terça-feira, 3 de março de 2026

Ekzyliön - Caso 5 - A calmaria antes da tempestade!


Três dias haviam passado... O tempo seguira seu curso comum para a cidade, ônibus lotados, sirenes distantes, cheiro de café forte misturado ao de diversos outros aromas e odores da cidade dessa atual Rio de Janeiro, mas, para Clarysse, havia uma espécie de intervalo suspenso entre o que acontecera na praça, e o silêncio que se seguiu depois.

Ela estava sentada em sua mesa na redação, os dedos apoiados no teclado sem realmente pressionar tecla alguma. O monitor exibia um rascunho aberto, piscando o cursor como uma provocação, ao redor, o som familiar do ambiente preenchia o ar: o som da cafeteira passando café novinho, o deslizar de uma cadeira de escritório, e o ruído intermitente da impressora tanque de tinta imprimindo algumas folhas.

Lorien foi a primeira a notar. Com seus cabelos presos num coque despretensioso e uma caneca estampada entre as mãos, ela observava Clarysse por cima da borda da louça, não era preciso muito para perceber que algo estava desalinhado, a ruiva, normalmente elétrica, parecia… em espera. Do outro lado da mesa coletiva estava Esther.

Filha do povo Korubo, um dos grupos indígenas do antigo Vale do Javari, historicamente conhecidos pelo isolamento voluntário, mas que, naqueles tempos, haviam iniciado contato gradual com a sociedade. Esther era uma espécie de prodígio, falava três línguas indígenas além do português, aprendera a ler tardiamente e, ainda assim, tornara-se uma das mentes mais afiadas da equipe de três que formavam.

Ela observava em silêncio, os olhos escuros atentos como quem escuta mais do que palavras, mas foi Lorien quem quebrou a tensão. - Três dias… - disse, casual, mas não tanto. - E nada? Clarysse fingiu não entender.

- Nada do quê?

- Ah, por favor… - Lorien apoiou os cotovelos na mesa. - O misterioso salvador dq praça pública.

Esther inclinou levemente a cabeça. - Ele não mandou mensagem?

Clarysse suspirou, enfim desviando o olhar do monitor, a luz fria da tela destacava as pequenas olheiras que começavam a se formar. - Não.

Silêncio. Lorien arqueou uma sobrancelha. - E por que você não pegou o número dele também? Poderia ter mandado uma mensagem. Sei lá, um simples “oi”, não haveria problema, afinal, jornalismo investigativo começa com iniciativas, senhorita.

Um sorriso pequeno surgiu no rosto de Clarysse, não de deboche, mas de compreensão. - Eu pensei nisso… - admitiu. - Mas… não sei explicar. Foi como se eu tivesse entendido que, se eu invadisse aquele espaço, poderia perder até a chance de falar com ele de novo.

Esther apoiou os antebraços na mesa, interessada. - Como assim?

Clarysse buscou as palavras com cuidado, como quem pisa em terreno sensível. - Ele é uma boa pessoa. Eu senti isso. Mas também senti que ele carrega coisas… que não podem simplesmente ser expostas. Não é segredo banal, não é drama juvenil. É… responsabilidade. Peso. - Ela respirou fundo. - Se eu pressionasse, poderia parecer que eu só quero uma matéria, e eu não quero que ele pense isso.

Lorien cruzou os braços. - Mas você quer a matéria. Ou está pensando em mais coisas sua safadinha? Clarysse de pronto se movimentou, gesticulou com os braços em negativa, a cabeça acompanhava, completamente ruborizada e envergonhada, mas depois das risadas bem-humoradas de Lorien e Esther, ela então riu de leve, sem negar.

- Claro que quero a matéria, está no meu sangue essa temática e publicar histórias, mas… não à custa de atropelar alguém. Não ele.

Houve um breve silêncio, preenchido apenas pelo barulho distante da rua. - Então você vai esperar? - Esther perguntou. Clarysse assentiu.

- Vou. Se ele quiser falar, vai me procurar. Se não quiser… - deu de ombros, tentando parecer mais forte do que realmente estava... - Não vai ser a primeira vez que as vontades do mundo passam por cima das minhas.

Lorien suavizou o olhar. - Dramática.

- Realista. - Rebateu a ruiva, sorvendo um gole de seu café que já estava frio de tanto tempo parado sobre a mesa, sendo logo colocado de lado por conta disso! Esther observou-a por alguns segundos a mais, como se tentasse perceber algo além do visível, um tipo de leitura que parecia vir de raízes mais antigas que a própria cidade.

Então Lorien estalou os dedos, mudando o foco. - Muito bem. Já que o cavaleiro misterioso resolveu brincar de enigma, pelo menos me diga: você conseguiu as informações que queria? 

Esther inclinou-se para frente, curiosa. - Você descobriu alguma coisa sobre o que aconteceu na praça?

Clarysse desviou o olhar para a tela novamente, o cursor ainda piscava, dessa vez, porém, ela não parecia tão ausente. - Consegui… - murmurou, ajustando a postura na cadeira, respirou fundo e disse, quase como um aviso cerimonial: - Eu vou digitar e ler pra vocês ao mesmo tempo.

Os dedos pousaram sobre o teclado, a redação ficou em silêncio, e ela começou.

“Praça Central registra tumulto, desaparecimento momentâneo e resgate sem feridos graves

Na tarde da última terça-feira, a Praça Central foi palco de um episódio incomum que mobilizou populares e equipes de emergência. Testemunhas relatam que uma senhora, visivelmente abalada, passou a agir de maneira desorientada poucos minutos após deixar a delegacia localizada nas proximidades.

Segundo pessoas que estavam no local, houve um momento de intensa agitação seguido por uma súbita onda de calor e um fenômeno descrito como 'uma espécie de névoa escura' que se dissipou rapidamente. Alguns afirmam ter sentido um deslocamento de ar semelhante a uma explosão contida, embora não tenham sido registrados danos estruturais na praça, nem indícios técnicos de combustão ou artefato explosivo.

Durante o tumulto, duas pessoas - a senhora e um jovem que teria se aproximado para ajudá-la - desapareceram do campo de visão por alguns segundos, segundo relatos, reaparecendo logo em seguida no mesmo ponto onde estavam. Vídeos gravados por celulares mostram apenas o momento posterior, com o jovem ajoelhado ao lado da mulher, prestando assistência até a chegada do socorro.

Equipes médicas que atenderam a ocorrência informaram que não foram constatados ferimentos, hematomas ou quaisquer lesões físicas compatíveis com impacto ou agressão. A mulher foi encaminhada à unidade de pronto atendimento por precaução e liberada no mesmo dia.

A Polícia Civil declarou que não houve registro formal de ataque na praça, classificando o caso como possível mal súbito seguido de pânico coletivo. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que situações de forte estresse emocional podem desencadear episódios de desorientação intensa, afetando também a percepção de testemunhas.

Moradores da região, entretanto, afirmam que a sensação térmica no momento do ocorrido era 'anormalmente elevada' e que o ar apresentava odor incomum logo após o episódio.

A identidade dos envolvidos foi preservada, as autoridades seguem apurando os relatos e analisando imagens registradas por câmeras de segurança próximas à praça, até o momento, não há confirmação oficial de crime relacionado ao ocorrido."

Clarysse parou de digitar, o cursor voltou a piscar, ela respirou fundo e olhou para Lorien e Esther. - Eu não vou colocar os nomes deles.

As duas ergueram os olhos: - O rapaz que ajudou, ele me pediu para não falar. E ela… - a voz de Clarysse suavizou - Ela tinha acabado de receber a notícia da morte do neto. Já sofreu mais do que qualquer pessoa deveria suportar num único dia, se eu publicar nomes, os transformo em parte do problema.

Ela apoiou os dedos na mesa, firme. - Não é sobre esconder informação. É sobre não transformar gente ferida em manchete, se alguém precisa de exposição, são os fatos, não eles. Esther assentiu em silêncio, Lorien inclinou levemente a cabeça, respeitando. Clarysse voltou ao teclado.

- Agora vem a parte que talvez não agrade todo mundo. E começou a digitar de novo, lendo em voz alta.

“Opinião | Estamos vendo apenas acidentes — ou sintomas?

Os acontecimentos da Praça Central não podem ser analisados de forma isolada. Só nas últimas semanas, a cidade registrou um ataque violento na região da favela do Alto da Serra, envolvendo incêndios inexplicáveis e relatos contraditórios sobre a dinâmica do confronto. Poucos dias antes, a antiga fábrica de bebidas pertencente aos chamados “irmãos russos” foi palco de um episódio igualmente obscuro, com destruição parcial da estrutura e testemunhas descrevendo fenômenos difíceis de classificar, isso focando apenas em nossa cidade.

Oficialmente, cada caso possui uma explicação técnica distinta. Incêndio criminoso. Conflito armado. Surto emocional. Pânico coletivo. Mas a repetição do padrão chama atenção.

Desde o fim da Grande Guerra, multiplicam-se relatos de crises psicóticas súbitas, episódios de violência extrema sem motivação clara, desaparecimentos breves e reaparecimentos sem registro consistente, além de testemunhos cada vez mais frequentes envolvendo criaturas, distorções visuais, alterações térmicas e lapsos temporais.

Se, em décadas passadas, os grandes mistérios populares giravam em torno de avistamentos ufológicos e luzes nos céus, hoje os relatos são mais terrenos, e talvez mais inquietantes. O inexplicável parece ter descido à rua, às casas, aos lares e à convivência frenética da sociedade atual, já bastante confusa pela diversidade de etnias e o reduzido espaço para todos, em comparação com o que já foi nosso planeta.

Não se trata de afirmar a existência de monstros, mas é legítimo questionar: por que tantos eventos distintos compartilham sintomas semelhantes? Por que tantas testemunhas descrevem tantas situações incompreensíveis? Estamos diante de coincidências sucessivas ou de um fenômeno maior fragmentado em ocorrências isoladas?

Talvez estejamos chamando de 'casos pontuais' aquilo que, na verdade, compõe um mesmo cenário ainda não compreendido, talvez haja forças sociais, psicológicas ou até ambientais que ainda não sabemos medir. Ou talvez - e esta é a hipótese mais desconfortável - estejamos no meio de um conflito silencioso, um embate que ocorre à margem da percepção comum. Algo como uma guerra que não é declarada. 

E, se for esse o caso, quantos estão lutando por nós sem que percebamos? E quantos estão do outro lado? Esta reportagem não oferece respostas definitivas, mas abre espaço para perguntas que não podem mais ser ignoradas. E você o que acha leitor?"

Clarysse parou de ler, Lorien foi a primeira a reagir. Ela inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa. - Visualmente forte. Você construiu imagens sem afirmar nada impossível de sustentar. - Ela fez um gesto com a mão, como quem avalia uma peça de roupa. - A “onda de calor”, a “névoa escura”, o “odor incomum”… isso cria atmosfera sem virar sensacionalismo barato. Está elegante.

Esther permaneceu alguns segundos calada, os olhos fixos no texto na tela. - Você preservou a dignidade deles... - disse, por fim. - Isso é importante. Especialmente da senhora. Pessoas em luto viram espetáculo com facilidade demais.

Clarysse respirou mais leve, Esther continuou: - E você deixou espaço para questionamento sem acusar ninguém, eu chamaria isso de responsabilidade social, não ficou só uma matéria, ficou um cuidado.

O silêncio foi diferente daquela vez, menos denso, menos elétrico, Clarysse fechou o arquivo devagar. - Eu não estou dizendo que sei o que está acontecendo... - murmurou. - Só estou dizendo que parece grande demais para ser acaso.

Ela desviou o olhar para a janela. - E se for mesmo uma guerra… eu só espero que não estejamos sozinhos.

Lorien sorriu de lado, tentando minimizar preocupações desnecessárias: - Agora, sendo fria e estratégica? - Ela ergueu uma sobrancelha. - Isso vai gerar curiosidade suficiente para chamar atenção dos veículos maiores, você não entregou tudo… mas entregou o bastante.

Clarysse ficou por um instante, apoiando as mãos no colo. - Eu não podia escrever o que vi.

- Eu sei — disse Esther.

- Nem o que senti. Lorien cruzou os braços, satisfeita. - Então você escreveu o que pode ser provado. Clarysse assentiu. - E o que não machuca mais ninguém. O ambiente pareceu mais leve.

Mas, no fundo, enquanto o arquivo era salvo com o título provisório “Cinco Segundos na Praça”, o coração dela ainda aguardava outra notificação, uma que não dependia de edição, nem de aprovação editorial, e ela finalmente veio!

O celular vibrou sobre a mesa, um som simples, curto, mas, para Clarysse, pareceu um trovão. Ela congelou no meio da frase que estava revisando, o coração disparou antes mesmo que a mente formulasse qualquer expectativa. Lentamente, devagar demais para quem esperou três dias inteiros, virou o aparelho.

O número não constava na agenda, o ar sumiu dos pulmões. - É ele. - A voz saiu em um fio, incrédula e radiante ao mesmo tempo, Lorien já ia levantando da cadeira, Esther não foi menos rápida; contornaram a mesa em passos silenciosos, mas o sorriso denunciava tudo.

Clarysse passou o dedo na tela, quase solene, as três se aproximaram tanto que ombro encostou em ombro, e elas leram em silêncio, os olhos decorrendo pela mensagem, as bochechas de Clarysse ganhando cor.

- Lê em voz alta! — Exigiu Lorien, Clarysse pigarreou, tentando manter alguma dignidade jornalística que já estava claramente comprometida.

"— Clarysse. Espero que esteja bem. Eu sei que me atrasei, mas prometi que tomaria um café com você… Se ainda estiver de pé o convite, posso encontrá-la no The Harbor Coffee, à beira-praia. Daqui a 30 minutos, se te for possível, claro. ”

As três ficaram em silêncio por meio segundo, e então explodiram. - TRINTA MINUTOS?! - Lorien já estava puxando a cadeira para trás. - Você ainda está sentada?!

- Vai! Vai! - Esther deu um leve empurrão na amiga. - O universo finalmente conspirou à favor!

Clarysse ria, nervosa, passando a mão pelo cabelo. - Eu não estou pronta!

- Você está ótima, mas pode ficar histórica! - Decretou Lorien, já analisando o look com olhar clínico. - Espera. Em segundos, ajeitou a gola da blusa, dobrou a manga um pouco acima do pulso, alinhou o caimento da calça e girou a amiga pelos ombros como se fosse manequim de vitrine.

- Pronto. Casual inteligente, interessada, mas não desesperada, natural, mas memorável. Esther cruzou os braços, divertida.

- E presta atenção! - Disse, com um meio sorriso sagaz. - Bonito, misterioso, educado… tudo ótimo. Mas se ele começar com discurso autoritário demais, mania de controle ou visão de mundo esquisita, você levanta e vai embora. Tipos machistas podem enganar e serem charmosos no começo.

Clarysse arregalou os olhos. - Esther!

- Estou falando sério. Mistério é uma coisa, messianismo duvidoso é outra. As três riram.

Clarysse pegou a bolsa pequena, conferiu se tinha carteira, celular, bloco de notas - hábito impossível de abandonar - e respirou fundo. O nervosismo agora era elétrico, vibrante, quase juvenil, ela já estava na porta quando se virou para as duas, o sorriso não cabia no rosto, Lorien e Esther questionaram o bloco de anotações, ao que a ruiva responde, determinada:

- Apesar da empolgação parecer, isso não é um encontro, nunca foi, estou ansiosa pelo que poderei descobrir sobre o que está acontecendo aqui e no mundo… Desejem-me sorte.

Lorien levou a mão ao peito dramaticamente. - Você não precisa de sorte, precisa de timing, não se atrase pra começar certo.

Esther ergueu dois dedos em gesto solene. - Que ele seja quem parece ser, e que você continue sendo mais esperta do que ele imagina. Clarysse riu, abriu a porta e saiu quase correndo pela calçada, atrás dela, as duas trocaram um olhar cúmplice.

- Três dias! - Murmurou Lorien.

- Às vezes o tempo certo não é o mais rápido! - Respondeu Esther.

Lá fora, o vento da tarde tocou o rosto de Clarysse… Trinta minutos, e pela primeira vez desde a praça, o mundo parecia conspirar a favor dela.

O "The Harbor Coffee" estava quase vazio àquela hora da manhã. O som distante das ondas misturava-se ao tilintar delicado de xícaras, e o cheiro de café recém-moído pairava no ar como um convite à permanência. Khalamyr já estava sentado quando Clarysse chegou.

Ele não mexia no celular, não parecia inquieto, apenas observava o horizonte pela janela, como se estivesse medindo o tempo em algo maior que minutos. Quando ela entrou, ele a viu imediatamente, levantou-se, um gesto simples, cordial, respeitoso.

- Você veio... - disse ele, com um leve sorriso que não era largo, mas era sincero.

- Eu disse que viria" - respondeu ela, tentando soar natural, embora o coração ainda estivesse um pouco acelerado.

Por um segundo, ficaram ali, frente a frente, com aquele micro silêncio típico de quem ainda está aprendendo o ritmo do outro. Ele puxou a cadeira para ela.

- Eu… - começou, passando a mão brevemente pela nuca, num gesto quase imperceptível de hesitação. - Peço desculpas por ter demorado a mandar mensagem. Eu estava… Hã… digamos que ocupado com coisas.

A pausa foi mínima, mas existiu. Clarysse percebeu, não pressionou.

- Eu imaginei... - respondeu, sentando-se. - Mais um dia comum no seu… universo particular. Ele a olhou por um instante, avaliando se havia ironia, não havia, só curiosidade.

- Algo assim. - respondeu Khalamyr, sentando-se igualmente!

Um atendente se aproximou, anotou os pedidos, café para ambos, nada elaborado, nenhum gesto ensaiado de encontro romântico, não era o que nenhum deles tinha em mente, apenas dois jovens tentando conversar sem um manual.

- Você ficou bem depois de tudo aquele dia? - Perguntou ele, finalmente, apoiando os antebraços sobre a mesa.

- Fiquei. Fizeram exames, nada demais. Só um susto… - Ela inclinou levemente a cabeça. - E você?

- Estou bem.

Silêncio, não constrangedor, mas denso, como se ambos estivessem escolhendo cuidadosamente qual porta abrir primeiro. Clarysse respirou fundo, ela não era de rodeios quando o assunto era aquilo que a movia.

- Eu vou ser honesta com você. Ele manteve o olhar atento. - Eu sempre fui apaixonada por esse tipo de coisa. Mistérios. O que as pessoas chamam de impossível. Desde pequena eu sinto que existe muito mais entre o céu e a Terra do que a gente admite publicamente.

Ela falava com firmeza, mas sem teatralidade, esbanjava convicção, nenhuma fantasia se notava presente.

- E quando eu vi você naquelas fotos, em vários dos locais onde coisas misteriosas aconteceram, e depois vi o que aconteceu na praça… - continuou - eu tive a sensação de que você sabia mais do que demonstrava. E que talvez… talvez você tivesse respostas que ninguém mais tem.

Ela apoiou as mãos sobre a mesa, os dedos entrelaçados, controlando o próprio entusiasmo. - Foi por isso que eu te procurei, não por curiosidade vazia, não por sensacionalismo.

Os olhos dele não desviaram.

- Mas... - ela completou, suavizando o tom - se você não quiser falar sobre nada disso, basta dizer. De verdade. Eu não quero ultrapassar limites. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, mais contido agora. - Conversar com alguém que, por algum motivo, me agrada muito… já seria suficiente.

A frase pairou entre eles, não havia flerte explícito, não havia uma promessa, apenas uma abertura honesta. Khalamyr permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo cada palavra, e, pela primeira vez desde que chegara, o vento que entrava pela janela pareceu menos distante.

O vento que atravessava a cafeteria fez o guardanapo sobre a mesa vibrar levemente, Khalamyr manteve os olhos nela por alguns segundos antes de falar. - Minha vida, eu digo, o meu dia-à-dia… - começou, escolhendo as palavras com cuidado - Não é exatamente comum.

Ele não sorriu, não dramatizava, apenas constatava que estava no caminho supostamente correto! - Como eu disse antes, muita coisa do meu dia a dia não pode ser exposta, as pessoas não entenderiam. - Ele fez uma pequena pausa. - Às vezes, nem eu entendo além do que acontece no momento.

A jovem ruiva não desviou o olhar, apenas inclinou levemente o rosto, convidando-o a continuar.

- Conversas abertas… nunca foram algo confortável pra mim, meus dias são diferentes. Eu não sei explicar melhor do que isso. - Ele respirou fundo. - Mas eu tenho a impressão… e essa impressão só aumenta enquanto eu falo com você… de que você é uma confiável companhia.

Os olhos dela brilharam, ela apenas assentiu, quase imperceptivelmente, para não o interromper.

- Eu trabalho com gestão de redes sociais e consultoria online. Isso me permite não ficar preso a um lugar fixo, posso me sustentar de onde eu estiver, já andei por vários estados… mas o Rio é um dos lugares onde eu mais permaneço.

Ele tomou um gole de café antes de completar: - Tenho vinte e quatro anos. E… basicamente, é isso. Houve um leve levantar de sobrancelha, quase irônico da parte de Clarysse enquanto Khalamyr completou - E você? Pode me contar um pouco sobre quem é a Clarysse fora das matérias investigativas?

Ela ficou imóvel por um instante, pensativa e silenciosa verbelamente: - Vinte e Quatro? - Ela o observou com mais atenção… - Não pela aparência, ele realmente aparenta ser jovem, mas pelas atitudes, pela postura e o peso que parece carregar no olhar… Isso não combina com a leveza imprudente que eu costumo ver em pessoas da mesma faixa etária…. Ela então piscou os dois olhos algumas vezes, como se tentando voltar a si.

- Eu tenho vinte e um... - respondeu, finalmente. - Sou formada em jornalismo. Tenho uma pequena empresa com duas amigas, trabalhamos com produção independente, matérias investigativas, esse tipo de coisa.

Ela girou a xícara entre os dedos, como se organizasse as próximas memórias. - Acho que herdei o gosto pelo mistério dos meus pais. Ele inclinou levemente o corpo para frente, interessado.

- Meu pai é apaixonado por natureza. Depois do grande cataclismo da guerra, ele começou a viajar pelo mundo documentando as mudanças nos biomas… como a vida se reorganizou depois do caos. Ele estuda a adaptação da humanidade ao novo “espaço” que restou.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios. - Já minha mãe… ela é um pouco mais excêntrica. Os olhos de Khalamyr cintilaram com curiosidade.

- Arqueóloga. Viaja atrás de relíquias em áreas devastadas, lugares que quase ninguém quer pisar. Ela é uma das que chamam de “caçadores”. Ele arqueou as sobrancelhas, impressionado.

- Então… - Clarysse continuou - eu cresci com eles, quase sempre em movimento. Às vezes em continentes diferentes, comunicação falhando, meses sem contato. Eu me acostumei desde cedo, só parei de viajar quando entrei na universidade.

Houve um breve silêncio, não pesado, admirado. Khalamyr a observava como se estivesse reorganizando a própria percepção….

- Eu realmente estou impressionado… - disse ele, finalmente - O tipo de família que você descreveu, o tipo de convivência que vocês mantém... Ele soltou um pequeno riso, quase incrédulo.

- Não é simples manter qualquer tipo de vínculo vivendo assim. Exige… abnegação, e coragem também. O olhar dele suavizou. - Eu não consigo imaginar uma família que possa funcionar com tanta distância física entre si, mas sua forma de descrever, transparece que conseguem conviver e ainda se sentirem bem uns com os outros mesmo tão longe…

Clarysse sorriu, as palavras dele a fizeram refletir sobre algo que, para ela, sempre fora simplesmente normal. Ao ponderar melhor, percebeu que Khalamyr tinha razão, ainda que a realidade daquele mundo tivesse mudado profundamente.

- Na verdade, se analisarmos o mundo que restou após a guerra, uma porcentagem enorme das famílias já não é estruturada como antes. - Ela apoiou o queixo na mão, pensativa. - Lembra das séries orientais de décadas atrás? Muitas já retratavam famílias fragmentadas… Hoje isso é quase regra. Acho que devo agradecer por ainda ter a minha, mesmo com toda a distância física entre nós.

Khalamyr assentiu em silêncio e tomou um gole de café, o silêncio dele despertou curiosidade. - E a sua família… também é fragmentada, digamos assim?

Assim que a pergunta escapou, Clarysse percebeu a delicadeza do terreno, visto que Khalamyr focou o mar novamente e fez uma pequena pausa silenciosa à contemplar o horizonte... Ele então baixou o olhar por um instante, como se organizasse a resposta, ela já ensaiava um pedido de desculpas, mas ele ergueu os olhos antes que ela falasse.

- Há muito não sei o que é ter uma família… na verdade, acho que nunca tive uma, se formos considerar o que normalmente se entende por isso.

A curiosidade dela cresceu, mas ela se conteve, não repetiria o erro de pressionar. Ainda assim, foi ele quem continuou. - Sou filho de pai muçulmano e mãe brasileira. Ainda bebê fui morar no Oriente Médio. - Ele fez uma breve pausa, escolhendo as palavras com cuidado. - Mas voltei jovem para o Brasil, logo depois que perdi meus pais em um acidente.

Clarysse baixou o olhar, sentindo o peso da revelação.

- Sinto muito, Khalamyr.

Ele tomou outro gole de café, tranquilo, não frio, apenas sereno. - Faz muitos anos, eu tinha nove, minha mãe… - um leve suspiro - acho que nunca se adaptou totalmente àquele lugar. As regras eram rígidas demais para ela. Sempre foram.

Por um momento, parecia assistir a memórias que só ele via. - Depois que voltei, foram vários orfanatos. Tentei encontrar meus avós maternos, mas nunca consegui. - Ele deu de ombros, quase leve. - Com o tempo, você se acostuma a ser uma folha ao vento.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Clarysse sentia a dor implícita naquela trajetória, mas também percebia algo diferente: ele parecia aliviado por ter dito aquilo em voz alta.

Do lado de fora, o sol brilhava alto, espalhando uma luz intensa sobre o mar. E, mais uma vez, o silêncio entre eles não era cauteloso, era confortável, e eis que o som de uma notificação cortou o momento.

Clarysse pegou o celular. [INFO-FOX]: Oi, Ru. Tá acontecendo outra coisa estranha, bem perto do teu reduto aí… Se quiser a info, te passo.” Ela ergueu os olhos para Khalamyr, claramente indecisa, ele por sua vez a observava com curiosidade, sem pressa, esperando que ela falasse.

Ela hesitou por um segundo, receosa de parecer obcecada, mas lembrava-se de que a sinceridade fora o que construíra aquela "ponte" e a conversa até ali. - É o Fox. Conheci ele no ensino médio. Ajudei em alguns problemas naquela época… Hoje ele trabalha na inteligência da polícia. - Um pequeno sorriso. - Segundo ele, me passa informações como forma de agradecimento. E porque sabe que eu não resisto a esses assuntos. Foi assim que cheguei à fábrica de bebidas naquele dia.

Khalamyr a observou com interesse genuíno, parecia reconhecer o valor daquele contato, mas manteve o respeito, não perguntou o conteúdo da mensagem. Diante da postura dele, Clarysse continuou:

- Fica a poucas quadras daqui. Parece ser uma situação com reféns… Um pai de família mantendo a esposa e a filha sob a mira de uma arma, sem explicação aparente.

Ele assentiu, firme. Sem necessidade de mais palavras, ambos recolheram seus pertences. Khalamyr deixou o dinheiro sob as xícaras; Clarysse acenou ao atendente, indicando o pagamento. Saíram apressados, lado a lado.

Pela primeira vez, partiam juntos em direção ao desconhecido, Clarysse sentia uma excitação quase elétrica, como se tivesse encontrado alguém que partilhava da mesma inquietação diante do inexplicável. Khalamyr, por sua vez, experimentava algo raro: seguir para um possível confronto não sozinho, mas acompanhado de outro ser humano.

O que o futuro reservaria para dois jovens tão distintos, e ao mesmo tempo tão semelhantes? Talvez, nem o próprio destino ousasse responder.

Continua...

Galeria de Imagens

O novo visual do mapa-múndi, após a catástrofe nuclear de 2019:

O jovem anfitrião e protagonista da saga:

A moça "desastrada" do café, agora definida, repórter dedicada à histórias "estranhas":

A colega de escritório, dedicada à matérias sobre moda e afins:

A menina da tribo Korubo, a prodígio entre seu povo, dedicada a igualdade racial:


Tema de abertura Ekzyliön - Por IA feat Lanthys


Quando o céu gritar em chamas
E o mundo se partir em dois
Um passo
Um grito
O fim da paz
O que resta? Quem somos nós?

Nas sombras ele virá
Caminhando entre o nada e o amanhã

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

Cenário de cinzas no vento
Os sussurros do que já morreu
Um eco distante
Um juramento
De esperança que nunca cedeu

Das trevas ele surgirá
Com o destino na palma a decidir

Ekzyliön
O peso que carrega
Ekzyliön
A chama que renega
No caos
Na dor
O destino a sangrar
Será luz ou sombra a ficar?

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Ekzyliön - Caso 5 - A calmaria antes da tempestade!

Três dias haviam passado... O tempo seguira seu curso comum para a cidade, ônibus lotados, sirenes distantes, cheiro de café forte misturado...