domingo, 17 de maio de 2026

Ekzyliön - Caso 7 - O homem que disse não!


O corpo de Clarysse tremia sob as mãos de Khalamyr, não era de maneira alguma um tremor comum ou normal, era como se duas vontades distintas disputassem cada fibra de seu ser, como se algo, lá dentro, lutasse para romper a própria carne e emergir à força.

A pele dela parecia vibrar sob seus dedos, os olhos já não eram dela, um vermelho profundo, pulsante, instável, como brasas prestes a consumir o que ainda restava. Khalamyr cerrou os dentes, os músculos dos braços ardiam, tensionados ao limite, enquanto a mantinha contra o chão, precisando mediar entre forçar ao máximo e arriscar ferí-la, ou afrouxar a pressão e permitir que ela matasse, e o pior… Ele sentia, com clareza brutal, que estava perdendo este embate.

Ela era mais forte, muito mais forte. — Eu preciso… — a voz saiu arrastada, irregular, como se fosse moldada por duas bocas ao mesmo tempo — …provar… O corpo dela arqueou com violência, como puxado por fios invisíveis. — Eu preciso provar que isso existe! — agora mais alto, mais feroz — Que essa guerra é real!

As palavras cortaram o ar, por um instante, Khalamyr não viu mais o inimigo abaixo de si, ele conseguiu ver de novo Clarysse, e viu além, viu sua obsessão, sua vontade pura de mostrar a verdade e de desvendar um mistério que a corrói por dentro, e foi isso, que se tornou igualmente uma porta aberta… — Se eu matar… — ela virou o rosto na direção da família, os olhos consumidos por um brilho faminto — …eles vão ver… o mundo vai ver…

Então novamente a aparência mudou, o sorriso que se abriu não pertencia a ela, era largo demais, frio demais, errado em todo e qualquer sentido. — …e todos finalmente vão acreditar no que tenho dito a tanto tempo.

Então veio a outra voz, sobreposta, rasgando o espaço entre os dois como algo que não deveria existir, também feminina. — Ela tem o direito… — sussurrou, carregada de um ódio antigo — …de mostrar a verdade dela… A sombra ao redor de Clarysse ondulou, e, por um segundo talvez, Khalamyr viu, não com os olhos, mas com uma percepção mais profunda, ao invés da jovem ruiva, uma forma feminina, uma outra mulher ali estava ao chão, mas completamente “quebrada”...

Distorcida além do que a mente aceitava como possível, como se tivesse sido destruída ainda em vida e permanecesse presa nesse estado, incapaz de cessar. — Pare de tentar impedí-la… Liberte ela… — a voz sibilou, como lâmina arrastada sobre pedra — …seu opressor maldito…

Um frio percorreu Khalamyr, aquilo não era apenas uma entidade, era quase como, sofrimento coagulado, gotejando por onde passava, era a dor que apodreceu no âmago do espírito, demonstrando uma vez mais algo que ficava cada vez mais claro em sua mente. Velkur não criava, Velkur amplificava, elevava, corrompia… o que já existia.

Ele puxou Clarysse mais perto, forçando-a a encará-lo: — Isso não é você! — a voz saiu firme, mesmo sob esforço — Você não quer provar a verdade desse jeito!

Ela rosnou, um som baixo, animalesco, aterrador… — EU QUERO QUE VEJAM!

Não assim! — ele rebateu, mais próximo, mais urgente — Você quer salvar pessoas, não matar!

Então ele percebe, pequeno mas esteve ali, por micro-segundos, que fosse, um vacilo… Um mínimo, quase inexistente vacilo de fixação, mas real... Khalamyr sentiu que conseguiu de alguma forma ativar o cerne real de Clarysse e agarrou aquilo como quem segura a última tábua em meio ao naufrágio.

Clarysse! — chamou, mais baixo agora, mais próximo — Olha pra mim… Os olhos dela oscilaram, por um segundo eram os olhos dela.

Qual o nome da sua mãe? O silêncio que se seguiu pareceu expandir o mundo e a respiração dela falhou.

Qual o nome dela? — insistiu, firme como uma âncora lançada no caos.

Eu… — a voz vacilou — eu…

Qual o nome do seu pai?!

Eu sei… eu…

Por que você se tornou repórter?!

Porque eu—

A explosão veio, não de fogo, mas de força, bruta. Khalamyr foi arremessado para trás, o impacto contra a parede arrancou o ar de seus pulmões, um som seco ecoando pelo ambiente. e por um instante, tudo ficou distante, abafado, se poderia dizer irreal, mesmo na situação em que estavam….

Clarysse se ergueu, ainda lenta, mas ameaçadora, envolta em trevas que pulsavam como algo vivo, e novamente a voz distorcida se manifestou… — Ela é minha. Agora não havia disfarce, a voz era da entidade, inteira, dominante, ao passo que outra voz, grave, profunda, como o eco de algo ancestral despertando se manifestou igualmente… Era Eryon.

Ela… não tem salvação. A sentença não foi dita, foi imposta, com a imponência que lhe era natural, enquanto que Khalamyr ergueu o rosto, inicialmente sussurrando, depois mais alto e por fim ele gritou. — ... não... Não... NÃO!

A palavra rasgou o ar, não havia dúvida na fala, não havia espaço para se detectar ou perceber qualquer hesitação. — Eu vou salvar ela! Ele se levantou, mesmo com o corpo protestando, mesmo com a dor queimando em cada movimento. — Eu vou salvar todos eles e todos que eu puder! — Determinado deu um passo à frente — Eu não vou desistir, nem de Clarysse, nem de ninguém!

Clarysse já se movia, percebendo que não poderia vencer nas palavras, se tornou rápida, direta, em linha reta na direção da família. O homem - agora livre da possessão que o dominou antes - a mulher e a criança estavam imóveis, encurralados pelo próprio medo, incapazes de compreender o horror que se desenrolava diante deles.

Foi então que tudo se transformou, Khalamyr deixou de pensar, e simplesmente agiu. Nada mais de avaliar, ou hesitar, se quisesse salvar a todos, ele precisava agir, e com a velocidade que lhe permitia o corpo, se colocou entre eles, família e a repórter possuída, braços abertos, sem defesa, sem ataque, sem máscaras ou subterfúgios, apenas demonstrando o que acreditava, apenas… sendo humano.

Quer provar sua verdade?! — gritou, encarando-a — Então prova comigo!

Ela parou de súbito, a aura vibrando ao redor agitando-se… .

Não vai fazer isso com inocentes! — ele avançou meio passo — Eu não vou deixar você carregar esse estigma... Se tem de ser assim, se você não pode se controlar... Me mata então Clarysse.

O tempo pareceu prender o fôlego e todos sem exceção estavam absortos naquele único e poderoso acontecimento… .

CLARYSSE! — a voz dele carregava tudo o que ele era — ESSA NÃO É VOCÊ! ACORDA CLARYSSE!

Um tremor percorreu o corpo dela sem que mais ninguém pudesse perceber, era como se a voz de Khalamyr tivesse conseguido perfurar o mar de breu que a aprisionava….

RETOME O CONTROLE DA SUA ALMA CLARYSSE! VOCÊ É QUEM COMANDA SEU DESTINO CLARYSSE!

E então por um novo instante Khalamyr percebeu, uma fissura, muito pequena igualmente, mas era o suficiente, ele sabia. Eryon ainda apenas observava, silencioso, as decisões humanas e suas consequências não faziam parte de suas preocupações ou ações, ele caçava demônios, apenas isso, mas algo havia mudado…

Não no poder, nem eu seu pacto com Khalamyr, mas na escolha, na recusa, naquilo que Khalamyr se recusava a abandonar, e Eryon não era empático, mas ele valorizava esse dom, ele valorizava a coragem, a honra, e a atitude altruísta… .

Então, sem aviso a pressão veio, precisa, cirúrgica, o corpo de Clarysse arqueou, um grito rasgou o ar… Dor pura, Clarysse estava sendo atingida pelas chamas de Eryon, e Khalamyr percebeu o ato… — ERYON! — Khalamyr rugiu, indignado — NÃO FOI ISSO QUE— E ao fechar contato com os olhos da entidade, o jovem se deteve em sua fala, algo o impelia a não continuar e então ele olhou para Clarysse novamente… .

As trevas falharam, por um instante bem mais longo, os olhos dela novamente vacilaram, vermelho e humano colidindo no mesmo olhar, e quase que como ao lado, quase como separadas, a forma do Velkur distinguindo-se, como algo sendo arrancado à força da realidade.

Khalamyr entendeu, era o momento, era agora ou nunca, e se lançou, sem cogitar o resultado final, sem medo, apenas querendo cumprir o que disse, salvar todos. Como se tivesse se jogado ao mar, ele se lançou em corrida, ele colidiu contra Clarysse, puxando-a, tirando-a da proximidade da criatura que a obssediava e então finalmente os dois seres foram separados, de forma abrupta, de forma impensada, de forma provisória, mas eficaz…

A entidade finalmente mostrava sua forma, uma figura feminina deformada, mutilada pela própria existência, contorcida em dor e ódio, como se cada parte de si ainda gritasse por algo que jamais viria. O ar então se tornou pesado, quase impossível de se respirar em pulmões humanos. Khalamyr colocou Clarysse atrás de si, olhou para a familia acuada e para o Velkur ainda tentando se recompor uma vez que a desconexão o deixava de certa forma atordoada…

O jovem olha para Eryon, e então o olhar de um humano determinado e de uma imponente entidade se encontraram e concordaram, não havia mais dúvida ou divergência entre os dois… Agora havia apenas decisão e Khalamyr assentiu.

Eryon… — a voz firme, mesmo ofegante — Obrigado.

O silêncio durou menos que um pensamento, então o rugido, antigo, primordial, era como ouvir o som do fogo, mas não apenas fogo, era algo maior, algo que julgava. A entidade então gritou, como se tentasse ameaçar, um som que parecia rasgar o próprio tecido da realidade, desistiu das presas uma vez que ficaria exposta e apostou na única chance que julgou ter, atacar diretamente a entidade de fogo, mas não havia mais tempo para ela neste plano…

Nas mãos de Eryon surgiram esferas de fogo que pulsavam em crescimento ritmado, uma após outra, expandiam-se até se tornarem pouco maiores que suas próprias mãos. Então, ele as uniu, a massa ígnea dobrou de tamanho, uma vez, duas, três!

Com um gesto brutal, a entidade arremessou a esfera para o alto, a cerca de cinco metros do chão, e, no instante seguinte, saltou e desferiu um soco colossal contra a própria estrutura de fogo criada, fazendo a matéria incandescente rasgar o espaço entre os dois seres, atingindo o Velkur em cheio com um impacto fulminante!

Os guinchos da criatura tomaram conta do local, o fogo consumindo-o por completo em chamas vorazes, e então depois de segundos, ainda sob protestos de ter direito à libertar a jovem Clarysse - que na verdade pareceram minutos - as chamas começaram a diminuir, a matéria de trevas que permeava a criatura trevosa começou a evaporar, e em poucos instantes a mais, nada restara além do eco do impacto e dos lamentos do demônio…

O silêncio caiu então caiu sobre todos, pesado, profundo, de certa forma, apesar do ambiente de chamas, e da batalha terrível travada ali, um silêncio quase sagrado… Mas uma vez passado o terror absurdo, e a realidade tentar bater à porta de todos, iniciou-se o choro da criança, o desespero contido da mulher, o homem colapsado, sem compreender o que havia acontecido...

E Khalamyr… Ainda arfando, exausto, ainda apoiando Clarysse que caiu de joelhos, a respiração irregular, a observar sorridente os olhos… finalmente dela. Carregados, assustados, fragmentados e confusos, mas eram dela… Ela ergueu o olhar, encontrou o dele, como quem retorna de um lugar que não deveria existir. — …Khalamyr…?

A voz era um fio, frágil, mas real, e, pela primeira vez desde o início…O silêncio que se fez agora, não era uma ameaça e na mente do jovem Khalamyr, uma inspiração era compartilhada com Eryon, com grande satisfação: “- Eles podem ser impedidos…

Se fosse possível, se poderia dizer que Eryon quase sorriu e então, a dimensão que ocupavam agora começa a se desfazer, e uma vez mais eles surgem dentro da casa da família que havia sido obssediada inicialmente… O “voltar para casa” causou um mínimo de alívio diante do terror que viveram e permitiu que eles buscassem explicações, olhando diretamente para o único que parecia lúcido ou capaz de responder algo, o jovem Khalamyr…

O ar ainda parecia pesado, de certa forma, como se algo invisível tivesse sido arrancado à força do ambiente, mas deixado marcas… não nas paredes, não no chão… nas pessoas.

A mulher estava encolhida no canto da sala, abraçando a filha com força quase desesperada, como se temesse que, ao soltá-la, algo voltasse para ameaçá-la. A menina chorava baixo agora, soluços intermitentes, já sem forças para gritar.

O homem… estava sentado no chão, o rifle largado a alguns metros, esquecido, s mãos tremiam… — Eu… — a voz falhou. — Eu não… lembro… Ele olhava ao redor como um estranho dentro da própria casa, e então seus olhos encontraram a esposa, e ali veio o golpe real.

Eu fiz isso? A mulher não respondeu, não por raiva, mas porque não sabia como responder. Khalamyr estava de pé, entre eles e o que restava do caos, respirava fundo, tentando organizar não só o próprio corpo… mas os pensamentos, e o que diria a todos... Porque agora, não era luta, era a consequência da luta...

Atrás dele, Clarysse, de pé, apoiada, mas mentalmente, de certa forma, distante. Os olhos fixos no vazio, as mãos levemente trêmulas. “Eu ia… matar eles…” O pensamento não vinha como frase completa, vinha em fragmentos, sensações, terríveis sensações, e certeza da intenção, da vontade, do impulso. Ainda pior que isso… a justificativa. “Eles vão ver… o mundo vai ver…

Ela engoliu seco, o estômago revirou, deu um passo para trás, como se quisesse sair do próprio corpo, mas não havia para onde ir, não em sua mente ou seu íntimo… Khalamyr percebeu, mas não podia priorizar ela, ainda não. Ele se voltou para a família, e então, buscando o melhor que pode encontrar em si, falou, sem grandiosidade, sem mistério, sem fantasia, apenas firme, para que tivesse crédito…

Escutem… A mulher ergueu o olhar, ainda em choque, o homem mal conseguia sustentar o próprio peso emocional. — O que aconteceu aqui… — ele fez uma breve pausa — …foi um colapso.

O homem franziu o cenho, confuso: — Eu não sou louco…

Eu não disse que é. Khalamyr respondeu sem dureza, mas sem recuar. — Mas algo em você… cedeu.

Então se fez silêncio, a menina parou de chorar por um segundo, como se tentasse entender, assim como a mãe em choque e a própria Clarysse…

Pressão… medo… preocupação… — continuou Khalamyr — …às vezes a mente não aguenta. E quando isso acontece… ela cria respostas perigosas. Ele olhou diretamente para o homem. — Você lembra de algo que te consumia?

A pergunta não foi acusatória, foi precisa, foi investigativa e sincera… O homem respirou fundo… tentou puxar algo da memória e então os olhos vacilaram. — Eu… eu estava sendo investigado… — murmurou. — Injustamente, sou inocente mas mesmo assim, iria perder o cargo… minha família ia sofrer… tudo que eu lutei pra construir… A voz quebrou.

Eu não contei pra elas, não as queria preocupar… A mulher fechou os olhos, sentindo o peso daquilo, e Khalamyr assentiu lentamente.

Isso não começou hoje. Ele então olhou para a mulher, seus olhos exalavam compreensão, tentava genuinamente ajudá-los — E você?

Ela demorou um pouco, mas respondeu. — Eu achei que ele estava… escondendo algo pior… — a voz saiu quase num sussurro. — Eu estava com medo dele… fazia dias… A menina apertou mais o abraço nela.

Khalamyr respirou fundo, estava ali, não como desculpa, mas como origem.— O que vocês viveram aqui… foi real. Os três olharam para ele, essa frase não era esperada. — Mas não da forma que parece. Ele se aproximou um pouco mais, sem invadir demais o espaço de quem sequer o conhecia.

O mundo… é maior do que a gente entende. Mas essas coisas… — ele fez um leve gesto com a mão, indicando o ambiente — …não aparecem do nada. A voz dele ficou mais firme, mais empática, mais próxima… — Elas precisam de espaço. Uma nova pausa impôs um silêncio reflexivo, e ele continuou…

E esse espaço… — ele olhou entre os três — …é quando algo dentro da gente domina...Medo. Culpa. Desespero. Obsessão. Clarysse fechou os olhos ao ouvir a última palavra.

Quando isso cresce sem controle… — continuou Khalamyr — …a mente perde o limite entre o que é interno… e o que é externo. Ele não estava mentindo, mas também tinha o cuidado absoluto, em não dizer tudo.

— Vocês não são monstros. Disse, com firmeza, olhando para cara um deles, especialmente para o homem… — Vocês são pessoas que chegaram ao limite e não conseguiram voltar sozinhos… O homem começou a chorar, silencioso, quebrado…

E isso pode acontecer com qualquer um… Olhando com expressão consoladora para todos eles… A mulher então respirou fundo, ainda tremendo. — Aquilo… — ela hesitou — …aquela… coisa… Khalamyr não deixou ela terminar, não era necessário reviver aquelas imagens e cenas….

Foi a forma que tudo isso tomou. Ele manteve o olhar firme. — Mas acabou. A palavra caiu como uma âncora. — E só volta… se vocês deixarem algo assim crescer de novo. A menina agora olhava diretamente para ele.

Vai voltar?

A pergunta atravessou tudo, Khalamyr se abaixou, ficando na altura dela, suavizou a voz como lhe foi possivel e determinadamente disse: — Não… se vocês cuidarem do que sentem. E todos novamente ficaram em silêncio, se olhando, mas principalmente olhando para si mesmos… Processando todas aqueles informações jamais sonhadas em serem ouvidas.

A gente não pode controlar tudo que acontece… — ele continuou — …mas pode escolher não deixar as vontades erradas nos dominar, é a nossa maior força, nosso maior poder. E cerrou o punho diante do rosto, olhando para a menina, como se fosse um super-herói executando grande feito, ao passo que a menina assentiu devagar.

A mulher apertou os olhos, segurando as lágrimas, o homem não conseguia levantar o olhar, e Khalamyr então se ergueu novamente. — Procurem ajuda. Foi direto, era a única coisa que poderia ser feito naquele momento… — Conversem. Não escondam. Não carreguem tudo sozinhos com vocês mesmos...

Ele fez então uma pausa, como que procurando as melhores palavras, mas sem ser falso ou enganoso, ele queria que aquela família tivesse a chance de continuar a viver uma vida, mais próxima do normal, apesar do acontecimento… — O que aconteceu aqui… pode ser explicado, e definido que nunca mais aconteça, exatamente assim...

E era ali que ele fechava, não como manipulação, mas como direção. — E é assim que vocês vão superar isso. E novamente o ensurdecedor silêncio, pesado, mas possível.

Atrás dele, Clarysse finalmente se moveu, um passo, a respiração irregular, os olhos marejados… Ela olhou para a menina, depois para a mulher, depois para o homem… E então olhou para as próprias mãos… “Eu quase…” Ela não terminou o pensamento, não conseguia...

Khalamyr olhou de relance para ela, dessa vez, havia algo novo, não uma vitória, mas um entendimento profundo, provavelmente de todos eles, mas principalmente para ele, algo que destravou no jovem um entendimento profundo… Ele não podia apagar o que aconteceu, não podia proteger ninguém da verdade completa, isso era impossível visto o livre arbítrio de cada um...

Mas podia - e iria sem dúvidas - reduzir o dano, desfazer as obsessões e encontrar a origem de tudo isso, antes que a tal porta fosse aberta…

Clarysse abraçou a si mesma, em silêncio, pela primeira vez, não como jornalista, não como investigadora, mas como alguém que agora sabia… A guerra estava acontecendo, e não havia retorno desse conhecimento…

Ao fim, tanto a família como Clarysse podiam interpretar que o silêncio atual e a falta de explicações para tudo, não era paz, era somente a ausência de respostas realistas ou materialistas, mas ainda assim, esse silêncio, essa dúvida, permitia seguir vivendo.

Khalamyr então gesticulou com a cabeça para Clarysse, ele sabia que ela estava em choque, mas era mais capaz de assimilar e se manter ativa, agora que fora separada do parasita espiritual, e compreendendo o gesto do jovem, eles saíram da casa sem alarde, como sombras atravessando um cenário que já não lhes pertencia mais.

Khalamyr foi o primeiro a cruzar a porta, parou por um breve instante no limiar, olhando para trás. O homem permanecia sentado, perdido em si mesmo; a mulher ainda abraçava a filha com força, como se o mundo pudesse tentar arrancá-la de novo a qualquer segundo... Não havia mais gritos… mas também não havia normalidade, eles nunca mais veriam a vida com os mesmos olhos e não havia nada mais que pudesse ser feito agora para reverter tal fato…

Clarysse veio logo atrás, o ar do lado de fora bateu no rosto dela como um choque leve, não exatamente fresco, não exatamente reconfortante, apenas real, e aquilo já valia muito naquele momento

A cena na rua parecia quase ofensiva de tão comum. Policiais dispersos, postura relaxada, fita de isolamento frouxa, um deles encostado na viatura, outro mexendo no celular, o terceiro olhando para lugar nenhum.

Eu sempre digo… — comentou um, com um bocejo mal disfarçado. — briga de marido e mulher, ninguém mete a colher… daqui a pouco tão se acertando lá dentro e a gente aqui, de plantão.

Pois é — respondeu o outro, sem nem tirar os olhos da tela. — mas pelo menos rola a hora extra, já tá valendo. Nenhum deles olhou de verdade para Khalamyr e Clarysse, nenhum perguntou nada, sequer questionou ou se importou, de onde poderiam estar vindo aqueles civis… Por algum motivo, aos olhos dos dois aquilo era quase tão inaceitável quanto o que viram havia poucos instantes…

Eles passaram pela fita, pela calçada, pela rua que seguia viva, indiferente, o mundo não tinha parado, mas, para Clarysse… ele definitivamente tinha saído do eixo. Caminharam alguns metros em silêncio, o som da cidade voltava aos poucos, um carro passando, alguém rindo ao longe, o rangido de um portão, mas tudo parecia… distante. Como se estivesse acontecendo atrás de um vidro grosso.

Khalamyr diminuiu o passo… — Como você está? A pergunta foi simples, direta, mas Clarysse não conseguiu respondeu de imediato… Ela continuou andando por mais dois passos antes de parar levemente, passando a mão pelo cabelo de forma automática, como se estivesse tentando se ancorar em um gesto comum.

Eu… — começou, e travou, logo, um pequeno riso escapou, curto, sem humor. — Eu não sei. Ela balançou a cabeça, como quem tenta organizar algo que ainda não tem forma. — Tipo… — respirou fundo — eu sei que aconteceu… eu lembro… mas ao mesmo tempo parece absurdo demais pra ser real.

Os olhos dela correram pela rua, como se procurassem alguma confirmação de normalidade. — A gente entrou numa casa… e… — ela engoliu seco, a voz baixando — aquilo não era só uma casa. E então fez um silêncio breve, que foi seguido por Khalamyr, ele queria ouvir dela como havia enfrentado toda aquela situação….

Eu vi coisas que… não fazem sentido. — ela franziu levemente a testa — E o pior é que… não parecia um sonho. Não tinha nada de “distante”… eu estava lá.

Ela olhou para as próprias mãos por um instante. — E eu… — a voz falhou por meio segundo — eu quase… A frase não terminou, ela não conseguiu, e respirou fundo de novo, mais controlada dessa vez.

Eu queria. — disse, por fim, mais baixo — Não era só como algo me empurrando… eu queria fazer aquilo. O olhar dela subiu rápido para Khalamyr, como se precisasse deixar aquilo claro.

E isso é o que mais me deixa… — ela hesitou, procurando a palavra — confusa. Não havia pânico em suas palavras, mas havia impacto, um poderoso e expressivo impacto de como a experiência fora forte… .

Porque eu sempre achei que essas coisas… — ela gesticulou de leve, vaga — eram histórias… teorias… coisas que a gente investiga, escreve, questiona… mas no fundo… — ela soltou um pequeno sopro — ainda fica com um pé atrás.

Fez um novo silêncio, Khalamyr respeitou e aguardou, e Clarisse continuou… — Agora não dá mais pra ficar com dúvidas... Ela então desviou o olhar, passando a mão no rosto. — Só que também não dá pra simplesmente dizer que tá tudo bem e que entendi tudo que aconteceu, eu estou… Sem compreender nada mais…

Os passos voltaram, a ficar mais lentos, um acompanhava o outro em uma sincronia natural, e Clarysse continou: — Então… sei lá… — murmurou — eu acho que eu tô no meio do caminho entre “o que foi isso, pelo amor de Deus” e “ok… eu vou ter que lidar com isso em algum momento”.

Um pequeno sorriso surgiu, cansado, quase irônico, como se tentasse justificar ter se apresentado como alguém que amava e buscava o sobrenatural e agora que o encontrou, não sabia lidar com a verdade… — Não é exatamente o tipo de pauta que ensinam na faculdade, como reagir quando descobre que tudo que sempre foi apontado como mentira... É verdade...

Khalamyr a observava em silêncio, mas de certa forma mais tranquilo… Ela não estava negando, não estava desmoronando, mas ainda assim, foi muita coisa acontecendo ao mesmo tempo para ela… Clarysse então soltou o ar devagar, como se finalmente aceitasse não ter respostas imediatas e concluiu: — Eu só sei que… — disse, mais firme agora — aquilo foi real demais pra ignorar… e estranho demais pra entender rápido. E ela olhou para Khalamyr de novo….

Mais alguns passos, o barulho da cidade já parecia um pouco mais próximo, Khalamyr assentiu de leve, e então parou, virou-se para ela, o olhar agora mais sério, mais direto, e completamente decidido… .

Clarysse… Eu te fiz uma promessa. Mas depois do que você viu… não dá mais pra fingir que isso pode esperar… Nós precisamos conversar!

Continua...

Galeria de Imagens

O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:

O jovem anfitrião e protagonista da saga:

A moça "desastrada" do café, agora definida, repórter dedicada à histórias "estranhas":


A família que os Velkur utilizaram como reféns nesse episódio:

O local, denominado pela entidade como Érebus:

O terrível e agonizante Velkur a possuir e controlar a jovem Clarysse:

Eryon - A poderosa entidade ígnea destruidora de Velkur em sua magnitude:


Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys


Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?

Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu

Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Um comentário:

  1. Um capístulo excelente onde não se fez necessário um combate físico, onde tudo foi resolvido em meio à empatia do protagonista, onde resulta sua verdadeira força.
    A emoção envolvida na tentativa de livrar a Clarysse, até mesmo chegando ao extremo de oferecer a prórpia vida, foi uma sequencia muito bem escrita que, se feita por alguém menos habilioso, poderia descambar para puro e chato melodrama, mas aqui teve o efeito contrário.
    Muito bom tbm a lição dada à família, a ameaça está ali, rondando, mas se eles conseguirem fortalecer, não apenas a si próprios ocmo indivíduos, mas também como casal e família pode se blindar contra as forças corruptoras. Novamente toda uma sequencia que poderia descambar em um drama mexicano, mas que foi conduzido perfeitamente.
    E o final já deixa claro que podemos ter um outro capítulo repleto de revelações, onde, outra vez, quem sabe, a ação fique em segundo plano.
    Um título incrível cara. Parabéns.

    ResponderExcluir

Ekzyliön - Caso 7 - O homem que disse não!

O corpo de Clarysse tremia sob as mãos de Khalamyr, não era de maneira alguma um tremor comum ou normal, era como se duas vontades distintas...