As profundezas da montanha já não pareciam pertencer ao mundo dos homens.
Shimaru descia lentamente pelos corredores antigos, enquanto o eco de seus próprios passos parecia desaparecer antes mesmo de nascer, absorvido por alguma presença invisível escondida além da pedra. O ar havia mudado novamente, não havia mais cheiro de enxofre, sangue ou carne apodrecida como nos níveis anteriores, e isso não trazia boas ponderações…
Incenso… Um perfume suave, adocicado, quase acolhedor, sem dúvida alguma, uma sensação que não deveria fazer parte daquele cenário, tudo estava terrivelmente errado …
A cada passo, o jovem samurai sentia os músculos tencionarem, não por uma ameaça visível, mas pelo desconforto inexplicável daquela paz. A mão permanecia próxima ao cabo da katana, porém nem mesmo o Leão rugia em sua mente naquele momento, era como se algo naquele lugar abafasse conflito, violência… vontade.
A descida terminou diante de um gigantesco portal de madeira branca, não havia marcas de batalha, não havia sangue, nem mesmo corpos…. Apenas símbolos religiosos entalhados na madeira antiga e dezenas de pequenos sinos pendurados por fios vermelhos, balançando lentamente mesmo sem vento algum. “Talvez a batalha nunca tivesse chegado tão longe...”, cogitava o samurai…
Shimaru empurrou a porta, o salão além dela era colossal, e absolutamente silencioso. Água cristalina percorria canais rasos escavados no chão de pedra negra, refletindo centenas de velas espalhadas pelo templo subterrâneo. Colunas gigantescas sustentavam o teto perdido na escuridão, enquanto estátuas budistas observavam o ambiente com expressões serenas demais para aquele lugar amaldiçoado.
E então foi que Shimaru percebeu algo perturbador… As estátuas choravam sangue… Fios espessos e escuros escorriam lentamente dos olhos de pedra, deslizando pelos rostos imóveis até desaparecerem nas águas rasas do templo. O cheiro metálico misturava-se ao perfume do incenso, criando uma sensação sufocante de santidade corrompida.
Shimaru avançou devagar, o som de seus passos parecia desrespeitoso naquele silêncio. No centro do salão, uma árvore branca erguia-se até a escuridão do teto, morta, sem folhas, sem vida. Ainda assim… bela.
Seus galhos retorcidos sustentavam centenas de tiras de oração presas por fios dourados, pequenos sinos pendiam entre os galhos secos, ecoando notas suaves e melancólicas sempre que o ar parecia oscilar. E diante daquela árvore… um homem ajoelhado. Vestes claras, coluna ereta, mãos unidas em oração, imóvel.
O velho monge parecia ignorar completamente a presença de Shimaru.
Os cabelos grisalhos desciam até os ombros, as roupas eram impecáveis, limpas demais para alguém vivendo nas profundezas daquela montanha amaldiçoada, sua serenidade era tão absoluta que causava desconforto imediato.
Shimaru parou, seu instinto gritava, mais do que diante do Javali, mais do que diante da Serpente, muito mais do que diante do Lobo. Aquilo era perigoso, justamente, porque não parecia monstruoso. Então, o monge falou, sem abrir os olhos: — Quantos morreram… até você chegar aqui? A voz era calma, gentil, quase compassiva, e Shimaru não respondeu.
O velho continuou: — Quantos soldados rastejantes você cortou? Quantos homens imploraram? Quantos ainda poderiam ter sido salvos… se você tivesse chegado antes de sua espada?
O silêncio do templo pareceu pesar sobre os ombros do samurai, a mão de Shimaru apertou lentamente o cabo da katana. — Eles escolheram Mantor - respondeu por fim o samurai, em tom seco. — Escolheram se tornar monstros.
O velho sorriu discretamente, ainda sem abrir os olhos: — Sim… Assim como todos os outros fizeram escolhas… E também morreram.
O ar então mudou novamente, os pequenos sinos da árvore começaram a balançar levemente mais fortes, Shimaru sentiu, algo naquele lugar estava tentando entrar em sua mente. As velas vacilaram, e então vozes começaram, inicialmente baixas, distantes, como verdadeiros sussurros… Crianças chorando, pessoas gritando, homens implorando, os sons vinham de todos os lados ao mesmo tempo.
Shimaru girou o rosto rapidamente, não havia ninguém, mas ele podia ouvir ainda assim, perfeitamente…
— Oni…
— Monstro…
— Assassino…
O jovem samurai franziu o cenho, a voz seguinte fez seu corpo inteiro congelar. — Shimaru…
A voz do irmão, exatamente igual, não como uma lembrança distante, não como um eco imperfeito, mas sem dúvidas, era sua voz. Shimaru ficou imóvel, seu peito apertou violentamente, a respiração falhou por um instante, e então, ao sentir essa reação, somente então, o velho abriu os olhos.
Cruzes douradas ocupavam suas pupilas, o salão inteiro pareceu escurecer ao redor daquela visão, lentamente, o monge se levantou, os pés descalços tocaram a água rasa sem produzir som algum, e então a pele de sua testa começou a se romper.
Galhadas negras emergiram lentamente do crânio, crescendo como raízes amaldiçoadas, pequenos sinos, fitas de oração e amuletos humanos pendiam entre os chifres deformados, tilintando suavemente enquanto cresciam, e a forma final do monge, era a de um cervo humanoide, posicionado de forma bípede, mas tentando se curvar como a querer voltar para a posição quadrúpede…
No entanto o horror não vinha apenas de sua monstruosidade, vinha também do fato de que ele ainda parecia… belo, sagrado, quase divino, como uma entidade criada para ser adorada. — Meu nome… — disse ele calmamente, enquanto os olhos dourados permaneciam fixos em Shimaru. — …é Shinseikiba.
As águas rasas começaram a vibrar ao redor do templo, as estátuas choraram mais sangue, enquanto o falso monge, maliciosamente sorriu. — Diga-me, Shimaru… Quando terminar sua vingança… quantos inocentes terão morrido por causa dela? Shimaru permaneceu imóvel, ele não sabia responder aquela questão, e a firmeza de sua postura começava a ruir por dentro.
As palavras do falso monge não vinham carregadas de ódio, arrogância ou deboche como os outros monstros da Mantor. Não havia provocação em sua voz, nenhuma necessidade de demonstrar superioridade, e aquilo tornava tudo pior, pois Shinseikiba falava legitimamente como alguém que realmente acreditava no que dizia.
As águas rasas do templo então passaram a ondular lentamente ao redor de seus pés enquanto os pequenos sinos presos às galhadas ecoavam notas suaves, quase hipnóticas: — Você acredita que combate monstros… — disse o Cervo, caminhando devagar ao redor da árvore branca. — Mas monstros nem sempre nascem monstros, Shimaru... Por vezes, eles nascem homens... E depois se tornam monstros, mas... Ainda são homens... Me compreende?
As cruzes douradas em seus olhos pareciam atravessar o samurai, parecia - e talvez realmente o estivesse - varrer a alma do guerreiro em cada canto por mais escondido que fosse, enquanto ele continuava sua narrativa: — Eles nascem famintos Shimaru… Fracos… Assustados… Desesperados eu até diria…
As velas do salão vacilaram novamente, imagens começaram a surgir sobre as águas, não ilusões completas, mas sim fragmentos, memórias… Soldados rastejantes ajoelhados antes da transformação, homens chorando, pais oferecendo a si mesmos para salvar filhos, camponeses fragilizados implorando por comida e, de forma angustiante, Shimaru reconheceu alguns rostos…
Eram oponentes que lutavam ao lado de Mantor como tropa de apoio, viam no demônio uma proteção em troca de servidão e matança, e Shimaru os destruiu… A mão do samurai apertou lentamente o cabo da espada, mas seguia ouvindo: — Mantor lhes ofereceu poder, vida longa, um mundo melhor em troca de dedicação… — continuou Shinseikiba. — Você lhes ofereceu… apenas morte, Shimaru… O silêncio pesou novamente.
Então veio outra voz, uma criança, tomou conta do local e reverberou: — Por favor… Não leva meu pai… Shimaru viu, uma menina agarrada ao corpo de um rastejante morto em Kanezawa, como se em algum momento os rastejantes também tivessem sido humanos… Ele não havia parado para olhar, pensar nisso, nem antes, nem depois.
- Rastejantes nunca foram humanos, são crias da energia negativa de Mantor! O samurai rechaçava a visão com força, ao passo que a criatura ria levemente, e rebatia a tentativa de argumento… - Quem lhe disse isso Shimaru? Um monstro humano? Um aldeão velho? Ah sim… Eu esqueci… Você detém conhecimento infinito dos dons de Mantor para ter certeza sobre isso, por isso, retalhar rastejantes é algo livre de qualquer culpa, estou certo?
O samurai então apertou os olhos, como se forçando o cérebro a tentar formar respostas para aquelas acusações, e nisso, as águas se moveram outra vez, e agora se viam idosos fugindo de Hoshikawa enquanto os armazéns queimavam, corpos esmagados nos confrontos, casas destruídas durante ataques da Mantor, pessoas chorando, e então o golpe mais cruel…. As imagens começaram a misturar medo… com Lion-Maru.
O dourado da transformação refletido nos olhos aterrorizados de crianças, a respiração de Shimaru falhou, e Shinseikiba aproximou-se lentamente… — Você realmente acredita… Que a chegada do Leão iria espalhar esperança? Justiça? Talvez coragem? Não Shimaru, o leão apenas espalha terror…
Shimaru permaneceu em silêncio ainda assim, as palavras começavam a encontrar espaço dentro dele, e o Cervo ergueu uma das mãos longas e pálidas. As águas do templo escureceram, e então Shimaru viu a si mesmo, como Lion-Maru…. Coberto de sangue, golpeando, rasgando, destruindo.
Os rugidos ecoaram pelo salão como lembranças vivas, a criatura aproximou o rosto do dele, e com escárnio, sentenciou: — Você chama isso de justiça… porque ainda não teve coragem de chamar pelo verdadeiro nome. E então os olhos dourados da criatura se estreitaram: — Esqueceu de dizer a eles, aos que morreram em sua cruzada, que tudo que busca Shimaru… É vingança.
O coração de Shimaru bateu mais forte, ao focar unicamente naquela palavra…Porque ela não estava totalmente errada... O jovem samurai desviou o olhar pela primeira vez, Shinseikiba percebeu, e sorriu, um sorriso pequeno, quase prazeroso.
— Ah… então você finalmente começou a aceitar...
As galhadas cresceram mais alguns centímetros, lentamente, enquanto os sinos balançavam ainda sem vento algum, as vozes retornaram, mais altas agora, mais próximas, pessoas implorando, crianças chorando, homens queimando, e no meio delas, novamente… seu irmão.
— Shimaru… isso realmente vai trazer paz? O samurai deu um passo para trás, o peito novamente reagiu como a um impacto violento, aquelas palavras atravessaram suas defesas com mais facilidade do que qualquer arma até então, porque parte dele… também se perguntava aquilo.
Shinseikiba caminhou lentamente até ficar diante da árvore branca, a voz tornou-se ainda mais calma, mais serena, mais perigosa… — Você sabe qual é a diferença entre você… E os monstros-humanos que matou? As águas pararam completamente, o templo inteiro pareceu aguardar a resposta, e o Cervo então ergueu os olhos dourados, completando: — Eles ao menos admitem claramente o que são… Ou eram, pois você matou a todos não é mesmo?
O silêncio seguinte foi devastador, até o Leão permaneceu quieto dentro de Shimaru, e isso aterrorizou o samurai mais do que qualquer rugido, porque pela primeira vez… ele não tinha certeza do que responder.
Shinseikiba percebeu a “rachadura”, e avançou, não com violência, isso quebraria seu trabalho e intento, e por isso ele usou o inesperado… Misericórdia. — Você ainda acredita que luta para proteger inocentes… mas cada passo que deu até aqui foi guiado pela morte do seu irmão, que resultou na morte de outros Shimaru...
Shinseikiba então apontou lentamente para o peito do samurai: — Não é compaixão. Não é justiça. Não é honra. Os olhos dourados brilharam intensamente… — É dor usando uma espada e deixando um rastro de morte para trás...
Shimaru pela primeira vez sentiu as pernas pesarem, a pressão naquele salão aumentava lentamente, como se a própria montanha estivesse esmagando sua consciência, e as imagens nas águas mudaram novamente.
Agora eram as vilas, Mizuhara, Kanezawa, Iwakura… Mas algo estava diferente, as pessoas não o olhavam com gratidão como ele sempre viu, olhavam com medo. O samurai observou crianças se escondendo ao ver Lion-Maru, mulheres fechando portas, homens desviando os olhos.
As palavras do Cervo vieram como lâminas invisíveis diretamente ao seu peito: — Mantor destrói corpos. Você destrói a esperança.
Shimaru cerrou os dentes, tentou avançar, o corpo não respondeu, não por magia, mas pela persistente dúvida que se instaurou em seu cerne, e Shinseikiba finalmente compreendeu exatamente onde atacar. Sua voz desceu quase num sussurro.
— E isso tudo, porque você nunca foi capaz de perceber… O Leão dentro de você não deseja salvar ninguém… Ele apenas deseja existir, e te usará para isso! As cruzes douradas pareceram se aprofundar enquanto completava: — E quanto mais você luta e tenta resistir à Mantor… mais espaço dá a ele.
O salão inteiro escureceu, as velas começaram a apagar uma a uma, as vozes se transformaram em um coro sufocante… “- Monstro... Assassino... Demônio... Oni...”. E então Shinseikiba pronunciou as palavras que fizeram até o Leão se agitar violentamente nas profundezas da mente de Shimaru:
— Talvez Mantor não seja o ponto mais baixo e vil desta montanha Shimaru… talvez seja você, já cogitou isso?
Por um longo instante, Shimaru permaneceu imóvel, as palavras de Shinseikiba ainda ecoavam pelo templo como sinos fúnebres, elas haviam encontrado terreno fértil no samurai, e agora começavam a brotar suas ramificações, lentamente, deixando o guerreiro sem respostas, não porque não quisesse responder, mas porque parte dele encontrava verdade naquelas acusações...
Seu irmão estava morto… E aquela morte fora o primeiro passo, o primeiro corte, o primeiro motivo… Antes das crianças libertadas, antes dos idosos protegidos, antes das vilas salvas, tudo começara por vingança… A mão que segurava a katana apertou-se até os nós dos dedos embranquecerem, e Shinseikiba percebeu também...
Foi então finalmente que o Cervo atacou, não houve grito, não houve aviso, as mangas de suas vestes se abriram como asas brancas, revelando dezenas de fios dourados ocultos sob o tecido, que dispararam pelo ar em absoluta velocidade, serpenteando entre as colunas como cobras vivas.
Shimaru reagiu por instinto, a katana deixou a bainha, o aço brilhou reluzente e então, faíscas explodiram, os fios recuaram, no entanto outros já vinham no encalce do guerreiro, mais rápidos, mais numerosos, fazendo com que o samurai, mais por reflexo muscular do que vontade, avançasse em defesa, e em ataque.
Precisava silenciar aquela voz, precisava interromper aquele ataque à sua mente, a lâmina descreveu um arco perfeito, e incrivelmente atravessou o corpo do monge, ou pelo menos deveria ter atravessado, no entanto o velho simplesmente desapareceu, como névoa, como fumaça, ou como uma oração profanamente interrompida.
A presença então, novamente surgiu atrás dele, silenciosa, invisível, e uma dor aguda atravessou as costas do samurai… Shimaru girou, era tarde demais, três lâminas ocultas sob as mangas do monge rasgaram seu ombro e seu flanco, e o sangue respingou sobre a água cristalina.
As gotas vermelhas espalharam-se lentamente pelos canais do templo, enquanto Shinseikiba apenas observava, assustadoramente sereno e complacente… — Veja como é fácil Shimaru… O monstro caminhava sobre a água sem produzir ondulação alguma… — Basta plantar a dúvida, por menor que ela seja, e até o melhor guerreiro esquece como lutar e pode ser colocado em cheque contra minha verdade...
Shimaru se enfurece com a provocação, avança novamente, mais rápido, mais agressivo, a katana violentamente cortou pilares, partiu raízes, dilacerou fitas de oração, mas nunca encontrou um inimigo real para destroçar, enquanto Shinseikiba, movia-se como uma sombra entre os pensamentos.
Sempre um passo além, sempre um instante antes, cada erro era punido, cada hesitação era recompensada com dor. Agulhas douradas atravessaram sua perna, fios abriram cortes em seu antebraço, lâminas ocultas deixavam sulcos na carne do seu peito, e o sangue agora pingava continuamente.
O templo observava, as estátuas observavam, as vozes observavam, e continuavam… — Assassino… Monstro… Oni… Demônio… O irmão surgiu novamente entre as colunas, não como um espectro, não como uma ilusão, mas como memória, perfeita, viva, torturante… — Você chegou tarde, irmão...
O golpe em forma de palavras, novamente atingiu mais fundo que qualquer arma, a postura do samurai vacilou, a espada desceu alguns centímetros e Shinseikiba sorriu e sussurrou… — Sim… É esse o ponto… Os olhos em forma de cruz brilharam. — A culpa…
As águas do templo começaram a se mover, as imagens surgiram novamente, agora mais violentas, mais cruéis, mais íntimas, seu irmão sendo cercado, ferido, caindo, chamando por ajuda, chamando seu nome… Shimaru tentou afastar aquilo, tentou negar, mas a visão permanecia, persistia, implacável e incapaz de qualquer piedade… — Onde você estava quando ele precisou de você Shimaru? — Perguntou Shinseikiba.
Uma raiz branca emergiu do solo e atingiu o samurai no estômago, o impacto o lançou vários metros para trás, o ar abandonou seus pulmões, seu corpo rolou pela água, a dor percorreu cada músculo. Mas não era a dor que o estava destruindo, era a pergunta. — Onde você estava Shimaru?
Outra voz surge, e então mais uma vez a pergunta: — Onde você estava Lion-Maru? Shimaru caiu de joelhos, a katana apoiou-se contra o chão, seu corpo tremia, sua respiração tornava-se irregular, pesada, descontrolada, pela primeira vez desde o início daquela jornada… ele tinha a vontade de não ter audição, para não ouvir as vozes que o acusavam.
E então… Sem que ele mais tivesse controle de seu corpo ou mente, em meio ao silêncio da dor e agonia, quem respondeu fora o Leão, não com palavras, mas com raiva, uma raiva antiga, profunda, primitiva.
As imagens desapareceram por um instante, substituídas por um rugido, um rugido tão poderoso que fez a água vibrar, as velas oscilarem, as estátuas racharem e finalmente, Shinseikiba ergueu o olhar, pela primeira vez surpreso, pela primiera vez não estava antecipado ou ciente do próximo passo, porque naquele instante compreendeu, que havia sim pressionado a ferida correta, mas talvez profundo demais.
Dentro da mente de Shimaru, algo rompeu, não foi a disciplina, não foi também a técnica, muito menos ainda sua coragem, mas sim, a contenção… Toda a tristeza, toda a culpa, toda a saudade e toda a fúria acumulada… Tudo aquilo encontrou o Leão, e o Leão acolheu cada fragmento, com satisfação.
As runas da Kinsachi começaram a pulsar violentamente, a kodachi saltou do cinturão girando no ar com intensidade jamais vista, era a prova de que algo estava errado, muito errado.
A luz dourada não era mais dourada, tornava-se vermelha, escura, instável. Shinseikiba recuou um passo, instintivamente, os sinos presos às galhadas começaram a tocar sozinhos, desordenados, quase que frenéticos, enquanto Shimaru ergueu lentamente o rosto...
Lágrimas misturavam-se ao sangue, os olhos já não eram humanos, nem dourados, eram duas brasas vivas consumindo tudo ao redor, e a voz… Ela surgiu grave, distorcida, como se duas entidades falassem ao mesmo tempo.
— Shishihenge...
O relâmpago então surgiu do obscuro céu negro da caverna, mas não como antes, não como um decreto celestial, mas sim como o prelúdio de uma execução. A explosão de energia arrancou pedras das paredes, partiu estátuas, apagou metade das velas do templo.
O rugido que se seguiu não possuía honra, não demonstrava interesse na razão, sequer possuía mínimo traço de humanidade, e quando a luz desapareceu… Lion-Maru não estava ali, pelo menos não o guerreiro, não o samurai ou o protetor, que se conhecia até então...
A criatura que emergiu possuía quase dois metros de altura, a armadura estava incompleta, distorcida, partes douradas misturavam-se a placas negras semelhantes às dos monstros de Mantor, as garras eram maiores, as presas mais longas e juba… Ela agitava-se como fogo descontrolado.
E os olhos… não demonstravam mais consciência, mas demonstravam fome de algo, ódio de tudo, violência como método, e Shinseikiba observou aquilo em silêncio, pois sem qualquer chance de conseguir esconder, pela primeira vez desde o início da batalha… ele sentiu medo.
Porque não havia mais um homem diante dele, muito menos um herói, sequer ali estava o conhecido Lion-Maru, ali estava exatamente aquilo que nem Mantor ousou criar, um monstro humano, um Leão, unido a um corpo forte, jovem e obstinado, sem qualquer controle moral… E então, o rugido da criatura fez todo o templo tremer.
O cervo observa o monstro carmesim diante dele, era algo que até mesmo o monstro-humano descreveria como aberração, uma fusão incompleta, que rachava o chão sob cada passo, deixando claro que naquele instante, era o Leão quem assumiu o controle, pela primeira vez desde que recebeu a espada, Shimaru não estava guiando, sequer estava desperto.
O herói agora se encontrava absorto e devorado pela culpa que transbordava, como um prisioneiro dentro da própria mente, quase que ignorando todo o resto em busca de justificar seus atos para sua consciência o que cobrava sem cessar, e então, livre, o leão monstruoso avançou.
Shinseikiba não tentou fugir, sequer tentou lutar, ele apenas sorriu, porque apesar da situação atual, ele venceu. O impacto de garras o atingiu em cheio o arremetendo poderosamente para trás, mas ao invés de praguejar, a criatura apenas, contemplou…
— Ora veja… O Cervo monge abre os braços com satisfação perturbadora, apesar dos ferimentos… — Eu estava certo afinal, tudo era apenas uma armadura… Uma máscara… O vulgo guardião da humanidade, no final… É isso! O leão aterrador rugiu de forma tão violenta que colunas inteiras explodiram com o impacto, e o cervo continuou…
— É a verdade nua e crua Shimaru… Sei que está aí dentro, e agora é a hora da verdade… Você nunca foi um herói, sequer conseguiu ser um irmão, você foi apenas, uma prisão para algo mais forte, que agora está finalmente livre. POR SUA CULPA SHIMARU!
A espada girou violentamente no ar e, sem qualquer aviso, o Leão avançou. A lâmina descreveu um arco brutal, cortando fundo o ombro do cervo e fazendo o sangue negro explodir em uma chuva espessa por sobre as pedras. Mas por mais impossível que parecesse, aquele fora apenas um golpe de raspão, pois entre o movimento e o impacto, Shinseikiba desapareceu, escapando por uma fração de segundo da morte certa, ainda que não rápido o suficiente para sair ileso.
Quando ressurgiu, no entanto, alguns metros adiante, a ferida aberta escorrendo sobre as vestes de monge, o sorriso permanecia em seu rosto, e aquilo era talvez mais perturbador do que a própria velocidade com que se movera.
Fosse por um autocontrole absoluto ou por uma mente que funcionava de maneira diferente de tudo que Shimaru já enfrentara, o cervo continuava sorrindo. — Olhe para si mesmo, olhe o que você se tornou, perceba que por mais forte que seja, você é exatamente o que falei… Um monstro-humano, como qualquer um de nós.
E então acontece algo cruel, algo que só o Cervo poderia fazer… As paredes da câmara começaram a mudar, os rostos petrificados da câmara do Touro surgiram, expondo as vítimas, as almas presas, e todos ganharam vida e, assustadoramente, começaram a falar.
— Monstro… Assassino… Aberração… Igual aos outros… Monstro-Humano de Mantor…
O leão violento então parou, por um segundo, apenas um segundo, detido de alguma forma que a fera ou o monge não entendiam, porque aquelas vozes, não eram desconhecidas. Uma delas pertencia ao irmão falecido, e Shimaru, mesmo absorto na dor, congelou… e dentro da própria mente, ele tentou de novo se convencer do que ouvia e via… — Irmão...?
O mundo desapareceu, assim como a batalha parecia ser levada para longe, o rugido não mais podia ser ouvido, e tudo se tornava silêncio, e então, somente então… Ele reviveu em sua mente, mesmo não tendo presenciado no local, o dia da morte…O campo de batalha destruído, o sangue como que cobrindo tudo e a todos, a fumaça e o cheiro da pólvora utilizada, e finalmente, o irmão caído, uma lembrança que agora, carregaria por toda a vida.
Mas dessa vez algo estava diferente, uma brecha de lucidez surgia em meio ao caos, e o guerreiro tentou compreender o sorriso que insistia em adornar o rosto do irmão caído. Aquilo o perturbava, seu irmão teria morrido… Feliz? Não teria sido consumido pelo desespero da morte ou pelo ódio daqueles que o exterminaram?
Não era um sorriso de felicidade, mas parecia aceitação, confiança, como alguém que tombara acreditando plenamente em uma vitória que não se apresentava ali…
— Shimaru… A voz calma e profunda preencheu o ambiente e a fera sanguinária se tornava translúcida enquanto o samurai dentro dela se erguia, ainda em dor, ainda em agonia, ainda em culpa, ficando de frente ao espectro do irmão, que continua:
— Como pode esquecer de tudo que ensinei e abandonar a proteção do povoado para vir se vingar irmão? O jovem samurai permaneceu em silêncio, o peso da pergunta era mais doloroso do que qualquer ferimento em seu corpo.
— Você não se importou com os aldeões que ficaram onde morávamos? Que todos se defendessem ou se protegessem sozinhos? O silêncio voltou a dominar tudo por um instante, até que a voz novamente rompeu novamente a quietude…
— Você deveria ter ficado onde estava, deveria ser sobrevivido para proteger o povo, não vindo morrer nesta montanha onde morri… Ao ouvir aquelas palavras e acreditar nelas, Shimaru chorou, não pelo irmão, não pela dor, mas porque era apresentado a uma possibilidade terrível: a de ter compreendido toda a sua jornada após a partida do irmão, de maneira errada.
Ainda assim, embora aquela figura lhe dirigisse palavras tão pesadas, ela continuava sem mover os lábios, apenas… sorria. E então o tempo, os movimentos, até mesmo a água que corria pelo chão da caverna… De forma absurda e inacreditável, simplesmente, pararam.
Shimaru percebeu que até mesmo Shinseikiba permanecia imóvel, o cervo acompanhava tudo, seus olhos em forma de cruz tremiam em esforço, mas por algum motivo era incapaz de interferir. O impossível acontecia, aquela figura fantasmagórica do irmão, era agora a única coisa que ainda se movia naquele espaço congelado pelo tempo, aproximando-se de Shimaru lentamente, sempre com o mesmo sorriso sereno.
Shimaru encontrava-se em completa destruição emocional, mas a figura parou diante dele e finalmente o sorriso se tornou serenidade, e o espectro falou novamente: — Ouça, Shimaru... A vingança jamais foi o motivo, ela será apenas a pedra final... A morte do irmão foi apenas o catalisador.
O jovem tentou erguer os olhos para responder, mas a voz o interrompeu. — Existe uma guerra muito mais antiga do que imagina. Mais antiga que Mantor, mais antiga que esta montanha, mais antiga até do que os nomes que os homens deram aos deuses e aos demônios.
A figura começou a caminhar ao redor dele, enquanto as runas da Kinsachi - que inexplicamente estava em sua cintura novamente - brilhavam suavemente. — A Kinsachi surge quando o conflito entre as duas forças se aproxima do desequilíbrio. Ela não escolhe o homem mais poderoso, nem o mais habilidoso, ela escolhe o coração mais forte… Não a força do corpo, mas a força capaz de carregar o poder sem ser consumido por ele.
Shimaru continuava sem compreender por completo, e a figura prosseguiu. — Mantor busca homens sedentos por força e os une às feras para criar escravos. A Kinsachi busca corações capazes de resistir à corrupção e une homem e fera para criar guardiões. Um exige submissão. O outro exige escolha.
Mesmo imóvel, Shinseikiba ouvia tudo, e mais uma vez, havia medo em seus olhos. A figura espectral parou novamente diante do samurai. — O homem possui consciência, a fera possui instinto. Um é mente, o outro é corpo. Um é verso, o outro é reverso. Separados, são incompletos, unidos, podem trazer paz… ou destruição. Compreende, Shimaru? Não se trata de uma guerra entre vocês. Isso é muito mais antigo do que pode imaginar...
E foi então que Shimaru percebeu, ao ver a figura voltar a sorrir como o irmão, e se tornando novamente a imagem que o acusava, como se tivesse retornado à uma espécie de repetição, que aquele conhecimento jamais poderia ser de seu irmão! Shimaru tinha certeza, aquele espectro, nem o do Cervo nem o que falou com ele, nenhum deles era seu irmão, era na verdade algo ou alguém, utilizando a lembrança mais preciosa de sua alma para alcançar o seu coração, fosse para o bem ou para o mal.
E naquele instante, como um relâmpago atravessando sua mente, tudo começou a fazer sentido. Toda a jornada, toda a vingança, toda a dor, nunca haviam sido movidas apenas pelo amor ao irmão. Parte daquela força era culpa, culpa por ter sobrevivido, culpa por poder continuar a viver, culpa que alimentava o Leão, alimentava a raiva e, consequentemente, alimentava Mantor.
Porque o Leão não se agitava através do amor, nem da justiça, tampouco da coragem, ele crescia quando a dor se transformava em ódio, quando a perda se transformava em vingança, e quando a culpa se transformava em fúria.
O espectro então parecia “fugir da encenação” uma vez mais, e novamente sorriu, com a serenidade de quem prepara um “chanoyu”, e em uma reverência de gratidão, começou a se desfazer em uma energia dourada e carmesim, transformando-se em um orbe luminoso que flutuava serenamente diante do samurai.
A Kinsachi por sua vez, saltou da cintura de Shimaru e voou em direção ao orbe, e no exato instante em que ambos se tocaram, o espectro assume a forma translúcida da Kinsachi, se unem em um só novamente, a luz brilhante explodiu, e dentro da própria alma, o samurai encontrou o Leão parado diante de si… Enorme, majestoso, terrível, imponente, mas pela primeira vez, não havia hostilidade entre os dois.
Homem e fera se encaravam, nenhum deles falou, porque não era mais necessário, não existia ali um vencedor, também não havia espaço para dominadores ou dominados, o que surgia agora era o espaço para a compreensão. Ao perceber isso, Shimaru fez algo que jamais fizera desde o início daquela jornada, ele parou de lutar contra o Leão, e foi além, caminhou até a fera, ficando face a face com ela.
Enquanto os olhos dourados da criatura ancestral observavam o homem que tanto resistira à sua existência, ambos se satisfaziam em agora compreender: naquele instante, naquele momento único, não existia mais homem e não existia mais fera, existia apenas… Lion-Maru.
Quando os olhos do samurai se abriram novamente, a energia vermelha que o circundava desapareceu, o rugido animalesco se extinguiu, as runas da Kinsachi haviam mudado novamente, e um dourado puro, sereno e poderoso preenchia todo o ambiente.
Shinseikiba recupera os movimentos para conseguir simplesmente dar um passo para trás tentando cobrir os olhos, acreditando que tudo pelo que trabalhou, estava agora definitivamente perdido! Porque, o que surgia diante dele não era a fera sedenta de destruição que atacara momentos antes, nem o samurai consumido pela culpa e pela dor que agonizava sob sua maestria, mas algo novo, algo completo, algo que nenhum servo de Mantor jamais havia contemplado. A verdadeira fusão entre homem e animal.
O guerreiro e o leão tornaram-se um só, não por dominação, tampouco por contenção, mas puro e simples entendimento, que gerou harmonia. As marcas vermelhas da fúria desapareceram, as garras monstruosas recolheram-se, os olhos permaneceram dourados, mas agora serenos, antigos, impossíveis de provocar, impossíveis de corromper, sua própria presença havia mudado, antes ela parecia esmagar, agora ela parecia inspirar…
Lion-Maru surgia sempre como se anunciando um predador, mas agora, era visível, a presença era claramente a de um guardião.
Shinseikiba compreendeu, não era uma nova transformação, esta sempre foi a verdadeira e esperada forma, a que sempre deveria ter existido, onde o leão não dominava Shimaru nem Shimaru controlava o leão, ambos haviam encontrado equilíbrio e a motivação, e a espada finalmente ergueu-se lentamente.
E quando a voz surgiu… não parecia apenas humana, nem tampouco era bestial, era claramente algo maior…
— Lion-Maru...
A energia percorreu a montanha inteira, as paredes responderam, os espíritos petrificados responderam, até mesmo a escuridão respondeu, à verdadeira manifestação...
— Shinjitsu Kenzan.
Shinseikiba aceita então que ele não tem outras opções, o ser diante dele não é mais alcançável aos seus intentos, e a única coisa que restava, era tentar sobreviver para recuar e desaparecer, mas, de alguma forma, ele não conseguia mais assumir sua forma gasosa para simplesmente sair dali como fez até então, algo o bloqueava, impedia, trancava… “Seria a presença imponente do novo guardião”, cogitava o monge macabro…
A pergunta surgiu sem respostas, e junto dela veio algo ainda mais estranho… Não era medo da dor ou medo da derrota, mas o terror profundo de perceber que, pela primeira vez em séculos, talvez não existisse caminho para escapar, contornar, ou mesmo... Sobreviver.
Num ímpeto desesperado, Shinseikiba lançou mão da única opção que ainda lhe restava. Energia negra irrompeu de seu corpo em ondas violentas, fazendo os símbolos gravados em seus chifres brilharem como brasas malditas, um som gutural emergiu de sua garganta, profundo, grotesco, quase animalesco, não como o rugido de alguém que ainda acreditava na vitória, mas como o último clamor de uma criatura dominada pela falta de esperança em uma vitória.
As cruzes em seus olhos giraram, as ilusões retornaram, milhares de rostos, milhares de vozes, um mar de mentiras, a câmara inteira tornou-se um pesadelo, mas como ele mesmo previa, nada aconteceu, Lion-Maru continuou caminhando em sua direção. Passo após passo, sem desacelerar, sem hesitar, as ilusões tocavam seu corpo, e logo desapareciam, como se evaporassem…
As acusações vinham, e também desapareciam, assim como as dúvidas e qualquer outra artimanha, porque já não existia nada dentro dele que precisasse ser convencido. A mentira só dominava quem ainda procurava uma verdade, Shimaru já havia encontrado a sua.
O cervo então lançou-se para frente, as galhadas explodiram em dezenas de ramificações negras, lanças, correntes, espinhos, maldições… Tudo ao mesmo tempo, enquanto que finalmente, o sorriso do falso santo desaparecia por completo, e em seus olhos havia apenas uma verdade que jamais aceitara encarar: ele estava apavorado...
Lion-Maru moveu a espada, apenas uma vez. Não houve velocidade visível, não houve técnica aparente, apenas um clarão dourado rasgando as trevas como um decreto impossível de ser contestado. A luz atravessou o santuário profanado e, por onde passou, as maldições se desintegraram em cinzas, os cânticos distorcidos silenciaram, as correntes espectrais se romperam e as milhares de lanças formadas pela energia corrompida se desfizeram em poeira antes mesmo de alcançarem seu alvo.
O golpe prosseguiu, devastador, absoluto, e a imensa galhada de Shinseikiba foi cortada pela raiz, os símbolos profanos gravados em seus chifres explodiram em fragmentos de luz negra e o impacto atravessou sua carne maldita, fazendo o falso santo cambalear pela primeira vez desde que abandonara a humanidade.
Seus olhos em forma de cruz se arregalaram, não havia mais superioridade, não havia mais compaixão fingida, não havia mais palavras capazes de sustentar sua fé corrompida, Shinseikiba definitivamente fraquejou…
Ele deu um passo, sôfrego, logo depois outro, então seus joelhos tocaram o chão, as mãos tremiam, o corpo se recusava a aceitar aquilo… Não somente o corpo, mas principalmente a mente não era capaz de conceber tal acontecimento…
Porque compreender era possível, mas aceitar, era bem diferente… O falso profeta então ergueu o rosto em direção à figura dourada que permanecia imóvel diante dele e sua voz saiu fraca, quebrada, quase infantil, carregada pelo horror de quem via todas as suas verdades ruírem diante dos próprios olhos:
— C-como...? Como alguém consumido pela dor… Como alguém movido pela vingança… Como alguém que carrega uma fera dentro de si… Pode permanecer… puro...?
Lion-Maru permaneceu imóvel, a espada ainda brilhava em sua mão, mas seus olhos dourados não carregavam raiva, nem satisfação pela vitória, havia apenas serenidade. Ele contemplou o monge derrotado e sua voz ecoou profunda, antiga, como se viesse de muito além daquele lugar.
— Puro? O guardião fechou os olhos por um breve instante. — Não, nada é verdadeiramente puro neste mundo… Principalmente eu... Culpa, dor, medo… Você acredita que a escuridão nasce da dor, que a culpa inevitavelmente se transforma em ódio, e porque acreditava nisso… fez de si mesmo um escravo.
A voz de Lion-Maru tornou-se ainda mais grave. — A verdade é que não existe homem sem fera, não existe luz sem sombra, não existe coração sem cicatrizes. O erro nunca será possuir trevas dentro de si, o erro é ajoelhar-se diante delas.
Os olhos em forma de cruz se arregalaram, Lion-Maru deu um passo, a luz dourada refletiu nos olhos do falso santo, e Shinseikiba compreendeu o que o espectro disse quando falou sobre a Kinsachi, olhando para Lion-Maru… O coração mais forte… E ele não era aquele que jamais errava, era aquele que, mesmo quebrado… Mesmo ferido… Mesmo carregando uma fera em seu interior… Ainda escolhia permanecer humano.
A ponta da espada tocou o peito do Cervo, e antes que o golpe acontecesse, Lion-Maru se aproxima do rosto do cervo e completa: - E ainda assim, eu terei minha vingança! O movimento então foi simples, limpo, definitivo. A lâmina atravessou o coração do falso santo, as cruzes em seus olhos se quebraram, as ilusões desapareceram, as máscaras evaporaram, e as mentiras foram expurgadas...
O Cervo antes de partir viu o mundo como ele realmente era, e chorou, não de dor, mas de vergonha, e diferente de todos os outros monstros-humanos, seu corpo começou a desfazer-se, lentamente, como uma oração finalmente encerrada. — Talvez… A voz falhou. — Talvez seja isso que Mantor realmente teme…
O olhar encontrou Lion-Maru uma última vez. — Um homem capaz de vencer a si mesmo, é capaz de vencer… Qualquer demônio… Senhor… Mantor do Diabo…
A luz dos olhos de Shinseikiba foi o último vestígio do monstro-humano a desaparecer… Seu corpo se desfez lentamente em poeira escura, carregada pelo vento que atravessava as ruínas esquecidas. O último general de Mantor havia caído. E então… A montanha inteira estremeceu.
Não como um animal ferido, ou como algo tomado pelo medo, mas como uma prisão antiga que sentia suas correntes ruírem. Das profundezas insondáveis abaixo das ruínas, um som distante percorreu a pedra, grave, monstruoso, profundo demais para ser chamado de voz. As paredes vibraram, fendas antigas se abriram, poeira caiu do teto como cinzas sobre os séculos que ali repousavam.
Mantor sentia, pela primeira vez a entidade compreendia, todos os seus servos mais poderosos haviam desaparecido, suas mentiras haviam sido destruídas, seus guardiões, um a um, haviam retornado ao silêncio eterno. E agora… Aquilo que durante eras fora apenas uma possibilidade… Caminhava pela montanha em sua direção...
Então, em um único movimento, preciso e veloz como um relâmpago, a espada encontrou novamente sua bainha. No exato instante em que o metal silenciou, a katana retomou sua forma original, reduzindo-se mais uma vez à discreta kodachi presa ao sinto do guerreiro.
Sem olhar para trás, Shimaru virou-se em direção à saída e deu o primeiro passo.
À medida que avançava rumo ao derradeiro desafio, a imponente figura de Lion-Maru começou a se dissipar em partículas de luz, desaparecendo lentamente como uma lenda que cumprira seu propósito. Sob aquela aura divina, Dan Shimaru retornava à sua forma física natural, mas havia algo que jamais voltaria a ser o mesmo.
Seu espírito.
Agora, nenhuma hesitação permanecia em seu coração. Nenhuma dúvida obscurecia seu caminho. Apenas uma convicção inabalável queimava em sua alma. O embate final o aguardava...
E, desta vez, seria o próprio Mantor que teria de enfrentá-lo.
Continua...
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