunidade, e Clarysse ergueu os olhos novamente. — Eu fui uma ressonante.

Sim. A resposta veio sem rodeios, mas também sem qualquer julgamento. Khalamyr sustentou o olhar dela, determinado a cumprir exatamente o que havia prometido: não esconder a verdade para poupá-la.

Clarysse respirou fundo, e forte como era, assumiu: — Minha obsessão pela verdade. Khalamyr apenas assentiu, não havia necessidade de acrescentar nada. Por alguns segundos, ela ficou olhando para ele como se esperasse encontrar alguma espécie de condenação naquele rosto, mas não encontrou.

Então soltou o ar devagar, deixando claro que precisava expor sua versão: — Eu queria provar que tudo aquilo existia. — Sua voz perdeu um pouco da firmeza habitual. — E queria preparar as pessoas para sobreviver ao que quer que estivesse acontecendo. As palavras ficaram suspensas por um instante, mas logo Clarysse ergueu novamente os olhos. — Você percebeu isso?

Khalamyr assentiu. — Quando você estava possuída, você falou.

A expressão da ruiva mudou imediatamente. Ela levou uma das mãos à testa e fechou os olhos por um instante, fazendo uma pequena careta de constrangimento. — Ótimo... Agora eu também falo coisas enquanto estou completamente fora de mim.

Um sorriso quase imperceptível apareceu no canto da boca de Khalamyr. — Não é como se você tivesse falado sem parar, mas... Sim, você disse o suficiente para eu entender.

Clarysse baixou a mão e lançou a ele um olhar desconfiado. — Isso é uma maneira muito educada de dizer que eu falei demais, não é?

Na verdade, é uma maneira de dizer que você fez o certo. Sem essas palavras... Talvez eu não tivesse a certeza suficiente para insistir... Rebateu Khalamyr, enquanto ela soltou uma breve risada pelo nariz, embora sua expressão logo tenha voltado a ficar séria. — Eu queria que as pessoas soubessem... — insistiu, dessa vez com mais convicção. — Eu precisava que soubessem.

O olhar dela desviou para o movimento das pessoas na pizzaria, havia algo quase doloroso naquela observação casual do mundo normal: famílias conversando, adolescentes rindo, casais dividindo uma pizza, alguém reclamando que o tempo estava abafado.

Tudo aquilo parecia tão absurdamente comum depois do que haviam acabado de viver. — É... — Murmurou ela. — Meu pai sempre dizia que eu deveria equilibrar as coisas, nunca ir longe o suficiente que não se pudesse retornar, mesmo quando encontrava alguma coisa que realmente acreditava ser importante, porque ele sabia que eu ficava obstinada com coisas importantes...

Um pequeno sorriso melancólico surgiu em seu rosto. — Acho que acabei indo apesar dos avisos dele...

Khalamyr a observou por alguns segundos antes de responder. — Mas isso não significa que o que aconteceu foi culpa sua.

Clarysse não demorou a responder. — Não completamente, talvez, mas com certeza foi culpa minha. Havia uma dureza naquela frase, mas não dirigida a Khalamyr, era uma cobrança silenciosa que ela fazia a si mesma.

Não estou tentando me vitimizar... — continuou ela apoiando os braços sobre a mesa. — Nem transformar isso em algum tipo de punição pessoal, eu só... Só estou tentando ser justa comigo mesma. Eu sabia que estava ficando obcecada com isso tudo, sabia que aquilo estava ocupando espaço demais na minha cabeça... E, mesmo assim, escolhi continuar.

Ela engoliu em seco. — Isso não faz de mim culpada por uma criatura ter entrado em mim. Mas significa que preciso reconhecer uma coisa... Seus olhos encontraram os de Khalamyr. — Querendo ou não, fui eu quem abriu a porta.

Khalamyr ficou alguns segundos em silêncio, então recostou-se lentamente na cadeira, como se quisesse que ela prestasse atenção não apenas às palavras, mas ao que realmente estava tentando lhe dizer.

Existe uma diferença importante aí que você não está considerando... Clarysse franziu levemente o cenho, e Khalamyr continuou: — Você abriu a porta, isso é um fato, mas não foi você quem escolheu colocar alguém do outro lado dela. Isso é algo que o Velkur faria, sem sua escolha, sem seu consentimento... Abrir portas, todos nós abrimos a todo instante, e no seu caso, a entidade direcionou um Velkur até você... Lembre-se, você apenas abriu uma porta, e isso é humano ao extremo...

Clarysse não respondeu. A frase pareceu encontrar um lugar dentro dela onde nenhuma das outras havia conseguido chegar. Seus olhos permaneceram sobre Khalamyr por alguns segundos, até que finalmente baixou o rosto e respirou profundamente. — É... Isso... eu consigo aceitar.

Nesse exato momento, o garçom retornou carregando a pizza fumegante. O aroma quente de queijo, molho e massa recém-assada invadiu o espaço entre os dois, quase como uma intervenção absurda da realidade para lembrá-los de que ainda estavam sentados em uma pizzaria, no meio de uma cidade comum.

O garçom colocou a pizza sobre a mesa, deixou a comanda e se afastou, Clarysse acompanhou-o com os olhos por alguns segundos, e então voltou-se novamente para Khalamyr. — E Érebus?

O semblante do jovem mudou, não era apenas seriedade, havia desconforto naquela expressão. Uma espécie de lembrança que ainda permanecia próxima demais para ser tratada como simples conhecimento. — O que vimos lá aparentemente existe. Eu já tinha ouvido falar daquele lugar antes, mas nunca o imaginei daquela forma...

Clarysse imediatamente se inclinou sobre a mesa, o modo investigativo havia retornado por completo. — Mas o que exatamente é Érebus?

Khalamyr sustentou o olhar dela durante alguns segundos. — Eu não sei. Khalamyr pousou o pedaço no prato e seu olhar se perdeu por um instante, como se novamente enxergasse aquele lugar. — O que eu vi parecia um lugar onde tudo que existe de pior dentro de alguém pudesse tomar forma.

Sua voz havia mudado, Clarysse percebeu e tentou fazer a conversa andar: — E quanto aquelas criaturas... São todas elas Velkur?

Algumas, talvez. Outras podem ser simplesmente espíritos tão corrompidos que perderam quase completamente a aparência que tinham quando eram humanos. — respondeu Khalamyr, sem hesitar dessa vez.

Clarysse ficou pensativa. — E eles vivem lá? Khalamyr franziu levemente a testa.

Não sei se “vivem” é realmente a palavra certa. Eu acho que estão presos lá. Até onde consigo compreender, Érebus parece ser uma espécie de domínio onde essas entidades conseguem existir sem as mesmas limitações que enfrentam aqui.

Clarysse não deixou passar o detalhe. — E como elas se tornam Velkur, o que distingue Velkur de espíritos? Khalamyr olhou para a jovem um tanto receoso, mas prometeu sinceridade: - Eu realmente não sei se existe diferença Clarysse... 

Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, imaginar que qualquer uma daquelas criaturas poderia ser alcançada por um "ressonante" desavisado, era realmente aterrorizante... Vendo que não havia muito o que esclarecer sobre esse ponto, Clarysse continuou: - E quanto aos tais portais? Sabe o que são?

Khalamyr assentiu lentamente. — Esse é o problema. Ele apoiou os antebraços sobre a mesa. — Aquela criatura disse que eles querem romper a barreira entre os mundos, mas até onde entendi, os portais são os ressonantes... E se destruir ressonantes eles ficam sem portais, teoricamente... Então... Ou entendi errado a lógica de portais ou...

Clarysse ficou em silêncio por alguns segundos. — Existem outros portais dos quais sequer sabemos ainda... Khalamyr assentiu, preocupado, afinal, como ficava cada vez mais visível, eles detinham quase nada de informação e isso era frustrante...

Foi Clarysse quem, tentando retornar à sensação de descoberta e não de desilusão aos dois, comentou: - Então aquele lugar não era apenas um cenário criado para assustar você, ele existe de verdade.

Ao que parece é realmente uma espécie de outra dimensão, assim como a que usamos para enfrentar os Velkur... — Khalamyr ajustou a postura e continuou: — Eles nos levaram até lá para mostrar alguma coisa, para nos impressionar, nos pressionar... talvez até para que eu entendesse que existe algo muito maior acontecendo, mas não faria sentido expor seus planos assim...

Khalamyr e Clarysse ficaram em silêncio, mordiscaram e beberam para tentar encontrar mais explicações e demoraram segundos a argumentar novamente... Os dedos de Khalamyr então tocaram distraidamente a borda do copo enquanto organizava os pensamentos, e disparou: - Talvez, numa visão otimista, eles simplesmente tentaram me convencer de que não poderia fazer nada e assim me fazer desistir... Seria bom se fosse apenas isso...

Clarysse o observou com atenção, a mensagem era quase amarga... A jovem então se inclinou um pouco mais sobre a mesa, e com um sorriso desafiador, sussurrou: — Mas você conseguiu superar e mostrou que pode revidar sim!.

Khalamyr permaneceu imóvel, e ela persistiu: — A criatura disse que você não conseguiria me salvar, disse que você era incapaz de fazer aquilo, e você me trouxe de volta, diante deles, comemore! Khalamyr por sua vez desviou os olhos, como se encabulado. — Eryon conseguiu.

Clarysse franziu o cenho em reprovação clara: — Não. A resposta veio com uma firmeza tranquila que fez Khalamyr voltar a encará-la. — Era você que estava comigo quando eu despertei! — continuou ela. — E foi você quem ficou me chamando sem parar. Eryon com certeza deve ter sido decisivo, mas, foi você Khalamyr, sem você, eu teria... Sucumbido...

Khalamyr nada respondeu, ele não se sentia o herói da vez, mas era grato a Eryon por ter feito o que fez! Clarysse então sorriu de maneira discreta, mas havia emoção naquele sorriso. — Presta atenção Khalamyr, talvez você esteja começando a descobrir que é um pouco melhor nisso do que imagina e julga. Não se cobre tanto...

O jovem permaneceu em silêncio por alguns instantes, havia algo quase desconcertante na maneira como Khalamyr lidava com tudo aquilo. Mesmo depois de ter enfrentado um Velkur, atravessado uma passagem para um lugar que jamais deveria existir aos olhos humanos e conseguido trazer Clarysse de volta quando ela já não parecia pertencer inteiramente a si mesma, ele não demonstrava qualquer intenção de atribuir a si próprio qualquer mérito pelo que acontecera.

Para ele, simplesmente não parecia haver mérito algum, era algo quase como, uma missão. Clarysse, entretanto, enxergava a situação de outra maneira.

E, talvez justamente por isso, enquanto ainda tentava organizar tudo o que havia acabado de ouvir, outra pergunta surgiu em sua mente. Ela apoiou uma das mãos sobre a mesa, inclinou-se um pouco para a frente e perguntou, com a curiosidade renovada: — Tá bom, vamos mudar de assunto! Me fale de Eryon? Quem ele é... ou melhor, o que ele é?

Khalamyr voltou o rosto para ela, mas sequer teve tempo de formular uma resposta. — Você sabe que eu reconheci algumas coisas nele? O jovem franziu levemente a testa.

Clarysse percebeu a expressão de dúvida e, por um instante, deixou escapar uma satisfação quase infantil por finalmente ter conseguido encaixar uma peça daquele enorme quebra-cabeça. — Ele é um Ifrit, não é?

Khalamyr se impressionou, mas não demorou nada em assentir. O pequeno triunfo da ruiva foi imediato, não chegou a comemorar abertamente, mas seus olhos se iluminaram por um instante e um sorriso satisfeito apareceu no canto de sua boca. — Eu sabia...

Ela se recostou um pouco na cadeira, como quem buscava uma lembrança antiga. — Quando conheci você... Quer dizer, quando finalmente conversei com você pessoalmente, você estava pesquisando sobre Lendas do Oriente Médio. Era por causa dele, não era?

Khalamyr sorriu diante da lembrança e assentiu novamente. — Era. Eryon é, sem dúvida, aquilo que algumas tradições humanas chamam de Ifrit. Mas eu não sei se as histórias que vocês contam sobre eles estão exatamente certas.

Clarysse apoiou o queixo sobre a mão. — Até onde li, dizem que são criaturas malignas.

Uma pequena risada escapou de Khalamyr. — Quando você passa milhares de anos recusando os desejos de ególatras, não espere que sua fama seja muito boa.

Clarysse arqueou as sobrancelhas, surpresa com a resposta. — Então você está dizendo que eles não são malignos?

Khalamyr cruzou os braços, refletindo antes de responder. — Estou dizendo que eu nunca encontrei motivos para acreditar nisso. Eryon pode ser difícil de lidar, fechado, e um tanto quanto individualista, na minha visão, e provavelmente se esforça bastante para ser as três coisas ao mesmo tempo... — disse, com um pequeno sorriso. — Mas isso é bem diferente de ser maligno.

Clarysse deixou escapar uma risada baixa. — Sim... Esse argumento é bom, e o ser humano com certeza tentaria tirar vantagem de um ser como ele, sem dúvida...

Khalamyr também sorriu, mas logo voltou a falar: — A parte boa é que Eryon não é meu inimigo, mas tão pouco é um soldado sob meu controle. Nós temos algo como... Um pacto. Ele tem vontade própria, um orgulho racial muito forte e não simplesmente faz aquilo que eu peço porque eu mandei. Às vezes eu sequer tenho certeza de que ele considera aquilo que fazemos uma parceria.

Clarysse sorriu de lado. — Pelo jeito, ele não parece exatamente o tipo que pede autorização para alguma coisa.

Não. — Khalamyr soltou uma breve risada. — Definitivamente não. Por alguns segundos, a conversa pareceu quase comum, até que do nada, Clarysse perdeu o sorriso. — Eu lembro dele falar... Ele disse que eu não tinha salvação. 

Khalamyr abaixou os olhos, se sentia culpado pelas palavras do aliado... — Mas me lembro também que você discordou dele com muita intensidade... Por quê Khalamyr?

O jovem demorou alguns segundos para responder, não parecia estar procurando uma resposta bonita, procurava apenas aquela que realmente acreditava ser verdadeira. — Porque eu não acredito que uma pessoa deva ser considerada perdida simplesmente porque caiu.

Clarysse permaneceu olhando para ele, como se tentasse ler sua alma através dos olhos e entender mais aquela postura: — Mesmo alguém que tentou matar uma família inocente?

Khalamyr ergueu os olhos, assentiu positivamente, a resposta saiu firme, sem hesitação: - A culpa não era sua, você não merecia que desistisse de você... 

Clarysse ficou alguns segundos em silêncio, então respirou fundo e lançou a pergunta que inevitavelmente precisava fazer: — Mas já devem ter existido casos em que vocês não conseguiram separar Velkur da pessoa, nesse caso... Humano e Velkur são destruídos?

Khalamyr demorou mais do que um simples instante para responder. Havia algo naquela lembrança que tornava sua voz mais pesada, como se ele precisasse escolher cuidadosamente cada palavra antes de permitir que ela viesse à tona: — Por vezes, o humano se apega tanto ao Velkur, à força que aquela presença lhe oferece e à possibilidade de fazer aquilo que, sozinho, jamais conseguiria, que passa a não desejar mais a própria libertação. É como se, pouco a pouco, deixasse de distinguir onde terminam seus próprios desejos e onde começa a vontade da criatura. E, quando o Velkur finalmente é destruído... — Khalamyr fez uma breve pausa, desviando os olhos por um instante. — Alguns simplesmente não voltam. Permanecem em coma, como se uma parte deles tivesse se recusado a existir sem aquilo que os dominava.

Clarysse permaneceu imóvel por alguns segundos.

Aquela informação parecia ter atravessado a camada racional com que vinha conduzindo toda a conversa e alcançado um lugar muito mais profundo. Seus dedos, que até então brincavam distraidamente com a borda do guardanapo, pararam. Ela olhou para Khalamyr, mas não encontrou imediatamente palavras para responder.

Em coma...? — repetiu baixinho. Khalamyr assentiu, sem acrescentar nada, e Clarysse baixou os olhos para as próprias mãos...

De repente, algumas lembranças que ela vinha tentando organizar desde que saíra daquela casa ganharam um significado muito mais assustador. A raiva, a certeza absoluta de que precisava matar aquelas pessoas, a sensação de que aquilo era necessário, justo, quase inevitável. E, pior do que tudo, a maneira como aquela vontade parecera pertencer a ela.

A ruiva observou o copo de refrigerante e as bolhas de gás que teimavam em subir e desaparecer, e logo depois olhou novamente para Khalamyr... Havia algo naquela resposta, além do óbvio, que era impossível de não notar... Apesar de tudo que fez por ela, Khalamyr não dizia aquilo como uma declaração heroica, não havia orgulho em sua voz, nem intenção de parecer corajoso, apesar de ter salvo sua vida de forma tão enfática.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Clarysse enquanto revivia algumas cenas do ocorrido e unia isso às palavras de Khalamyr e sua visível preocupação, não apenas com ela, mas com pessoas, com os ressonantes e as vítimas dos Velkur... E como uma forma de agradecer e deixar o clima menos tenso, ela questiona: — Essa persistência toda para salvar os possuídos... Seria coragem ou teimosia?

Khalamyr deu de ombros, pegando outro pedaço de pizza, sorrindo levemente: — É só o correto a ser feito, nada além... Clarysse riu baixinho completando: — Acho que consigo aceitar essa resposta também.

A pequena leveza que se instalara entre os dois durou alguns instantes, riram, falaram sobre o sabor da pizza, o bom atendimento, o ambiente legal, o refrigerante gostoso, e até descobriram que também nenhum dos dois gostava de cerveja, por razões desconhecidas, simplesmente não agradava o paladar, até que Clarysse pareceu ter algo importante para questionar novamente...

Ela apoiou o antebraço sobre a mesa e chamou sua atenção: — Sabe, Khalamyr... Ela fez uma pequena pausa, como se estivesse prestes a fazer uma pergunta estranha. — Teria problema se eu te chamasse só de... Khal?

O jovem parou com o pedaço de pizza ainda na mão, olhou para ela... Não havia desconfiança naquela expressão, era simplesmente surpresa. Khalamyr jamais havia imaginado que alguém pudesse preferir chamá-lo por outro nome, durante toda a sua vida, aquele nome sempre fora apenas... seu nome.

Depois de alguns segundos, perguntou com absoluta sinceridade: — O meu nome é tão feio assim?

Clarysse arregalou os olhos e, no instante seguinte, começou a rir. Não foi uma risada contida, foi espontânea, alta o suficiente para fazer uma pessoa da mesa ao lado lançar um olhar curioso para eles. Clarysse levou uma das mãos à boca, tentando recuperar a compostura. — Não! Não é isso!

Khalamyr agora sorria, claramente sem entender o que havia feito de tão engraçado. — Então por quê?

É que... eu não estou acostumada a conversar tanto com uma mesma pessoa. — explicou, ainda contendo o riso. — E então eu fico toda hora, Khalamyr, Khalamyr, Khalamyr... O nome é bonito e exótico sem dúvida, mas Khal é... Mais curto, mais fácil... Mas, se você tiver algum problema, eu continuo chamando você de Khalamyr, eu só...

Ela não terminou, Khalamyr fez um gesto tranquilo com as mãos, acompanhando o movimento com um sorriso. — Não há problema algum, só me pegou de surpresa. Ele experimentou o apelido mentalmente por alguns segundos. — Khal... Então sorriu. — Parece estiloso. Eu gostei.

Dessa vez, os dois riram juntos. Comeram mais um pouco, beberam e, por alguns instantes, foram apenas duas pessoas sentadas numa pizzaria movimentada, tentando aproveitar a pequena normalidade que lhes restava.

Mas Clarysse não havia esquecido as perguntas, ela nunca esquecia, sua mente estava sempre pronta para perguntas, e ela logo voltou ao foco. — Então... Khal. O jovem ergueu os olhos e a observou com interesse... — Existe uma coisa, entre muitas, que eu ainda não entendi.

Khalamyr demonstrou completa atenção: — O quê?

Ela o encarou como se o preparasse para um desafio, e pergunto. — Aquele nome.

Khalamyr franziu a testa. — Qual nome?

Ekzyliön. Completou a ruiva, e a mudança no rosto de Khalamyr foi imediata. O pouco de leveza que ainda existia desapareceu, a lembrança daquele momento voltou com força: a voz daquela entidade, o sorriso impossível no rosto do homem, a maneira como aquela palavra havia sido pronunciada como se carregasse um significado que somente ele desconhecia.

Clarysse percebeu a mudança e esperou, Khalamyr respirou lentamente, tentando encontrar alguma resposta, mas por fim, só havia uma... — Eu não sei o que significa, e isso incomoda muito!

A resposta pareceu frustrá-la, então ela tentou incentivar uma resposta mais explicativa, por menor que fosse. — A criatura parecia saber o significado disso, e também, aparentava te conhecer bem... Você nunca ouviu essa palavra antes?

Foi a primeira vez que ouvi esse nome. A sinceridade na voz do rapaz era absoluta, deixando claro para a repórter que ele realmente não tinha ideia do que significava aquele termo. Não havia mentira ali, nem desconfiança, havia apenas o mesmo desconforto que ela própria sentira diante daquela palavra. — E “Caminhante”?

Khalamyr soltou o ar lentamente e se recostou na cadeira. — Também não sei. Passou a mão pelos cabelos, visivelmente incomodado. — Essa é uma das coisas que mais me perturbam. Existem pessoas... ou criaturas... que parecem saber coisas sobre mim que eu não sei. E isso acontece com uma frequência muito maior do que eu gostaria.

Clarysse inclinou ligeiramente a cabeça, agora ela compreendia que aquela questão não era apenas curiosidade para ele, estava se tornando uma ferida aberta. Tentando diminuir o desconforto sem sair do assunto, ela indaga: — E você nunca tentou descobrir quem é?

Khalamyr franziu a testa, parecia não entender a pergunta, e realmente não a entendeu: — Você quer dizer meus pais? Minha casa? Minha cidade?

Clarysse sorriu. — Não. Ela se inclinou novamente sobre a mesa. — Quero dizer você. Não Khalamyr como nome, mas tudo isso. Caminhante. Ekzyliön. Velkur. Érebus. Eryon. Como você se encaixa nisso? Como chegou até tudo isso? Por que você? É isso que estou tentando perguntar.

Ela fez uma pausa e então completou, com uma expressão quase preocupada: — Ou você realmente não sabe quem é?

A última pergunta pareceu finalmente fazer sentido para ele. Khalamyr soltou uma pequena risada, levando novamente o copo de refrigerante aos lábios. — Agora eu compreendi. Bebeu um gole antes de continuar.

Sim, eu sei quem sou. Sei meu nome, sei das coisas que vivi e sei o que faço. O problema é tudo aquilo que você acabou de mencionar. Eu tento compreender isso todos os dias. Tento encontrar alguma lógica que explique como tudo se conecta.

Clarysse se inclinou um pouco mais, empolgada. — E chegou a alguma conclusão? A esperança em seu olhar era quase palpável.

Khalamyr, porém, não respondeu imediatamente, seus olhos desviaram para a janela, do outro lado do vidro, a cidade seguia indiferente. Faróis passavam pela rua, pessoas caminhavam pelas calçadas, alguém atravessava apressado carregando uma sacola, e o mundo continuava exatamente como sempre havia continuado.

Mas Khalamyr já não conseguia olhar para aquela cidade da mesma maneira. — Não... E às vezes... — começou lentamente — eu tenho a sensação de que nunca irei descobrir porque simplesmente... Eu não era pra estar aqui... 

Clarysse permaneceu em silêncio, e Khalamyr continuou procurando uma maneira de explicar algo que nem ele compreendia:

Não sei explicar melhor do que isso. Não é como se eu tivesse algum vislumbre de outra situação, não tenho uma lembrança de outro lugar além do meu, nem uma história escondida que consiga simplesmente recordar. É só uma sensação de que eu não deveria estar aqui e mesmo assim... Aqui estou...

Ele passou os dedos pela borda do copo. — Algumas coisas daqui parecem familiares demais... e, ao mesmo tempo, estranhas demais, como se eu reconhecesse algo sem saber de onde. Como se uma parte de mim soubesse que existe algum outro lugar onde eu deveria estar, mas não soubesse qual é esse lugar... nem como chegar até ele... E porque não estou lá e sim aqui...

Clarysse não tentou interpretar. Não disse que aquilo era confuso ou que não parecia fazer sentido algum, muito menos mencionou tantas outras coisas que leu ao longo da vida, como vidas passadas, dimensões ou qualquer uma das inúmeras teorias que sua mente poderia produzir.

Apenas o observou, e, talvez pela primeira vez naquela noite, não enxergou diante dela o homem que enfrentava monstros e conhecia o sobrenatural como ela sempre tentou conhecer, mas enxergou alguém que também estava perdido, como ela sempre se sentiu...

— Eu sei que você ainda vai descobrir todas essas respostas... — disse ela, suavemente. Khalamyr voltou os olhos para a ruiva, Clarysse permaneceu alguns segundos pensando, e então completou: - Mas com minha ajuda, porque você é péssimo de pesquisas! 

Khalamyr franziu o cenho e a ficou observando, quase soltando uma interjeição em contestação, mas ela não permitiu espaço e rapidamente outra pergunta nasceu, e dessa vez, ela não parecia apenas curiosa, parecia ter percebido que acabara de tocar em algo muito maior. — Isso tudo que você falou agora... Significa que você também não sabe por que faz o que faz?

Khalamyr demorou alguns segundos para responder. Seus olhos permaneceram sobre a mesa, acompanhando distraidamente a pequena marca deixada pelo copo sobre o papel, como se até aquele detalhe banal fosse suficiente para lhe oferecer alguns instantes a mais antes de admitir aquilo que já sabia.

Por fim, respirou fundo. — Não. A resposta saiu baixa, sem qualquer tentativa de dramatização. Clarysse o observou levemente antes de responder, agora com delicadeza e cuidado... — Isso tudo deve ser muito difícil...

Khalamyr levantou os olhos para ela e houve uma pequena pausa, quando a ruiva tenta amenizar a sensação que se instaurou: — Mas você ainda assim parece lidar bem com isso.

Um sorriso sem humor surgiu no rosto do jovem. — Eu tenho de lidar, porque não tenho outra opção.

Clarysse assentiu lentamente, não havia pena em seu olhar, e Khalamyr pareceu apreciar isso. Ela não o tratava como alguém quebrado, nem tentava encontrar uma frase reconfortante que resolvesse algo que claramente não tinha solução naquele momento, em vez disso, apenas ficou alguns segundos pensando. — Então temos algumas coisas em comum.

Khalamyr voltou o rosto para ela. — Temos?

Clarysse apoiou os braços sobre a mesa e entrelaçou os dedos, olhando por um instante para a movimentação da pizzaria antes de retornar à atenção para ele.

Eu passei anos tentando descobrir se aquilo que eu pesquisava era real. Passei por relatos, documentos, histórias que ninguém levava a sério, testemunhos que pareciam absurdos demais para serem verdadeiros... e, durante todo esse tempo, eu nunca consegui provar nada. Então basicamente, no final eu não sabia mais porque tava fazendo aquilo ou porque insistia.

Ela respirou profundamente antes de continuar.

E você passa os seus dias tentando descobrir quem é, no sentido de entender por que faz essas coisas que mais ninguém faz, por que consegue perceber aquilo que ninguém mais percebe e por que parece estar envolvido em algo que começou muito antes de você sequer ter noção de quando ou como tudo isso começou. No fim das contas, parece que nenhum de nós tem respostas suficientes e, ainda assim, continuamos fazendo coisas que ninguém mais faria... Eu chamaria isso de algumas coisas em comum, você não?

Khalamyr ficou em silêncio por alguns instantes, assentindo lentamente, enquanto Clarysse então sorriu de leve. — Mas temos perguntas. Muitas delas. E talvez isso seja um começo pra gente se focar.

O jovem franziu o cenho, genuinamente tentando compreender onde ela queria chegar. — Começo de quê, exatamente?

Clarysse ficou alguns segundos em silêncio, procurando uma palavra que não soasse grandiosa demais para aquilo que estavam fazendo. — De uma espécie de... acordo de cooperação.

O olhar de Khalamyr permaneceu atento, esperando mais detalhes de tal “acordo”, e ela então se tornou um pouco mais séria. — Mas existe uma coisa que eu quero deixar clara antes de qualquer acordo. Eu não quero que você decida por mim o que eu posso ou não posso suportar.

Khalamyr não interrompeu, apenas ouviu, queria entender corretamente antes de se pronunciar: — Depois do que aconteceu, eu sei que algumas coisas podem ser perigosas. Sei que você tentou me proteger, e sei que, se pudesse voltar algumas horas, provavelmente teria feito muita coisa diferente.

Ela baixou os olhos por um instante, e sua voz perdeu um pouco da firmeza anterior. — Mas eu também não quero ser tratada como alguém incapaz de ajudar simplesmente porque abri uma porta que não deveria...

Khalamyr assentiu devagar. — Eu creio que isso é justo. Clarysse ergueu novamente os olhos e se antecipando ao que saberia que seria um argumento, ela mesmo expôs: — Eu fui imprudente. Fui obcecada. Talvez tenha sido arrogante ao acreditar que conseguiria encontrar respostas sem sequer compreender aquilo que estava procurando. Eu sabia que estava indo longe demais e continuei mesmo assim.

Ela respirou fundo, e tentou concluir: — Mas apesar de tudo... Eu continuo sendo eu, e quero que me trate como a Clarysse que conheceu antes de tudo isso que houve na casa daquela família... Você pode fazer isso por mim?

Khalamyr sustentou seu olhar, e então sorrindo levemente, se referindo especificamente à fala dela, ele concordou: — É justamente por acreditar nisso que eu não deixaria de tentar separar você daquele Velkur. Nem que tivesse de tentar até o último instante. Eu sentia você lá dentro, Clarysse. Mesmo quando aquela coisa estava usando sua voz, seu rosto e suas mãos... eu conseguia perceber que ainda havia você ali, prisioneira, querendo sair.

A ruiva permaneceu imóvel por alguns segundos, a resposta de Khalamyr veio tão poderosa que ela não conseguia esconder a emoção. Clarysse então desviou os olhos, por alguns segundos, pareceu procurar alguma coisa na mesa, talvez uma resposta, talvez apenas uma maneira de esconder o impacto que aquelas palavras haviam causado, mas por fim, apenas sorriu discretamente e apenas foi sincera:

Obrigada.

Khalamyr apenas assentiu e durante alguns instantes, nenhum dos dois falou.

O barulho da pizzaria voltou a ocupar aquele pequeno espaço entre eles: talheres tocando pratos, cadeiras arrastando no piso, vozes cruzando-se umas sobre as outras, o cheiro quente de queijo, molho e massa recém-assada misturado ao aroma doce dos refrigerantes.

Era quase estranho estar ali na verdade, quando paravam para analisar, pois poucas horas antes, eles haviam atravessado um lugar que parecia existir além da própria realidade, e agora, conversavam sobre pizza. Talvez fosse exatamente disso que precisassem, e Clarysse, pegando outro pedaço, depois de um momento de reflexão, voltou ao assunto.

— Então, se eu entendi corretamente...

Khalamyr ergueu uma sobrancelha. — Estou ouvindo. A resposta veio com a boca parcialmente ocupada pela pizza.

Clarysse segurou o riso, mas continuou: — Existem espíritos humanos que se corromperam e se tornaram Velkur.

Khalamyr engoliu antes de responder. — Essa é a minha hipótese, mas creio que seja mais que se corromper, eu diria... Se perderam na frieza da solidão e dos sentimentos pesados...

Clarysse assentiu ouvindo as palavras, assimilou e continuou sua ponderação: — Certo... E algumas pessoas, quando suas convicções ou emoções se tornam fortes demais, tornam-se ressonantes e podem ser percebidas por eles.

Exatamente. Assentiu Khalamyr, tomando um gole de refrigerante.

Os Velkur conseguem atravessar para o nosso mundo através dessas conexões. Observava a ruiva novamente.

É o que acredito. Corroborava o jovem outra vez!

Clarysse fez uma pequena pausa, organizando mentalmente cada informação. — E existe um lugar chamado Érebus onde eles conseguem existir, algo como o mundo dos Velkur...

Khalamyr novamente assentiu. — É o que tudo que consegui descobrir até agora indica.

E existe também algum tipo de barreira impedindo que atravessem livremente. Novamente Clarysse rebatia.

Até agora, sim. E outro pedaço de pizza desapareceu das mãos do jovem.

E alguém está tentando romper essa barreira, seja ela qual for. Ela olhava para cima como se conseguisse concatenar as ideias mais facilmente assim e Khalamyr assentiu novamente. — É o que foi dito pela entidade pelo menos.

Clarysse respirou fundo, aquela conclusão, embora previsível, parecia muito mais pesada quando dita em voz alta. — E você não sabe quem.

Khalamyr sorriu de leve. — Ainda não.

Nem por quê? Pressionou ela, ao passo que ele fez uma pequena pausa. — Não...

Clarysse cruzou os braços. — Nem sabe quem é Ekzyliön ou porque te chamam de caminhante.

O jovem abriu um pequeno sorriso, quase resignado. — Também não.

Clarysse sorriu de leve. Não era exatamente um sorriso de diversão, era o sorriso resignado de alguém que acabara de perceber que aquela provavelmente seria uma resposta recorrente naquela noite. — Você realmente gosta dessa resposta, não é?

Khalamyr não conseguiu evitar uma pequena risada, pegou novamente o copo e bebeu um gole antes de responder: — Infelizmente, ela é muito utilizada na minha vida.

Clarysse ficou alguns segundos em silêncio, então recostou-se na cadeira e assumiu aquela expressão que Khalamyr já começava a reconhecer: a mesma que provavelmente aparecia quando ela encontrava uma história difícil e começava a organizar mentalmente todas as peças antes de escrever a primeira linha.

Então, resumindo...

Khalamyr já começou a sorrir antes mesmo que ela terminasse, e Clarysse continuou contando os fatos quase como se estivesse redigindo um relatório diante dele:

Nós acabamos de descobrir que o mundo é infinitamente mais estranho do que imaginávamos. Existe um lugar cheio de espíritos corrompidos tentando atravessar para cá. Eu fui possuída por um deles. Você aparentemente é conhecido por criaturas que nem sequer sabe quem são. Seu guardião é um Ifrit que não parece gostar de você tanto quanto deveria... e você definitivamente sabe muito menos do que deveria saber.

Khalamyr começou a rir. — Quando você coloca dessa maneira... Fica realmente bem estranho e desanimador.

Clarysse também riu, havia algo genuinamente engraçado na situação. Principalmente porque, a cada nova pergunta, Khalamyr parecia ter apenas duas respostas disponíveis: não sei ou alguma variação ligeiramente mais elaborada de não sei.

Mas o riso durou pouco, a expressão de Clarysse lentamente se tornou séria. — E a pior parte de todas, não temos a menor ideia de quem está por trás disso tudo.

O sorriso desapareceu do rosto de Khalamyr, por alguns segundos, os dois permaneceram olhando um para o outro, e Clarysse desviou os olhos para a rua além da janela. — Então essa é a nossa próxima pergunta. E ela voltou a encará-lo. — E o início do nosso acordo.

Khalamyr permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se ainda estivesse tentando processar a escolha de palavras. — Nossa pergunta? Nosso acordo?

Clarysse o encarou com uma expressão que misturava incredulidade e diversão. — Você realmente achou que, depois de tudo isso, eu simplesmente voltaria para casa, tomaria um banho e fingiria que nada aconteceu?

Khalamyr olhou para ela, depois para a mesa, um pequeno sorriso apareceu em seu rosto enquanto balançava lentamente a cabeça. — Não... realmente não.

Ótimo. Clarysse pegou outro pedaço de pizza, deu uma mordida e fez uma pequena careta, a fatia estava fria. Ela olhou para a mesma por um instante, como se tivesse acabado de descobrir uma traição pessoal, devolveu-a à caixa e escolheu outra. — Porque eu ainda sou jornalista.

Khalamyr imediatamente ficou sério, ele apreciava e muito poder debater seu mundo com Clarysse, havia encontrado alguém com quem podia conversar finalmente, mas coloca-la em perigo novamente estava fora de cogitação, e Khalamyr queria que ela tivesse completo conhecimento dessa postura que ele não abriria mão: — Mas, Clarysse, veja bem...

Ela ergueu uma mão, interrompendo-o antes mesmo que terminasse. — Khal...

O jovem parou, a observou, e ela sorriu, continuando. — Eu aprendi minha lição.

A expressão de Khalamyr permaneceu cautelosa e a jovem continuou: — Eu preciso seguir seus alertas e seus cuidados. Minha parte não é me envolver em alguma coisa sem saber o que estou enfrentando, muito menos me tornar novamente um problema que você precise salvar. Eu entendi isso.

Então apontou para ele com um pequeno movimento da mão. — Mas eu sou repórter. E eu já disse que você pesquisa muito mal?

Khalamyr desta vez rebateu: — Hey...

Clarysse riu e continuou: — É sério! Você nem entende direito o seu próprio parceiro e maior poder ofensivo, ou como você consegue fazer isso e porque ele o segue nessas incursões... E isso tem quanto tempo?

Khalamyr tentou manter a expressão séria, mas acabou sorrindo, e Clarysse então voltou a falar, agora com muito mais convicção:

Eu entendi qual é a minha parte. Eu pesquiso, investigo, encontro pessoas, documentos, histórias, padrões, qualquer coisa que possa nos aproximar das respostas. Você enfrenta aquilo que eu não posso enfrentar. Você encontra essas coisas, impede que elas machuquem mais pessoas e, se houver uma maneira de fechar essa passagem, será você quem vai fazer isso.

Ela fez uma pequena pausa, mas logo enfatizou de novo: — Eu descubro. Você resolve. E nós tentamos impedir que mais alguém passe pelo que aquela família passou...

Khalamyr ficou olhando para ela, a admiração dele cresceu gigantescamente naquele momento, e então, lentamente, assentiu. — Parece um bom acordo.

Os dois sorriram, e, por alguns minutos, simplesmente comeram satisfeitos. Sem monstros. Sem Érebus. Sem Velkur. Sem perguntas sobre quem era Ekzyliön ou por que uma criatura desconhecida havia chamado Khalamyr de Caminhante. Apenas pizza e refrigerante.

Mas, enquanto mastigava, Khalamyr sentiu uma inquietação surgir dentro de si, uma dúvida diferente de todas as outras... Será que a solução seria realmente impedir que os Velkur atravessassem para aquele mundo? Ou haveria algo muito maior por trás das tais passagens ou portais que a entidade se referiu?

Talvez Érebus não fosse apenas um lugar que precisavam manter distante, talvez houvesse razões para aquela barreira existir e talvez houvessem outras possibilidades que ele ainda não conseguia sequer imaginar, ou quais seriam as tais barreiras que as criaturas queriam derrubar.

Khalamyr não sabia, e, pela primeira vez, aquela ausência de resposta não o incomodou tanto, pois ele agora tinha Clarysse. Assim, aquela era uma pergunta que ficaria para um outro dia, por enquanto, ele estava satisfeito com o que conseguira naquele dia. Clarysse estava viva. A família estava viva. E o Velkur havia sido destruído. Era o suficiente.

Naquela noite, enquanto a cidade seguia indiferente do outro lado do vidro, talvez o acontecimento mais importante daquele dia, apesar da possessão de Clarysse e da situação terrível da família, ou passagem pelo Érebus... Talvez o fato mais importante tivesse sido algo muito mais simples...

O nascimento de uma parceria. Dois seres tentando compreender um mundo que nenhum dos dois entendia completamente. Um entendeu que podia lutar contra aquilo que se escondia além da realidade conhecida.

A outra sabia procurar respostas onde ninguém mais cogitava que pudessem ser encontradas. E nenhum dos dois fazia ideia de onde aquela estrada terminaria. Mas, em algum lugar — na realidade ou além dela — talvez o destino já soubesse que, a partir daquela noite, Khalamyr e Clarysse começariam a caminhar na mesma direção.

Já para Clarysse, pelo menos, aquela conversa apenas havia aberto portas que, até poucas horas antes, ela sequer acreditava que existissem. Ela havia passado anos perseguindo relatos, lendas, testemunhos fragmentados e acontecimentos que jamais conseguira provar. Agora, pela primeira vez, não estava diante de um livro antigo, de uma fotografia duvidosa ou de alguém disposto a jurar que vira alguma coisa no escuro.

Estava sentada diante de alguém que realmente havia atravessado aquela fronteira. E, pior — ou talvez melhor —, alguém que também parecia não compreender completamente aquilo que havia encontrado do outro lado.

Clarysse terminou o último pedaço de pizza que tinha no prato, limpou distraidamente a ponta dos dedos com o guardanapo e permaneceu alguns segundos observando Khalamyr. Ele parecia mais relaxado agora, talvez pela comida, talvez pelo simples fato de ter conseguido colocar em palavras uma parte do que carregava consigo havia tanto tempo.

Mas a jovem já conhecia aquela sensação dentro de si. Era a mesma que surgia quando encontrava uma pista inesperada no meio de uma investigação: aquela inquietação que não permitia simplesmente fechar o caderno e ir embora.

Ela apoiou os braços sobre a mesa, inclinou-se um pouco na direção dele e, com um sorriso que misturava curiosidade genuína e a promessa de que aquela conversa ainda estava muito longe de acabar, perguntou: — E Khal... Poderia me contar como tudo começou? Como conheceu Eryon e quando teve o primeiro contato com um Velkur?

Ele calou-se de imediato, e por um instante seus olhos pareceram percorrer caminhos que não estavam mais ali, perdidos numa lembrança de fogo, tragédia e silêncio que ele jamais havia partilhado com ninguém. Ele então entrelaçou os dedos sobre a mesa, e por um instante pareceu pesar cada palavra antes de falar, com uma voz que baixou como quem revela um segredo que o próprio tempo tentou apagar:

Você não acreditaria se eu te contasse...

Continua...

Galeria de Imagens

O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:

O jovem protagonista da saga:

A repórter dedicada à histórias "estranhas":


Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys


Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?

Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu

Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Um comentário:

  1. Taí um daqueles capítulos onde não existe ação e um escritor menos capacitado poderia cair na armadilha de deixar o texto monótono, ainda mais sendo um texto tão extenso.
    Mas você conseguiu deixar a conversa extremamente fluída, aproveitando para criar uma ambientação perfeita, a pizzaria, a forma como ambos conversavam, pausavam quando alguma dúvida surgia, nas perguntas ou nas formulações das respostas, tudo ao redor, foi extrema e minimamente detalhado, foi como se eu estivesse "assistindo" a tudo, sentado ali, do ladinho do casal, escondido, só de ouvido em pé, prestando atenção ao papo deles (e, puxa, deu vontade de comer uma pizza agora)
    Mandou muito bem em mais esse capítulo amigão! Mal posso esperar prá ver o próximo e descobrir como começou o "acordo" entre o Khal (tbm achei mais fácil falar assim) e o Eryon.
    Parabéns!

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Ekzyliön - Caso 8 - Muitas perguntas, poucas respostas!

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