quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ekzyliön - Caso 6 - A sombra de Érebus!


O caminho até o endereço indicado por “Fox” não levava mais do que algumas quadras, mas, entre eles, o tempo parecia se esticar, não pela distância, e sim pelo que ainda não havia sido dito.

A cidade seguia viva ao redor: carros passando em fluxo irregular, vozes se cruzando nas calçadas, o cheiro de sal vindo do mar misturado ao de asfalto aquecido pelo sol do quase meio-dia. Ainda assim, havia uma espécie de bolha silenciosa envolvendo os dois enquanto caminhavam lado a lado.

Clarysse foi a primeira a quebrar esse silêncio. — Khalamyr… Ele virou levemente o rosto, atento.

— Eu reparei em você aquele dia. — disse ela, com naturalidade, mas sem leveza superficial. — Não só no que você fez… mas em como fez. Ele não respondeu de imediato, apenas manteve o olhar nela, aguardando.

— Você estava preocupado. De verdade. Com a senhora… — ela fez uma pequena pausa — …e comigo também. Khalamyr desviou o olhar por um instante, como se aquela observação tivesse tocado algo que ele não esperava que fosse percebido.

— Você não me pareceu alguém reagindo ao caos que ali se instaurou… — ela continuou. — Me parecia mais... alguém tentando impedir que o caos ferisse as pessoas... Seja lá o que for aquele caos que a gente presenciou... 

O silêncio voltou por alguns passos, o som distante de uma sirene ecoou ao longe, e Clarysse respirou fundo, como quem decide atravessar uma linha, que ela cogitava, deveria ser atravessada. — Por isso… eu acho justo te contar o que eu descobri sobre ela.

Ele voltou a encará-la, dessa vez com mais foco, como se aquela informação tivesse sido esperada, embora ele nunca tivesse demonstrado qualquer sinal disso! Clarysse percebeu, e então continuou: — A senhora se chama Expedita. — começou ela. — Ela tinha, naquele dia, acabado de sair da delegacia… recebeu a notícia de que o neto dela havia morrido... Num confronto com a polícia...

Khalamyr parou de andar, não fora um gesto brusco, nem dramático, foi sutil, mas carregado, como se algo dentro dele tivesse travado por um segundo. — Ele tinha dezesseis anos… — Clarysse continuou, agora com a voz mais baixa. — Se chamava Leonel.

O nome pareceu pesar no ar. Khalamyr fechou os olhos por um breve instante, dentro dele, a compreensão veio como uma lâmina fria… Dor súbita. choque emocional, ruptura, e consequentemente, uma porta aberta. Ele não precisava que ninguém explicasse, ele já tinha visto aquilo antes… mais vezes do que gostaria de lembrar.

As mãos dele se fecharam discretamente ao lado do corpo, era assim que começava… o pensamento vem, pesado… E era por contas dessas dores que eles assumiam controle… No entanto, ele não podia dizer isso para a jovem, não ali, não para ela... Pelo menos não ainda, ele pensava... Mas Clarysse percebeu a mudança. — Eu imaginei que você gostaria de saber… — disse, com cuidado.

Khalamyr abriu os olhos novamente e assentiu, ainda em silêncio. Ela continuou, agora caminhando mais devagar, como se a história pedisse respeito ao ser contada. — Ele foi criado só por ela. A mãe sumiu, o pai nunca assumiu… — ela olhou para frente, organizando as palavras. — E pelo que eu consegui apurar, ele tentou fazer tudo certo. Desde pequeno.

Khalamyr retomou a caminhada, mas agora havia algo mais pesado em seus passos, a revelação era dolorosa, e mostrava o quão covardes os Velkur eram para se apoderar de pessoas assim... — Trabalhar, ajudar… mas sempre barrado. Pela idade, pelas leis, pelas circunstâncias… — Clarysse suspirou. — E acabou indo pro caminho que parecia o único possível pra não ver a avó passar fome.

O maxilar de Khalamyr tensionou, ele conhecia aquele tipo de história, não em detalhes… mas em essência. — E então… — ela hesitou por um segundo — …de alguma forma, tudo terminou mal.

O silêncio entre eles voltou, mais denso agora. Khalamyr sentia o peso familiar daquela equação cruel: dor + desespero + sensação de não haver saída. Terreno extremamente fértil para aqueles que ele combatia, e o pensamento o acometeu: “Eu cheguei tarde…” A ideia atravessou sua mente sem pedir permissão, ele não demonstrou, mas o pensamento ficou,  como uma flecha encravada em seu peito.

Clarysse percebeu que ele havia se fechado um pouco, não por rejeição, mas por absorção, e então, suavemente, ela completou: — Mas não foi só isso que eu descobri. Ele a olhou de novo, havia algo diferente no tom dela agora.

— Eu fui atrás dela depois. — disse. — Queria entender melhor o que tinha acontecido… e também saber se ela estava bem, afinal, eu tinha esbarrado com ela horas antes... Uma brisa leve passou entre eles, levantando discretamente uma mecha do cabelo ruivo de Clarysse. — E ela me mostrou uma carta, Khalamyr...

Khalamyr franziu levemente o cenho, afinal, porque uma carta seria relevante neste caso, e Clarysse definiu em uma frase, porque era importante... — A carta era do Leonel... E finalmente o nome daquele jovem, soou pela primeira vez, sem ser um peso, sem ser a acusação de uma falha… Aquela informação não vinha como mais um peso, vinha como uma expectativa.

— Ele escreveu antes de tudo acontecer… — ela continuou. — Explicando o que sentia. O que pensava. O quanto se preocupava com ela. Khalamyr manteve os olhos fixos nela agora.

— Não era raiva. Não era ódio. — disse Clarysse, com firmeza. — Era… cuidado. Do jeito dele, errado, desesperado… mas ainda assim cuidado. E Clarysse respirou fundo novamente, passando a ponta do dedo mindinho ao canto interno do olho, removendo uma pequena lágrima que começava a se formar, completando logo em seguida: 

— Em um resumo, para não corrermos o risco de o definir de forma errônea também, ele não era o que fizeram parecer que ele era. O silêncio que se seguiu não foi pesado como antes, foi… diferente, como se ar fresco adentrasse os pulmões após uma sequência de tentativas invalidadas...

— E Khalamyr, o mais incrível é que... Dona Expedita entendeu isso também... — completou Clarysse, mais suave agora. — Doeu, e doeu muito, é claro que ia doer, mas… ela entendeu essa mesma visão... Khalamyr diminuiu o ritmo, quase parando novamente, seus olhos marejaram, mas ele se conteve, e apenas desviou o olhar, observando o céu com satisfação...

— E finalmente quando eu saí de lá após uma conversa emocionante… — continuou Clarysse — …ela ainda estava triste, claro, mas já não estava mais quebrada, não como antes pelo menos... Ela olhou diretamente para ele.

— Ela estava em paz, Khalamyr e se erguendo para continuar a viver. Aquelas palavras não ecoaram, elas se assentaram seu espírito inquieto... Dentro dele, algo que estava tenso… cedeu, não completamente, mas o suficiente, e finalmente, um leve indício de paz.. Mesmo depois de tudo, mesmo depois da dor, mesmo depois do contato.

Ele desviou o olhar por um instante, encarando a rua à frente, mas não vendo exatamente o que estava diante dos olhos, pois seu coração se confortava… “Então… é possível…” A ideia não veio como certeza, veio como uma fresta, pequena, quase inexistente, mas real.

Se a dor podia ser compreendida… Se a culpa podia ser dissolvida… Se o coração podia encontrar algum tipo de equilíbrio… Então talvez… Talvez nem toda batalha precisasse terminar em destruição. Talvez nem toda presença precisasse ser arrancada à força. Talvez… algumas pudessem simplesmente perder o que as alimenta. Khalamyr respirou fundo, mais consciente agora.

Quando voltou a olhar para Clarysse, havia algo diferente em seus olhos, ainda havia peso, mas agora… havia também direção. — Obrigado por me contar, Clarysse... Não imagina quanto isso modifica meu dia! — disse, com sinceridade tranquila.

Clarysse sorriu de leve. — Eu achei que você merecia saber sobre isso.

Eles seguiram andando. À frente, a movimentação começava a mudar, mais viaturas, mais gente parada, uma tensão no ar que não combinava com a rotina comum da cidade. O próximo caso os aguardava, mas, pela primeira vez… Khalamyr não caminhava apenas com a expectativa de enfrentar algo. Havia algo novo ao lado disso, havia “uma possibilidade”. E, às vezes… uma possibilidade é tudo o que separava um ciclo infinito de violência… de um novo caminho.

As viaturas já podiam ser vistas antes mesmo de dobrarem a última esquina.

Luzes giratórias tingiam a fachada das casas com tons intermitentes de vermelho e azul, quebrando a monotonia da rua larga. Um pequeno aglomerado de curiosos se mantinha contido atrás de uma fita improvisada, alguns cochichando, outros apenas observando com aquele fascínio inquieto que tragédias alheias costumam provocar.

O cheiro no ar era estranho, não apenas o comum da cidade, mas algo mais… metálico, abafado, como se a atmosfera estivesse densa demais para aquele cenário. Clarysse diminuiu o passo. — Chegamos…

A casa era sofisticada, térrea, com muros baixos e portão de grades completamente fechado, casa de pessoa com posses, se notava claramente. Não havia sinais claros de invasão, de luta, nada que denunciasse violência externa, ainda assim, o ambiente inteiro parecia… errado.

Dois policiais conversavam próximos à viatura, sem urgência, sem tensão real no corpo. Um deles gesticulava com desinteresse enquanto o outro mexia no celular, claramente mais preocupado com qualquer outra coisa do que com o que se passava ali dentro.

Mais adiante, um superior falava ao rádio com um tom mais contido, não de quem liderava uma operação, mas de quem precisava parecer que estava liderando. — …sim, senhor… estamos monitorando a situação… — dizia, lançando olhares rápidos para a casa, mais preocupado com o relatório do que com o risco.

Clarysse franziu levemente o cenho. — Eles não estão… fazendo nada.

Khalamyr não respondeu. Ele havia parado, seu olhar estava fixo na casa, e então aquela sensação novamente… Sutil no início… como um arrepio que não vinha da pele, mas de algo mais profundo, um desconforto que não tinha forma, mas que ele reconhecia instantaneamente.

O ar parecia querer sufocar, o silêncio, mais carregado, algo… estava ali. A mesma presença, a mesma distorção invisível que ele já havia sentido antes, tanto na fábrica quanto na praça, e agora pensava melhor ele, em muitas outros encontros com as criaturas também… O peito de Khalamyr apertou levemente. Era um novo “Velkur”, não restavam dúvidas.

Ele respirou fundo, lentamente, tentando manter a expressão neutra, mas Clarysse percebeu a mudança… — O que foi?

Ele a olhou, por um segundo, considerou dizer algo, explicar, alertar, mas não podia, não ali, não daquele jeito. — Clarysse… — disse, com a voz mais baixa, mais séria do que antes.

Ela imediatamente ficou atenta. — Eu preciso que você confie em mim agora. O tom não era de pedido comum, era firme, urgente. Ela franziu o cenho. — O que você quer dizer?

Ele lançou um olhar rápido ao redor, policiais dispersos, atenção baixa, ninguém realmente controlando nada. — Fica aqui. — disse. — Não se aproxima mais.

Clarysse soltou um pequeno riso de incredulidade. — Você tá brincando comigo, né? Eu não vim até aqui pra —

— Não. — interrompeu ele, sem elevar a voz, mas com uma firmeza que cortou o argumento dela antes mesmo de nascer. — Eu não estou brincando. O silêncio entre eles mudou de tom.

— É perigoso. — continuou Khalamyr, agora mais baixo, quase como se cada palavra precisasse ser medida. — Mais do que você imagina.

Clarysse cruzou os braços, claramente contrariada. — E você acha que eu vou simplesmente ficar aqui enquanto você entra sozinho?

— Eu não acho. — respondeu ele, direto. — Eu estou te pedindo. Ela abriu a boca para retrucar, mas algo na expressão dele a fez hesitar, não era arrogância, não era segredo por vaidade, era… preocupação, genuína.

— Escuta… — ele continuou, aproximando-se um pouco, a voz agora mais contida — Depois que isso acabar… eu te explico tudo que você quiser saber.

Os olhos dela se estreitaram. — Tudo?

— Tudo que eu puder. — corrigiu ele, com honestidade. — Mas agora… você precisa me dar esse voto de confiança.

O som de um grito abafado vindo de dentro da casa atravessou o ar, ambos viraram o rosto instintivamente, Clarysse voltou a olhar para ele, o conflito era visível, curiosidade, instinto, consciência. Tudo lutando ao mesmo tempo.

— Khalamyr…

— Por favor. — disse ele, dessa vez mais baixo. — Só… me escuta.

O silêncio que seguiu durou apenas alguns segundos, que mais pareceram minutos, então Clarysse respirou fundo, não respondeu, e isso, para Khalamyr, devido a urgência, foi suficiente. Ele assentiu levemente. — Fica aqui. E então… ele se afastou, sem correr, sem chamar atenção, apenas… desaparecendo no fluxo lateral da rua, contornando a área, saindo do campo de visão direto dos policiais.

Clarysse ficou parada, por alguns segundos apenas observando, pensando, racionalizando, e então, soltou o ar lentamente. — Ficar aqui… — murmurou, quase para si mesma. Ela olhou para os policiais, um deles agora ria de algo no celular, outro coçava o queixo, entediado, nenhum parecia sequer próximo de tomar uma decisão real.

A casa, ali, de certa forma desguarnecida, alguns policiais se mantinham mais atrás, mas mal controlavam quem ia e quem vinha, o acesso era fácil, não estavam considerando a situação como ela realmente era… Em termos de segurança, a casa estava aberta, exposta, negligenciada.

O maxilar dela se contraiu. — Eles não vão fazer nada… Seus olhos voltaram para a direção onde Khalamyr havia desaparecido, a razão perdeu feio para a curiosidade e ela decidiu. — E eu não vim até aqui pra assistir. Uma decisão veio rápida, quase instintiva.

Clarysse ajustou a bolsa no ombro, respirou fundo e começou a se mover, não pela entrada principal, onde havia alguma movimentação, mas pelas laterais, lado oposto onde Khalamyr seguiu, contornou o muro baixo, passando por um trecho menos observado, onde a atenção dos policiais simplesmente… não existia.

Nenhuma barreira real, nenhuma vigilância efetiva, como ela imaginava. A lateral da casa dava acesso a um pequeno corredor estreito, com uma porta de serviço entreaberta, rangendo levemente com o vento. Clarysse parou diante dela, o coração acelerou, o som dentro da casa era abafado… mas havia algo.

Movimento, respiração, tensão. Ela engoliu seco, por um instante… lembrou do pedido dele… "Fica aqui." Seus dedos tocaram a madeira da porta… — Desculpa… — murmurou, quase sem voz, e empurrou.

A porta cedeu com um rangido baixo, o interior da casa a engoliu em sombras e silêncio, e, do lado de fora… o mundo seguia como se nada estivesse prestes a acontecer.

Pelos fundos, onde a casa quase se confundia com construções improvisadas e muros gastos pelo tempo em outras construções diversas, Khalamyr avançava em silêncio. Enquanto andava, a sensação voltou, se tornou mais forte, mais densa, mais errada, mais sufocante…

Khalamyr foca seu olhar em um ponto e então, o mundo ao redor perdeu consistência por um instante, como se algo invisível rasgasse a realidade apenas o suficiente para que ele atravessasse... Quase como um chamado, se estabeleceu uma conexão, e o vínculo com Eryon pulsando em sua essência, fazendo com que o tempo-espaço cedesse..

Como um bólido permitido entre dimensões, Khalamyr deu novo passo em direção aquela distorção silenciosa, surgindo do outro lado quase que imediatamente, já dentro da casa, emergindo pela parede dos fundos como se matéria não fosse obstáculo algum naquele instante - e realmente não o era.

O impacto foi suave, mas o peso no ar não era... Ali dentro… havia dor. Os sons vieram primeiro, um choro contido, infantil… frágil, quebrado… Depois a respiração descompassada, adulta… à beira do colapso, e por trás disso… Algo mais, algo que não pertencia àquele plano.

Khalamyr avançou com cautela, cada passo medido, os sentidos ampliados. A energia ao redor era espessa, quase palpável, como uma névoa invisível que se arrastava pelas paredes.

Ao mesmo tempo, pela entrada frontal, Clarysse já estava dentro da casa, sentia o coração acelerado, a respiração curta, mas firme. O som que ouvira do lado de fora agora ecoava mais claro, mais próximo, cada passo que dava parecia mais pesado que o anterior, mas ela não parava, não podia parar, não conseguia parar... Porque?.

As vozes guiavam ambos, por caminhos diferentes era fato, mas seguiam sem saber, para o mesmo destino. Khalamyr chegou primeiro, parou na entrada do cômodo, e viu…. O homem estava no centro, postura rígida, mãos firmes segurando um rifle de dois canos, não era alguém fora do comum, altura mediana, corpo forte na medida de quem vive sob pressão constante, havia um certo luxo, mas também uma fraqueza aparente.

Mas não era ele quem dominava aquele espaço, e sim o que o envolvia, a aura negra escura e pulsante, corrompida, e Khalamyr podia visualizar ela, de tão perto que estava… O Velkur se manifestava como uma distorção no ar ao redor do homem, como se sombras respirassem junto com ele, se expandindo e contraindo em um ritmo doentio.

À frente dele, a mulher, morena, cabelos longos colados ao rosto pelo suor, olhos arregalados de puro pânico. O corpo tremia, mas ela se mantinha entre o homem e a criança, como se ainda acreditasse que poderia protegê-la.

E a criança… Pequena, seis anos talvez, sentada no chão, encolhida, chorando sem entender, apenas sentindo o terror que tomava conta do ambiente. Khalamyr ergueu lentamente as mãos, abertas, mostrando que não representava ameaça. — Ei… — sua voz saiu firme, mas controlada. — Calma… ninguém precisa se machucar aqui… Deu um passo.

— Você não está bem… eu sei… mas isso não é você. Seja lá o que está acontecendo… ainda dá tempo de parar. Outro passo.

— Escuta minha voz… tenta focar… você não precisa fazer isso… Ele falava com o homem, mas se mantinha atento ao que estava por trás dele, por dentro dele, e por um instante houve silêncio, o tipo de silêncio que antecede algo pior, infelizmente... Khalamyr sentiu um frio na coluna vertebral, uma mudança abrupta e poderosa, a energia se contraiu… e explodiu para fora.

A aura do Velkur se expandiu violentamente, como uma chama negra sendo alimentada por algo mais profundo, mais antigo, mais faminto, e como se isso fosse possível, o ar se tornou ainda mais pesado, o ambiente pareceu encolher, e no mesmo instante, a voz de Eryon ecoou dentro dele… — Cuidado.

Os olhos do homem mudaram, foram para o carmesim já conhecido, um vivo antinatural. e um sorriso que se abriu lentamente no rosto do homem, largo demais… errado demais… como se não fosse feito para aquela face. E quando o homem finalmente falou, o que quer que estivesse lá também falou, não era apenas a voz do homem quem se apresentava…

— Finalmente… — disse, com um tom que parecia vir de múltiplas camadas ao mesmo tempo — …nos conhecemos pessoalmente… A cabeça inclinou levemente, os olhos cravados em Khalamyr. — "Caminhante".

A tensão dentro do cômodo tornou-se quase palpável, como se o próprio ar tivesse sido substituído por algo mais denso, mais pesado, mais antigo. O homem, ou o que quer que agora o habitasse, inclinou levemente a cabeça, o sorriso torto abrindo espaço entre os lábios de forma antinatural.

Seus olhos, tingidos de um vermelho profundo, não piscavam, observavam, calculavam.. — Então… — a voz veio arrastada, carregada de um deleite cruel — este é o tal incômodo…

Khalamyr manteve as mãos erguidas, mas seu corpo já não estava apenas em posição de apaziguamento, havia tensão em cada músculo, uma prontidão contida, como uma lâmina ainda embainhada.

— Deixe-os ir… — disse Khalamyr, firme, controlado. — Isso não é sobre eles. O sorriso do homem se alargou. — Ah… mas é sim... É justamente e principalmente sobre eles. Um leve inclinar de ombros, quase despreocupado foi a resposta, deixando tudo com a sensação de mais errado ainda….

— Você ainda não entendeu... "Caminhante"… — a voz ganhou um tom mais grave, mais profundo, como se uma terceira presença falasse por baixo da primeira — você não enfrentou nada além de ecos… resíduos… sobras famintas que sequer compreendem o próprio papel.

Khalamyr cerrou levemente os dentes, não conseguiu controlar a ira com o desdém do Velkur: — Cada uma dessas “sobras” destruiu vidas, eliminou existências, criou dependências...

— Destruiu? — uma risada baixa escapou, seca — Não… nós apenas revelamos o que já estava quebrado. O olhar da criatura se intensificou, parecia deixar claro que havia ganhado espaço... — Dor. Culpa. Medo. Desespero… — cada palavra parecia pesar mais que a anterior — são portas criados por eles, nós apenas atravessamos o que vocês mesmos escancaram.

O maxilar de Khalamyr tencionou, sua vontade era de partir para o combate diretamente, mas precisava fazer o caminho inverso, e preservar as vidas expostas... — Você chama isso de atravessar? — sua voz agora carregava algo mais quente — Vocês corrompem. Manipulam. Tomam o que resta de quem já está caído.

— E você "Caminhante"... — a resposta veio instantânea, afiada — O que faz, senão destruir aquilo que ainda carrega um fragmento do humano? O silêncio foi avassalador, por um breve instante, aquilo atingiu o cerne do jovem, e a entidade percebeu. O sorriso cresceu.

— Ah… então há dúvida… — murmurou, satisfeito — Há peso… há culpa… A aura ao redor do homem pulsou, mais densa, mais agressiva. — Você diz lutar por eles… mas quantos já caíram pelas suas mãos, oui pela incompetência delas? Quantos ainda respiravam quando decidiu que não havia mais salvação?

Khalamyr deu um passo à frente, os olhos agora carregados de fúria contida. — Eu faço o que é necessário para impedir vocês Velkur.

— Não… — a criatura sussurrou — Você faz o que julga que é capaz, e decide sozinho quando deve deixar de tentar. Aquelas palavras vieram como veneno. — E isso… — continuou a entidade — Está muito abaixo do que seria o necessário para ser o que acreditam que é...

O ar pareceu vibrar ao redor deles, tudo parecia levemente trepidar de forma quase imperceptível... — Você é fraco, "Caminhante", acha que pode impedir mas não pode... Lutou contra sombras menores e ousa acreditar que compreende a guerra?

Khalamyr respondeu, a voz firme, mesmo com a tensão crescente: — Eu não preciso compreender tudo… para lutar contra vocês.

— Não? — o tom agora era quase divertido — Então lutaria contra qualquer coisa mesmo sem entender do que se trata? Houve então uma pausa, lenta demais, calculada por necessidade e a entidade insistiu: — Derrubaria qualquer um que fosse possuído e ameaçava vidas inocentes, "Caminhante"? O tom de voz elevou-se, o homem hospedeiro do Velkur quase gritava enquanto encarava Khalamyr diante dele...

Os olhos do possuído então se desviaram, lentamente… para a porta, e com um gesto simples, a mesma fora arrancada com violência absurda do batente, lançada contra a parede do outro lado com um estrondo que ecoou por toda a casa, e Khalamyr, ao passo que Khalamyr ao olhar novamente para o local onde estava a porta, finalmente viu, aterrorizado… Clarysse.

Parada ali, olhos arregalados, a respiração presa, o choque estampado em cada traço de seu rosto. Ela havia ouvido, havia visto, não havia mais volta. Por um segundo, um único segundo, o mundo pareceu parar… — Não… — era voz de Khalamyr falhando, baixa, quase um sussurro...

A escuridão veio, não como um ataque visível, mas como uma explosão silenciosa, densa, que brotou ao redor dela como uma névoa viva, sombras se enroscaram em seu corpo, subindo pelos braços, pelo pescoço, envolvendo-a por completo.

— Não… — agora mais alto, um passo à frente — Clarysse, não! — Os olhos dela se fecharam por um instante, e quando se abriram… O vermelho, a mesma cor, a mesma presença, a aura negra pulsando ao seu redor, distorcendo o ar, como se o espaço não suportasse aquilo e é quando então o homem voltou a olhar para Khalamyr, o sorriso agora pleno, vitorioso.

— Vamos lá, "Caminhante"… — disse, com uma calma cruel — Mostra-me sua bravura em destruir qualquer um… Nova absoluta pausa, deliberada e angustiante… — Vá lá e destrua ela com velocidade, com brutalidade, faça seu trabalho... Ou como todo bom humano, dois pesos e duas medidas, e só destrói aqueles que não lhe importam afetivamente?

O mundo pareceu desabar dentro de Khalamyr, seu olhar se travou nela, naquela que, minutos antes, sorria, confiava… acreditava. — Não… — ele murmurou, a voz quebrando — Por favor… não… você não… Mas a presença dentro dela já começava a se mover, e o Velkur, responsável por tudo isso ali diante dele, apenas observava, esperando, saboreando, porque, pela primeira vez… Khalamyr não enfrentava apenas um inimigo, ele enfrentava talvez, uma das mais cruéis escolhas de sua vida…

Então a mudança súbita e devastadora! O ódio em Clarysse não cresceu… ele transbordou.

Não havia mais hesitação em seus movimentos, o corpo avançava com precisão cruel, os olhos rubros fixos na mulher e na criança como se ambas fossem alvos, não pessoas, a aura escura ao redor dela pulsava como um coração doente, expandindo e contraindo em ondas violentas.

Khalamyr deu um passo à frente, as mãos erguidas, a voz carregada de urgência: — Clarysse… não. Olha pra mim… você não quer isso! Por um breve instante, um único, miserável instante, houve algo, um tremor, um vacilo mínimo no olhar dela, mas então… a voz, aquela voz, diferente da que dominava o homem, surge uma vez mais...

Mais sutil, também mais íntima, e talvez até mais cruel, sussurrando de dentro dela. Tudo parecia partido naquele instante, o homem possuído sorria, não era um sorriso humano, era uma distorção, como se algo por trás da carne estivesse tentando rasgar a realidade para se manifestar por completo.

— Ah… isso é… fascinante… — disse ele, com um deleite frio. — Duas presenças. Duas vontades. Duas corrupções… e você no meio, "Caminhante"… sem sequer compreender o tabuleiro. Ele inclinou levemente a cabeça, como quem observa uma peça rara. — Vamos testar algo mais simples... Os olhos do homem deslizaram até Clarysse, e então a ordem abominável... — Mate-as.

A palavra caiu como uma sentença, a mulher soltou um grito abafado, puxando a filha contra si, a criança chorava, sem sequer entender, apenas sentindo o terror bruto que preenchia o ar e Khalamyr parecia prestes a colapsar...

— Não… — murmurou, mais para si do que para qualquer outro, enquanto Clarysse avançou um passo, depois outro, cada movimento mais rápido, mais decidido, diante do descrente Khalamyr que não parecia crer no que via diante de si…

— CLARYSSE! — a voz dele rasgou o ambiente. ISSO NÃO É VOCÊ! Ela parou de novo, por um segundo os olhos dela se fixaram nele, e havia algo ali, algo lutando, algo preso, mas então o homem riu. — Interessante… — murmurou. — Ela ainda resiste um pouco. Isso torna tudo… muito mais saboroso.

Khalamyr cerrou os punhos, a mente corria, ele não podia atacá-la, não podia, mas também não podia permitir que aquilo acontecesse, e então… ele fez o impensável, ou talvez, justamente o que a entidade esperava que fizesse…

— Eryon… — sussurrou, quase como uma súplica. — Agora. O ar rasgou, não houve explosão, não houve luz, houve apenas… ruptura. Como se o próprio espaço tivesse sido aberto à força, Eryon surge em sua forma poderosa, seu rugido a cortar as dimensões e o mundo à mudar ao redor de todos... No entanto...

Inexplicavelmente, o que surgiu como ambiente, não era a caverna, não era o fogo, não era de maneira alguma o domínio conhecido. Era… outra coisa, um lugar onde a sanidade não tinha forma, o chão parecia vivo, pulsante, como carne petrificada. O ar era denso, carregado de um odor que não era apenas podre, era antigo, corrompido, como se séculos de sofrimento tivessem sido condensados ali.

Ao redor… formas, criaturas, distorções. Corpos que já foram humanos, agora retorcidos em geometrias impossíveis, membros demais, olhos demais, bocarras abertas em silêncios eternos. Algumas se arrastavam, outras pareciam devorar umas às outras, e outras apenas… existiam… em estados que não deveriam existir.

E ainda assim… Nenhuma delas os via, se fossem invisíveis àqueles seres, ou como que suspensos, paralisados, como uma pintura viva do horror em movimento... Khalamyr respirou… e o ar queimou dentro dele. — O que… é isso…?

A voz do jovem trepidou, pela primeira vez, havia medo real na voz de Khalamyr pela primeira vez, mesmo diante de tudo que já havia visto, esse cenário, essa desolação... era angustiante e aterrorizante aos seus olhos... Já o homem possuído, esse não demonstrava qualquer temor, ele estava na verdade, à vontade. — Bem-vindo… — disse, abrindo levemente os braços — ao que você jamais deveria ter vislumbrado. Seus olhos brilharam em vermelho profundo, e então completou: — Bem-vindo ao Érebus!

Khalamyr olhou ao redor, o horror refletido em cada músculo de seu rosto diante da cena dantesca que observava... — Isso… não é possível…

— Não é? — a entidade inclinou a cabeça. — E ainda assim… aqui está você.

Khalamyr olhou ao redor novamente, e então percebeu, que até mesmo o poderoso Eryon estava imóvel, como uma estátua majestosa de chamas e imponência, e quanto a Clarysse… ela também estava congelada, na posição em que ficou no exato momento do avanço contra os reféns. A mulher, a criança, tudo parado, exceto… ele e o homem.

— É, veja em que situação se meteu "Caminhante"... Nem mesmo seu guardião pode te salvar aqui… — continuou a entidade, com desprezo suave. — Você ainda é… pequeno demais. Inapto demais. Fraco demais… para permitir que algo como ele exista plenamente onde nós… somos soberanos.

Khalamyr deu um passo para trás, ainda tentava entender o que acontecia, e em sua enxurrada de possibilidades, ele questiona: — Você… trouxe a gente aqui?

— De certa forma sim, mas na verdade...  — o sorriso se alargou. — É mais mérito seu do que meu eu diria...

Um novo e sufocante silêncio, mais pesado, mais agoniante, e a criatura continuou: — Nós estamos limitados… por enquanto. — o timbre a a tonalidade então mudaram, tornando-se mais grave, mais… antiga, e o homem possuído explicava. — Temos acesso atualmente a tão somente rasgos. Fendas. Pequenos portais como este. Ele caminhou lentamente ao redor de Khalamyr.

— Mas isso… vai acabar em breve sabia? Parou atrás dele. — Em breve… o tecido que separa os mundos… vai se romper. Na verdade, nós vamos rompê-lo… 

Khalamyr virou-se, os olhos carregados de incredulidade. — Você está mentindo.

A risada foi baixa, mas também foi terrível. — Não. Eu estou… avisando, e realmente eu sequer entendo porque estou fazendo isso... E ele se aproximou mais, perto demais: — Nós temos fome, "Caminhante". Uma fome que você não consegue sequer conceber. Nós apodrecemos aqui… consumindo restos… fragmentos… ecos.

A voz tornou-se então como um sussurro venenoso: — Mas quando a barreira cair… não haverá mais fome. Nem limitação. Nem… misericórdia.

Khalamyr cerrou os dentes em visível sinal de reação: — Eu não vou deixar isso acontecer. A entidade por sua vez parou, pensou e então depois de alguns segundos, virou e sorriu. — Não vai?

Novamente o angustiante silêncio. — Você não consegue sequer salvar uma garota que conheceu ontem. As palavras foram como lâminas devastadoras, e ele continuou: — E ainda assim… quer salvar um mundo? Khalamyr não respondeu, não conseguiu, simplesmente não encontrava palavras… .

— Mas ainda tem chance de ser alguém jovem… A escolha está diante de você… — continuou a criatura, fria como o vazio. — Faça o que os “heróis” fazem. Sacrifique o que importa… para salvar o todo. Uma nova e aterrorizante pausa, e o sorriso do homem se tornou cruel. — Ou… facilite as coisas e sem sofrimentos, torne-se como nós.

Mais um passo. — Lute por quem você quer. Proteja o que te importa. Ignore o resto. É isso que nós fazemos. Os olhos brilharam. — E aceite… que alguém sempre vai pagar o preço. Khalamyr sentiu o peso daquilo esmagar seu peito, não conseguia encontrar as respostas, sequer as palavras, estava sem entender mais nada…

— Você achou que estava fazendo diferença… — a voz agora era puro desprezo. — Mas você só enfrentou restos. Sobras. Lixo do Érebus. A entidade se inclinou, encarando-o diretamente. — E mesmo assim… você já está quebrando "Caminhante"!

O maldito silêncio uma vez mais, cada vez mais opressivo e mais destrutivo, cada vez parecia se tornar maior e mais intimidador, Khalamyr não estava conseguindo lidar com a situação fora de controle, ele não estava preparado para nada disso, sentia em seu íntimo, devastado com o pensamento… — Resolva essa sentença… se puder. — disse, recuando. — Ou assista enquanto ela termina o que começamos.

Uma pausa final então se instaurou e como um poderoso golpe invisível, as palavras finais da criatura romperam as vastas distâncias dimensionais: — Você não é um salvador, Ekzyliön… é apenas alguém atrasado para a própria queda.

Tudo… rasgou novamente, o mundo parecia novamente colapsar, o fogo retornou e uma vez mais eles estavam na caverna agora. Era possível sentir o calor, o som, a vida e então, também se pode sentir o movimento, Clarysse avançou, rápida, violenta, direto para a mulher e a criança, e agora o homem que sequer sabia onde estava, uma vez que a entidade parece tê-lo abandonado.

— NÃO! — Khalamyr se lançou contra Clarysse, sem pensar, o corpo agindo antes da mente, ele colidiu com ela no meio do avanço, desviando sua trajetória por um fio, e o impacto ecoou pelo chão, enquanto Eryon, agora de volta ao controle de si mesmo, permanecia imóvel, apenas observando, silencioso, fazia parte do acordo entre eles…

Já Khalamyr, ao chão, segurava Clarysse com tudo que tinha, sentindo a força dela lutar, rasgar, resistir, pela primeira vez desde que tudo começou… Um Velkur estava possuindo a pessoa que finalmetne conseguiu transmitir segurança para que ele se abrisse, e ele precisava decidir como resolver aquela situação... Salvar a família inocente, ou salvar a inocente que lhe era querida...

Khalamyr vê uma existência inteira passar em sua mente, pois ele pela primeira vez, não tinha a mínima ideia do que fazer...

Continua...

Galeria de Imagens

O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:

O jovem anfitrião e protagonista da saga:

A moça "desastrada" do café, agora definida, repórter dedicada à histórias "estranhas":

O local, denominado pela entidade como Érebus:

Eryon - A poderosa entidade ígnea destruidora de Velkur em sua magnitude:


Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys


Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?

Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu

Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ekzyliön - Caso 6 - A sombra de Érebus!

O caminho até o endereço indicado por “ Fox ” não levava mais do que algumas quadras, mas, entre eles, o tempo parecia se esticar, não pela ...