domingo, 10 de maio de 2026

Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 6)


A descida após a queda de Gansekikiba não trouxe alívio, mas trouxe silêncio, um silêncio diferente, não era algo vazio, mas era incrivelmente… vivo. Shimaru sentia o que considerava um absurdo, mas estava ali, um silêncio que parecia o observar e o analisar a cada segundo, revisando seus pensamentos, revisando suas atitudes, seus instintos, seus sentimentos…

As palavras do Gansekikiba haviam pesado fundo em sua alma, tudo que ele havia conquistado poderia ser perdido em um estalar de dedos, ou em uma emoção não controlada… Embora não devesse se deter ou ponderar além, deveria estar sempre vigilante, ou seu destino seria o mesmo dos demais… Um monstro humano de Mantor!

Enquanto debatia com seu cerne, o caminho se estreitava à medida que Shimaru avançava, a rocha deixava de ser apenas pedra e assumia formas irregulares, como se tivesse sido marcada por algo que caminhava ali há muito tempo. O ar estava mais frio, não o frio natural das profundezas, mas um frio seco, que parecia tocar os ossos antes da pele.

- Um novo monstro humano deve surgir logo, este local não tem nada de natural… Como que em resposta ao sussurro do samurai, a luz apareceu… Frestas no teto da caverna permitiam que feixes pálidos atravessassem a escuridão, criando colunas de luz interrompidas por sombras longas e distorcidas.

A luz não era do sol, Shimaru tinha certeza, havia descido muito na montanha, mas ainda assim, era como se o sol e o céu aberto estivesse logo acima dele… O chão era irregular, composto por pedra negra… e ossos. Muitos ossos. Antigos, quebrados, alguns marcados por dentes e outros… por lâminas.

Shimaru parou, seu olhar percorreu o ambiente com calma, mas seu corpo já sabia antes de sua mente aceitar: Ele havia entrado em um território de caça.

O vento não soprava ali, mas era possível sentir que algo respirava ali… Lento, próximo. De repente, um som leve, quase imperceptível, mas não para Shimaru… Atrás, o samurai virou rapidamente, mas já era tarde demais.

Um corte rasgou suas vestes e cortou suas costas, nada profundo, mas muito doloroso, talvez algum veneno, e embora fosse rápido, limpo e preciso, o guerreiro sabia que não havia sido uma lâmina, principalmente por conta do efeito do golpe… O impacto o fez avançar um passo para trás, o sangue escorreu levemente sob a roupa, o cheiro metálico subindo no ar…

Um novo movimento, Shimaru girou o corpo, a lâmina do irmão, como um relâmpago, já fora da bainha pronta para o ataque ou defesa, porém desta feita… Nada. Apenas as sombras que pareciam ter vida e se mover como se um ponto de luz mudasse de lugar dentro do ambiente…

Novamente então o eco de algo se movendo, um rosnado baixo que incrivelmente Shimaru não sabia definir, sequer se vinha de longe ou de perto, da esquerda ou da direita, os sentidos do samurai pareciam não conseguir captar informações corretas o deixando completamente desorientado… .

Você anda… pesado demais para alguém que quer viver… A voz veio de todos os lados, arrastada mas intimidadora… Parecia soar como diversão pronunciar tais palavras ou mesmo sentir a desorientação do samurai… Shimaru ajustou a postura, os olhos atentos, o corpo mais baixo, sua respiração desacelerou à força, o instinto gritava para reagir, para avançar, para caçar… Mas não havia alvo.

Outro som, desta vez ele conseguiu focar… — À esquerda! E Shimaru atacou, a lâmina desenhou o arco luminoso e mortal, mas cortou apenas o vazio, e então, um novo golpe veio da direita, um novo ferimento, desta feita na lateral do abdômen, mais profundo, mas ainda não era mortal, quem quer que fosse o caçador, estava a brincar com sua presa, era visível, e isso desconcertava profundamente o samurai…

Shimaru recuou uma vez mais, o pé escorregando levemente sobre um fragmento de osso, buscando firmar base ao solo, procurando entender o que acontecia, como acontecia, e a quem estava enfrentando, sem ainda conseguir sentir o ritmo da luta…

- Reage bem… ataca com vontade… gira e se movimenta como um bom guerreiro… — a voz riu, agora mais próxima — …mas sempre atrasado demais. Uma sombra então se moveu entre dois feixes de luz, por um instante Shimaru viu… Os olhos baixos, o olhar fixo, e então novamente desapareceu…

— Você não está lutando contra um inimigo… — a voz agora era quase um sussurro atrás de seu ouvido, causando uma reação e um golpe instantâneo, acertando o nada outra vez, e então em outra posição e mais longe, a voz completa — …está sendo caçado humano.

Um impacto poderoso nas costas, Shimaru caiu de joelhos, instintivamente rolou pelo chão buscando sair da linha de ataque e encontrou rochas para recostar-se, buscando abrigo… A dor subiu pela coluna, mas ele não gritou, apenas respirou, fundo, tentando manter o controle enquanto o sangue agora já manchava suas vestes...

O Leão se agitou em seu íntimo, forte, violento, querendo espaço para agir e resolver e, por um instante, a ideia pareceu a melhor saída, transformar-se, não hesitar, precisava sobreviver, acabar com aquilo, mas algo o incomodava naquela ideia e ele não conseguia definir o que… Era como um instinto, um alerta silencioso que ele mesmo enviava mas não conseguia descobrir…

O Leão novamente se fazia sentir, cada vez mais pronto a combater e por um instante, Shimaru quase cedeu, bastaria um pensamento, um desembainhar da kodachi e tudo aquilo terminaria, com força bruta frente ao caçador… Foi então que o riso veio, baixo, próximo demais, debochado… — Eu quero uma caçada Shimaru… — sussurrou a voz, quase insatisfeita — …chame o Leão e estragará minha diversão...

O ar pareceu se contrair, porque o inimigo diria aquilo? A única opção era um blefe tentando impedir Shimaru de vencer, pensava o samurai, e a voz continuou… — Eu conheço o cheiro dele… — continuou a criatura, agora circulando lentamente, invisível — ...conheço o peso dos passos… o tempo entre ataque e impulso…Se chamar o leão, a caçada termina, e você morre… Me deixe divertir meu cerne Shimaru, me deixe caça-lo enquanto ainda tem surpresas à me mostrar…

Um som leve à esquerda, o samurai se volta, nada. — A fera dentro de você é poderosa… — a voz veio agora de trás — …mas não é única, não ache que uma mera transformação o salva… Shimaru permaneceu imóvel, seu coração acelerava, estaria o ser mentindo ou aquela lógica era por demais viável para parecer verdade… Sua mente começou a clarear, havia sentido na lógica, era sua primeira vez naquele ambiente, já o leão, quantas vezes teria por ali passado… .

Predadores são iguais… — o ser agora rosnou, quase divertido — ...atacam quando sentem vantagem… avançam quando sentem sangue… expõem tudo… no primeiro impulso. Um novo deslocamento de ar, mais próximo. — Se você se tornar o Leão… — a voz agora vinha de todos os lados — … você morrerá igualmente, mas nessa forma... Só me dará mais vantagens, sua força não é obstáculo para minha visão…

Silêncio absurdo a ponto de Shimaru ouvir seu coração batendo… O entendimento veio como um corte limpo, não era sobre força ou resistência, era sobre leitura, a fusão dos sentidos guiados pela visão de emanação carmesim que ele vira no início, como um perfeito predador, quanto mais conhecimento, mais letal o caçador se torna…

Se ele se transformasse agora…não estaria se tornando mais forte no sentido absoluto, estaria entrando no território do inimigo, jogando unicamente sob as regras dele, instinto contra instinto, predador contra predador. E o que quer que fosse o caçador, ele já vivia naquele jogo. Shimaru chegara agora.

Shimaru fechou então os olhos, respirou, buscou memórias e conhecimentos que o ajudassem, era o homem contra o monstro, o leão rugiu novamente diante daquela decisão íntima do samurai, exigindo espaço, mas a vontade de Shimaru o conteve… — Ainda não… — pensou, firme.

O rugido então se retraiu, não derrotado, mas conformado, aguardando sua vez de caçar… O sangue ainda escorria pelas costas de Shimaru quando o silêncio voltou a dominar a caverna, não um silêncio vazio, mas um silêncio que o pressionava, que o media, que aguardava o próximo erro.

Ele não se moveu, não dessa vez, os olhos permaneceram fechados, os sentidos mais do que atentos, mas a mente já não estava mais ali, pois algo antigo se ergueu dentro dele, uma memória quase perdida, considerada sem importância, não uma memória de batalha, mas sim de sobrevivência.

Ele era pequeno, a floresta parecia maior do que o mundo, as árvores subiam como colunas infinitas, filtrando a luz do sol em feixes dourados que dançavam com o vento. O cheiro da terra era vivo, úmido, cheio de vida… e de algo mais. Algo errado e ele percebera tarde demais…

O som veio primeiro, um galho partindo, pesado, lento, não era um cervo, não era somernte o vento também, era uma presença… O coração do pequeno Shimaru disparou, mas algo como uma voz, um ensinamento antigo, talvez do próprio irmão ou dos pais falecidos, ecoou em sua mente: “Se correr… você morre.

Ele parou completamente, até seu medo, precisou parar com ele, respirou curto, lento e então soltou o ar… quase sem som, fazendo o corpo entender que não deveria lutar ou fugir. Parecia contraditório mas naquele momento, era sua salvação pois o predador o triangulava, e ele não era forte o suficiente…

O som voltou, mais perto, a vegetação se moveu, pesada, algo grande atravessava a mata… não procurando… pois ele parecia saber onde estava indo… Os olhos de Shimaru se moveram primeiro, não o corpo, não ainda, até que encontrou a árvore perfeita, alta, casca irregular, galhos densos, folhas em abundância...

Ele não pensou, apenas agiu, devagar, cada passo calculado, o pé tocava o chão antes de assumir o peso, os dedos buscavam apoio antes do movimento. Nenhum galho quebrado, nenhuma folha deslocada além do necessário e então o silêncio, não como ausência de som, mas como uma escolha.

Ele alcançou o tronco, escalou como se não existisse corpo físico, em silêncio completo e só então depois de alguns metros, ele parou, e finalmente ouviu. Respiração controlada, o corpo colado à árvore como se fizesse parte dela, e logo a fera passou abaixo… Shimaru não viu a criatura completamente, mas ele o sentiu, era como se pudesse definir peso, cheiro, calor, um predador real havia ali passado…

Os olhos de Shimaru não desceram para encará-lo, não era necessário uma confirmação, era necessário apenas, a sobrevivência. Como em uma resposta, o vento mudou, o jovem ajustou o corpo, girou levemente no tronco e usou a própria árvore como escudo.

Finalmente Shimaru via a fera, um felino de grande porte, a fera deteve seu movimento e por um instante que pareceu eterno, o coração de Shimaru tentou trair o silêncio. Ele se conteve, respirou mais lento, mais baixo, mais profundo, a criatura farejou o ar, moveu a cabeça, um passo, outro, hesitou e então… seguiu. Desapareceu entre as árvores como se nunca tivesse existido.

E o jovem Shimaru? Sequer desceu da árvore, não imediatamente, ele esperou, e esperou mais, muito mais do que achava necessário, até que a floresta voltasse a respirar normalmente, e só então, ele se moveu.

A memória então se desfez, Shimaru abriu os olhos na escuridão da caverna. O sangue ainda escorria, a dor ainda pulsava, constante, insistente, mas agora havia clareza. A chave estava ali… nos olhos, tanto nos dele quanto nos do predador.

Sem a confirmação visual, ele hesita… — murmurou para si, em pensamento firme. — Sem confirmar o movimento, ele fraqueja… O raciocínio se fechava como uma lâmina sendo embainhada. O silêncio… a sombra como escudo… a audição como guia, enquanto o predador acreditava que Shimaru ainda buscava resolver pela força, como fez antes... — Então… eu inverterei a caçada. Shimaru compreendeu.

O breve brilho carmesim surgiu por detrás de uma rocha, o samurai fechou os olhos. Não por medo, mas por escolha era sua estratégia de combate... Preparou-se, movimentos mínimos, respiração controlada, nenhuma dependência dos olhos, apenas o instinto humano e guerreiro de sobrevivência, tentando mimetizar um predador na selva, afinal ele entendia agora, aquilo não era uma luta, nunca foi, era pura e simplesmente uma caçada. E ele já havia sobrevivido a isso antes, poderia e deveria tentar fazer o mesmo.

Shimaru ajustou a respiração, seu corpo relaxou, seus sentidos se expandiram, não para ver, mas para sentir. E então ele percebeu, o deslocamento do ar, a vibração sutil do chão, o peso invisível de algo se movendo nas sombras e como na lembrança… a rocha e a escuridão tornaram-se sua árvore, seu abrigo, seu escudo.

O monstro não conseguiu confirmar sua posição como esperado, não conseguiu ler sua intenção como cogitado, mas, embriagado pelo próprio ego, ainda assim atacou. Shimaru percebeu o avanço à frente e usou de uma estocada rápida, direta, confiando puramente em seus instintos, e o corpo da criatura girou pelo alto, buscando esquivar facilmente e atingir em cheio o pescoço do samurai com precisão mortal.

Foi só então que a sensação se fez presente… Agonizante, um arrepio percorrendo a espinha de ponta a ponta, seguido por uma dor fina, profunda, persistente, não em Shimaru… mas na criatura. O corpo do monstro pousou do outro lado das rochas, seu olho esquerdo… partido ao meio… Rasgado de uma extremidade à outra, a mão tremendo ao tentar cobrir o ferimento… incapaz a criatura, por um instante, de compreender o que havia acontecido.

A mente do caçador tentou acompanhar, a irritação tomou conta e ele tentou voltar no tempo, rever, e então finalmente enxergar, não o que viu, mas exatamente o que deixou de ver naquele instante.

A lâmina esteve à frente, era fato, mas não todo o movimento. A postura de Shimaru, sua base firme, seu controle absoluto, permitiram interromper o ataque no instante exato, quebrando sua trajetória no meio do caminho e, no mesmo fluxo, recuar meio passo e converter o movimento em um corte ascendente, preciso, inevitável, de baixo para cima, visando diretamente seu olho, naquele único instante… 

O predador então pela primeira vez naquela caçada, se viu sem saber como agir, pois nunca algo assim havia acontecido… Não fora pela força, não fora pela sabedoria, mas porque, pela primeira vez… o confiante caçador não conseguiu compreender a presa.

O impacto ainda ecoava na pedra quando o monstro se ergueu com violência, a respiração pesada, irregular, a mão cobria o olho destruído, mas o sangue escorria por entre os dedos, quente, espesso, manchando a pelagem negra. Seus dentes se cerraram, revelando não mais o sorriso de quem controlava a caça… mas o ódio de quem perdeu o domínio.

…o que você fez…? — a voz saiu baixa, carregada, tremendo entre dor e incredulidade.

Ele tentou focar o olhar restante, procurar, rastrear, entender, mas havia algo errado agora… o padrão havia se quebrado, e o silêncio não era mais território dele. O lobo rosnou, mais alto, mais agressivo, girando o corpo, tentando forçar o ambiente a responder à sua presença, como sempre fizera...

RESPONDA! — rugiu, a voz ecoando pelas cavernas como um trovão irregular. — Você não passa de uma presa! Eu li cada movimento seu! Eu senti cada respiração! E no entanto, percebia o próprio predador, agora… não havia mais nada para ler, nada para antecipar, a sombra, não respondia, a pedra não denunciava e o ar não mais traía a presa.

Shimaru permanecia onde estava, imóvel, olhos fechados, respiração tão lenta que se confundia com o próprio ambiente, apenas ouvindo, e depois de longa pausa, quando falou, sua voz não veio de um ponto exato, veio do espaço como um todo… — Você não perdeu o alvo… — disse, baixo, firme, cortante como a lâmina que empunhava — …perdeu foi o controle do território.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer golpe, o monstro congelou por um instante, a frase não o atingiu como provocação, mas como verdade, e isso o enfureceu... — Cale-se!! — o rugido veio distorcido, animalesco, já sem a precisão de antes. — Você acha que pode me ensinar a caçar?!

O corpo do monstro se curvou, músculos tensionando ao extremo, o sangue ainda escorria, mas ele ignorava, pois a dor… agora alimentava suaa fúria. — Eu sou o predador deste lugar! — avançou, as garras rasgando o chão ao impulsionar o corpo — EU SOU A SOMBRA QUE MATA! EU SOU TSUKIKIBA!!

Mas o ataque já nascia errado, rápido demais, direto demais, carregado de intenção, carregado de raiva, e Shimaru captava todas essas vibrações agora, muito antes do impacto, muito antes do som e até mesmo antes da presença!

Seu corpo treinado então se moveu com mínima variação, um passo, quase inexistente, o suficiente para que o ataque passasse ao lado, vazio. Então sua lâmina respondeu, um novo corte preciso, limpo, profundo, e novamente sangue negro se espalhou no ar como um véu rompido.

O monstro recuou com um salto, o corpo agora marcado por mais um golpe, a respiração descompassada, o olhar restante já não carregando domínio, mas instinto puro, e pela primeira vez… Tsukikiba sentiu medo.

Shimaru então abriu os olhos, não avançou, não perseguiu, apenas permaneceu ali, como parte do ambiente, como parte da própria caverna, como algo que não podia mais ser caçado, e finalmente questionou: - O que é você Tsukikiba?

Um rosnado rompeu o silêncio, e pela primeira vez, o predador se mostrou… A figura surgiu entre as sombras, alto, musculoso, corpo coberto por uma pelagem negra que absorvia a luz ao redor. Seu agora único olho, brilhava com um tom frio, calculista. o focinho alongado exibia presas manchadas, e suas mãos, humanas apenas na forma, terminavam em garras curvas, feitas para abrir carne com precisão.

- É você o guardião deste lugar? Estava desde sempre aqui aguardando a chegada de intrusos?

O lobo rosna quase como em uma risada e desfere suas palavras: - Acreditou mesmo que os mais poderosos servos de Mantor estariam aqui o aguardando? Ora não se dê tanto valor humano insolente… Com exceção do Touro, todos nós somos livres e, ao menor sinal de perturbação de nosso local, materializamos aqui livremente…

Shimaru não respondeu não respondeu, já entendeu o que precisava entender e confirmou estar lidando com um novo general de Mantor como suspeitava! Sua respiração torna à ficar controlada, seus olhos se fecham novamente e o lobo rosnou uma vez mais antes de avançar novamente:

- Isso é tudo que tem a dizer humano? Está certo, ENTÃO MORRA!

O lobo avançou, desta vez direto, rápido como um borrão, muito mais veloz e furioso do que nas vezes anteriores, e Shimaru bloqueou, deixando Tsukikiba boquiaberto e ainda mais temeroso - assim como furioso. O impacto ecoou pela caverna, garras contra lâmina, um olho sedento de sangue contra contra olhos fechados, agora, era predador contra predador.

Por um instante, quase houve um equilíbrio, então uma vez mais o Leão rugiu dentro de Shimaru, não como sinal de descontrole, mas como comando. Um impulso potente, Shimaru abre uma brecha e ataca em um corte horizontal da direita para a esquerda, atinge o abdômen do monstro e o faz recuar centímetros, ao passo que Shimaru não mais resistiu.

A kodachi saltou de sua cintura, girou no ar, vibrando como um chamado antigo, e o samurai a agarrou em pleno movimento. A lâmina curta se expandiu em suas mãos, tornando-se a katana rúnica, os símbolos pulsando com luz dourada, desferindo com o movimento um novo ataque linear poderoso que encontrou novamente a carne do primeiro caçador, o fazendo emitir um urro de agonia pela primeira vez, ao passo que quase sussurrando, Shimaru responde com sua vocalização:

— Shishihenge…

O relâmpago surgiu mesmo naquele ambiente subterrâneo, a explosão de energia rasgou a caverna, a forma humana se desfez na luz e eis que o Leão surgiu.

- Lion-Maru… Kenzan…

O som da voz ecoou mais grave, mais antigo, mais definitivo. A presença mudou o ambiente, o ar pesou, as sombras finalmente recuaram e Tsukikiba, não sorriu dessa vez, pelo contrário, com a mão ao abdômen, e o olho ainda sangrando, fez o impensável até para ele mesmo, e tentou recuar, mais por instinto que por atitude,

O lobo desaparece novamente, e em segundos um movimento lateral surge através das sombras… Os olhos fechados, a audição e o faro o guiando e então Lion-Maru visualiza e confirma a posição, e quando Tsukikiba surgiu para o ataque final, Lion-Maru já estava lá.

A katana se moveu, o corte fora potente, preciso, profundo, e o lobo recuou, sangue escuro marcando sua pelagem, atingindo severamente seu peito. O monstro entrou em fúria, tentou dali mesmo avançar novamente, mas fora rechaçado pela defesa impenetrável com a espada, para logo em seguida ser literalmente abalroado por uma sequência de golpes, mais precisos, mais pesados, e completamente inevitáveis, ao passo que ao tentar fugir e, desesperado pela primeira vez, Tsukikiba salta para as sombras mais altas, tentando ganhar distância, e desaparecer completamente, o monstro percebeu… 

Ao realizar tal proeza, ao usar de tal movimento e atitude, sem qualquer surpresa Lion-Maru confirmou, mas Tsukikiba em completo desconserto, percebeu finalmente... O dito predador… agora estava sendo caçado.

Lion-Maru não esperou ou hesitou, saltou igualmente, só que mais alto, mais rápido, a lâmina como um relâmpago ergueu-se no ar, e desceu, um único golpe, silencioso, absoluto, e o corpo do monstro foi atravessado, partido, e o impacto o cravou contra a pedra, com o o olho restante ainda aberto…

Tsukikiba então caiu de lado, o corpo pesado raspando a pedra escura, deixando um rastro espesso de sangue que logo começou a esfriar no chão frio da caverna. Sua respiração vinha em falhas, curtas, irregulares, como se cada novo fôlego fosse um esforço que já não valia a pena sustentar.

Ainda assim… ele riu, baixo no início, depois mais claro, mais consciente e por fim, seu olho já perdendo o brilho predatório, se ergueu até Lion-Maru, não mais como caçador… mas como alguém que finalmente compreendia o adversário.

Hah… — o som escapou entre dentes manchados — …então… você realmente não é só presa como  mestre considerou… Ele tossiu, sangue escuro manchando o próprio peito. — Aprendeu… rápido demais… — continuou, a voz arrastada, mas carregada de um respeito que não existia antes — …não lutou como fera… Seu olho estreitou levemente. — … lutou como algo… mais letal. Um predador… que pensa. O silêncio ao redor pareceu escutar.

Tsukikiba moveu a cabeça com esforço, como se ainda buscasse sentir o ambiente, um último instinto que se recusava a morrer. — Você conteve… o Leão… — disse, agora mais baixo — ...não o negou… MAs também não se entregou… Fez então uma nova pausa forçada, seguida de um suspiro pesado.

Uniu… propósito… à fome… Seu olho voltou a focar Shimaru, mais intensos por um instante, mais humanos até se poderia dizer… — Isso… é raro Shimaru. O corpo do lobo então tremeu, a dor começava a cobrar seu preço, mas ele ainda não parava.

Mas escute bem… — sua voz mudou, tornando-se mais grave, mais carregada, como um aviso que vinha das profundezas — …o que te espera… abaixo… Um leve sorriso torto então surgiu em sua boca, não de deboche, mas de quem já viu o que vem depois, e sentenciou: — …não caça… como eu…

Seus dedos se contraíram contra a pedra em sinal de esforço e persistiu: — Não persegue… não ataca pelas sombras… A respiração falhou por um instante, para logo em seguida voltar, mas mais fraca… — Ele… te observa… por dentro… E foi quando o ar pareceu, se é que isso era possível, pesar ainda mais...

Ele não vai testar… sua força… Nem seu instinto… E então quase em um sussurro, agora quase inexistente, ele insiste… — Ele vai te dar… aquilo que você quer… O olho de Tsukikiba vacilou, no entanto ainda havia algo ali, algo que insistia em avisar.

E quando você aceitar… Um tremor percorreu seu corpo inteiro. — …nem o Leão… vai te proteger. O silêncio então surgiu, pesado, definitivo, e por um breve instante… parecia que ele já estava morto. Mas então, a dor o fez tremer de novo, violenta, abrupta, seu corpo arqueou, garras cravando a pedra, a respiração se transformando em um rugido quebrado, desesperado, arrancado das profundezas do que restava dele.

SENHOR…! A voz rasgou a caverna. — MANTOR DO DIABOOOOOOO…!!

O grito ecoou, distorcido, desesperado e então… cessou. O corpo de Tsukikiba ficou inerte, o olho, antes sanguinolento e agressivo, agora vazio, a caçada havia terminado, mas o aviso permanecia.

Lion-Maru permaneceu imóvel por alguns instantes, processando tudo que havia acontecido e tudo que havia ouvido… Lentamente embainhou a kodachi, a luz começou a se recolher, o Leão cedeu espaço e Shimaru voltou. A respiração ainda ofegante, o corpo ferido, mas de pé.

Era fato que o samurai estava agora diferente, ele não olhou para trás dessa vez, não havia mais necessidade, pois agora ele não apenas lutava, ele compreendia o que muitos dos monstros humanos jamais perceberiam, de que não se trata apenas de força e destruição… Mantor ia bem além disso e se fechar unicamente para resolver tudo como um guerreiro na ponta da espada, seria sua morte.

Mais abaixo… nas profundezas da montanha… Mantor aguardava ele sabia, mas pela primeira vez… Shimaru não mais apenas caçava e ansiava por uma vingança, ele agora também sabia que se quisesse chegar até seu algoz, seria necessário se tornar, no momento certo, um predador como nenhum outro naquele mundo....

Continua...

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Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 6)

A descida após a queda de Gansekikiba não trouxe alívio, mas trouxe silêncio, um silêncio diferente, não era algo vazio, mas era incrivelmen...