O silêncio que envolvia as profundezas da montanha era diferente de tudo o que Shimaru havia experimentado até então. Não era a ausência de sons, mas uma espécie de opressão, como se aquele lugar estivesse vivo e respirasse lentamente, aguardando a chegada de algo que há muito tempo desejava encontrar.
A passagem se alargou diante dele, revelando uma imensa câmara subterrânea. O teto desaparecia nas sombras, tão distante que era impossível determinar sua altura, o chão, irregular e marcado por rachaduras profundas, apresentava veios avermelhados que pulsavam sob a rocha como vasos sanguíneos.
Mais adiante, cinco enormes pilares cercavam uma estrutura gravada no solo: um pentagrama de proporções colossais, cujas linhas brilhavam com uma energia escura e avermelhada. No centro daquele desenho havia algo que fez Shimaru interromper os passos.
Um rosto.
Não era uma estátua, tampouco uma escultura, mas sim uma face monstruosa, gigantesca, parecia ter sido aprisionada no próprio chão da montanha. Sua pele possuía a textura de uma rocha antiga, atravessada por fissuras luminosas, chifres retorcidos emergiam de sua cabeça, e sua boca, larga e disforme, permanecia entreaberta, revelando dentes enormes.
Os olhos estavam fechados, mas a energia que emanava daquela presença era tão intensa que o ar parecia distorcer-se ao seu redor. Shimaru segurou a Kinsachi com as duas mãos.
— Mantor...
O nome percorreu a câmara, e as paredes responderam com um estremecimento. Por alguns instantes, nada aconteceu, então, uma vibração grave atravessou o chão, as linhas do pentagrama se iluminaram, os cinco pilares responderam com um brilho vermelho e a face começou a se mover.
Primeiro, os olhos se abriram, duas fendas incandescentes revelaram um olhar antigo, carregado de desprezo. Depois, a boca se contraiu, formando algo que poderia ser interpretado como um sorriso.
— Então... finalmente você chegou.
A voz não parecia vir de uma garganta, era como se a própria montanha estivesse falando, fazendo as pedras vibrarem e pequenas partículas de rocha despencarem do teto e Shimaru avançou um passo, se movendo lentamente…
— Vim acabar com você.
A criatura soltou uma risada profunda, o som percorreu a câmara, multiplicando-se pelas galerias subterrâneas: — Quantos outros disseram o mesmo antes de você, pequeno guerreiro? Quantos chegaram até aqui acreditando que sua coragem seria suficiente para enfrentar aquilo que existe desde antes de suas próprias histórias?
— Não preciso conhecer sua história. Sei o que fez. Sei o que destruiu. E sei quantas vidas foram consumidas por sua existência. Rebateu Shimaru sem pensar duas vezes, observando a face gigante…
— Ah... seu irmão. O corpo de Shimaru enrijeceu e Mantor percebeu…
— Ainda carrega a lembrança dele, não é? Aquele rosto... aquela última imagem... Acredita que tudo o que atravessou até aqui poderá compensar aquilo que perdeu? A Kinsachi brilhou discretamente, Shimaru respirou fundo, mantendo os olhos fixos na entidade.
— Não vim buscar compensação. Vim impedir que você faça com outros o que fez com ele, e vingar meu irmão.
— Que resposta interessante. Você aprendeu algumas coisas durante sua jornada. Mas será que aprendeu o suficiente? O chão então explodiu.
Uma coluna de energia negra irrompeu diante de Shimaru, obrigando-o a saltar para o lado, o impacto lançou fragmentos de rocha por toda a câmara. Antes que seus pés tocassem o solo, outra descarga atravessou o espaço, atingindo-o de lado e arremessando-o contra uma formação rochosa.
Shimaru rolou pelo chão, mas recuperou o equilíbrio rapidamente, e a Kinsachi continuava em sua mão. — Não é apenas sua força que me interessa... — disse Mantor. — É aquilo que você carrega dentro de si.
A face monstruosa se contorceu, das rachaduras do solo surgiram filamentos de energia escura, que avançaram como raízes em direção ao guerreiro. Shimaru ergueu a espada, um clarão dourado percorreu a lâmina e as raízes foram cortadas antes que o alcançassem. Entretanto, outras surgiram imediatamente, vindas de diferentes direções.
— Você acredita ter encontrado o equilíbrio... — prosseguiu Mantor. — Acredita que homem e fera finalmente se tornaram um só. Que conquistou algo que jamais poderá ser desfeito.
Shimaru firmou os pés. — É exatamente isso que aconteceu.
— Então me permita demonstrar o quanto está enganado. A energia negra explodiu em todas as direções, o primeiro impacto não atingiu o corpo de Shimaru, atingiu aquilo que existia entre ele e o Leão.
Por um instante, o mundo pareceu perder suas formas. O brilho dourado que envolvia o interior daquele samurai, oscilou violentamente, enquanto uma pressão sobrenatural atravessava sua consciência. Não era uma lembrança, uma dúvida ou uma emoção reprimida, era uma força externa, invasiva, tentando impor uma separação impossível.
Shimaru sentiu a presença do Leão. Não como uma fera que precisava ser contida, nem como uma força que ameaçava escapar, sentiu-o como parte de si, tão presente quanto seus próprios pensamentos. — Não! — gritou, fincando a Kinsachi no chão.
O brilho dourado se expandiu ao redor dele, e Mantor abriu ainda mais os olhos. — Interessante...
A pressão aumentou, o chão rachou sob os pés de Shimaru, e a energia negra começou a envolver sua armadura, procurando fissuras naquela união. A criatura não tentava despertar novamente uma disputa entre homem e fera, queria impor sua própria vontade sobre ambos, arrancando-os um do outro à força.
Shimaru resistiu, a Kinsachi brilhou intensamente, e uma onda dourada percorreu o pentagrama, por um momento, as linhas escuras perderam intensidade, e Mantor então quase rosnou.
— Você realmente acredita que pode resistir a mim?
— Não preciso acreditar. Shimaru ergueu a espada. — Eu sei quem sou! E o guerreiro avançou.
A energia dourada explodiu ao redor de seu corpo, e Shimaru disparou em direção à face demoníaca. Sua lâmina descreveu um arco luminoso, lançando uma onda de força que atingiu diretamente o rosto de Mantor, e a criatura rugiu, e sua expressão demonstrou algo além de desprezo.
Mas o golpe não fora suficiente.
Uma massa de energia negra surgiu diante da face e interceptou o ataque. O choque produziu uma explosão que fez os pilares estremecerem e Shimaru foi lançado para trás, atravessando uma formação rochosa antes de cair sobre o chão rachado.
Ele se levantou lentamente, seu braço esquerdo começou a sangrar, mas o brilho dourado ainda envolvia seu corpo, e parecia oscilar mas agora, oscilava diante da pressão que emanava do abismo.
— Você é persistente... — rosnou Mantor. — Devo admitir que chegou mais longe do que imaginei. A face começou a afundar ainda mais no solo, enquanto a energia negra se concentrava ao redor dos cinco pilares. — Mas ainda não compreendeu o que está enfrentando.
O chão se abriu, dezenas de braços feitos de energia escura emergiram das fissuras, tentando agarrar as pernas e os braços de Shimaru, o samurai se lança para o alto, literalmente ricocheteia em uma das pedras e desembainha a kinsachi:
- SHISHIRENGE!
Os relâmpagos cortam os céus, a transformação acontece em mais rápido do que ele pronunciara a palavra, e então o guerreiro Lion-Maru pousa firmemente do outro lado do local onde se impulsionou inicialmente…
O samurai fera então se põe a correr e confrontar os tentáculos trevosos, sua espada cortava o ar com uma velocidade assustadora, mas seu oponente não era mais um monstro-humano, ele agora enfrentava o próprio Mantor, e para cada um que desaparecia era substituído por dois outros, e a pressão aumentava a cada instante.
Mantor voltou a falar. — Seus companheiros morreram. Seus inimigos foram destruídos. Sua jornada terminou aqui. Tudo aquilo que você conquistou não passa de uma pequena chama diante da escuridão que existe neste lugar.
Lion-Maru tentou avançar novamente, mas os braços de energia das trevas o puxaram para baixo e nem assim sua vontade desaparecia… — Você não entende... — murmurou Shimaru.
— O quê?
O guerreiro ergueu a cabeça. — Eu não cheguei até aqui sozinho. A Kinsachi e suas runas brilharam novamente.
Uma onda dourada percorreu seu corpo, destruindo parte das amarras, Lion-Maru conseguiu libertar um braço e desferiu um golpe contra o solo, a explosão abriu uma enorme rachadura que avançou até o pentagrama, e Mantor… Ele novamente urrou.
Então, pela primeira vez, sua face deixou de sorrir, e a criatura ergueu a cabeça dentro do próprio abismo. As cinco pedras vermelhas começaram a pulsar com violência, e uma quantidade imensa de energia se concentrou entre os pilares, e Lion-Maru percebeu a mudança tarde demais.
Uma esfera negra surgiu diante da face de Mantor, seu núcleo parecia absorver a própria luz, enquanto descargas percorriam sua superfície. A pressão era tão intensa que as rochas próximas começaram a se desfazer! Lion-Maru tentou se mover, as amarras restantes o prenderam novamente.
— Você deveria ter permanecido entre os vivos, pequeno guerreiro... — declarou Mantor. — Agora será apenas mais um fragmento daquilo que tentou destruir.
A esfera cresceu, Lion-Maru ergueu a Kinsachi, reunindo toda a energia que ainda conseguia controlar, pois as trevas, pareciam querer o despedaçar, o separar por completo da essência bestial que o preenchia naquele momento, e mesmo que o brilho dourado tenha se intensificado, a força de trevas que vinha em sua direção era esmagadora.
Mantor abriu a boca. — DESAPAREÇA!
A descarga partiu em direção a Lion-Maru, a rajada rasgou as paredes, abriu crateras, avançou sem qualquer chance de ser parada, e a Lion-Maru, restou apenas tentar inutilmente colocar a espada e os braços diante de si, numa vã e insuficiente tentativa de permanecer vivo… Foi então que tudo aconteceu...
Um vulto atravessou a câmara, o impacto foi brutal, não contra Mantor, mas contra Lion-Maru… A figura atingiu o samurai lateralmente e o arrancou do caminho da descarga no último instante, e os dois foram lançados contra o chão, deslizando por vários metros até colidirem com uma formação rochosa.
O impacto lançou tudo contra as paredes rochosas, atravessando formações que se despedaçaram sob a violência da descarga. Fragmentos de pedra, poeira e energia negra preencheram os corredores subterrâneos enquanto o rugido de Mantor reverberava por toda a montanha.
Lion-Maru foi arremessado por uma passagem lateral, bateu violentamente contra uma coluna de pedra e continuou deslizando pelo chão até atingir uma formação rochosa. O desconhecido também foi lançado para longe, mas conseguiu girar o corpo durante a queda e aterrissou sobre os pés, escorregando alguns metros antes de recuperar o equilíbrio.
Por alguns instantes, tudo ficou em silêncio.
A poeira demorou a baixar, e quando finalmente conseguiu enxergar ao redor, Shimaru percebeu que haviam sido lançados para muito longe da câmara de Mantor. A arquitetura daquele lugar lhe pareceu familiar, as paredes antigas, os relevos desgastados, as ruínas e as marcas de destruição espalhadas pelo chão... Estavam próximos da região onde havia enfrentado Shinseikiba, o falso cervo sagrado.
O guerreiro tentou se levantar, mas uma dor aguda atravessou seu braço. Seu corpo estava ferido, havia voltado à forma humana, sua respiração vinha pesada e a Kinsachi havia caído a alguns metros de distância, enquanto o desconhecido caminhou lentamente até ele.
Era um homem jovem, de cabelos escuros, trajes samurais surrados e um “chonmage” bagunçado na cabeça, com uma expressão que parecia oscilar entre o aborrecimento e a diversão. Ele observou a destruição provocada pelo ataque, depois olhou para Shimaru ferido ao chão...
— Humm... — resmungou. — Você realmente tem um talento impressionante para se meter em encrencas e depois não dar conta nelas, não é mesmo Shimaru? É esse seu nome, estou certo?
Shimaru tentou compreender quem era aquele desconhecido. — Quem...?
O homem nem sequer respondeu, apenas voltou os olhos para a gigantesca cratera aberta nas paredes, de onde Mantor não podia mais os observar, talvez quando muito os ouvir, e então a expressão do jovem recém chegado mudou de maneira perceptível.
— Você… O samurai de pé, observava Shimaru ao chão abrindo um sorriso provocador…
— Observei você por tanto tempo... — começou, com uma expressão de aparente desapontamento. — Acompanhei sua jornada, suas batalhas, tudo aquilo que enfrentou... Confesso que tinha grandes expectativas... Mas parece que acreditei demais, afinal.
Shimaru ergueu o rosto, tentando compreender aquelas palavras, em contra-partida, o homem se agachou diante dele, ficando à altura de seus olhos, um sorriso debochado surgiu em seus lábios.
— O grande guerreiro escolhido para se tornar um samurai bestial... O homem que atravessou a montanha, derrotou os cinco guardiões e chegou até o próprio Mantor. E agora? Um único ataque de trevas, e você mal consegue ficar de pé? Mas que piada, e de muito mal gosto ainda, AHAHAHA!
Shimaru apoiou a mão saudável no chão e fez força para se levantar, o desconhecido se afastou um passo, como se lhe concedesse espaço para tentar. O guerreiro conseguiu ficar de pé, embora o braço ferido pendesse junto ao corpo.
— Quem é você? — perguntou, entre uma respiração e outra.
— Isso importa?
— Perguntei quem você é!
— E eu perguntei se isso importa! — respondeu o homem, abrindo os braços. — Olhe para você! Está diante de Mantor, depois de tudo o que percorreu, e sua primeira preocupação é descobrir o nome de um desconhecido? Talvez eu tenha superestimado sua capacidade de estabelecer prioridades também.
Shimaru cerrou os dentes, a provocação começava a surtir efeito, e o desconhecido percebeu. — Ah, aí está! — exclamou, com um sorriso satisfeito. — Finalmente alguma expressão de vida!
O guerreiro avançou num impulso e desferiu um golpe horizontal com a Kinsachi, que havia recuperado durante o movimento. O desconhecido saltou no exato instante, desviando da lâmina, seus pés tocaram o solo por uma fração de segundo, e um deles pousou deliberadamente sobre a ponta da espada antes que ele saltasse novamente para trás.
O gesto foi tão rápido quanto insolente, e com prazer, o homem soltou uma gargalhada.
— Hahahahaha! O adversário permanece por um instante sobre a ponta de sua espada sagrada, e você permite que isso aconteça? Que desperdício! Eu esperava mais do homem escolhido pela Kinsachi!
Shimaru ergueu a lâmina, tomado pela indignação. O desconhecido inclinou a cabeça e o observou com um olhar provocador. Por um breve instante, algo brilhou em seus olhos, uma espécie de entusiasmo quase selvagem diante da reação que havia conseguido provocar.
— Ou será que o grande escolhido ainda está pensando naquele irmão que teve a garganta arrancada pela crueldade de Mantor? Será que toda essa jornada, toda essa força, toda essa determinação... não passam de uma tentativa desesperada de compensar aquilo que não conseguiu impedir?
Shimaru avançou. A Kinsachi cortou o ar, mas o desconhecido se esquivou com um movimento mínimo, deixando a lâmina passar rente ao corpo, e antes que Shimaru pudesse completar o segundo golpe, o homem atingiu seu peito com a palma da mão, lançando-o alguns passos para trás.
— É isso? — perguntou. — Vai lutar comigo por ter mencionado seu irmão? Então talvez Mantor tenha razão. Talvez você ainda seja apenas um homem conduzido pelas próprias feridas.
— Cale a boca!
— Faça-me calar!
Shimaru investiu novamente, dessa vez com uma sequência de golpes mais rápidos. O desconhecido desviou de todos, recuando apenas o necessário, não parecia interessado em derrotá-lo, pelo contrário, cada movimento era calculado para fazê-lo gastar energia, perder a paciência e perceber a própria falta de precisão. Quando Shimaru finalmente conseguiu aproximar a lâmina, o homem segurou seu pulso.
— Pare. A palavra saiu seca.
Shimaru tentou se desvencilhar, mas o desconhecido não soltou imediatamente.
— Está vendo? É assim que Mantor quer que você lute. Quer que sua raiva escolha o alvo, determine o momento e conduza sua espada. Você aprendeu alguma coisa desde que entrou nesta montanha ou apenas trocou uma fera descontrolada por uma armadura bonita?
O homem soltou seu braço e recuou. Shimaru permaneceu imóvel por alguns segundos, a respiração ainda estava pesada, mas a expressão havia mudado. Ele olhou para a Kinsachi e depois para o desconhecido.
— Você está tentando me provocar.
— Finalmente! Uma observação inteligente! E o estranho homem aplaudia, deixando claro seu sarcasmo...
— Quer que eu perca a calma.
— Não. Quero descobrir se você é capaz de sentir alguma coisa além dessa serenidade artificial que parece tanto querer demonstrar.
O desconhecido apontou para o peito de Shimaru.
— Você enfrentou sua culpa. Aceitou sua dor. Reconheceu a fera que existe dentro de você e aprendeu a caminhar com ela. Muito bonito. Uma conquista admirável. Mas me responda: isso significa que nunca mais sentirá raiva? Que não poderá odiar aquilo que precisa destruir? Que deverá permanecer tranquilo enquanto alguém tenta arrancar sua cabeça?
Shimaru não respondeu.
— É esse o seu entendimento de harmonia? — continuou o homem. — Um guerreiro que precisa fingir que não sente aquilo que qualquer ser vivo sentiria?
— Não estou fingindo nada. Esbravejou Shimaru, revoltoso…
— Então por que está se contendo? Porque ainda não atingiu Mantor com tudo que tem? A pergunta atingiu Shimaru de maneira diferente das anteriores, e o desconhecido se aproximou, sem demonstrar receio.
— Você está ferido. Está cansado. Seu inimigo está diante de você e ameaça tudo o que lutou para proteger. Está com raiva, não está? Está frustrado por não conseguir vencê-lo, não é verdade? Me fale Shimaru, você tem um medo terrível de que tudo termine aqui, não tem? Ou será que nem odeia mais Mantor por tudo que fez ao seu irmão e por tudo o que fez aos outros?
Shimaru ergueu os olhos sem admitir, mas sua expressão deixava cristalino, o quanto ele odiava Mantor do Diabo… O homem então sorriu debochadamente e completou: — Ora homem, então sinta!
Shimaru o observou como se não entendesse corretamente tudo que estava sendo dito, e deixa inclusive escapar: — O quê?
— Sinta tudo isso! Não precisa pedir licença para sua raiva, nem para o leão, nem para ninguém. Não precisa esconder seu ódio, sua frustração ou seu medo. Apenas precisa sim, se vai liberá-los, fazer isso porque decidiu, não porque alguém tomou o controle de você!
O desconhecido deu um passo para trás e abriu os braços. — Ou você acredita mesmo que a harmonia que conquistou só deva existir enquanto estiver calmo e sob controle?
Shimaru apertou a empunhadura da Kinsachi, a energia dourada ao redor de seu corpo oscilou, mas não se apagou. — A harmonia… Não significa ausência de sentimentos... — respondeu, lentamente, como se decifrando cada parte da própria frase…
— Então prove! E o homem avançou de repente, sacando sua katana.
Shimaru reagiu por instinto, bloqueando o primeiro golpe com a espada, o impacto fez seus braços tremerem, enquanto o desconhecido girou o corpo e desferiu um segundo ataque, que Shimaru conseguiu evitar por pouco. Um terceiro golpe atingiu seu ombro e o fez recuar.
— Isso! — exclamou o homem. — Reaja! Não fique esperando que seu adversário pegue leve ou tenha pena de você!
Shimaru avançou, mas dessa vez não atacou cegamente. Observou a postura do oponente, percebeu o movimento de seu ombro e antecipou a direção do golpe seguinte, a Kinsachi passou rente ao rosto do desconhecido, que recuou com um sorriso satisfeito, por frações de milésimos escapando de um golpe potente em seu rosto.
— Agora sim! Ele olha estupefato para Shimaru que ainda não havia desistido de exaurir seu incômodo com a fala do homem misterioso!
Shimaru respirou fundo. — Você poderia simplesmente explicar o que pretende.
— E perder a oportunidade de descobrir quanto tempo você leva para aprender e desfazer essa sua cara afeminada? De maneira alguma! O homem tornou a avançar.
Shimaru bloqueou o ataque e tentou contra-atacar, mas o desconhecido desviou e atingiu seu abdômen com um golpe curto. O guerreiro cambaleou, a raiva voltou a subir, e a energia dourada se intensificou violentamente.
— Cuidado! — advertiu o homem, recuando. — Não confunda liberar sua força com entregar a direção dela!
Shimaru parou, por algum motivo ele estava ouvindo as dicas de como lutar de um completo estranho insolente, e o homem novamente apontou para a espada.
— Você não precisa ser menos feroz. Precisa ser mais senhor de si! Shimaru permaneceu em silêncio, assimilando aquelas palavras.
— A fera não precisa ser acorrentada... — continuou o homem. — E você não precisa fingir que é feito apenas de luz. Um guerreiro que não sabe sentir raiva não é necessariamente sábio, talvez seja apenas alguém que nunca encontrou um motivo suficientemente forte para sentir.
O desconhecido ergueu a mão e fez um gesto provocador com os dedos. — Vamos, novato. Mostre-me o que realmente aprendeu. E Shimaru avançou novamente.
Dessa vez, seus movimentos eram diferentes, não havia hesitação, mas também não havia descontrole. A raiva permanecia em seus olhos, a frustração estava presente em cada respiração, e o desejo de destruir aquele que ameaçava sua vida não havia desaparecido. Contudo, nada disso o dominava.
Ele escolhia quando atacar, quando recuar e quando conter a própria força, e o desconhecido percebeu a mudança, fazendo com que um sorriso mais sincero surgisse em seu rosto. — Humm... Talvez ainda exista alguma coisa aí dentro que valha à pena insistir… Acho que realmente você não é um fracassado completo Shimaru!
Shimaru então como um relâmpago, desferiu um golpe que obrigou o homem a saltar para trás, a Kinsachi cortando uma mecha de seus cabelos. — Ora! — exclamou o desconhecido, passando a mão pela cabeça. — Essa passou perto!
— Você queria que eu reagisse!
— E agora estou começando a me arrepender de ter conseguido!
Pela primeira vez, Shimaru esboçou um sorriso, e ele sequer sabia porque, mas uma satisfação parecia tomar conta dele, algo como uma tranquilidade que nunca havia sentido, uma segurança, como se houvesse aprendido tudo sobre um determinado ofício… .
O desconhecido percebeu e imediatamente voltou a provocá-lo. — Não se anime tanto, novato, acertar um golpe em mim não significa que tenha aprendido muita coisa.
— E você fala demais.
— Ah! Finalmente! Respostas à altura!
Os dois se afastaram alguns passos, por um instante, o silêncio voltou a ocupar as ruínas, e então, muito distante dali, um estrondo fez a montanha estremecer. O desconhecido ergueu os olhos, completando com um deboche à mais: — Nosso anfitrião é mais lerdo que você, somente agora ele está ficando impaciente com nosso desaparecimento.
Shimaru olhou na direção do abismo, e embainhado a Kinsachi novamente, se põe à caminhar. — Eu preciso voltar. Mantor não vai esperar.
— Mas que maravilha, duas frases inteligentes em um só dia… Olha, que evolução meu estimado Shimaru! Não, ele não vai esperar e também não vai permanecer naquela câmara para sempre.
Um novo impacto sacudiu a montanha. Dessa vez, parte do teto desabou, e uma onda de energia negra percorreu as galerias. As paredes começaram a rachar, e os relevos antigos foram destruídos por uma força que parecia avançar em todas as direções.
O desconhecido perdeu o sorriso. — Ele está vindo.
Shimaru firmou a Kinsachi. — Então eu vou ao encontro dele.
— Agora está falando como um guerreiro másculo Shimaru. O samurai olha para o estranho, ignora a nova provocação, e se coloca a caminhar, enquanto o estranho homem ia ficando para trás…
A montanha rugia. Nas profundezas, Mantor havia compreendido que a simples manifestação de sua face não seria suficiente para deter aquele que carregava a Kinsachi. Sua influência podia corromper, manipular e destruir, mas a união entre Shimaru e o Leão havia resistido até mesmo à tentativa de separação sobrenatural.
E agora havia outro guerreiro, cogitava Mantor, uma presença que Mantor reconhecia, embora não pudesse compreender inteiramente.
A criatura abriu sua boca gigantesca e liberou um rugido que atravessou todas as galerias. As cinco pedras de sangue começaram a brilhar com intensidade crescente, fissuras se abriram ao redor dos pilares, e uma energia escura foi arrancada das profundezas, convergindo para o centro da câmara.
O rosto monstruoso começou a se desfazer, não como se estivesse morrendo, mas como se estivesse abandonando a forma que até então lhe servira de prisão e manifestação.
A matéria escura se ergueu do chão, fragmentos de rocha, restos orgânicos e massas de energia sobrenatural foram arrastados para o centro do abismo, uma estrutura gigantesca começou a se formar, tomando proporções cada vez maiores.
As características dos cinco generais retornaram em uma única criatura. A brutalidade de Kurokiba, a natureza serpentina de Yamokiba, a couraça de Gansekikiba, a ferocidade de Tsukikiba e a energia corrompida de Shinseikiba foram reunidas em um corpo monstruoso. Não havia beleza naquela forma, havia apenas uma composição grotesca de força, destruição e perversidade.
Uma das pernas se apoiava em uma estrutura pétrea que parecia uma montanha em miniatura. Os braços eram enormes, cobertos por placas rochosas e fissuras incandescentes. Uma cauda serpentina se movia atrás do corpo, enquanto garras longas e deformadas se projetavam das mãos. Chifres e estruturas ósseas emergiam dos ombros e da cabeça, e dois olhos incandescentes se abriram no centro daquela massa colossal.
Mantor havia conquistado um corpo, um corpo que podia caminhar, um corpo que podia lutar, e que agora avançava para encontrar os dois guerreiros.
Shimaru chegou a uma passagem elevada que dava acesso à câmara principal, o chão tremia sob seus pés, e a energia negra se espalhava pelas paredes como uma infecção. — O que ele está fazendo? — questionou Shimaru e ao longe, ele pode começar a notar, a imensa massa que se erguia.
— Parece que finalmente ele resolveu terminar a batalha… Shimaru percebia que o combate final havia surgido, e um urro descomunal atravessou o abismo.
A criatura surgiu entre as formações rochosas, destruindo tudo ao redor. Seu corpo gigantesco avançava lentamente, e cada passo produzia uma onda de choque que fazia o chão estremecer. Shimaru ergueu a Kinsachi. — É Mantor… É aquilo que ele decidiu se tornar.
A criatura ergueu um dos braços e desferiu um golpe contra a passagem elevada. Shimaru saltou em direção oposta ao ataque, mas o impacto destruiu a estrutura, lançando toneladas de rocha pelo abismo. Shimaru aterrissou sobre uma formação calcárea próxima.
Mantor urrou novamente, uma descarga negra atravessou o espaço e atingiu o lugar onde Shimaru havia aterrissado; o impacto e a explosão o lançaram novamente contra uma parede, tamanho o poder monstruoso de Mantor...
Shimaru então se ergue uma vez mais, avançou pelo flanco da criatura, saltando sobre as formações rochosas e atingindo uma das pernas com um golpe poderoso! O impacto abriu uma fissura na couraça, mas o monstro respondeu com um movimento brusco da cauda, obrigando-o a recuar.
Shimaru percebeu ali, no entanto, uma oportunidade, mesmo diante do combate perigoso, e avançou pela lateral, desferindo um golpe com a Kinsachi contra a estrutura pétrea do braço de Mantor. A lâmina penetrou parcialmente, liberando uma explosão dourada.
A criatura rugiu e sacudiu o braço e logo em seguida ergueu os dois braços, a energia negra se concentrando acima de sua cabeça, formando uma enorme massa que começou a descer sobre o guerreiro. — Eu não vou conseguir enfrentá-lo assim! — balbuciou Shimaru e então, mais ao fundo, uma voz que Shimaru preferia não ouvir mais, uma vez mais se pronunciava de forma acertada:
— Então pare de lutar como um idiota Shimaru!
Shimaru ouviu as palavras, ofendeu-se incialmente, mas depois lembrou de tudo que o estranho havia dito e de como se sentiu quando seguiu suas instruções... O samurai então deixou o orgulho de lado, compreendeu que precisava aceitar aquela verdade, por mais que tentasse recusar, e assentiu... T'udo que fora conversado enquanto o estranho estava com ele, fluiu em sua mente, a Kinsachi começou a brilhar o samurai desembainhou a mesma:
— Certo... SHISHIHENGE!
Um relâmpago dourado explodiu ao redor do guerreiro, a energia percorreu seu corpo, envolvendo-o em luz e transformando sua silhueta. Quando a claridade desapareceu, Lion-Maru estava diante de Mantor, a armadura dourada reluzindo entre as sombras do abismo.
— Lion-Maru… Shinjitsu KENZAN!
O desconhecido observou a transformação com um sorriso satisfeito. — Muito melhor. Enquanto Lion-Maru ergueu a espada e avançou.
Mantor desferiu um golpe com o braço gigantesco, mas o guerreiro desviou, saltando sobre a estrutura rochosa e atingindo a criatura com a Kinsachi. A lâmina abriu um corte profundo no peito monstruoso, e o urro de Mantor fez a câmara tremer.
O desconhecido permaneceu imóvel por um instante, observando Lion-Maru combater, e logo depois, como se tivesse de alguma forma se motivado a isso, lentamente, começou a sorrir, gritando à plenos pulmões: — Ei! Shimaru! Parece que vou ter de te ensinar como se faz... Novato...
Ele então abre seus braços e ergue seu rosto para cima, e de sua garganta, um rugido brotou, chamando a atenção dos dois combatentes, enquanto seu corpo começou a mudar.
Os músculos se expandiram, os ossos se reorganizaram e uma pelagem branca surgiu sobre sua pele. Suas mãos se alongaram, transformando-se em poderosas patas humanoides, terminadas em garras afiadas, o rosto adquiriu traços felinos, o maxilar se projetou e os olhos assumiram um brilho amarelo intenso. Uma cauda longa surgiu atrás de seu corpo, acompanhando os movimentos com precisão.
Em poucos instantes, diante de Lion-Maru, não havia mais um simples ronin insolente, mas sim um enorme tigre branco humanoide. O ser então, como se tivesse chamado atenção suficiente, flexionou as garras, observando a criatura monstruosa à sua frente.
Lion-Maru por um breve momento, ficou impressionado com a transformação, o tigre branco virou ligeiramente a cabeça, e se podia ver o sorriso sarcástico por debaixo da criatura bestial… — Agora tente acompanhar! E disparou.
A velocidade do guerreiro felino surpreendeu até mesmo Lion-Maru. O Tigre Branco saltou sobre uma das formações rochosas, desviou de uma investida de Mantor e atingiu o braço da criatura com as duas garras. O impacto arrancou placas pétreas e liberou uma explosão de energia negra.
— As garras... — murmurou. — Parecem katanas rasgando a escuridão. E os olhos... brilham com a honra que deveria guiar toda espada. Lion-Maru segue o exemplo, e aproveitando a abertura, avançou pelo outro lado.
Pela primeira vez, Mantor precisava enfrentar dois adversários que não apenas resistiam à sua força, mas conseguiam feri-lo. O Tigre Branco se movimentava com ferocidade e precisão, não havia espadas, escudos ou armaduras, apenas músculos, velocidade, instinto e garras capazes de rasgar a couraça demoníaca.
Lion-Maru, por sua vez, combinava a força do Leão com a habilidade de Shimaru e a precisão da Kinsachi. Os dois atacavam de maneiras distintas, mas seus movimentos começaram a se complementar, quando um atraía a atenção de Mantor, o outro encontrava uma abertura; quando a criatura tentava atingir um deles, o segundo surgia para interromper o golpe.
O combate ganhou uma intensidade devastadora. Mantor então urrou, fazendo a energia negra inicialmente se expandir em uma onda de choque que atingiu os dois oponentes, e enquanto eles eram arremetidos pelo poder da massa trevosa, o monstro concentrou em seu peito, uma estrutura pontiaguda de trevas, alongando-se rapidamente até adquirir a aparência de uma lança colossal. - JÁ CHEGA!!
O Tigre Branco percebeu o movimento e tentou saltar para o lado, mas Mantor não estava mirando em Lion-Maru… A criatura girou o braço e lançou a lança em uma velocidade brutal, no sentido contrário de onde parecia ter dado impressão de querer acertar, e o golpe potente rasgou a distância entre os dois, e atingiu o Tigre Branco diretamente no olho esquerdo.
O impacto fora visceral. A lança atravessou a região ocular, arrastando-o em direção a parede rochosa, onde ao se chocar com ela, a estrutura negra se expandiu ao redor dele, prendendo-o à pedra como uma estaca gigantesca.
O corpo do Tigre Branco ficou suspenso, imóvel, por um instante o abismo pareceu silenciar, até que Lion-Maru virou a cabeça e percebeu o ocorrido... Seu corpo sentiu o choque ao reconhecer o companheiro preso à parede, a pelagem branca estava manchada de sangue, e a lança negra atravessava sua cabeça, mantendo-o completamente inerte.
— NÃO!
Continua...

Fico extremamente feliz por esse título voltar. E voltar com tudo!
ResponderExcluirA batalha inicial contra o Mantor, ainda como apenas uma "cara no chão" ficou muito bacana! Um clima perfeito daqueles animes de ação, eu mesmo imaginei cenas com o estilo de animação do Kimetsu no Yaba.
A Interrupção do Tigre Branco, a princípio, me causou certa estranheza, nas mãos de um autor menos inspirado, seria apenas uma quebra de ritmo que atrapalharia a leitura, mas você conseguiu deixar orgânico e, mais importante, interessante e combinando com o restante do texto.
Quando Mantor desenvolveu um corpo, o nível se elevou e a ação foi num crescente até esse gancho final que faria qualquer leitor, eu incuso, soltar um PQP alto.
Mandou bem demais cara! Meus parabéns!
Grande Lanthys!
ResponderExcluirEpisódio esplêndido, dividido em duas partes .
A primeira, mostrando o primeiro encontro de Shimaru com o Mantor.
Você respeitou a aparência mostrada ns série e isso ficou bacana.
Shimaru, em meio ao seu mido de agir, tentando racionalizar tudo e controlar o poder da fera lendária, vacilou e só não foi destruído porque apareceu o o Joe Tiger (ou Tiger Joe).
Esse , aliás, foi o clímax do episódio.
Você o representou de modo fiel ao que vimos na série.
As falas me levaram ao Joe da série, de tão bem escritas que foram.
Boa lembrança!
Debochado, provocador e, ao mesmo tempo, um incentivador, que , com seu jeito heterodoxo, extrai o melhor de Shimaru e o faz despertar o que ele realmente precisa ser , para finalmente vencer Mantor.
Essa desconstrução e reconstrução da persona de Shimaru ficou primorosa.
Mas, Mantor mostra sua verdadeira face e fere Joe Tiger de modo brutal.
Se ele sobreviveu, só o próximo episódio poderá dizer, mas creio que esse acontecimento trágico despertará a simbiose perfeita entre e o humano e a fera lendária e termos uma batalha épica, bem ao estilo de Lion-Maru.
Aplausos efusivos!