A entrada da montanha, de maneira alguma lembraria um portal... Mesmo que esculpido pela natureza, ele parecia mais uma ferida, onde a rocha se abria de forma irregular, como se tivesse sido rasgada à força séculos atrás e jamais cicatrizara. As bordas eram negras, vitrificadas pelo calor de algo antigo, e marcas profundas cortavam a pedra, não por ferramentas, mas por garras, unhas talvez até mesmo humanas, assim como lâminas que haviam falhado.
Shimaru cruzou o limiar, e o mundo mudou… O ar tornou-se pesado no mesmo instante, espesso como água parada, cada respiração parecia exigir esforço, e havia um gosto metálico na língua, como sangue antigo suspenso no pó que preenchia o ar. O frio não vinha do clima, mas da ausência de vida, um frio que não tocava a pele, mas nos ossos.
A luz do exterior morreu rápido demais, poucos passos adentro, o dia tornou-se lembrança, a penumbra engolia as formas, e apenas o brilho dos veios de lava que escorriam por vários locais como veias a irrigar um grande corpo, desenhavam sombras trêmulas nas paredes, sombras que não permaneciam imóveis, e foi então que Shimaru viu...
As paredes… não eram lisas… Haviam corpos ali, ou pelo menos o que restava deles…
Armaduras fundidas à rocha, espadas presas como se tivessem sido sugadas no último golpe. Haviam mãos, mãos humanas, parcialmente petrificadas, dedos estendidos em súplica ou terror eterno, e, em certos pontos, nomes haviam sido gravados às pressas, letras tortas, rasgadas na pedra antes que o tempo acabasse.
Alguns ainda tinham rosto… Bocas abertas em silêncio, olhos vazios voltados para a escuridão... Gotas caíam em algum lugar profundo, mas não seguiam ritmo algum, às vezes vinham rápidas demais, outras vezes, longos intervalos eram quebrados por um único som seco, como um osso partindo.
Então vieram os sussurros, que não ecoavam, também não viajavam pelos espaços, eles simplesmente surgiam, próximos demais… - Shimaru… A voz não tinha direção, então se sobrepunha, mais fraca, quase infantil… - Volte… E então o leão dentro dele estremeceu, não rugiu como antes, mas sim parecia se preparar apenas...
Instinto puro reconhecendo um território onde até predadores antigos haviam aprendido a temer, o calor da fúria contida percorrendo-lhe a espinha... Ele olha para as paredes, observa os corpos petrificados por todo espaço, mesmo onde era impossível alcançar, e algo lhe percorre a mente... - É como se fosse... Um tipo de aviso... Algo em meu íntimo grita que esta montanha não é um simples caminho... Talvez ela seja como um túmulo que respira...
Mais adiante, o corredor se alargou, transformando-se numa vasta câmara natural, o teto era alto demais para ser visto, perdido na escuridão. Colunas de pedra sustentavam o peso absurdo da montanha, algumas rachadas, outras reforçadas por algo que não era rocha, ossos, talvez, ou restos de estruturas erguidas por mãos desesperadas.
No centro, o chão afundava, e ali, o samurai finalmente avista algo que se diferenciava de todo o resto... Era impossível precisar o que era, mas era sem dúvida mais do que uma rocha retorcida, preso à própria terra, algo em segundos iniciou a se mover, confirmando as suspeitas de Shimaru, quebrando aquela prisão e finalmente se deixando ver…
Um som profundo reverberou, não como um rugido, mas como o deslocar de uma montanha inteira ajustando sua postura, fragmentos de pedra rolaram, poeira caiu como cinzas, e então a voz surgiu, imponente, intimidadora, quase soberana, em tom grave, lento, como se carregasse séculos em sua entonação: - Cada passo que você dá aqui… eu sinto…
A silhueta se revelava aos poucos: colossal, humanoide, mas deformada pelo tempo... Parte de seu corpo era rocha viva, outra, carne ressequida marcada por rachaduras incandescentes, como magma prestes a emergir. Chifres enormes, quebrados, curvavam-se de sua cabeça, troféus de batalhas esquecidas.
A criatura não empunhava uma arma comum, segurava um pilar arrancado da própria montanha, marcado por símbolos antigos, usado como martelo, âncora e sentença. - O leão que você carrega… - continuou a criatura, ajustando-se, fazendo o chão tremer… - Já rugiu aqui antes.
Shimaru permaneceu imóvel, a presença diante dele não bloqueava apenas o caminho físico, mas parecia enfraquecer a vontade, a determinação e também a esperança, como um peso morto a se depositar sobre quem ali estivesse...
O silêncio entre ele e a criatura parecia mais pesado que a própria montanha que os cercava, o ar ali dentro era espesso, carregado por um odor antigo de terra profunda e pedra aquecida pelo tempo e cada respiração parecia evocar novos sons, novos murmúrios...
Os olhos de Shimaru estreitaram-se lentamente, algo havia desperto em suas mente, uma lembrança que não era sua, mas que lhe fora mostrada no primeiro contato com a kodachi misteriosa... - Essas paredes... Meu irmão esteve aqui… A criatura inclinou a cabeça de forma quase imperceptível, e mesmo esse pequeno movimento fez com que poeira antiga se desprendesse de seu corpo, como se as próprias eras estivessem se desfazendo sobre seus ombros. - Sim…
A palavra saiu grave, longa, como um eco arrastando-se pelas paredes da caverna e por um instante, o silêncio retornou… Não era um silêncio comum, era daqueles de algo antigo observando algo novo, enquanto o espírito de Shimaru se contorcia com a revelação, sem ainda conseguir definir qual seria sua forma de reação, a criatura reverberou em tom ameaçador: - E ele também acreditava… que poderia passar… E então o pilar se moveu.
Não houve pressa naquele movimento, a criatura não precisava disso! O pilar de pedra foi erguido lentamente acima de sua cabeça, rangendo como um fragmento arrancado da própria estrutura da montanha, runas antigas gravadas na rocha começaram a brilhar fracamente, como cicatrizes despertando após um longo sono.
No entanto, Shimaru mal teve tempo de erguer a guarda, o golpe desceu avassalador, e o impacto não soou como pedra contra pedra, mas como um trovão subterrâneo, se isso fosse possível de se imaginar! O chão explodiu em fragmentos, ondas de choque percorreram o solo e o samurai foi lançado para trás como se fosse apenas um galho seco diante de uma ventania.
Seu corpo rolou entre os destroços, pedras rasgando suas roupas e pele enquanto ele era arrastado pela violência do impacto, o ar abandonou seus pulmões em um som rouco e por um momento, ele não conseguiu respirar. O pilar esmagou o solo onde ele estivera um instante antes, abrindo uma cratera profunda no chão da caverna, enquanto a criatura… Ela apenas observava… Imóvel… Como que pacientemente. - Força… você tem.
Cada palavra parecia cair no chão como uma pedra pesada e então a criatura avançou, cada passo era um terremoto, o chão tremia, fragmentos de rocha saltavam e rolavam pela caverna. - Vamos ver se tem fúria… também.
Diante do olhar ainda surpreso do samurai, o pilar ergueu-se novamente. - Mas saiba que nenhuma montanha se move com fúria. E o golpe veio potente, pelo lado. Erroneamente Shimaru tentou erguer o braço, felizmente já era tarde demais ou talvez tivesse fraturado por completo o mesmo, o impacto atingiu o ar ao seu lado e a onda de choque o arremessou contra a parede de pedra atrás dele.
O som de seu corpo colidindo contra a rocha ecoou pela caverna e por um instante, o mundo girou, Shimaru tentou se levantar, seu corpo tremia, cada músculo gritava, e não se tratava apenas da dor física, havia algo naquela presença, algo que pesava sobre a mente, como se a própria vontade estivesse sendo comprimida sob toneladas invisíveis.
A criatura caminhava lentamente em sua direção. - Vingança… - disse ela. O pilar foi girado em sua mão colossal, levantando poeira e fragmentos de pedra ao redor. - Eu… Gansekikiba... Comandante de Mantor e guardião desta montanha lhe afirmo… Vingança é o primeiro passo… para se tornar um monstro.
Shimaru tentou puxar ar para os pulmões, seu olhar encontrou a espada do irmão que empunhava desde o início da jornada, caída a alguns passos de distância... Ali ele percebeu que os impactos foram mais fortes do que o cogitado, afinal o samurai sequer percebeu que seu pulso havia soltado a lâmina, ele sequer havia percebido a falta… Tentando mover o braço, seu corpo hesitou, o peso daquela presença pressionava sua mente, parecia cobrar-lhe algo, parecia tentar impor-lhe algo…
Então ele se recordou dos combates anteriores, se recordou dos monstros humanos, se recordou de suas decisões, de suas promessas, se recordou de seu irmão, seu coração persistente gritava em seu âmago mais que qualquer outra força... Ele precisava reagir! Inicialmente por dentro, sua mente encontrou a fera, o leão desperta e concorda, um rugido ecoou dentro de sua consciência, profundo, primal, impossível de ignorar.
A kodachi então respondeu à mente do samurai, a lâmina vibrou dentro da bainha, e então saltou, como se tivesse vontade própria, subindo quase até o teto visível, embalada pelo quase rugido emitido por Shimaru que se punha de pé, contra todas as perspectivas possíveis, ao passo que então, a espada mística atravessou o ar novamente, e encaixou-se perfeitamente na mão de Shimaru no exato momento em que ele se ergueu.
E então o grito rasgou a caverna. - SHISHIHENGE!
Um relâmpago explodiu, a luz branca rasgou a escuridão como uma lâmina celestial, envolvendo o corpo de Shimaru em um clarão feroz, o trovão ecoou dentro da montanha, obrigando o general de Mantor a cobrir os olhos diante do espetáculo reluzente, e quando a luz finalmente desapareceu… Lion-Maru estava ali.
A armadura reluzia sob os fragmentos de luz que ainda dançavam no ar, a juba dourada movia-se lentamente como uma chama viva, os olhos da fera encontraram os da criatura, e o touro o observou em silêncio, para logo em seguida, talvez pela primeira vez em séculos… A criatura sorrir… Um sorriso lento, antigo… - Agora sim… O pilar ergueu-se novamente, a montanha inteira parecia se segurar e o Gansekikiba provocou… - Vejamos se o leão ainda sabe rugir.
Lion-Maru avançou, o pilar desceu como o martelo de um deus e o samurai ergueu a mística lâmina. O impacto ecoou como um novo trovão, o chão quebrou sob seus pés, fissuras espalhando-se pela pedra enquanto ele suportava o peso colossal do golpe. Porém desta vez ele não caiu, não fora arremessado, e a espada em suas mãos brilhou como um clarão contido, onde o corte que se seguiu rasgou o ar com um silvo feroz, abrindo no peito de rocha da criatura, uma rachadura incandescente que se espalhou como uma ferida viva pela superfície pétrea.
O Touro reagiu imediatamente, girando o pilar colossal em um arco devastador que varreu o espaço da caverna como se pretendesse esmagar tudo ao redor, Lion-Maru saltou no momento exato, seu corpo movendo-se com a agilidade selvagem da fera que agora habitava sua forma, e no ápice do salto a lâmina desceu com violência.
O primeiro impacto fez o pilar estremecer e rachar profundamente, e um segundo golpe, rápido e implacável, terminou o que o primeiro havia começado, a rocha partiu-se ao meio com um estalo ensurdecedor, e fragmentos gigantescos despencaram no chão da caverna, espalhando poeira e ecos que ressoaram pelas paredes da montanha.
Por um breve instante, a criatura permaneceu imóvel, como se o tempo tivesse colpsado diante do golpe, e quando a espada rúnica desenhava no ar a trajetória de finalização ao combate, Gansekikiba travou os olhos em Lion-Maru, e falou: - Seu irmão… também era forte.
O braço de Lion-Maru congelou no ar, a lâmina ainda insistia em completar a trajetória assassina, mas por mais que quisesse o leão, o golpe final não veio, enquanto o touro ergueu lentamente um de seus enormes braços de pedra e magma e apontou para uma das paredes da caverna. - Por isso… diferente dos demais covardes… ele foi reclamado inteiro pela montanha.
Lion-Maru seguiu o gesto, e viu… Entre os inúmeros fragmentos de corpos petrificados que compunham a parede, rostos distorcidos, braços presos à rocha, torsos incompletos congelados em posições de desespero, havia uma figura diferente, uma figura completa, um ser que não fora dilacerado, ou pelo menos assim parecia...
O corpo estava parcialmente envolvido pela pedra da montanha, como se a própria rocha o tivesse abraçado, não havia expressão de agonia em seu rosto, os olhos estavam fechados, a cabeça levemente inclinada para baixo, os braços presos junto ao corpo pela pedra que o envolvia até a cintura, mas o restante permanecia intacto, preservado como a estátua silenciosa de um guerreiro que tombara de pé.
Não parecia um condenado, parecia um samurai em descanso após a batalha… O irmão de Shimaru ali estava, diante dele, como uma estátua feita pela metade, e por um momento, o tempo parou… Lion-Maru deu um passo na direção da parede, a respiração tornou-se pesada, o leão dentro dele silenciou, e naquele silêncio, a dor do samurai emergiu.
Mesmo sob a armadura da fera, lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Lion-Maru, misturando-se à poeira da caverna… Ele deu mais um passo, a mão que segurava a espada tremia, atrás dele, a criatura se moveu, era possível ouvir a pedra rangendo e o magma estalando, sem dúvida, o touro erguia-se uma vez mais, e então a voz grave trovejou novamente com outra terrível revelação...
- Precisei reunir os pedaços… - disse ele lentamente - Para que pelo menos a metade ficasse exposta para além da montanha… Assim que a vocalização do comandante concluiu, o rugido que se seguiu não foi apenas da fera, foi da dor, Lion-Maru girou violentamente, a espada descreveu um arco feroz no ar, a lâmina atingiu o braço do gigante com uma violência brutal. - MALDITO!
O Touro ergueu os braços para se defender, e o magma em seu interior irrompeu pelas rachaduras, envolvendo seus membros em chamas ardentes como armaduras vivas. Gansekikiba tentou resistir, mas Lion-Maru já não lutava com técnica, lutava com fúria, cada golpe era mais pesado que o anterior. A lâmina rasgava rocha, faíscas e fragmentos explodiam pelo ar, o touro recuava, mas seu sorriso se mantinha, parecia estar mais satisfeito a cada momento!
Outro golpe, e mais outro, e novamente, a caverna ecoava com o choque entre espada e pedra viva.
Lion-Maru avançava como uma tempestade, a cada impacto, sua força parecia crescer, o leão rugia, o samurai chorava, até que o comandante colocou tudo em sua esquiva, potencializando a rigidez de seu braço, mas o corte diagonal atingiu de forma perfeita o ponto certo, decepando completamente o braço esquerdo da criatura.
A rocha partiu-se, o braço colossal voou pelos ares caindo ao chão logo em seguida, em um estrondo que fez o solo estremecer! No entanto, isso ainda não era o suficiente, Lion-Maru ainda não estava satisfeito, Gansekikiba provavelmente era o assassino de seu irmão, e ainda ria da condição em que o amado irmão morreu! O guerreiro leão girou no ar, a lâmina brilhou novamente, o golpe seguinte abriu o peito do guardião em nova posição agora de cima a baixo, expondo o magma incandescente que ardia em seu interior como um coração de fogo antigo.
O touro cambaleou, Lion-Maru saltou uma última vez, girou no ar verticalmente em um ataque fulminante, e a espada desceu, determinada a exterminar por completo aquela forma de vida que causava revolta intensa no âmago do guerreiro enfurecido, mas uma vez mais Gansekikiba falou, incerta de se teria tempo para completar a frase, no entanto ainda sim tentou… - … Mas é um fato que seu irmão, apesar da dor, nunca acolheu a fúria que lhe ofereciam.
E então Lion-Maru congelou novamente, a espada ainda erguida, o corpo respirando como uma fornalha prestes a explodir, mas observando o corpo mutilado de Gansekikiba que já não esboçava mais intenções de combate, não haviam mais forças, tudo que lhe restava era respirar enquanto podia, caído ao chão da caverna… Sem um braço, o peito aberto, os veios de lava pareciam começar a falhar e os olhos voltavam-se para Lion-Maru...
- Sim... Ele lutou até o fim… - disse o guardião... - Como digno guerreiro. O magma em seu interior começava a apagar… - Seis eram os monstros humanos que o atacavam e não conseguiram uma única palavra de rendição dele… Ele jamais se tornou o que Mantor queria que ele fosse.
O silêncio envolveu a caverna novamente… Lion-Maru respirava profundamente, a fúria ainda pulsava dentro dele, mas agora havia outra coisa ali naquele cenário surreal… Compreensão. O touro percebendo a quebra da fúria indômita, continuou...
- Você compreendeu a sensação agora… não é? A fera dentro de Lion-Maru rugia, a mesma força, a mesma fúria, a mesma sede de destruição que quase o consumira, e Shimaru finalmente percebia isso de forma clara... Ele olha para o monstro como se tentasse compreender as atitudes e falas, e então percebe, Gansekikiba não havia apenas lutado, cada palavra, cada provocação, cada revelação, tudo fora uma tentativa de mostrar o limite daquilo que o leão poderia se tornar.
- Se você seguir esse caminho… - disse o guardião com o último fio de sua voz.. - Mantor não precisará derrotá-lo. Lion-Maru então se aproximou do moribundo, baixou a cabeça e a ergueu novamente, olhando para Gansekikiba, ainda confuso com tudo que acontecera ali… - Porque me ajuda?
O corpo colossal jazia quebrado sobre a pedra da caverna, o magma que antes pulsava em suas fissuras agora diminuía lentamente, como brasas que se despedem do fogo que um dia foram, mesmo assim, seus olhos ainda estavam voltados para Lion-Maru. E quando falou, sua voz não era mais a sentença de pedra que dominava a montanha, era uma voz cansada de alguém que aguardava esse momento havia séculos. - Eu… sou o guardião desta montanha… Preso aqui pela eternidade… para guarnecer a entrada do covil de Mantor.
O gigantesco peito de rocha abriu-se e fechou-se em um suspiro profundo, como se a própria montanha respirasse através dele. - Mas nem sempre fui isto. Seus olhos voltaram-se brevemente para o vazio da caverna, como se enxergasse um tempo muito distante. - Um dia… fui humano… Como todo monstro humano de Mantor já foi….
Sua voz carregou um peso diferente agora. - Um homem que desejava poder… força… glória. Eu queria ser o mais forte entre todos… o mais invencível… alguém diante de quem nenhum inimigo pudesse permanecer de pé. Mantor ouviu meu desejo, e ele me deu exatamente aquilo que eu pedi.
O braço que ainda lhe restava moveu-se com dificuldade, indicando seu próprio corpo monstruoso. - Mas não como eu imaginei… Minha sede de sangue… minha ambição… minha fome por poder… foram as correntes que me prenderam aqui. Transformado… em guardião de um inferno que eu mesmo ajudei a erguer.
Ele firmou o olhar para Lion-Maru novamente, e prosseguiu... - Muitos vieram até esta montanha… Guerreiros… caçadores… homens desesperados o suficiente para enfrentar o terror que habita aqui... Nenhum passou por mim. Mas quando eu vi você…
Uma pausa tomou conta do local, e Gansekikiba prosseguiu: - Eu soube. O leão caminha com você, e, diferente de mim… ele não o domina, você o controla. Se conseguir dominar completamente a força da fera que habita em seu coração… então há uma chance.
Sua voz voltou a carregar um eco antigo, quase solene. - Há então uma chance de que a fera e o humano finalmente tragam o fim de Mantor. O brilho do magma tornou-se mais suave, e o touro prosseguiu: - Eu lutei contra você… para empurrá-lo até esse limite, para fazê-lo sentir o peso da fúria… e ainda assim permanecer dono dela. Seus olhos voltaram-se lentamente para o teto da caverna. - Agora fui derrotado, e pela primeira vez… em séculos… Eu posso finalmente partir.
Um último suspiro pesado ecoou pela caverna. - Vá, Lion-Maru… Mostre a Mantor… que a força de uma fera… pode servir à justiça de um homem. O brilho de magma desapareceu completamente, a pedra tomou o corpo de Gansekikiba de uma vez por todas, e o antigo guardião da montanha finalmente encontrou descanso.
O silêncio voltou à caverna, desta vez absoluto, e Lion-Maru permaneceu ali por longos instantes, respirando, sentindo e finalmente desde que entrara naquela montanha, o sentimento de fome por destruição começou a ceder espaço para algo diferente, algo não agressivo e sim, de missão e determinação...
O leão então se vai, Shimaru fica em seu lugar uma vez mais, o cansaço era absurdo… À frente, o caminho final se abria, não como uma trilha comum, mas como um vazio pulsante, onde a rocha parecia ceder à presença de algo maior, antigo e consciente. Era lá que Mantor aguardava.
O samurai se ergue com as forças que ainda detinha, caminha até onde o irmão estava, ele o observa com calma e até algumas cicatrizes que ele já ostentava antes de ir confrontar Mantor, estavam ali... Sepultado como pedra, uma recordação macabra de sua atuação contra Mantor que, aparentemente deveria servir como aviso, mas que agora, reforçava a determinação e resiliência de Shimaru!
Diante do irmão, Shimaru se ajoelha, ora pela alma do mesmo, reverência sua devoção e orgulho, mas finalmente a verdade que o samurai já reconhecia toma lugar, o poder do leão não anulava os limites do corpo humano. A vitória exigia lucidez tanto quanto força, ele recuou alguns passos e se abrigou atrás de uma formação rochosa partida, ainda quente pelos tremores recentes. Ali, sentou-se com cuidado, as costas apoiadas na pedra fria, e observou a espada do irmão que havia perdido no combate, quase encostada em si….
O corpo descansava, o leão, não. Os sentidos permaneciam despertos, atentos a cada vibração mínima da montanha, a cada variação no ar pesado, era um estado estranho, repouso e vigília coexistindo, como duas consciências em equilíbrio silencioso.
- Trinta minutos... - pensou ele, seria o bastante para que o poder se reorganizasse, para que os músculos respondessem outra vez, para que o coração retomasse seu ritmo firme, o leão trabalhava em silêncio, preparando o receptáculo para o que viria. Shimaru fechou os olhos por um instante, pensou nos inimigos que havia enfrentado.
- Javali… - murmurou. - Uma serpente… e agora um touro… Não... Na verdade eram homens... Humanos que aceitaram se tornar aberrações, não por sobrevivência, mas por ambição... Que tipo de vazio existia em seus corações para que o poder valesse mais do que a própria humanidade? E, após eles… quantos mais me aguardam? Que outras formas a corrupção ainda assumirá antes que eu possa encarar, enfim, o verdadeiro Mantor?
Shimaru abriu os olhos, o pensamento não trouxe dúvida, nem peso, muito menos hesitação... - Não importa... - disse, baixo, como um voto feito ao próprio mundo. - Eu cumprirei minha promessa. A mão repousou sobre o punho da espada do irmão recuperada ao chão…. - Os dias de Mantor estão em seu ocaso.
Continua...
Continua...

Meu amigo.
ResponderExcluirO seu Shimaru cada vez me conquista mais.
A forma como você dosa força, fúria e lucidez é a alma dessa fanfic.
Você trouxe camadas ao Shimaru que o elevam em moral a níveis jamais pensados na obra original.
Um heroi que luta sim, mas que sente, pondera e racionaliza.
Isso, até aqui tem segurado a fera lendária.
A luta contra Gansekikiba, assassino do seu irmão foi fenomenal e o adversário provocava-o sabe do que ele agia diferente .
A cena que Shimaru reconhece seu irmão nas fendas da rocha é impactante.
Mas, mesmo com a dor na alma, Shimaru lutou de modo feroz, mas sem deixar se dominar pelo leão lendário.
Essa foi a cereja do bolo.
Mas, no fim, a lição:
Gansekikiba foi mais um humano que se perdeu, achando que força é tudo.
Adorei isso .
Parabéns!
Gostei bastante desse capítulo. Todo o tema de auto controle do Shimaru versus tudo ao redor que tenta fazê-lo perder justamente esse controle é algo que, em mãos menos hábeis, acabaria num melodrama cansativo, mas que aqui prende a atenção do leitor, a gente fica sempre naquela dúvida "Será que ele perde o controle agora?"
ResponderExcluirE eu sei que, havendo ou não essa perda de controle, você vai saber exatamente como conduzir o personagem no melhor caminho possível.
O destaque para mim foi quando o Shimaru reconehce o corpo do irmão e o fim do monstro, que acaba por reconhecer sua fraqueza em detrimento da força do Homem que divide a alma com o Leão.
Mandou bem demais cara!
Parabéns!