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segunda-feira, 11 de março de 2024

INDOMÁVEL! O livro finalmente lançado!!



Com a ajuda de grandes amigos, que me incentivaram e cobraram até que eu tivesse a disciplina necessária para realizar este sonho, com a guia carinhosa e dedicada, assim como apoio e direcionamento sensato da minha esposa, quase minha coautora neste livro, e, com a fonte de energia sem fim que é o sorriso e bem estar da minha filha a me olhar e dizer "que legal pai, tu lançou um livro, não acredito", está oficialmente lançado, meu primeiro livro autoral, a saga denominada "Indomável" escrito no transcorrer de dois belíssimos anos de trabalho!

A satisfação é indescritível, ver quase 500 páginas escritas de seu próprio punho, sentir que conseguiu conduzir uma ideia para uma trama de 23 capítulos com todas as pontas da trama devidamente amarradas e explicadas, e um final que tenho quase certeza, irá surpreender a todos, eu acredito nisso!

Batalhas, sentimentos, vida, karma, mistérios, terror, violência, infortúnios, chegadas e partidas, assim como justiça sendo aplicada da forma mais brutal e implacável! Uma história que creio, ficará gravada em sua mente assim como os cativantes personagens!

Convido todos os amigos e amigas a conferir este trabalho, basta visitar a editora Uiclap e adquirir seu exemplar físico, que chegará com toda comodidade no seu endereço! Agradeço demais a colaboração, amizade e carinho de todos para com este sonho alcançado, e claro, não deixe de comentar aqui ou nas redes sociais o que achou de Indomável!


Segue o link da loja: https://loja.uiclap.com

sábado, 8 de maio de 2021

Indomável - Cap. 4 - "- O verdadeiro líder do Povo Sucata!"

O vento ressoava pelas laterais do imenso espaço que servia de palco de reuniões do Povo Sucata, onde naquele momento um clima estranhamente tenso se desenrolava… ConstructHonor conhecia o guardião que o desafiava havia muito tempo, nunca julgou que o mesmo tomaria uma atitude similar, principalmente sabendo o referido guardião de todo o passado de Honor até o surgimento dos exilados ciborgues que ali viviam…

Ao redor da recém formada arena, se aglomeravam esses mesmos exilados, que aliás demonstravam um comportamento calmo e sereno além do natural devido suas baixas capacidades de entenderem emoções uma vez que eram ciborgues no sentido de não serem apenas máquinas, eram inteligências artificiais muito evoluídas e capazes de aprender a base dos sentimentos humanos se, uma convivência adequada tivessem ao lado dos seres vivos... O termo androide, embora fosse o mais correto pela composição 100% artificial da maioria esmagadora de todos eles, era inapropriada aos ciborgues desse nova era, que eram construídos para se tornarem humanos praticamente perfeitos nas ações e reações caso pudessem acompanhar o desenrolar dos relacionamentos dos seres aos quais eles supostamente deveriam fazer parte no dia a dia...

Esses seres, complexos e ao mesmo tempo praticamente sem vida, se observavam e tentavam entender o que estava à acontecer ao redor deles… Todos eles seguiam ConstructHonor desde o início porque ele os protegia das maldades dos vivos e os mantinha como uma sociedade isolada, para que pudessem viver sem correr o risco de serem exterminados como lixo desnecessário à sociedade, o que eram considerados nos dias de hoje… Mas agora, alguém parecia afrontar essa liderança que Honor exibia e o povo, humilde em pensamentos e atitudes, ficava a observar os dois tentando descobrir como reagir…

Do alto de sua estrutura, que o colocava mais alto que os demais para poder falar à todos durante as reuniões, Honor olhava para seu povo que ele tanto prezava ao mesmo tempo que baixava a visão e observava o guardião em pose de saque de espada, aguardando por seu movimento… O que passaria pela cabeça daquele ser pensava o líder do povo ciborgue, para estar agindo assim, afinal, pelo menos até aquele dia, se consideravam amigos… Intrigado e ainda não acreditando na cena, ele uma vez mais tenta: “- Nossa amizade vale tão pouco para você, a ponto de me tirar a única coisa que me restou velho amigo?

O guardião ao centro da arena baixa a cabeça e em tom de deboche responde: “- Pare de achar desculpas para fugir da luta e venha me enfrentar Honor!

As palavras do guardião despertam ira em ConstructHonor que, apesar de ser uma inteligência artificial implantada em pedaços de um corpo humano, tinha a capacidade de sentir emoções mais intensas que a maioria dos ciborgues e, em um ímpeto de revolta e atitude de resposta, salta de seu local de pronunciamentos, pousando pesadamente ao chão à frente do desafiante, abrindo um rombo a seus pés, tamanho o peso do ciborgue desafiado… O líder do Povo Sucata se ergue, aponta para o guardião que se mantinha imóvel e sentencia: “- Não esperava tamanha indignidade de sua parte, embora seja um vivo… Existe muito mais do que o título que me obriga a lutar por esta liderança, se prepare para ser destruído!

A moça protegida em meio aos demais ciborgues observava a tudo atenta e preocupada, começava a duvidar das intenções de seu guarda-costas... O guardião por sua vez se prepara e ConstructHonor com uma explosão de movimento se lança em carga contra o espadachim, e embora seu corpo grande e pesado, sua força era descomunal a ponto de surpreender qualquer um que observasse seu deslocamento!

O desafiante então vai se lançando para trás conforme o líder do Povo Sucata se aproximava desferindo golpes devastadores com os punhos enquanto tentava atingir o oponente; com saltos e recuos precisos, o guardião evitava os mesmos, mantinha sua espada embainhada até praticamente chegar ao final das centenas de metros que eles tinham como arena quando então em um movimento praticamente impossível de se crer ser possível executar, o espadachim saca sua espada e ataca o ombro de Honor com força e técnica perfeita! No entanto, apesar de todos acreditarem que seria um golpe preciso e poderoso que deceparia o braço mecânico do líder, ao invés disso, se viam faíscas de metal contra metal, sendo a espada embainhada novamente com extrema velocidade sem nenhum arranhão visível ao corpo do líder ConstructHonor!

Tão rápido quanto o golpe de espada foi a sequência do movimento, pois como um relâmpago o espadachim realiza um deslocamento para a esquerda com vigor, fazendo Honor apesar de seu peso bruto e do impacto que se mostrou ineficiente, girar seu corpo gigante sobre a perna direita e seguir atacando com a mesma tática de ataque sem fim, buscando não perder o espaço que acreditava ter conseguido conquistar, tentando manter seu desafiante pressionado com o ataque sem fim!

O Guardião então reinicia sua aparente estratégia e continua à recuar entre saltos, deslocamentos, recuos de passos e até mesmo acrobacias enquanto Honor segue para cima como um búfalo desenfreado, atacando com golpes de braços sem parar até que chegam à outra extremidade do palco de batalha quando novamente o guardião saca sua espada, ataca o mesmo braço que atacou anteriormente, novamente sem efeito e uma vez mais guarda a espada, se desloca para a esquerda velozmente e Honor, tentando manter o ritmo até conseguir algum resultado, buscando manter o que vinha fazendo, executando a mesma reação, detendo seu movimento com força, gira sobre a perna direita e continua seu ataque sem dar tréguas ao guardião!

A cena continua a se repetir, o Povo Sucata que não era amante de violência, assistia à tudo em silêncio e ficava a tentar entender o que viria após o combate, fosse qual fosse o resultado, o que mudaria em suas vidas… Por sua vez, AngryHurricane observava com frieza e expectativa pois torcia pela derrota de Honor afinal de contas, tomar a liderança do Povo Sucata tendo de disputar com um vivo seria muito mais fácil, a sociedade deste povo guardava muita mágoa e temor dos vivos, além de que Honor tinha prestígio coisa que um recém chegado não teria… Se Honor caísse, preparar a queda de um vivo seria muito mais fácil e ele comemorava o momento de talvez finalmente se tornar o líder que buscava ser!

A batalha pela liderança dos Sucatas continuava, os desafiantes chegavam novamente ao final da linha e o guardião uma vez mais sacava sua espada, golpeava o ombro de Honor, faíscas elevavam-se aos céus sem qualquer efeito físico ao líder robusto, e uma vez mais o espadachim veloz muda a trajetória se jogando para a esquerda velozmente, enquanto o pesado líder sem desanimar e ainda enfurecido, trava seu movimento violentamente de novo, gira sobre a perna direita e uma vez mais saindo em perseguição ao guardião que novamente tinha sua espada embainhada e continuava à recuar… “- Até seu estilo de luta mudou covarde? Vai ficar fugindo o combate inteiro milenar?

Era Honor quem esbravejava e avançava, ao passo que a moça disfarçada de homem em meio à multidão observava a luta com atenção e certo receio, afinal se seu guardião fosse derrubado, o que seria dela, pensava aflita... E apesar de não entender nada de estratégias de luta ou mesmo de lutas em si, chamava-lhe a atenção que alguém tão experiente e tão brutal em combate como ela tinha visto até então, estivesse apenas recuando e sequer conseguia atacar ConstructHonor… Intrigada e curiosa, ela cogitava em voz baixa como se fosse um pensamento escapando em palavras… “- Ele realmente planejou tudo tão mal a ponto de sequer perceber que sua espada não podia perfurar a blindagem do líder? Isso… Isso não faz sentido algum com tudo que já vi dele… O que… O que está acontecendo aqui afinal…

O fim da linha chega novamente, os olhos do guardião brilham e ele sorri… Honor chega com seu golpe mais poderoso... O guerreiro espadachim saca a espada, ataca, novamente sem surtir qualquer efeito e se desloca violentamente para a esquerda e quando ConstructHonor repete o movimento de sempre, eis o resultado da estratégia do guardião… Ao girar sobre a perna direita, perna essa que já havia executado sem parar o mesmo movimento, sob absurda movimentação e velocidade, a mesma não consegue mais suportar o peso e a pressão gigante exercida pela batalha repetidamente, vindo sob impacto sonoro assustador a se partir por completo, saltando pedaços da mesma para diversos lados, separando-se por completo do corpo do gigante, ficando fios, circuitos, processadores e sistemas hidráulicos totalmente expostos!

ConstructHonor cai por terra, arrastando-se com a força da velocidade e do ataque com que vinha em direção ao guardião, parando a dezenas de metros do desafiante, caído, sem sua perna direita, esfacelada na altura da virilha e por consequência completamente indefeso, pelo menos era assim que viam o resultado os presentes... AngryHurricane chega esboçar felicidade com o acontecido, deu-lhe prazer ver a derrocada de ConstructHonor, em sua visão agora era esperar o momento certo e destituir ou sumir com o novo líder…

O guardião então, observando a cena de Honor caído sem mais poder combater, energiza seus olhos e desaparece, aparecendo sobre o peito de Honor encostando sua espada na testa do líder Sucata, esperando que ele reconhecesse abertamente a derrota… Honor por sua vez urra em fúria e aciona todos os armamentos que possuía, disparando micro mísseis e feixes de próton que rasgaram o vazio em direção ao céus, tentando atingir o oponente com um último ataque, mas infelizmente tudo em vão, visto que o guardião novamente desapareceu, aparecendo atrás dele com a espada sobre seu pescoço, desta vez com expressão séria, esperando as palavras de Honor que ele queria ouvir… O gigante líder, visivelmente decepcionado consigo mesmo, brada em tom alto respeitando a honra que fazia parte de seu ser… “- O combate está encerrado… O Povo Sucata tem um novo líder…"

O guardião então guarda a espada e vai caminhando até o centro da arena onde com voz poderosa, abre os braços e enquanto dialogava, ia virando-se conforme era possível para analisar e observar a todos ali presentes… “- Estimado Povo Sucata… Como seu novo líder, tenho já de saída algumas exigências à serem feitas… A primeira delas é, que AngryHurricane se apresente ao centro e fique frente à frente comigo…

Todos ficam sem entender o que o espadachim estava pretendendo, a própria moça cogitava que não fazia parte da personalidade que ela conheceu, que aquele que a guarnecia fizesse tanto esforço apenas para resolver uma desavença com um ciborgue… De qualquer forma, sob os olhares curiosos de todos, principalmente de ConstructHonor, Hurricane com olhar debochado faz o ordenado, e chega até a frente do novo líder, de braços cruzados como se desdenhasse do espadachim… “- Tudo isso só pra se vingar de mim? Vocês vivos são realmente prepotentes…

Um risco então, quase como um relâmpago é pressentido mas impossível de ser visto ou sequer evitado e eis que AngryHurricane caía ao chão, sem sua perna direita, totalmente avariado soltando faíscas e esbravejando em fúria… Honor, a moça e os demais ficam espantados com a atitude gratuita e sem qualquer necessidade segundo a visão de todos, mas, ainda observam em silêncio, obedecendo as leis que regiam aquela sociedade excluída daquele mundo completamente sem empatia ou piedade… O guardião anda ao redor de um Hurricane esbravejante e brada à plenos pulmões: “- ConstructHonor… Como novo líder do Povo Sucata, ordeno que conte à todos sobre o problema que você vem tentando resolver há meses…

O ex-líder do Povo Sucata, expressando real sentimento de não entender do que se tratava, pois não havia como o guardião saber de algo tão secreto, e sem querer dar pistas que levassem o povo a perceber o problema que tinham em mãos, argumenta: “- Não sei do está falando andarilho… Realmente não sei onde quer chegar com tudo isso…

O guardião por sua vez, embainha sua espada novamente enquanto caminhava e insistia, sabendo que o honrado ciborgue apenas estava tentando manter a verdade oculta ao máximo que pudesse… “- Vamos Honor, não temos o dia todo, eu tenho uma jornada para empreitar… Conte a seu povo, a tragédia que vocês têm vivido nos últimos meses e que você tem evitado que seu povo sofra mais ainda sabendo de tal ferida em meio sua sociedade…

ConstructHonor não via mais possibilidade de esconder, estava claro que o guardião de alguma maneira sabia do que estava falando, e agora, pelas leis, ele era um subordinado ao novo líder, deveria obedecer… Entre faíscas e pequenas micro explosões em seus circuitos na perna direita, ele inicia sua narrativa…

- Há alguns meses, um integrante novo de nossa sociedade, ao qual batizei como Without Esteem, foi recebido por nossos socorristas assim que o recolhi à beira de um lixão quase em pedaços… Infelizmente, no dia seguinte não o encontramos dentro da Gear Cradle e cogitamos que tivesse saído por conta própria… Mas também desapareceram na mesma semana Engine Stopped e logo depois Sound Whistle… Montei uma equipe de buscas e por dias vasculhamos os territórios que ocupamos em busca de nossos irmãos… Até então não tínhamos qualquer ideia do que estava acontecendo, mas os desaparecimentos continuaram, e hoje… Infelizmente somamos cento e vinte e oito Sucatas à menos em nossa comunidade… Desaparecidos sem qualquer vestígio…

O guardião então vira-se e caminha pelo local, com calma, como se analisasse tudo, ponderando e pensando qual a melhor maneira de expressar o que tinha pra dizer… Ele aproxima-se novamente de Hurricane que entre bravatas e reclamações indagava o que ele tinha à ver com o assunto e eis que o espadachim para diante dele colocando o pé em seu peito e com tom de voz seco e imperativo apenas o observa por alguns segundos para logo em seguida sugerir, como que se contendo seu corpo e movimentos… “- Nos conte sua parte nessa história… AngryHurricane…

O androide então observa o homem à sua frente com seus olhos amarelos à observa-lo, olha ao redor observando todos que o encaravam sem entender o que acontecia, e valendo-se desse sentimento é que ele tenta resolver a situação: “- Irmãos, eu não sei do que esse homem fala… Ele é um ser vivo, entrou em nosso mundo, derrubou nosso líder e agora me pede para falar sobre coisas que desconheço… Isso é justo irmãos?

Mais um deslocar de ar, um raio risca o dia de novo e o braço esquerdo com um pedaço do ombro de Hurricane voa pelos ares… Sequer foi possível notar o saque de espada, sequer se pode ver a lâmina voltar à bainha, mas o golpe havia acontecido, e havia sido brutal… O guardião então insiste antes de mais reclamações por parte de Hurricane: “- Não irei dizer qualquer coisa além de pedir a verdade... Não te darei o prazer de alegar que estou te obrigando a dizer coisas... Quero a verdade sobre tudo isso... Quero a resposta certa, o assunto certo e você sabe qual é... Ainda temos partes de seu corpo que podem voar…

AngryHurricane então percebe a situação a qual se encontrava, ele olha para Honor que tem uma expressão de quem não acredita no que estava começando a se desvendar diante de todos... O ciborgue então tenta uma vez mais argumentar, mas antes que falasse, seu braço direito voa para cima em três partes e por final a perna também é decepada e empurrada para longe…

AngryHurricane urra de indignação e por final dá-se por vencido não vendo outra saída à não ser obedecer ao guardião uma vez que restavam-lhe tão somente cabeça e tronco do que já fora seu corpo... Em frações de segundos ele pondera sobre contar a verdade o que com certeza seria o fim de seus planos, porém antes que pudesse ponderar uma segunda opção, praticamente começou a entrar em pânico quando a ponta da espada do guardião encostava em sua testa, segurada pela mão direita do guerreiro ao cabo e a esquerda sobre o cabo, pronto para empurrar e perfurar seu crânio… A voz do guardião, fria como a neve, disparava uma vez mais… “- Não estou com paciência para mais brincadeiras Hurricane... Cinco segundos e ninguém mais vai poder te consertar de novo..."

Assustado, diante do público que se mesclava entre estar curioso, confuso e atento, inclusive o avariado ConstructHonor, AngryHurricane então em atitude impensada começa a finalmente contar o que ele sabia sobre os desaparecimentos mencionados: “- Fui eu... Por favor não me destrua... Eu fiz isso, é culpa minha eu reconheço... Eu os vendi, eu os entreguei diretamente aos compradores... Por favor não me destrua, eu só quero ter uma existência melhor, isso não é um crime... Por favor, me deixa viver...

A Gear Cradle inteira expressava o mesmo sentimento de surpresa... A moça, oculta entre os Sucatas estava impressionada com a situação… Nada disso havia sido falado, mas seu guardião percebeu tudo e estava resolvendo a situação de forma brutal como ele sempre fez e algo ainda maior e mais surpreendente estava para acontecer, ela podia sentir nos pelos de seus braços, a tensão era gigante... O Povo Sucata ainda esperava uma ideia para seguir em frente, pois seu líder tombou, um novo estava à desmembrar um irmão, mas esse irmão se declarava o próprio carrasco de seu povo…

 ConstructHonor então baixa a cabeça e completa, percebendo que seus temores eram reais… “- Descobrimos marcas que indicavam que alguém havia sido arrastado... E sempre que alguém desaparecia, novas marcas similares eram encontradas e... E em todas elas… Sempre haviam pegadas idênticas acompanhando a trilha, era fato que o mesmo ser estava carregando todos… Alguém estava carregando nossos irmãos para fora daqui e o mais triste é que... Um de nós sumia sempre que alguém desaparecia…"

O guardião ergue sua espada, gira a mesma na mão a colocando-a novamente na fronte de Hurricane, e então vocifera: “- Queremos os detalhes, AngryHurricane!

Temeroso, o ciborgue Hurricane se agarrava a um fio de esperança, de que a verdade dita em seus detalhes pudesse render-lhe algum crédito e quem sabe assim salvá-lo…“- Eles pagam bem… Eu só vendia os que estavam deteriorados já… Eram um problema pra nós e não iam ajudar em nada… Com o retorno que eu estava tendo dessas vendas, eu poderia comprar peças de reposição e melhorar a vida pra quem ficava… Fiz pensando no nosso lar, o lar dos Sucatas…

O guardião com seus olhos amarelos brilhando forte, vira para o lado, olha para o horizonte como se buscasse força para suportar a raiva que o consumia, virando-se de novo para Hurricane, quase rosnando ao perguntar: “- Agora diga… Quem são seus compradores?

O ciborgue temente pelos próximos momentos, pois sabia que essa resposta seria definitiva para sua sobrevivência, divaga e tenta achar um meio, uma resposta que o salvasse, mas os olhos do guardião irradiam-se ao máximo como que sentenciando o mesmo a falar a verdade, e ficava claro que o espadachim sabia a verdade e podia identificar a mentira caso ela viesse: “- Em tom claro e alto, para que todos o ouçam Hurricane…” Finalizava o recém nomeado líder dos Sucatas…

Sem opções e agora acreditando que talvez Honor pudesse intervir por ele, Hurricane revela a verdade fatal não tendo mais como adiar a resposta… “- Para donos de arenas… Eles são colocados dentro dela para serem destruídos das formas mais diversas para que os demais se divirtam… Eu os vendi para arenas de demolição!

O Guardião praticamente urra em fúria olhando para os céus e então a espada do mesmo se finca até o cabo na fronte de AngryHurricane atravessando a cabeça do mesmo e avançando chão à dentro, momento esse em que o guardião fica cara à cara com o ciborgue já em colapso quase completo de seus sistemas, tendo como uma de suas últimas visões, os olhos em intenso amarelo do ser que profere suas últimas palavras antes do maquiavélico Hurricane deixar de existir: “- Trair sua família, aqueles que te receberam como um irmão… Não há crueldade pior que essa!

A espada então é girada para a esquerda, depois para a direita destroçando todo o interior da caixa craniana robótica, dando fim à existência do ciborgue AngryHurricane de forma selvagem… A lâmina então é retirada com brutalidade e logo depois, com um chute potente desferido pelo espadachim, o que restou da carcaça sem qualquer vida ou energia devido o cérebro positrônico do ciborgue ter sido destruído, rolou por metros pelo chão do local…

Todo o local estava em um silêncio sepulcral… O guardião não movia um único músculo… ConstructHonor baixou a cabeça, desiludido, decepcionado, ele suspeitava, mas não quis acusar sem provas e por sua culpa, seu povo continuou desaparecendo… A jovem, que camuflada em suas vestes à tudo observava, escorria uma lágrima de seus olhos, reflexo de seus sentimentos de tristeza, revolta, surpresa, comoção… O Povo Sucata se mantinha estático, mas se via neles sentimentos se manifestando mesmo que de forma lerda, como se não conseguissem expressar tal coisa sem dificuldade…

Então passos lentos são ouvidos, e uma ciborgue, do tamanho e aparência de uma criança, fica à frente dos demais com olhos estáticos que praticamente não conseguiam definir o misto de emoções que explodia dentro da pequena autômata, muito provavelmente construída para ser amiga de alguma criança, ou a filha substituta de algum casal sem filhos, posteriormente abandonada quando não necessitavam mais de seus serviços… Com vários de seus mecanismos expostos, a pequena segurando as duas mãozinhas, olhando para o guardião pergunta: “- KindWill foi levado para ser destruído então?

O guardião olha para a pequena, baixa a cabeça como se reunisse palavras, vira-se e vai até ela agachando-se perto da ciborgue já com sua espada na bainha e, segurando as mãozinhas frias da menina, por assim se dizer, com uma feição meiga e protetora, responde calorosamente a ela: “- Não se desespere… Você pediu com todas as forças para que seu protetor KindWill voltasse em segurança não foi? Então continue acreditando, continue pedindo, suas preces serão ouvidas pequena e em breve estará com ele novamente… Acredita em mim?

A pequena sorri, e volta correndo para próximo dos outros com quem ela estava ao passo que o guardião toma o centro do lugar e conclama à todos que ouçam suas palavras: “- Há meses seu líder ConstructHonor, está tentando resolver o mistério de irmãos da sociedade de vocês que estavam desaparecendo… Minando suas buscas e seus esforços para impedir e resgatar seus amigos, estava este lixo, AngryHurricane… Banido como vocês da convivência da sociedade comum mas sem o mesmo espírito de gratidão por aquele que os reuniu e por vocês mesmos, pensou em conseguir dinheiro para reparar seu corpo e seus mecanismos, saindo daqui assim que pudesse… Usou e abusou de suas boas vontades e de suas confianças assim como de suas vidas…

O guardião caminha pela arena e então aponta para ConstructHonor, caído ao chão, continuando: “- Este líder foi quem tentou descobrir e resolver tudo, sem deixar que percebessem a tragédia que se abatia sobre vocês… Os tendo como irmãos e alguns como filhos e filhas, sofreu sozinho enquanto este lixo do Hurricane vendia vocês… Isso agora terminou e se alguém aqui simpatizou ou participou de tais ações, tem a chance de se redimir agora, trabalhando em prol do Povo Sucata assim como Honor trabalha e vive em prol de vocês…

Fazendo uma breve pausa, tendo toda e qualquer atenção voltada para si e suas palavras impactantes, o espadachim então vai até ConstructHonor e o ajuda à se levantar, ficando abaixo de seu braço direito para lhe dar sustentação, atitude essa que Honor não conseguia entender por sua vez e enquanto começavam a se mover, o guardião ciente de que o derrotado não estava à entender nada do que acontecia, cochicha: “- Eu não poderia usar com força a espada sem te despedaçar, nem poderia te derrubar de verdade pois isso não ajudaria para conquistar o respeito de seu povo… Precisei que você mesmo caísse por conta para não ser derrotado por mim... Me desculpe por sua perna…

Enquanto o ser de olhos amarelos ajudava o ex-líder do Povo Sucata à chegar novamente ao centro do local, a jovem protegida, que a tudo assistia profundamente comovida com os acontecimentos, corre em direção aos dois mesmo sem ter a mínima ideia se seria bem recebida e, segura firmemente a cintura de Honor, num esforço inútil fisicamente de fazer alguma diferença, mas que ela se sentiu impelida a fazer ainda assim... Sua ação na verdade externava seus sentimentos que não cabiam mais dentro de si assim como afeto e concordância com a postura de seu guardião e eis que chegando ao centro do lugar, uma nova surpresa esperava à todos…

O espadachim servindo como suporte ao lado de ConstructHonor, ergue o braço do gigante e brada à todos fazendo com cada ser que ali estava prestasse a atenção máxima à si e suas palavras: “- Como líder atual do Povo Sucata, minha ordem é suprema… Assim sendo, eu apresento à vocês aquele que eu julgo o mais digno dessa posição… Porque qualquer um portando uma espada e com muitas fontes de informação, pode matar ou descobrir mistérios, mas somente alguém com uma alma pura de verdade e empatia por seu próximo, pode liderar um povo incrível e único como vocês… Saúdem ConstructHonor, o verdadeiro líder do Povo Sucata! E se alguém discordar dessa ordem, hoje ou no futuro, minha espada e eu estaremos prontos para resolver tais diferenças!

Em uma manifestação que começou lenta, mas ao mesmo tempo intensa e emotiva, todos os mais de 3000 ciborgues presentes, começaram a ovacionar aquele que conheciam como líder e que agora voltava a seu lugar… Sentando o pesado ciborgue ao chão, antes que o mesmo pudesse ser encostado ao solo, as palavras surgiam da boca de Honor, tentando entender: “- Porque… Para que tudo isso?

O espadachim assim que o deixou confortável da forma que era possível, olhou para a protegida que o acompanhava e voltando a olhar para Honor, falou em tom que somente eles ouvissem… “- Eu descobri a traição de Hurricane tem tempos… Não poderia fazer nada contra ele porque sem provas até você ficaria contra minhas atitudes… Com este teatro eu pude fazer o maldito confessar tudo e provei ao seu povo e a você, que ele era o criminoso! Assim como líder, pude ser júri e carrasco executando seu julgamento e execução! Sei que sua índole meu amigo Honor, não permitiria matar um de seu povo, mesmo sendo Hurricane, então tomei seu lugar para que não carregasse esta culpa… Me desculpe pelo show bizarro, mas era o jeito de resolver tudo que estava pendente sem prejudicar você e sua gente…

O samurai se ajoelha e faz uma reverência pedindo o perdão ao robusto ciborgue enquanto Honor e a moça ficam sem ação... Era incrível perceber só então como tudo tinha sido conduzido à fazer todos chegarem à revelação e que houvesse poder de decisão nas mãos do samurai para tomar as atitudes necessárias... Aliado à isso, ainda existia uma preocupação com a honra de Honor, que fatalmente refletiria nos demais, em seus sentimentos, anseios e continuidade de sua sociedade… O espadachim então desfaz a pose de reverência e puxa de sua mochila uma caixa, uma espécie de maleta bastante espessa e tecnologicamente avançada, entregando-a nas mãos de ConstructHonor, completando sua frase final: “- Isto vai ajudar não só com sua perna, mas irá resolver o problema do seu povo se bem administrado… Tenho certeza, ninguém saberá administrar isso melhor que você!

ConstructHonor olha para a maleta recebida, sua expressão era de comoção, não por ele, não por sua perna, mas por ali estar contido praticamente a salvação de seu povo, algo que ele tanto almejava e não via meios de atingir… Como se puxasse o fôlego supremo ele berra à plenos pulmões fazendo até mesmo o espadachim e a moça se ocultarem atrás dos braços: “- IRMÃOS… PREPAREM OS HORSETECHS, QUERO OS DOIS MELHORES EM FUNCIONAMENTO PERFEITO O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL!

O Povo Sucata começou à se mover rapidamente e partiram todos para cumprir as ordens de Honor enquanto sentado ao chão, o gigante líder dos Sucata estende a mão emocionado ao guardião que responde o cumprimento e era Honor quem expressava o sentimento dos dois: “- Me desafiou para conquistar o poder para julgar Hurricane e assim me livrar da agonia de matar um dos meus… Teve a decência de não me humilhar diante de meu povo no combate, mantendo minha honra diante deles… Resolveu um mistério que estava destruindo minha paz e trouxe justiça aos injustiçados... E agora me entrega a chave da salvação para meu povo… Não tenho como agradecer nem que passe a eternidade à tentar fazê-lo… Meu amigo!

O guardião sorri levemente, se sentia satisfeito com o desfecho daquele dia e assim a noite vinha chegando e, como convidados de honra o guardião e a protegida que ainda se passava por homem, passaram a noite no local de forma agradável e tranquila! Na manhã seguinte, antes do sol nascer se colocavam em marcha agora devidamente montando um cavalo mecânico, os chamados “HorseTech”, movidos à energia solar, capaz de cruzar grandes distâncias sem precisar de qualquer reparo ou descanso…

Chegando até ao topo da colina que cercava o local da Gear Cradle, eles detém seu movimento para verificar o último evento que o guardião queria assistir… A jovem também para e fica olhando para o local tentando buscar algo e eis que então avista uma movimentação mais ao longe, como se várias pessoas estivessem chegando ao local sagrado dos Sucata… O espadachim entrega o binóculo à jovem que olhando pelo mesmo, percebe na verdade se tratar de Hoshino seguido de vários ciborgues…

Ela olha para seu guarda-costas sem entender do que se trava e este, com um semblante de tranquilidade explica… “- Quando soube dos crimes de Hurricane ele já tinha vendido três, e eu infelizmente não fui capaz de localizar em qual arena eles estavam antes de suas destruições… À partir de então monitorei seus passos e uma vez que ele entregava um ciborgue, eu interceptava o atravessador sem que ele percebesse que eu estava agindo e com isso consegui resguardar cento e vinte e cinco dos cento e vinte e oito que o maldito vendeu, os escondendo no depósito de um amigo lá no vilarejo… Quando saímos ontem, pedi à Hoshino que hoje pela manhã os conduzisse de volta ao seu lar, eles são muito amistosos e atenderam à ele desde o primeiro momento com boa receptividade… Veja…

O espadachim aponta para um local mais à esquerda onde uma pequena figura corria e se abraçava em alguém e com o binóculo a jovem pode confirmar, era a pequena ciborgue do dia anterior, abraçando-se provavelmente a seu esperado KindWill, e lágrimas fartas escorreram pelos olhos da moça ao observar a cena calorosa…

O homem de olhos amarelos então vira seu HorseTech e começa à retomar a marcha enquanto ela ainda admirava a cena incrível que acontecia no local… Questão de segundos apenas para se despedir de um local que ficou tão pouco tempo mas viveu tão fortes emoções, e então ela vira-se e acompanha seu guarda-costas contratado com algumas dúvidas ainda em mente... Arriscando já ter liberdade para tal, ela questiona: “- Quanto a maleta que entregou à ConstructHonor… Pode me explicar o que continha nela que o deixou tão feliz?

O guardião com seu “kasa” abaixado diante dos olhos sorriu e explicou: “- Nanobots… Espécie de seres microscópicos completamente tecnológicos que assim como nossas células tem a função de reparar mecanismos… Falando mais claramente são recipientes com uma espécie de pasta que se espalhada sobre um mecanismo com defeito, reconstrói o mesmo como nosso corpo faz com nossos ferimentos... Tem o suficiente ali para a perna do Honor e para restaurar o funcionamento perfeito de todo seu povo… Bem administrado como sei que ele fará, poderão viver em paz e em bom funcionamento por muito tempo…

A moça sorri finalmente, era reconfortante saber com que tipo de pessoa ela estava a viajar… As atitudes dele nem sempre tinham uma explicação nítida ou instantânea, mas era inegável que ele tivesse cometido alguma injustiça até agora… A jovem olha para trás uma vez mais e como se confirmasse as palavras do guardião, ela avista ConstructHonor, caminhando, em direção aos que chegavam… Sua atenção só foi removida da vila do Povo Sucata ao ouvir a voz de seu guia que dizia…

- Seijuro… Nishimura Seijuro é meu nome… E o seu?

Sem acreditar no que estava ouvindo, afinal ela havia feito essa pergunta tinha quase um dia de intervalo, a jovem vira-se para olhar no rosto de seu guardião e o mesmo seguia sua marcha, seu “kasa” abaixado, sem expressar qualquer outra palavra ou expressão… Um sorriso e uma esperança de que algo diferente do que abusos e escravidão poderia estar acontecendo em sua vida mesmo que por pouco tempo, estampava o rosto da jovem protegida que se anima em vencer a timidez e responde:

- Sayuri… Noguchi, Sayuri…

O guardião então sorri por debaixo de seu “kasa” e completa, satisfeito: “- Belo nome… Agora que fomos oficialmente apresentados, acho que poderemos ser bons amigos… Seja bem-vinda Sayuri! Aliás, bela atitude a sua de me ajudar a levar o grandalhão para o centro da Gear Cradle!

Sayuri sorri, principalmente por saber que com seu porte físico e altura ela não ajudou em nada, mas o reconhecimento de seu guardião, era algo muito bem-vindo, principalmente para alguém com sua história passada...

Os dois seguem por alguns segundos com os cavalos cibernéticos em passo lento, um sorriso em seus rostos e o sol a nascer à frente deles como a brindar o começo daquele novo dia, aquele novo começo... Ambos, embora não pudessem ler o pensamento um do outro, se sentiam estranhamente satisfeitos por estarem conversando, algo que não fazia parte do cotidiano de nenhum dos dois em seus dias anteriores, mas que se tornava mais comum à cada momento...

O mundo estava mudando para os dois e ambos recebiam muito bem essas mudanças em seus íntimos...

O vento ressoava pelas laterais do imenso espaço que servia de palco de reuniões do Povo Sucata, onde naquele momento um clima estranhamente tenso se desenrolava… ConstructHonor conhecia o guardião que o desafiava havia muito tempo, nunca julgou que o mesmo tomaria uma atitude similar, principalmente sabendo o referido guardião de todo o passado de Honor até o surgimento dos exilados ciborgues que ali viviam…

Ao redor da recém formada arena, se aglomeravam esses mesmos exilados, que aliás demonstravam um comportamento calmo e sereno além do natural devido suas baixas capacidades de entenderem emoções uma vez que eram ciborgues no sentido de não serem apenas máquinas, eram inteligências artificiais muito evoluídas e capazes de aprender a base dos sentimentos humanos se, uma convivência adequada tivessem ao lado dos seres vivos... O termo androide, embora fosse o mais correto pela composição 100% artificial da maioria esmagadora de todos eles, era inapropriada aos ciborgues desse nova era, que eram construídos para se tornarem humanos praticamente perfeitos nas ações e reações caso pudessem acompanhar o desenrolar dos relacionamentos dos seres aos quais eles supostamente deveriam fazer parte no dia a dia...

Esses seres, complexos e ao mesmo tempo praticamente sem vida, se observavam e tentavam entender o que estava à acontecer ao redor deles… Todos eles seguiam ConstructHonor desde o início porque ele os protegia das maldades dos vivos e os mantinha como uma sociedade isolada, para que pudessem viver sem correr o risco de serem exterminados como lixo desnecessário à sociedade, o que eram considerados nos dias de hoje… Mas agora, alguém parecia afrontar essa liderança que Honor exibia e o povo, humilde em pensamentos e atitudes, ficava a observar os dois tentando descobrir como reagir…

Do alto de sua estrutura, que o colocava mais alto que os demais para poder falar à todos durante as reuniões, Honor olhava para seu povo que ele tanto prezava ao mesmo tempo que baixava a visão e observava o guardião em pose de saque de espada, aguardando por seu movimento… O que passaria pela cabeça daquele ser pensava o líder do povo ciborgue, para estar agindo assim, afinal, pelo menos até aquele dia, se consideravam amigos… Intrigado e ainda não acreditando na cena, ele uma vez mais tenta: “- Nossa amizade vale tão pouco para você, a ponto de me tirar a única coisa que me restou velho amigo?

O guardião ao centro da arena baixa a cabeça e em tom de deboche responde: “- Pare de achar desculpas para fugir da luta e venha me enfrentar Honor!

As palavras do guardião despertam ira em ConstructHonor que, apesar de ser uma inteligência artificial implantada em pedaços de um corpo humano, tinha a capacidade de sentir emoções mais intensas que a maioria dos ciborgues e, em um ímpeto de revolta e atitude de resposta, salta de seu local de pronunciamentos, pousando pesadamente ao chão à frente do desafiante, abrindo um rombo a seus pés, tamanho o peso do ciborgue desafiado… O líder do Povo Sucata se ergue, aponta para o guardião que se mantinha imóvel e sentencia: “- Não esperava tamanha indignidade de sua parte, embora seja um vivo… Existe muito mais do que o título que me obriga a lutar por esta liderança, se prepare para ser destruído!

A moça protegida em meio aos demais ciborgues observava a tudo atenta e preocupada, começava a duvidar das intenções de seu guarda-costas... O guardião por sua vez se prepara e ConstructHonor com uma explosão de movimento se lança em carga contra o espadachim, e embora seu corpo grande e pesado, sua força era descomunal a ponto de surpreender qualquer um que observasse seu deslocamento!

O desafiante então vai se lançando para trás conforme o líder do Povo Sucata se aproximava desferindo golpes devastadores com os punhos enquanto tentava atingir o oponente; com saltos e recuos precisos, o guardião evitava os mesmos, mantinha sua espada embainhada até praticamente chegar ao final das centenas de metros que eles tinham como arena quando então em um movimento praticamente impossível de se crer ser possível executar, o espadachim saca sua espada e ataca o ombro de Honor com força e técnica perfeita! No entanto, apesar de todos acreditarem que seria um golpe preciso e poderoso que deceparia o braço mecânico do líder, ao invés disso, se viam faíscas de metal contra metal, sendo a espada embainhada novamente com extrema velocidade sem nenhum arranhão visível ao corpo do líder ConstructHonor!

Tão rápido quanto o golpe de espada foi a sequência do movimento, pois como um relâmpago o espadachim realiza um deslocamento para a esquerda com vigor, fazendo Honor apesar de seu peso bruto e do impacto que se mostrou ineficiente, girar seu corpo gigante sobre a perna direita e seguir atacando com a mesma tática de ataque sem fim, buscando não perder o espaço que acreditava ter conseguido conquistar, tentando manter seu desafiante pressionado com o ataque sem fim!

O Guardião então reinicia sua aparente estratégia e continua à recuar entre saltos, deslocamentos, recuos de passos e até mesmo acrobacias enquanto Honor segue para cima como um búfalo desenfreado, atacando com golpes de braços sem parar até que chegam à outra extremidade do palco de batalha quando novamente o guardião saca sua espada, ataca o mesmo braço que atacou anteriormente, novamente sem efeito e uma vez mais guarda a espada, se desloca para a esquerda velozmente e Honor, tentando manter o ritmo até conseguir algum resultado, buscando manter o que vinha fazendo, executando a mesma reação, detendo seu movimento com força, gira sobre a perna direita e continua seu ataque sem dar tréguas ao guardião!

A cena continua a se repetir, o Povo Sucata que não era amante de violência, assistia à tudo em silêncio e ficava a tentar entender o que viria após o combate, fosse qual fosse o resultado, o que mudaria em suas vidas… Por sua vez, AngryHurricane observava com frieza e expectativa pois torcia pela derrota de Honor afinal de contas, tomar a liderança do Povo Sucata tendo de disputar com um vivo seria muito mais fácil, a sociedade deste povo guardava muita mágoa e temor dos vivos, além de que Honor tinha prestígio coisa que um recém chegado não teria… Se Honor caísse, preparar a queda de um vivo seria muito mais fácil e ele comemorava o momento de talvez finalmente se tornar o líder que buscava ser!

A batalha pela liderança dos Sucatas continuava, os desafiantes chegavam novamente ao final da linha e o guardião uma vez mais sacava sua espada, golpeava o ombro de Honor, faíscas elevavam-se aos céus sem qualquer efeito físico ao líder robusto, e uma vez mais o espadachim veloz muda a trajetória se jogando para a esquerda velozmente, enquanto o pesado líder sem desanimar e ainda enfurecido, trava seu movimento violentamente de novo, gira sobre a perna direita e uma vez mais saindo em perseguição ao guardião que novamente tinha sua espada embainhada e continuava à recuar… “- Até seu estilo de luta mudou covarde? Vai ficar fugindo o combate inteiro milenar?

Era Honor quem esbravejava e avançava, ao passo que a moça disfarçada de homem em meio à multidão observava a luta com atenção e certo receio, afinal se seu guardião fosse derrubado, o que seria dela, pensava aflita... E apesar de não entender nada de estratégias de luta ou mesmo de lutas em si, chamava-lhe a atenção que alguém tão experiente e tão brutal em combate como ela tinha visto até então, estivesse apenas recuando e sequer conseguia atacar ConstructHonor… Intrigada e curiosa, ela cogitava em voz baixa como se fosse um pensamento escapando em palavras… “- Ele realmente planejou tudo tão mal a ponto de sequer perceber que sua espada não podia perfurar a blindagem do líder? Isso… Isso não faz sentido algum com tudo que já vi dele… O que… O que está acontecendo aqui afinal…

O fim da linha chega novamente, os olhos do guardião brilham e ele sorri… Honor chega com seu golpe mais poderoso... O guerreiro espadachim saca a espada, ataca, novamente sem surtir qualquer efeito e se desloca violentamente para a esquerda e quando ConstructHonor repete o movimento de sempre, eis o resultado da estratégia do guardião… Ao girar sobre a perna direita, perna essa que já havia executado sem parar o mesmo movimento, sob absurda movimentação e velocidade, a mesma não consegue mais suportar o peso e a pressão gigante exercida pela batalha repetidamente, vindo sob impacto sonoro assustador a se partir por completo, saltando pedaços da mesma para diversos lados, separando-se por completo do corpo do gigante, ficando fios, circuitos, processadores e sistemas hidráulicos totalmente expostos!

ConstructHonor cai por terra, arrastando-se com a força da velocidade e do ataque com que vinha em direção ao guardião, parando a dezenas de metros do desafiante, caído, sem sua perna direita, esfacelada na altura da virilha e por consequência completamente indefeso, pelo menos era assim que viam o resultado os presentes... AngryHurricane chega esboçar felicidade com o acontecido, deu-lhe prazer ver a derrocada de ConstructHonor, em sua visão agora era esperar o momento certo e destituir ou sumir com o novo líder…

O guardião então, observando a cena de Honor caído sem mais poder combater, energiza seus olhos e desaparece, aparecendo sobre o peito de Honor encostando sua espada na testa do líder Sucata, esperando que ele reconhecesse abertamente a derrota… Honor por sua vez urra em fúria e aciona todos os armamentos que possuía, disparando micro mísseis e feixes de próton que rasgaram o vazio em direção ao céus, tentando atingir o oponente com um último ataque, mas infelizmente tudo em vão, visto que o guardião novamente desapareceu, aparecendo atrás dele com a espada sobre seu pescoço, desta vez com expressão séria, esperando as palavras de Honor que ele queria ouvir… O gigante líder, visivelmente decepcionado consigo mesmo, brada em tom alto respeitando a honra que fazia parte de seu ser… “- O combate está encerrado… O Povo Sucata tem um novo líder…"

O guardião então guarda a espada e vai caminhando até o centro da arena onde com voz poderosa, abre os braços e enquanto dialogava, ia virando-se conforme era possível para analisar e observar a todos ali presentes… “- Estimado Povo Sucata… Como seu novo líder, tenho já de saída algumas exigências à serem feitas… A primeira delas é, que AngryHurricane se apresente ao centro e fique frente à frente comigo…

Todos ficam sem entender o que o espadachim estava pretendendo, a própria moça cogitava que não fazia parte da personalidade que ela conheceu, que aquele que a guarnecia fizesse tanto esforço apenas para resolver uma desavença com um ciborgue… De qualquer forma, sob os olhares curiosos de todos, principalmente de ConstructHonor, Hurricane com olhar debochado faz o ordenado, e chega até a frente do novo líder, de braços cruzados como se desdenhasse do espadachim… “- Tudo isso só pra se vingar de mim? Vocês vivos são realmente prepotentes…

Um risco então, quase como um relâmpago é pressentido mas impossível de ser visto ou sequer evitado e eis que AngryHurricane caía ao chão, sem sua perna direita, totalmente avariado soltando faíscas e esbravejando em fúria… Honor, a moça e os demais ficam espantados com a atitude gratuita e sem qualquer necessidade segundo a visão de todos, mas, ainda observam em silêncio, obedecendo as leis que regiam aquela sociedade excluída daquele mundo completamente sem empatia ou piedade… O guardião anda ao redor de um Hurricane esbravejante e brada à plenos pulmões: “- ConstructHonor… Como novo líder do Povo Sucata, ordeno que conte à todos sobre o problema que você vem tentando resolver há meses…

O ex-líder do Povo Sucata, expressando real sentimento de não entender do que se tratava, pois não havia como o guardião saber de algo tão secreto, e sem querer dar pistas que levassem o povo a perceber o problema que tinham em mãos, argumenta: “- Não sei do está falando andarilho… Realmente não sei onde quer chegar com tudo isso…

O guardião por sua vez, embainha sua espada novamente enquanto caminhava e insistia, sabendo que o honrado ciborgue apenas estava tentando manter a verdade oculta ao máximo que pudesse… “- Vamos Honor, não temos o dia todo, eu tenho uma jornada para empreitar… Conte a seu povo, a tragédia que vocês têm vivido nos últimos meses e que você tem evitado que seu povo sofra mais ainda sabendo de tal ferida em meio sua sociedade…

ConstructHonor não via mais possibilidade de esconder, estava claro que o guardião de alguma maneira sabia do que estava falando, e agora, pelas leis, ele era um subordinado ao novo líder, deveria obedecer… Entre faíscas e pequenas micro explosões em seus circuitos na perna direita, ele inicia sua narrativa…

- Há alguns meses, um integrante novo de nossa sociedade, ao qual batizei como Without Esteem, foi recebido por nossos socorristas assim que o recolhi à beira de um lixão quase em pedaços… Infelizmente, no dia seguinte não o encontramos dentro da Gear Cradle e cogitamos que tivesse saído por conta própria… Mas também desapareceram na mesma semana Engine Stopped e logo depois Sound Whistle… Montei uma equipe de buscas e por dias vasculhamos os territórios que ocupamos em busca de nossos irmãos… Até então não tínhamos qualquer ideia do que estava acontecendo, mas os desaparecimentos continuaram, e hoje… Infelizmente somamos cento e vinte e oito Sucatas à menos em nossa comunidade… Desaparecidos sem qualquer vestígio…

O guardião então vira-se e caminha pelo local, com calma, como se analisasse tudo, ponderando e pensando qual a melhor maneira de expressar o que tinha pra dizer… Ele aproxima-se novamente de Hurricane que entre bravatas e reclamações indagava o que ele tinha à ver com o assunto e eis que o espadachim para diante dele colocando o pé em seu peito e com tom de voz seco e imperativo apenas o observa por alguns segundos para logo em seguida sugerir, como que se contendo seu corpo e movimentos… “- Nos conte sua parte nessa história… AngryHurricane…

O androide então observa o homem à sua frente com seus olhos amarelos à observa-lo, olha ao redor observando todos que o encaravam sem entender o que acontecia, e valendo-se desse sentimento é que ele tenta resolver a situação: “- Irmãos, eu não sei do que esse homem fala… Ele é um ser vivo, entrou em nosso mundo, derrubou nosso líder e agora me pede para falar sobre coisas que desconheço… Isso é justo irmãos?

Mais um deslocar de ar, um raio risca o dia de novo e o braço esquerdo com um pedaço do ombro de Hurricane voa pelos ares… Sequer foi possível notar o saque de espada, sequer se pode ver a lâmina voltar à bainha, mas o golpe havia acontecido, e havia sido brutal… O guardião então insiste antes de mais reclamações por parte de Hurricane: “- Não irei dizer qualquer coisa além de pedir a verdade... Não te darei o prazer de alegar que estou te obrigando a dizer coisas... Quero a verdade sobre tudo isso... Quero a resposta certa, o assunto certo e você sabe qual é... Ainda temos partes de seu corpo que podem voar…

AngryHurricane então percebe a situação a qual se encontrava, ele olha para Honor que tem uma expressão de quem não acredita no que estava começando a se desvendar diante de todos... O ciborgue então tenta uma vez mais argumentar, mas antes que falasse, seu braço direito voa para cima em três partes e por final a perna também é decepada e empurrada para longe…

AngryHurricane urra de indignação e por final dá-se por vencido não vendo outra saída à não ser obedecer ao guardião uma vez que restavam-lhe tão somente cabeça e tronco do que já fora seu corpo... Em frações de segundos ele pondera sobre contar a verdade o que com certeza seria o fim de seus planos, porém antes que pudesse ponderar uma segunda opção, praticamente começou a entrar em pânico quando a ponta da espada do guardião encostava em sua testa, segurada pela mão direita do guerreiro ao cabo e a esquerda sobre o cabo, pronto para empurrar e perfurar seu crânio… A voz do guardião, fria como a neve, disparava uma vez mais… “- Não estou com paciência para mais brincadeiras Hurricane... Cinco segundos e ninguém mais vai poder te consertar de novo..."

Assustado, diante do público que se mesclava entre estar curioso, confuso e atento, inclusive o avariado ConstructHonor, AngryHurricane então em atitude impensada começa a finalmente contar o que ele sabia sobre os desaparecimentos mencionados: “- Fui eu... Por favor não me destrua... Eu fiz isso, é culpa minha eu reconheço... Eu os vendi, eu os entreguei diretamente aos compradores... Por favor não me destrua, eu só quero ter uma existência melhor, isso não é um crime... Por favor, me deixa viver...

A Gear Cradle inteira expressava o mesmo sentimento de surpresa... A moça, oculta entre os Sucatas estava impressionada com a situação… Nada disso havia sido falado, mas seu guardião percebeu tudo e estava resolvendo a situação de forma brutal como ele sempre fez e algo ainda maior e mais surpreendente estava para acontecer, ela podia sentir nos pelos de seus braços, a tensão era gigante... O Povo Sucata ainda esperava uma ideia para seguir em frente, pois seu líder tombou, um novo estava à desmembrar um irmão, mas esse irmão se declarava o próprio carrasco de seu povo…

 ConstructHonor então baixa a cabeça e completa, percebendo que seus temores eram reais… “- Descobrimos marcas que indicavam que alguém havia sido arrastado... E sempre que alguém desaparecia, novas marcas similares eram encontradas e... E em todas elas… Sempre haviam pegadas idênticas acompanhando a trilha, era fato que o mesmo ser estava carregando todos… Alguém estava carregando nossos irmãos para fora daqui e o mais triste é que... Um de nós sumia sempre que alguém desaparecia…"

O guardião ergue sua espada, gira a mesma na mão a colocando-a novamente na fronte de Hurricane, e então vocifera: “- Queremos os detalhes, AngryHurricane!

Temeroso, o ciborgue Hurricane se agarrava a um fio de esperança, de que a verdade dita em seus detalhes pudesse render-lhe algum crédito e quem sabe assim salvá-lo…“- Eles pagam bem… Eu só vendia os que estavam deteriorados já… Eram um problema pra nós e não iam ajudar em nada… Com o retorno que eu estava tendo dessas vendas, eu poderia comprar peças de reposição e melhorar a vida pra quem ficava… Fiz pensando no nosso lar, o lar dos Sucatas…

O guardião com seus olhos amarelos brilhando forte, vira para o lado, olha para o horizonte como se buscasse força para suportar a raiva que o consumia, virando-se de novo para Hurricane, quase rosnando ao perguntar: “- Agora diga… Quem são seus compradores?

O ciborgue temente pelos próximos momentos, pois sabia que essa resposta seria definitiva para sua sobrevivência, divaga e tenta achar um meio, uma resposta que o salvasse, mas os olhos do guardião irradiam-se ao máximo como que sentenciando o mesmo a falar a verdade, e ficava claro que o espadachim sabia a verdade e podia identificar a mentira caso ela viesse: “- Em tom claro e alto, para que todos o ouçam Hurricane…” Finalizava o recém nomeado líder dos Sucatas…

Sem opções e agora acreditando que talvez Honor pudesse intervir por ele, Hurricane revela a verdade fatal não tendo mais como adiar a resposta… “- Para donos de arenas… Eles são colocados dentro dela para serem destruídos das formas mais diversas para que os demais se divirtam… Eu os vendi para arenas de demolição!

O Guardião praticamente urra em fúria olhando para os céus e então a espada do mesmo se finca até o cabo na fronte de AngryHurricane atravessando a cabeça do mesmo e avançando chão à dentro, momento esse em que o guardião fica cara à cara com o ciborgue já em colapso quase completo de seus sistemas, tendo como uma de suas últimas visões, os olhos em intenso amarelo do ser que profere suas últimas palavras antes do maquiavélico Hurricane deixar de existir: “- Trair sua família, aqueles que te receberam como um irmão… Não há crueldade pior que essa!

A espada então é girada para a esquerda, depois para a direita destroçando todo o interior da caixa craniana robótica, dando fim à existência do ciborgue AngryHurricane de forma selvagem… A lâmina então é retirada com brutalidade e logo depois, com um chute potente desferido pelo espadachim, o que restou da carcaça sem qualquer vida ou energia devido o cérebro positrônico do ciborgue ter sido destruído, rolou por metros pelo chão do local…

Todo o local estava em um silêncio sepulcral… O guardião não movia um único músculo… ConstructHonor baixou a cabeça, desiludido, decepcionado, ele suspeitava, mas não quis acusar sem provas e por sua culpa, seu povo continuou desaparecendo… A jovem, que camuflada em suas vestes à tudo observava, escorria uma lágrima de seus olhos, reflexo de seus sentimentos de tristeza, revolta, surpresa, comoção… O Povo Sucata se mantinha estático, mas se via neles sentimentos se manifestando mesmo que de forma lerda, como se não conseguissem expressar tal coisa sem dificuldade…

Então passos lentos são ouvidos, e uma ciborgue, do tamanho e aparência de uma criança, fica à frente dos demais com olhos estáticos que praticamente não conseguiam definir o misto de emoções que explodia dentro da pequena autômata, muito provavelmente construída para ser amiga de alguma criança, ou a filha substituta de algum casal sem filhos, posteriormente abandonada quando não necessitavam mais de seus serviços… Com vários de seus mecanismos expostos, a pequena segurando as duas mãozinhas, olhando para o guardião pergunta: “- KindWill foi levado para ser destruído então?

O guardião olha para a pequena, baixa a cabeça como se reunisse palavras, vira-se e vai até ela agachando-se perto da ciborgue já com sua espada na bainha e, segurando as mãozinhas frias da menina, por assim se dizer, com uma feição meiga e protetora, responde calorosamente a ela: “- Não se desespere… Você pediu com todas as forças para que seu protetor KindWill voltasse em segurança não foi? Então continue acreditando, continue pedindo, suas preces serão ouvidas pequena e em breve estará com ele novamente… Acredita em mim?

A pequena sorri, e volta correndo para próximo dos outros com quem ela estava ao passo que o guardião toma o centro do lugar e conclama à todos que ouçam suas palavras: “- Há meses seu líder ConstructHonor, está tentando resolver o mistério de irmãos da sociedade de vocês que estavam desaparecendo… Minando suas buscas e seus esforços para impedir e resgatar seus amigos, estava este lixo, AngryHurricane… Banido como vocês da convivência da sociedade comum mas sem o mesmo espírito de gratidão por aquele que os reuniu e por vocês mesmos, pensou em conseguir dinheiro para reparar seu corpo e seus mecanismos, saindo daqui assim que pudesse… Usou e abusou de suas boas vontades e de suas confianças assim como de suas vidas…

O guardião caminha pela arena e então aponta para ConstructHonor, caído ao chão, continuando: “- Este líder foi quem tentou descobrir e resolver tudo, sem deixar que percebessem a tragédia que se abatia sobre vocês… Os tendo como irmãos e alguns como filhos e filhas, sofreu sozinho enquanto este lixo do Hurricane vendia vocês… Isso agora terminou e se alguém aqui simpatizou ou participou de tais ações, tem a chance de se redimir agora, trabalhando em prol do Povo Sucata assim como Honor trabalha e vive em prol de vocês…

Fazendo uma breve pausa, tendo toda e qualquer atenção voltada para si e suas palavras impactantes, o espadachim então vai até ConstructHonor e o ajuda à se levantar, ficando abaixo de seu braço direito para lhe dar sustentação, atitude essa que Honor não conseguia entender por sua vez e enquanto começavam a se mover, o guardião ciente de que o derrotado não estava à entender nada do que acontecia, cochicha: “- Eu não poderia usar com força a espada sem te despedaçar, nem poderia te derrubar de verdade pois isso não ajudaria para conquistar o respeito de seu povo… Precisei que você mesmo caísse por conta para não ser derrotado por mim... Me desculpe por sua perna…

Enquanto o ser de olhos amarelos ajudava o ex-líder do Povo Sucata à chegar novamente ao centro do local, a jovem protegida, que a tudo assistia profundamente comovida com os acontecimentos, corre em direção aos dois mesmo sem ter a mínima ideia se seria bem recebida e, segura firmemente a cintura de Honor, num esforço inútil fisicamente de fazer alguma diferença, mas que ela se sentiu impelida a fazer ainda assim... Sua ação na verdade externava seus sentimentos que não cabiam mais dentro de si assim como afeto e concordância com a postura de seu guardião e eis que chegando ao centro do lugar, uma nova surpresa esperava à todos…

O espadachim servindo como suporte ao lado de ConstructHonor, ergue o braço do gigante e brada à todos fazendo com cada ser que ali estava prestasse a atenção máxima à si e suas palavras: “- Como líder atual do Povo Sucata, minha ordem é suprema… Assim sendo, eu apresento à vocês aquele que eu julgo o mais digno dessa posição… Porque qualquer um portando uma espada e com muitas fontes de informação, pode matar ou descobrir mistérios, mas somente alguém com uma alma pura de verdade e empatia por seu próximo, pode liderar um povo incrível e único como vocês… Saúdem ConstructHonor, o verdadeiro líder do Povo Sucata! E se alguém discordar dessa ordem, hoje ou no futuro, minha espada e eu estaremos prontos para resolver tais diferenças!

Em uma manifestação que começou lenta, mas ao mesmo tempo intensa e emotiva, todos os mais de 3000 ciborgues presentes, começaram a ovacionar aquele que conheciam como líder e que agora voltava a seu lugar… Sentando o pesado ciborgue ao chão, antes que o mesmo pudesse ser encostado ao solo, as palavras surgiam da boca de Honor, tentando entender: “- Porque… Para que tudo isso?

O espadachim assim que o deixou confortável da forma que era possível, olhou para a protegida que o acompanhava e voltando a olhar para Honor, falou em tom que somente eles ouvissem… “- Eu descobri a traição de Hurricane tem tempos… Não poderia fazer nada contra ele porque sem provas até você ficaria contra minhas atitudes… Com este teatro eu pude fazer o maldito confessar tudo e provei ao seu povo e a você, que ele era o criminoso! Assim como líder, pude ser júri e carrasco executando seu julgamento e execução! Sei que sua índole meu amigo Honor, não permitiria matar um de seu povo, mesmo sendo Hurricane, então tomei seu lugar para que não carregasse esta culpa… Me desculpe pelo show bizarro, mas era o jeito de resolver tudo que estava pendente sem prejudicar você e sua gente…

O samurai se ajoelha e faz uma reverência pedindo o perdão ao robusto ciborgue enquanto Honor e a moça ficam sem ação... Era incrível perceber só então como tudo tinha sido conduzido à fazer todos chegarem à revelação e que houvesse poder de decisão nas mãos do samurai para tomar as atitudes necessárias... Aliado à isso, ainda existia uma preocupação com a honra de Honor, que fatalmente refletiria nos demais, em seus sentimentos, anseios e continuidade de sua sociedade… O espadachim então desfaz a pose de reverência e puxa de sua mochila uma caixa, uma espécie de maleta bastante espessa e tecnologicamente avançada, entregando-a nas mãos de ConstructHonor, completando sua frase final: “- Isto vai ajudar não só com sua perna, mas irá resolver o problema do seu povo se bem administrado… Tenho certeza, ninguém saberá administrar isso melhor que você!

ConstructHonor olha para a maleta recebida, sua expressão era de comoção, não por ele, não por sua perna, mas por ali estar contido praticamente a salvação de seu povo, algo que ele tanto almejava e não via meios de atingir… Como se puxasse o fôlego supremo ele berra à plenos pulmões fazendo até mesmo o espadachim e a moça se ocultarem atrás dos braços: “- IRMÃOS… PREPAREM OS HORSETECHS, QUERO OS DOIS MELHORES EM FUNCIONAMENTO PERFEITO O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL!

O Povo Sucata começou à se mover rapidamente e partiram todos para cumprir as ordens de Honor enquanto sentado ao chão, o gigante líder dos Sucata estende a mão emocionado ao guardião que responde o cumprimento e era Honor quem expressava o sentimento dos dois: “- Me desafiou para conquistar o poder para julgar Hurricane e assim me livrar da agonia de matar um dos meus… Teve a decência de não me humilhar diante de meu povo no combate, mantendo minha honra diante deles… Resolveu um mistério que estava destruindo minha paz e trouxe justiça aos injustiçados... E agora me entrega a chave da salvação para meu povo… Não tenho como agradecer nem que passe a eternidade à tentar fazê-lo… Meu amigo!

O guardião sorri levemente, se sentia satisfeito com o desfecho daquele dia e assim a noite vinha chegando e, como convidados de honra o guardião e a protegida que ainda se passava por homem, passaram a noite no local de forma agradável e tranquila! Na manhã seguinte, antes do sol nascer se colocavam em marcha agora devidamente montando um cavalo mecânico, os chamados “HorseTech”, movidos à energia solar, capaz de cruzar grandes distâncias sem precisar de qualquer reparo ou descanso…

Chegando até ao topo da colina que cercava o local da Gear Cradle, eles detém seu movimento para verificar o último evento que o guardião queria assistir… A jovem também para e fica olhando para o local tentando buscar algo e eis que então avista uma movimentação mais ao longe, como se várias pessoas estivessem chegando ao local sagrado dos Sucata… O espadachim entrega o binóculo à jovem que olhando pelo mesmo, percebe na verdade se tratar de Hoshino seguido de vários ciborgues…

Ela olha para seu guarda-costas sem entender do que se trava e este, com um semblante de tranquilidade explica… “- Quando soube dos crimes de Hurricane ele já tinha vendido três, e eu infelizmente não fui capaz de localizar em qual arena eles estavam antes de suas destruições… À partir de então monitorei seus passos e uma vez que ele entregava um ciborgue, eu interceptava o atravessador sem que ele percebesse que eu estava agindo e com isso consegui resguardar cento e vinte e cinco dos cento e vinte e oito que o maldito vendeu, os escondendo no depósito de um amigo lá no vilarejo… Quando saímos ontem, pedi à Hoshino que hoje pela manhã os conduzisse de volta ao seu lar, eles são muito amistosos e atenderam à ele desde o primeiro momento com boa receptividade… Veja…

O espadachim aponta para um local mais à esquerda onde uma pequena figura corria e se abraçava em alguém e com o binóculo a jovem pode confirmar, era a pequena ciborgue do dia anterior, abraçando-se provavelmente a seu esperado KindWill, e lágrimas fartas escorreram pelos olhos da moça ao observar a cena calorosa…

O homem de olhos amarelos então vira seu HorseTech e começa à retomar a marcha enquanto ela ainda admirava a cena incrível que acontecia no local… Questão de segundos apenas para se despedir de um local que ficou tão pouco tempo mas viveu tão fortes emoções, e então ela vira-se e acompanha seu guarda-costas contratado com algumas dúvidas ainda em mente... Arriscando já ter liberdade para tal, ela questiona: “- Quanto a maleta que entregou à ConstructHonor… Pode me explicar o que continha nela que o deixou tão feliz?

O guardião com seu “kasa” abaixado diante dos olhos sorriu e explicou: “- Nanobots… Espécie de seres microscópicos completamente tecnológicos que assim como nossas células tem a função de reparar mecanismos… Falando mais claramente são recipientes com uma espécie de pasta que se espalhada sobre um mecanismo com defeito, reconstrói o mesmo como nosso corpo faz com nossos ferimentos... Tem o suficiente ali para a perna do Honor e para restaurar o funcionamento perfeito de todo seu povo… Bem administrado como sei que ele fará, poderão viver em paz e em bom funcionamento por muito tempo…

A moça sorri finalmente, era reconfortante saber com que tipo de pessoa ela estava a viajar… As atitudes dele nem sempre tinham uma explicação nítida ou instantânea, mas era inegável que ele tivesse cometido alguma injustiça até agora… A jovem olha para trás uma vez mais e como se confirmasse as palavras do guardião, ela avista ConstructHonor, caminhando, em direção aos que chegavam… Sua atenção só foi removida da vila do Povo Sucata ao ouvir a voz de seu guia que dizia…

- Seijuro… Nishimura Seijuro é meu nome… E o seu?

Sem acreditar no que estava ouvindo, afinal ela havia feito essa pergunta tinha quase um dia de intervalo, a jovem vira-se para olhar no rosto de seu guardião e o mesmo seguia sua marcha, seu “kasa” abaixado, sem expressar qualquer outra palavra ou expressão… Um sorriso e uma esperança de que algo diferente do que abusos e escravidão poderia estar acontecendo em sua vida mesmo que por pouco tempo, estampava o rosto da jovem protegida que se anima em vencer a timidez e responde:

- Sayuri… Noguchi, Sayuri…

O guardião então sorri por debaixo de seu “kasa” e completa, satisfeito: “- Belo nome… Agora que fomos oficialmente apresentados, acho que poderemos ser bons amigos… Seja bem-vinda Sayuri! Aliás, bela atitude a sua de me ajudar a levar o grandalhão para o centro da Gear Cradle!

Sayuri sorri, principalmente por saber que com seu porte físico e altura ela não ajudou em nada, mas o reconhecimento de seu guardião, era algo muito bem-vindo, principalmente para alguém com sua história passada...

Os dois seguem por alguns segundos com os cavalos cibernéticos em passo lento, um sorriso em seus rostos e o sol a nascer à frente deles como a brindar o começo daquele novo dia, aquele novo começo... Ambos, embora não pudessem ler o pensamento um do outro, se sentiam estranhamente satisfeitos por estarem conversando, algo que não fazia parte do cotidiano de nenhum dos dois em seus dias anteriores, mas que se tornava mais comum à cada momento...

O mundo estava mudando para os dois e ambos recebiam muito bem essas mudanças em seus íntimos...

Continua...

terça-feira, 13 de abril de 2021

Indomável - Cap. 3 - "- Protetor e protegida!"

Os primeiros raios de sol adentravam a cabana simples mas asseada e organizada… A jovem desperta não porque havia chegado a hora ou porque algum senso a fez emergir do sono profundo que desfrutou, mas sim pelo cheiro aromático de chá que tomava conta do lugar enquanto aos poucos, seus sentidos iam dando conta de que estava a amanhecer… Ela senta-se à cama e observa o local do irori onde fora preparado seu jantar revigorante da noite passada mas não encontra seu anfitrião por lá… Virando-se de volta, sentindo-se até ligeiramente desapontada, ela aceita que apesar de mal conhecê-lo ou não saber o que esperar de tal espadachim, ela com certeza esperava vê-lo ali, à cuidar dela de longe como fez antes…

Ainda sonolenta é verdade, a jovem apanha a “kobati” repleta de chá convidativo e quente, o sorvendo com delicadeza, finalmente deixando os pensamentos que a trariam à realidade uma vez mais, fluírem… Sua chegada até aquela cidade, o resgate pelo anfitrião, a carnificina do dia anterior que normalmente não a deixaria dormir por semanas e misteriosamente, ela dormiu um sono reconfortante e recuperador que jamais havia desfrutado em toda sua vida… Observando a paisagem que começava a se formar do lado de fora com a ainda fraca iluminação do amanhecer, aguardando que algo acontecesse enquanto imaginava que no dia seguinte, iniciaria sua jornada junto ao estranho que havia salvo-lhe a vida...

Um ruído ao lado de fora da janela, no entanto chama a atenção da moça, algo como um quebrar de galho e seu coração dispara… Seriam novos soldados a serviço de seu comprador, pensava aflita, olhando ao redor e buscando por seu anfitrião, no entanto uma pequena cabeça começava a surgir pela borda da pequena abertura, cabelos espetados e bagunçados, olhos curiosos e até assustados, mas ainda assim, pareciam atentos a moça…

Os sentimentos misturam-se no coração da jovem, seria um espião, seria alguém que vivia na floresta vindo atentar contra sua vida, seria talvez um... “Yokai” talvez… Sim, ela ainda tinha convicção da existência das criaturas que até mesmo seus avós não acreditavam mais, o povo de hoje não considerava possível tais existências, mas por algum motivo ela ainda os temia…

Quase entrando em estado de pânico ela pensa em falar com o que quer que a espreitasse quando a porta dos fundos abre novamente e o anfitrião adentra por ela, sentando-se junto ao irori servindo um pouco de chá para si mesmo… A moça o observa aflita e logo olha para a janela novamente mas a misteriosa face desapareceu então de sua visão… Sem entender nada e ainda com grande temor, era a voz do homem que explicava tudo e acalmava a jovem: “- Já lhe disse para não ficar às espreitas Hoshino… Você assusta as pessoas com esse cabelo horroroso… Venha comer algo, vamos!

Os passos apressados são ouvidos ao redor da casa e então adentrando pela porta dos fundos a moça agora podia ver quem à espionava pela janela. Tratava-se de um menino maltrapilho, sujo mas parecia saudável apesar da sujeira… Ele senta-se e o anfitrião serve três porções de sopa já sabendo que ele iria devorar as três e o observa comer com vontade! O garoto fartava-se com satisfação, um sorriso estava em seu rosto e enquanto isso, o anfitrião explicava: “- Muitos mestiços vivem escondidos pelas montanhas fugindo dos destinos das cidades… Fusões entre humanos e outras raças, se tornam párias e assim, locais com seres vivendo em comunidade são mais perigosos e selvagens que as florestas! Por isso, muitos se isolam para longe das mesmas para ter alguma chance de viver… Hoshino é um desses, há muito vive quase como um eremita, sem pais ou parentes que conheça, não confia em praticamente ninguém… Por isso, eu o tornei meu pupilo e vou ensinar-lhe minhas artes secretas e em troca, ele deve vir aqui comer algo de vez em quando… É um bom acordo!

O garoto larga sua refeição, ergue-se e saca sua espada de madeira fazendo movimentos pelo ar nada convencionais ou definidos, mas em sua mente ele estava já à se tornar um grande guerreiro samurai e pela primeira vez se ouviu a risada do homem que havia acolhido aos dois desgarrados ali, Hoshino e a jovem ainda sem nome! Com um movimento único o anfitrião então se põe de pé e aconselha a moça, uma vez que os raios de sol começavam a surgir: “- Prepare-se para partirmos, começamos cedo e terminamos tarde nossas caminhadas, assim chegamos mais rápido ao destino!

A moça então se espanta, afinal ele havia dito que sairiam em dois dias, no entanto estava a pedir-lhe para saírem em minutos… Sem entender o que estava a acontecer ela pondera: “- Mas você disse que íamos partir em dois dias…” O anfitrião se detém enquanto Hoshino de boca cheia e respingando pedaços de vegetais que estava mastigando responde antes dele: “- Cê tá dormindo tem quase três dias moça, hehehehe!

A jovem então se espanta, como pode dormir tanto tempo sem acordar nenhuma vez e ainda assim não ter qualquer efeito colateral, isso era impossível… Atônita e olhando para o chão, era o anfitrião quem explicava agora: “- O chá… O oden… Todos continham ervas curativas e restauradoras bem como sedativos além claro dos alimentos necessários à sua restauração… Essa espécie de coma curou-lhe completamente e agora está em condições de viajar! Vista-se com os trajes que deixei a você ao lado e depois não esqueça de agradecer ao Hoshino, ele conhece todas as ervas da região… Ele te salvou moça!

Hoshino ria largamente com a boca suja e cheia de comida enquanto a moça com olhos lacrimejados agora, acenava levemente com a cabeça em direção ao menino, ainda surpresa com tudo que acontecera… Com emoção em sua voz ela agradece ao garoto e prepara-se para vestir-se e iniciar sua jornada, e é neste momento também que ela ouve novamente a voz de seu agora guardião: “- Hoshino… Pra fora, a moça vai se trocar… E você moça, não esqueça de se alimentar bem, teremos poucos oportunidades de comer algo saboroso e quente como agora… O oden está borbulhando sobre o “irori”, coma e quando estiver pronta, me avise!

Os dois saem pela porta e desaparecem, enquanto a moça por sua vez inicia seus preparativos e em questão de trinta minutos, embora não entendesse o porquê da vestimenta que lhe foi dada, ela estava abrindo a porta da frente para buscar pelo guardião que a levaria ao seu destino, o avistando à frente da casa com Hoshino!

Caminhando lentamente até por certo desconforto com os trajes, que inclusive possuía como cobertura no braço direito uma espécie de luva sintética altamente detalhada e que lembrava muito, para não dizer praticamente disfarçava o referido braço como se um braço robótico implantado fosse, embora não adicionasse qualquer capacidade extra ao movimento ou uso do mesmo... Divagando sobre os porquês de tais escolhas para sua vestimenta, ela vai lentamente até eles e escuta um pouco do que falavam… “- Aqui jovem pupilo samurai… Se passar por algum risco que não possa resolver, use este cartão de comunicação e quando o atenderem apenas informe que “o infinito chama” e será ajudado no que precisar! Cuide bem de tudo e prepare-se para novos golpes quando eu retornar!

Hoshino estava feliz e parecia se sentir bem ali… Avistando a jovem corre até ela e comenta: “- Vai ficar tudo bem… Ele vai cuidar de você… Ele sempre cuida da gente!” A moça acaricia os cabelos bagunçados do garoto, sorri com a felicidade contagiante do mesmo e com a mensagem otimista que lhe passara… Ela então segue em direção ao homem que a aguardava para partir e tão logo ela se aproxima, ele a acompanha e sua jornada inicia…

Estranhos um ao outro, agora seguiam juntos rumo à caminhos desconhecidos, pelo menos para ela e nenhum dos dois tinha certeza do que encontrariam por esta viagem inusitada… Alguns minutos se passam, os dois caminhavam por trilhas entre a floresta enquanto a moça ainda não entendia o porquê daquele traje esquisito, seria mais confortável naquele calor usar roupas mais leves e cômodas... Além disso, o próprio guia da moça, demonstrava em seu traje algo como luvas que cobriam desde os dedos até o cotovelo de ambos os braços, o que a deixou mais confusa ainda sobre o mesmo, seria ele um implantado e ela não havia percebido?

Conforme ela ia pensando, como se pressentisse sua pergunta mental insistente, o guardião quebra o silencio que ambos mantinham e pondera sobre… “- Mulher… Jovem… Gênesi… Muitos ficariam tentados em te levar para casa moça… Esse traje oculta seu corpo feminino, te deixa maior, a espada de madeira às costas dá ideia de que possa ser alguém que treina a arte de espadas e assim podemos com sorte, passarmos por simples viajantes e andarilhos ao invés de um guardião transportando uma espécie de troféu da era atual… Evite falar, evite denotar sua condição feminina, quanto menos seres souberem quem você é menos risco estará correndo…

A moça oculta pela manta que cobria seu rosto entende finalmente o motivo e se sente completamente idiota por sequer ter cogitado que andar livre pelo mundo atual era muito perigoso… Ao mesmo tempo ela se sentia mais protegida pois seu guardião parecia realmente entender o que fazia… Arriscando tentar conversar um pouco, ela modifica a voz e busca contato: “- Você trabalha transportando pessoas sempre?

O anfitrião se detém, fica em silêncio por alguns segundos e então sorri levemente: “- Não posso alegar que enganaria qualquer um, mas é um esforço louvável em ocultar sua voz… Agradeço o esforço,  geralmente as pessoas não seguem minhas instruções, mas com você, creio que teremos uma viagem deveras agradável senhorita!

O guardião ainda com um sorriso leve no rosto, vira-se e segue caminhando enquanto a moça, em um misto de insatisfação pelo riso mas ao mesmo tempo contente por ter feito algo que agradou ao guardião, seguiu caminhando já não cogitando que receberia uma resposta e eis que era ele quem surpreendia agora: “- Trabalho em muitas coisas, a grande maioria dos meus trabalhos não me traz orgulho ou renda… Já transportei pessoas também mas nenhuma como você… Alguns me chamam de mercenário pois aceito o trabalho se o valor compensar e for justo… O seu trabalho compensa e creio ser justo, então, aqui estamos…

A moça então segura as duas mãos como se pensasse, raciocinasse sobre tudo que havia ouvido e tentava digerir tudo e entender o que estava acontecendo ali… Eles continuam a caminhar e o silêncio se mantém como sempre foi, mas ela considera que ele tem falado bem mais do que falou em todos os dias anteriores… Então, relembrando dos dias anteriores e apostando que ele continuasse disposto à conversar, é que outra dúvida lhe vem à mente... Lembrando do bom efeito que a atitude anterior teve, ela tenta deixar a voz mais grave ainda e questiona: “- Naquela noite… Você estava trabalhando para quem então?

Embora o guardião tivesse percebido a entonação maior na voz e considerasse que estava melhorando em seu disfarce, ele nada disse sobre o assunto, mas respondeu certeiramente à pergunta: “- Digamos que, uma empreitada pessoal!”

A moça não compreende completamente, ele nada mais diz e os passos seguem por alguns segundos até que um deslocamento de ar e um rugido são ouvidos! A jovem mal consegue perceber que um urso pardo gigante a pular para cima dela, mas mais imperceptível ainda foi o que atingiu o urso o arremessando para dezenas de metros depois dela...

Ao perceber que nenhum ataque havia chegado até ela, ela abre os olhos e busca pelo acontecido, observando o guardião, diante do urso enfurecido que o observava e rosnava tentando intimidar seu oponente, mas em questão de segundos, os olhos do guerreiro brilham em intenso amarelo novamente, suas pupilas ficam fendidas e a fera, como se tivesse visto um fantasma, assume posição quadrúpede uma vez mais e sai em disparada como se tivesse sido completamente intimidada, algo que a jovem jamais havia presenciado! Os olhos do guardião voltam ao normal, ele guarda sua espada e volta em direção à moça, passando por ela e seguindo a caminhada, explicando os fatos... “- Apenas uma mãe ursa temendo por seus filhotes, não era necessário feri-la... Sobre aquela noite... O mundo de hoje é um mundo de caça e caçadores… Ou você é a caça ou você é caçador… Alguns conseguem perambular entre as duas opções mas a maioria… Sempre é a caça… E eu odeio quem caça os que não devem ser caçados… Inocentes, os desprotegidos, os mais fracos, aqueles que não podem revidar… Qualquer um que use de covardia e vantagem sobre alguém, é meu inimigo… E naquela noite… Bem, eram sete contra três e todos eles queriam morte e crueldade… Assim, eu precisava cumprir minha tarefa e limpar SkyLand de seres dessa estirpe…

A jornada da dupla prossegue calma, já estavam andando havia aproximadamente três horas e nesse tempo de caminhada conseguiram sair da área urbana a qual haviam adentrado novamente para seguir rumo ao destino traçado para aquele dia, rumo este não informado pelo guardião à moça… O homem então, alguns metros depois, observando sua contratante pondera com ela: “- Estamos caminhando há bastante tempo… Está cansada ou deseja beber água?

A moça acena negativamente sem dizer qualquer palavra e fica aguardando para continuar a caminhada, ela o seguiria onde ele fosse, por algum motivo ela faria isso sem hesitar, ela confiava nele embora não soubesse o porquê… O guardião então à observa por alguns segundos analisando seu estado físico para ter a certeza de que ela podia continuar…

Ao ter certeza, ele vira-se e segue o trajeto, em sua mente ele se perguntava frequentemente, porque queria conduzir essa moça até seu destino.... Seria pelo dinheiro? Não... Ele havia muito tempo não se importava com tais frivolidades… O que o estava movimentando então e porque a necessidade forte de proteger aquela jovem? O caminho continuava e então é novamente a moça quem quebra o silêncio: “- Em poucos dias completará uma semana que nos vimos pela primeira vez… Eu acho… E ainda não sei seu nome… Eu gostaria de ter algum nome para chamá-lo…

Enquanto aguardava uma resposta, o guardião detém o caminho e espalma a mão para trás em sinal de que a jovem detivesse seu caminho também… Seu próximo gesto é se abaixar e sinalizar que a moça faça o mesmo e se aproxime dele… A moça obedece e deitados cobertos por uma elevação do terreno observam uma antiga usina hidrelétrica sobre o antigo rio Seta, hoje com uma água pútrida e cheia de dejetos, completamente inusável, mas o fato que os fez parar, o guardião iria mostrar logo em seguida, apontando para a antiga usina: “- Observe… Sentinelas do Povo Sucata… São seres praticamente máquina exceto por alguns pedaços de carne implantados em algum momento de suas vidas e que agora não tem mais qualquer manutenção ou funcionalidade…

A moça observa curiosa com o dispositivo de visão binocular digital que ele usava para analisar o que era mostrado… Robôs era a palavra mais correta mas, como bem dito, alguns possuíam peles penduradas, cabelos ressecados e escassos, mãos, pernas e peitos que perdiam suas coberturas sintéticas e pareciam mais zumbis que seres robóticos… Ela entrega o dispositivo binocular e é indicada à seguir rastejando pelo redor para fugir da visão dos mesmos e logo em seguida estavam à caminhar novamente seguindo a rota planejada pelo guardião, buscando atingir a “Ponte Omni” para logo depois chegarem ao destino esperado, o reduto do antigo local denominado “Zenjoji”, uma fábrica de carros abandonada do tempo dos veículos movidos à combustível fóssil; com a queda dos veículos movidos por petróleo a fábrica apostou nos novos modelos, isso ainda pelos meados de 2030 para logo após se tornarem uma das mais promissoras construtoras de veículos elétricos e de sistema antigravidade… No entanto, um funcionário insatisfeito, bem antes da grande guerra, destruiu tudo com combustível fóssil e fogo e nunca mais foi reconstruído outra vez… Mas a abundância de sistemas tecnológicos e peças de reposição se tornou um local propício para uma nova “comunidade” ali se desenvolver…

Os dois chegam à “Ponte Omni”, iniciam a travessia e o guardião pede que a moça se aproxime dele e tão logo ela faz isso sem sequer questionar, ele saca sua espada e para novamente, ficando à frente dela em posição de defesa… O silêncio impera no local, a moça não avista ninguém, mas o guardião continua lá, imóvel, até que finalmente ele se pronuncia: “- Saiam e mostrem suas caras… Seus parafusos e servo motores danificados demonstram suas localizações desde antes de seu posto avançado…

Vagarosamente diversos ciborgues – ou androides, era impossível definir completamente - então, dos mais variados tipos começam à surgir das duas cabeceiras da ponte, empunhando armas energéticas e espadas eletrificadas, caminhando de forma esquisita e nada harmônica em direção à eles… O Guardião mantém sua posição enquanto a moça parecia se ocultar atrás das costas largas que o guerreiro demonstrava e esperava que ele pudesse resolver a situação como deixou transparecer que podia, em sua pose e palavras…

O espadachim de olhos amarelos então fica a observar os ciborgues à se aproximar até que eles se detém e um deles, que tinha no topo da cabeça uma espécie de arpões em tamanho reduzido que simulavam um cabelo ao estilo punk, olhos arregalados e uma expressão nada agradável, mesclada entre sadismo e maldade aponta para ele com sua espada eletrificada berrando: “- Estranhos não são bem vindos, se entrou nas terras do Povo Sucata terá de pagar pela passagem com o que eu escolher que seja o pagamento... Assim, o líder do Povo Sucata, AngryHurricane reivindica seu imposto de direito!

Enquanto o enferrujado ser gargalhava, a moça que estava quase agarrada ao guardião mal tem de tempo de assustar-se com o fato de não conseguir tocar as roupas do guerreiro espadachim que a protegia, apenas sente um leve vento como se uma lufada de ar soprasse forte ao seu lado a fazendo cobrir o rosto e logo em seguida o guardião estava de volta ao alcance de suas mãos... Foram frações de segundos mas ao olhar para o mesmo, ele agora segurava uma espada eletrificada em sua mão enquanto as demais armas e espadas da dezena de ciborgues que ali estavam, explodiam simultaneamente como se golpeadas por algo…

AngryHurricane então olha para sua mão e tanto a mão quanto sua espada não mais estavam lá, apenas curtos circuitos devido à mesma ter sido decepada e agora, eram posse daquele que estava tentando cruzar o terreno, enquanto os demais eram arremessados ou derrubados pelas explosões dos equipamentos…

Hurricane então pensa em revidar o ataque e eis que seu moicano improvisado cai ao chão, com um corte liso e perfeito e a voz do guardião uma vez mais ecoava: “- Se eu me mover de novo, os cortes serão mais próximos ao tronco… Quanto à você Hurricane, o moicano foi pela mentira… Você é apenas um ciborgue recalcado com sonhos de liderança, posto que nunca vai atingir porque pensa unicamente em você e não nos que dependem de você… Agora resigne-se a sua insignificância e me leve ao verdadeiro líder… Eu quero falar com ConstructHonor… AGORA!

O guardião então assume uma posição de ataque e espera a resposta que vem do alto da construção da cabeceira da ponte, onde uma silhueta robusta e reluzente ao sol apesar de suas cores diversas ressalva com voz imponente: “- Cessem as hostilidades… Conduzam o guardião e sua companheira até o Gear Cradle onde conversaremos… Essa é minha ordem e ela é absoluta!

Os ciborgues, com exceção do indignado Hurricane, todos sem exceção começam a se mover em direção aos dois, indicando o caminho de forma cordial, ao que o guerreiro embainha sua espada novamente e conduzindo a moça ao seu lado, segue o trajeto indicado pelos ciborgues… Ao passar por Hurricane que olha com raiva para o guardião, o mesmo replica a ele quase sussurrando: “- Já, já, apararemos nossas arestas…

O grupo segue o caminho até a antiga Zenjoji, a fábrica de veículos abandonada, área de total domínio do Povo Sucata, onde dentro do galpão principal que servia de local para discussão de ações daquele povo afastado da sociedade, esperava os visitantes o líder ConstructHonor…

Os dois são colocados diante do líder do povo máquina que observa o guardião enquanto espera que ele se pronuncie mas visto que o mesmo fica em silêncio, é Honor quem inicia o assunto: “- Faz muito tempo meu velho amigo... Porque depois de tantos anos sem dar o ar da graça, ressurge justamente para cruzar nossas terras com tanto espaço fora daqui para seguir sua viagem?

O homem que há poucos instantes havia desarmado dezenas de ciborgues sem ferir quase nenhum deles, então dá um passo à frente, faz uma reverência e explica: “- Realmente faz muito tempo Honor... Eu preciso de seus cavalos… Se existe alguém que pode colocá-los em funcionamento é você e seu povo e, pretendia chegar aqui através da diplomacia, mas alguns ainda se recusam a isso…

O guardião observa o renegado Hurricane de canto de olhos, mas Honor sequer tira os olhos do guerreiro espadachim, analisando suas palavras… Alguns segundos de silêncio e então o líder do Povo Sucata responde: “- Você surgiu diante de nosso posto avançado propositalmente para ser trazido até aqui, essa parte de sua estratégia eu compreendo, mas não consigo entender o porquê de fazer isso, se tem a total certeza de que nada do que você carrega ou tem interessa a meu povo… Seu dinheiro ou qualquer outra coisa não tem validade para nós assim como nada que venha dos vivos… Tanto humanos como implantados rechaçam suas origens e nos delegam ao desaparecimento lento e desonroso sem qualquer preocupação depois de tanto tempo de serviços prestados... Nada que tenha em sua posse pode nos agradar ou justificar a proposta que me faz e já tenho problemas de sobra com meu povo... Meus companheiros os conduzirão para fora do território em segurança, adeus milenar!

O guardião então fica em silêncio por alguns segundos, pigarreia e completa: “- Exatamente por esse motivo é que não vim até aqui com intenção de barganhar… Eu vim te desafiar para um duelo e te vencendo, assumirei o controle do Povo Sucata e terei o que preciso!

ConstructHonor então olha com firmeza para o guardião, sua expressão demonstra que ele não gostou do que ouviu, mas esse não era o maior problema… Honor apenas conseguia guiar aqueles ciborgues desolados por conta da única linguagem que entendiam, a força! Se ele perdesse para o homem que o desafiava, sua moral ficaria deturpada e muitos iriam ser prejudicados com isso… Ele não tinha muitas opções e o guardião sabia disso, ao completar: “- Sei que fugir com o rabo entre as pernas como o Hurricane você não faria e se negar o duelo, perde seu posto automaticamente… Só existe uma opção para você Honor…

O guardião saca sua espada e assume posição de combate enquanto deixa claro: “- Enquanto lutarmos, se meu protegido for tocado ou ameaçado, você perde o duelo e a vida… Estou pronto ConstructHonor…

Continua...

Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 7)

As profundezas da montanha já não pareciam pertencer ao mundo dos homens. Shimaru descia lentamente pelos corredores antigos, enquanto o eco...