sábado, 7 de março de 2026

Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 4)


A trilha que levava à montanha não era uma estrada, mas uma ferida aberta na floresta.

Raízes antigas rasgavam o solo como ossos expostos, e as árvores cresciam inclinadas, como se tivessem tentado se afastar daquele lugar por gerações. O ar ficava mais pesado a cada quilômetro, não apenas pelo terreno íngreme, mas por algo invisível que pairava ali, uma presença lenta, antiga, venenosa.

Shimaru cavalgava em silêncio. O corcel avançava com passos firmes, respirando forte enquanto a trilha começava a subir em curvas cada vez mais estreitas. Lá no alto, a montanha surgia entre a névoa como um colosso adormecido, seus flancos cobertos por rochas negras e vegetação retorcida.

Era ali, ele sabia... O sopé da montanha era a porta do território de Mantor, e algo guardava aquela entrada. Shimaru puxou as rédeas, desceu da sela com um movimento lento, quase ritual. O cavalo bufou, sacudindo a crina, como se também sentisse o peso daquele lugar.

O samurai caminhou alguns passos até uma pedra larga, coberta de musgo, observou e então sentando-se, retirou o cantil do cinturão, e a água desceu fria pela garganta, limpando a poeira da viagem, mas não a tensão que crescia dentro dele.

O vento sussurrava pelas folhas, nenhum pássaro cantava. Shimaru apoiou os cotovelos nos joelhos e deixou o olhar perdido na subida que ainda restava, dali até a base da montanha ainda havia um longo trecho de floresta densa, e depois, a subida em si.

Alguma coisa aguardava lá, ele podia sentir, e sabia que não seria uma luta simples. A mão direita repousou naturalmente sobre o cabo da katana de seu irmão, a esquerda tocou a bainha da lâmina ancestral, o Leão dormia ali. Não fora de ação, apenas esperando.

Shimaru fechou os olhos por um instante, e calmamente a lembrança veio… Iwakura. O templo surgira entre as árvores como uma mentira bem construída, lanternas de papel balançavam suavemente sob o vento, espalhando luz amarelada sobre o pátio de pedra. O cheiro de incenso impregnava o ar, denso demais para ser devoção.

Eram somente espécies de máscara, ostentadas na forma de lanternas amistosas ou mesmo devotadas… Por trás das portas fechadas, o medo respirava. Shimaru atravessara o portão sem hesitar, as botas tocaram a pedra com um som seco que ecoou pelo pátio silencioso.

Dois rastejantes guardavam a entrada principal, seres deformados pela corrupção de Mantor, pele marcada por veias escuras e olhos vazios, katanas curtas prontas para matar, porém, eles não tiveram tempo. A lâmina de Shimaru brilhou em sua trajetória, e o primeiro caiu com a garganta aberta, o sangue negro espalhando-se pelas pedras como tinta derramada. O segundo, ele tentou gritar, mas o brilho do movimento fora muito superior, a katana entrou entre as costelas antes que o som escapasse.

Shimaru empurrou a porta do templo, e o cheiro absolutamente nauseante, o atingiu primeiro. Não era apenas incenso, era medo, pois dentro do salão, haviam crianças. Pequenas demais para compreender, algumas mal tinham idade para caminhar sem tropeçar; outras abraçavam irmãos menores, tentando parecer fortes, mas todas elas estavam em silêncio, aquele silêncio que só existe quando o terror já passou do ponto do choro.

Ao fundo, os sacerdotes. Vestes limpas, mãos tremendo, mas vivos. - Não… não se aproxime! - um deles gritou, erguendo um pergaminho como se aquilo fosse uma arma. - Isso é um templo! Shimaru não respondeu, seus olhos percorriam o salão…

Cordas, símbolos da Mantor pintados sobre as colunas, ofertas… E crianças marcadas com tinta negra na testa. Elas eram moedas vivas, nada além de um tributo aos olhos daqueles que deveriam lhes guiar. Um dos monges, quase em pânico, caiu de joelhos. - Nós… nós não tivemos escolha!

Outro completou, a voz embargada: - Se não entregássemos… eles nos matariam!

Shimaru ficou imóvel por um longo instante, então olhou para as crianças novamente… Algumas tremiam, uma menina segurava um pedaço de madeira como se fosse uma espada, tentando proteger um menino menor que ela.

Contra monges. Contra monstros. Contra o mundo. Algo queimou no peito de Shimaru… Raiva, não a raiva da batalha, algo sem dúvida mais antigo, mais pesado… - Vocês tiveram escolha… - disse ele por fim, a voz saiu baixa, mas cada palavra parecia uma lâmina. - Sempre há uma escolha…

O monge tentou falar. - Nós... - A katana cortou o ar, o pergaminho caiu em dois pedaços no chão, Shimaru avançou. As cordas que prendiam as crianças foram cortadas uma a uma, cada golpe preciso, e quando terminou, voltou-se para os sacerdotes, e era visível, eles já esperavam a morte! Porém, ela não veio, não pelas mãos de Shimaru….

O samurai limpou a lâmina na manga de um deles e a embainhou… - Vão viver. Os homens o encararam, confusos: - P-por quê? Shimaru caminhou até a porta, parou no limiar… - Porque vocês vão olhar para o que fizeram... O vento como um precursor do terror, entrou no templo.

A luz das lanternas foram apagadas com o impacto e Shimaru novamente se pronunciou: - Haverá monstros humanos que tomarão estrada diferente da que seguirei, e chegarão até aqui… E encontrarão o templo sem oferendas... E então… Observou a expressão de cada um deles e finalizou:

- Quando os monstros e os rastejantes voltarem… vocês estarão aqui para recebê-los e experimentarão a sensação de estar no lugar de cada criança que subjugaram! E ele saiu sem olhar para trás, conduzindo todas as crianças para fora daquele antro de hipocrisia e fanatismo.

Shimaru abriu os olhos novamente, a floresta voltou ao seu redor, o vento, a montanha, o silêncio… Ele respirou fundo, em Iwakura, ele tinha sentido o mesmo impulso que sentia agora, o desejo de destruir tudo, de deixar apenas ruínas e sangue, mas… Pelo menos em Iwakura ele havia parado…

Não porque faltava força, mas porque havia escolhido parar, por vontade e controle próprio… A mão deslizou lentamente até a bainha da espada do Leão, o metal parecia pulsar sob seus dedos. - Eu defino quando…

A voz saiu em um sussurro quase imperceptível. - O Leão não me domina quando eu o libero. Quase que sussurrando para si mesmo, ele olhou para o caminho que subia a montanha, a presença maligna agora era clara, algo aguardava ali algo rápido, algo mortal, algo sorrateiro...

- O leão só me dominará… se eu esquecer por que estou lutando e me entregar à fúria cega, como um monstro… Se eu esquecer meu intento, me torno apenas um sanguinário com poder… Shimaru levantou-se, o cantil voltou ao cinturão, e então se aproximando do cavalo, ele montou novamente, mas antes de puxar as rédeas, sua mão tocou a lâmina ancestral uma última vez, agora com uma compreensão maior...

- Contra o javali… eu hesitei… O cavalo começou a subir a trilha. - Se quero chegar até Mantor… eu não posso hesitar de novo. Shimaru ergueu o olhar para o topo da montanha, e pela primeira vez desde que começara aquela jornada, ele não temeu o momento da transformação, porque agora sabia exatamente onde ficava o limite, e quem controlava aquele limite… Ele mesmo!

A montanha de Mantor ficava mais próxima a cada cavalgar, a monumental elevação parecia observar Shimaru, e o samurai sentiu isso antes mesmo de vê-la por completo.

O caminho tornou-se estreito, tortuoso, ladeado por pedras negras cobertas de musgo escuro. A vegetação ali parecia doente, árvores retorcidas, folhas murchas mesmo sob a luz do dia, raízes emergindo do solo como veias expostas. O ar tornava-se pesado a cada passo, impregnado de um cheiro doce e também pútrido, como carne esquecida ao sol.

O cavalo branco reduziu o ritmo por conta própria, não por medo, mas por cautela.

No sopé da montanha, a terra cedia lugar a um amplo platô natural, marcado por estruturas de madeira enegrecida, totens talhados com símbolos indecifráveis e restos humanos pendurados como oferendas. Crânios, ossos longos, tiras de couro curtidas de forma rudimentar… Shimaru desmontou de seu cavalo...

Ali, o silêncio não era ausência de som, era contenção, como se o lugar aguardasse algo e, finalmente, entre as pedras, ele os viu.

Homens e mulheres ajoelhados, corpos magros, olhos vidrados. Alguns murmuravam preces incoerentes, outros apenas balançavam o corpo, como se embalados por algo que só eles ouviam... Marcas circulares eram visíveis em seus pescoços, mordidas antigas, cicatrizadas.

- Elesss não sssão prisioneirosss… A voz veio de todos os lados, sibilante, arrastada, paciente. - Sssão fiéissss. A criatura emergiu lentamente do alto das pedras.

A parte inferior do corpo era serpentina, longa, coberta por escamas de tons esverdeados e negros, que refletiam a luz de forma irregular, o torso humano era esguio demais, quase elegante, envolto em tecidos ritualísticos. O rosto… belo, à primeira vista, olhos verticais, dourados, que nunca piscavam. - Aqui é onde a montanha comessça a aprender a obedecer... - continuou. - Onde o medo cria raízessss.

Shimaru observou os cultistas. - Você os envenena! - Disse. - Depois chama de escolha.

A Serpente sorriu… - O veneno sssó revela o que já exissste, elesss preferiram ajoelhar-sssse a sssubir comigo. Deslizou pelo chão com graça antinatural… - Você chegou ssscedo demaisss, guerreiro… O Javali deveria tê-lo quebrado… masss não importa. Aqui, não sssse venssce pela forsssça.

A criatura então faz um gesto suave, o ar parece mudar imediatamente, Shimaru sentiu o cheiro antes, doce demais. O mundo pareceu perder nitidez por um instante, seus dedos formigaram, a respiração tornou-se pesada, como se algo tentasse embalar seus pensamentos.

Sussurros surgiram, não externos, internos, próximos, convincentes… Coisas como dúvidas, cansaço, o peso das mortes, a imagem do irmão, imóvel, retornando sem aviso. A Serpente aproximou-se, confiante.

- Ssssinta… - murmurou. - O Leão ruge porque esssstá faminto. Quanto maissss vossscê luta… maisss ele quer. Eu posssso ensssiná-lo a parar de resisssstir.

Shimaru cravou a espada no chão, apoiou-se nela, ousou e respirou fundo como se desafiasse tudo que lhe era imposto pelo monstro. - Você fala demais! - disse, com esforço. - Para alguém que teme a verdade dos fatos.

O rugido respondeu, a kodachi saltou da cintura, rompendo o ar viciado, flutuando diante dele como um desafio lançado à própria montanha! Shimaru a agarrou, sentindo o veneno tentar retardar seus movimentos.

- Shishihenge.

O relâmpago desceu como um flagelo, rasgando o céu enevoado, a transformação veio como um ato de negação absoluta ao controle da serpente, o corpo se refez, o veneno queimando e sendo expulso pela energia que agora fluía com violência contida. Lion-Maru ergueu-se, seu olhar queimava, sua presença intimidava, e ele praticamente rugiu: 

- Lion-Maru… Kenzan! A presença do Leão rompeu o domínio.

Os cultistas gritaram como se acordassem de um pesadelo profundo, alguns caíram de joelhos, vomitando o veneno que ainda os mantinha presos à devoção cega. Outros recuaram, arrastando-se pela terra, as mãos tremendo, os olhos finalmente capazes de ver o horror que haviam servido, e finalmente, sem ter tal intenção, mas obrigada a isso… A serpente recuou.

Foi um movimento sutil, quase imperceptível, mas foi a primeira vez que cedeu espaço desde que recebera o samurai… - Não… - sibilou, a língua bifurcada deslizando entre os lábios. - Vossscê deveria rassstejar… como todossss osss outrossss.

Lion-Maru não respondeu com palavras, ele avançou, e essa seria sua resposta. A serpente compreendeu, se recuperou, e atacou com velocidade impossível.

O corpo serpentino chicoteou o campo, desenhando círculos ao redor do leão, a cauda golpeou o chão com força suficiente para abrir fendas na terra, presas surgiram de ângulos imprevisíveis, tentando encontrar brechas na armadura. O veneno espirrou em jatos curtos, queimando o ar antes mesmo de tocar o metal místico, que fumegou em resposta.

Lion-Maru foi envolvido pela constrição, a pressão veio como um abraço de pedra viva, tentando esmagar costelas, prender braços, arrancar o ar dos pulmões. A montanha por sua vez, parecia ajudar, inclinando rochas, fechando espaço, tornando o terreno um aliado da criatura.

Mas Lion-Maru resistiu. Os músculos se retesaram, um rugido grave reverberou pelo local, com força controlada, o samurai bestial girou o corpo, cravando os pés no chão e quebrando o laço com um golpe de ombro que lançou a serpente para longe.

A katana então riscou o ar, arcos amplos, precisos, pesados, e finalmente escamas voaram, não ainda como vitória, mas como aviso do destino que aguardava a criatura serpente… Ela por sua vez investiu de novo, deslizou pelas pedras, os olhos dourados agora estreitos, calculando, atacando, buscando brechas e então optando pela nova tática.

O monstro vibra em energia, o corpo começou a se modificar, a parte serpentina se retraiu, erguendo a criatura numa forma humanoide alta, esguia demais, braços longos, dedos terminando em garras curvas. - Forsssça… - cuspiu. - Ssssempre forsssça. É por issssso que vocêsss perdem.

O monstro então ergueu as mãos, símbolos talhados nas pedras do sopé brilharam, o ar voltou a pesar, a montanha respondeu com um gemido profundo, e raízes negras emergiram do solo, tentando prender os pés de Lion-Maru. O veneno voltou a se espalhar, invisível, entrando pela respiração, tentando alcançar a mente. O samurai felino avançou mesmo assim.

Cada passo exigia menos, o peso do corpo diminuía, o rugido dentro dele pressionava, exigindo liberdade total! Por um instante, apenas um, o Leão quis mais, mas Lion-Maru fechou a mão na empunhadura da espada, controlou, a fera fora domada uma vez mais e, novamente voltava a ser o poder para fazer o que precisava ser feito!

A lâmina descreveu um arco ascendente, rasgando raízes, quebrando símbolos, silenciando o sussurro da montanha em seu primeiro ataque! O corpo do guerreiro girou então, surpreendeu o monstro, atingiu o torso da serpente, lançando-a contra a rocha com brutalidade e força suficiente para fazer o colossal mineral rachar.

O monstro tentou se erguer, tentou se pôr em condições de combate, tentou decidir o que fazer e esbravejou em meio à tudo isso: - Não compreende humano tolo? Eu sssou um comandante de Mantor! - Gritou a criatura, a voz agora misturada a dor e ódio. - A montanha vive! Mantor vive nela! E eu, Yamokiba não permitirei que avansssce maldito Shimaru!

O monstro se lançou em nova investida, Lion-Maru saltou e no ar, o tempo pareceu ceder… A energia percorreu a lâmina, as runas reacendendo com intensidade absoluta, Lion-Maru ergueu a katana com ambas as mãos, o corpo alinhado, o golpe preparado não como fúria, mas como sentença.

O ataque desceu, não como um golpe apenas brutal, mas como um trovão aprisionado, liberado no instante exato, e então, a serpente Yamokiba foi atingida em cheio, brutalmente encravada contra a mesma rocha de antes, o impacto ecoando pela montanha. O corpo se contorceu uma última vez, as escamas rachando, a forma humanoide falhando, retornando brevemente à serpentina antes de cair inerte.

Um último silvo escapou, estranhamente repetitivo… - Ssssenhor Mantor… Do Diabo… E então, silêncio.

Os cultistas que ainda se mantinham em transe desabaram, alguns choraram, outros apenas respiraram, como se o ar tivesse sido devolvido ao mundo. O peso no ambiente se dissipou e se podia perceber, mesmo que levemente, a montanha… estremeceu. Lion-Maru permaneceu imóvel por um instante, então percebeu o que fazia a montanha tremer.

Do sopé até as trilhas mais altas, a terra se movia como se estivesse viva, centenas de soldados rastejantes emergiam do chão, rompendo a pedra e a poeira, levantando-se em uníssono como uma maré de assassinos. Armaduras simples, máscaras rígidas, katanas erguidas. Nenhum rosto. Nenhuma hesitação.

Mantor havia liberado seus assassinos, tudo o que tinha de descartável naquele momento. Como um enxame eles avançaram, não em formação como sempre fora, pareciam como criaturas famintas, em carga!

Lion-Maru deu o primeiro passo, a katana moveu-se com serenidade absoluta, o golpe não foi largo, foi concentrado, desenhando uma perfeita linha traçada no ar. O primeiro rastejante caiu antes mesmo de entender que havia sido atingido, o segundo tentou atacar por trás, o terceiro saltou, o quarto veio rastejando pelo chão. Todos falharam.

Lion-Maru não parava. Avançava montanha acima como se o terreno lhe obedecesse, cada passo era acompanhado por um golpe preciso, uma rotação controlada, um corte que encerrava existências sem esforço. As lâminas inimigas ricocheteavam contra a armadura mística, incapazes de encontrar brechas.

Os rastejantes começaram a hesitar, não porque pensassem, mas porque sentiram o medo. O Leão não gritava, não corria, não demonstrava fúria, ele caminhava, sem se deter por nada, e onde passava, o fluxo da investida se quebrava. Corpos caíam, armas se perdiam, alguns soldados tropeçavam nos próprios companheiros, tentando alcançar o impossível.

Um grupo tentou cercá-lo, Lion-Maru girou, a katana descreveu um círculo completo, baixo e contínuo; o impacto foi sentido antes de ser visto, o cerco de inimigos caiu quase ao mesmo tempo, como se o mundo tivesse decidido desligá-los. E mais deles vieram.

Dezenas, e logo depois dezenas de dezenas. Lion-Maru saltou sobre eles, usando os próprios corpos como apoio, avançando sempre para cima, golpes descendentes, cortes ascendentes, movimentos tão precisos que pareciam ensaiados por séculos.

A montanha ecoava metal, passos e quedas, alguns rastejantes tentaram fugir, Lion-Maru não os perseguiu, continuou simplesmente avançando, porque sabia: nenhum deles escaparia.

O último grupo surgiu próximo à entrada da montanha, um amontoado desesperado de soldados que ainda acreditavam em número, eles gritaram juntos e atacaram de uma vez, enquanto Lion-Maru se deteve, ergueu a katana e em um único movimento, o silêncio imperou antes que os corpos tocassem o chão.

Quando tudo terminou, apenas o vento permanecia, a trilha até a entrada da montanha estava coberta de armas largadas, máscaras quebradas, formas imóveis espalhadas como restos de uma tentativa inútil. Lion-Maru ficou ali, respirando com calma, recuperando o fôlego perdido….

Centenas haviam vindo, nenhum havia sobrevivido… À sua frente, a entrada da montanha de Mantor se abria, escura, profunda, esperando… O Leão deu mais um passo e logo depois, embainhou a espada, imediatamente o brilho dourado começou a se apagar, dissolvendo-se na noite. A forma do Leão cedeu lugar ao homem.

À sua frente, o caminho se erguia, estreito, íngreme, escavado na própria rocha, levando direto ao coração da montanha de Mantor, quilômetros ainda acima… Antes de seguir adiante, uma única atitude se impunha, não por medo, mas por respeito à vida que ainda podia ser preservada.

Shimaru voltou-se para trás, assoviou e aguardou… Levaram poucos segundos e ele já podia escutar o galopar de sua montaria, chegando até ele rapidamente… Seus olhos encontraram os do animal, firmes, antigos, como se compartilhassem um entendimento que dispensava palavras. Ainda assim, ele falou, com voz baixa, carregada de promessa:

- Volte para a floresta. Esconda-se entre as árvores, sobreviva… Ele pousou a mão sobre o pescoço do companheiro por um breve instante, sentindo o calor vivo sob a pele. - Eu retornarei em breve, acredite em mim meu amigo.

E então, sem olhar para trás, Shimaru seguiu rumo à montanha, onde apenas monstros aguardavam e o ar carregava o presságio da morte. Cada passo o levava mais fundo em um caminho do qual muitos jamais retornariam, mas a promessa que deixara para trás ardia firme em seu peito. Se o destino daquela montanha exigisse sangue, ele o enfrentaria a exigência de frente, porque voltar não era apenas esperança, era uma palavra dada.

Continua...

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Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 4)

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