sexta-feira, 24 de março de 2023

Morre aos 74 anos, o ator Jiro Dan, Hideki Go de Ultraman Jack!

 


O tempo vai passando e a gente não percebe o quanto ele está correndo... Em uma época, a gente é criança e descobre heróis incríveis, então em um abrir e fechar de olhos, somos adolescentes e nossos heróis são já consagrados! Mais um abrir e fechar de pálpebras, nossos heróis se tornaram lendas e finalmente, com tristeza e dificuldade em aceitar, aqueles heróis que julgávamos eternos, em mais um abrir e fechar de pálpebras nos deixam para sempre... 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Crônicas da Força Terrena - Cap. 04 - Vingança Vazia! (Parte Final)


A criatura Hiisi bate os pesados braços ao chão e se lança em carga contra o oponente declarado, enquanto NeoDragon sem hesitar faz o mesmo, se lançando como um meteoro contra o monstro, ao passo que Usko apenas flutuou levemente para mais alto do que estava, se mantendo há pouco mais que um metro acima do solo, como se esperando por algo que ele sequer conseguia compreender o que seria, pelo menos naquele momento…

Enquanto os dois poderosos adversários se dirigiam um contra o outro para o embate final, Usko parecia enxergar através dos olhos de seu aliado Peryton, assim como a criatura alada parecia compreender e partilhar de seus pensamentos! Apostando nisso, é que NeoDragon se lançou mentalizando seu plano e cada passo deste plano traçado, como se o reprisasse mentalmente, detalhe por detalhe enquanto corria, esperando que a comunicação única entre os Densetsus fizesse com que Usko o compreendesse!

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Crônicas da Força Terrena - Cap. 03 - Vingança Vazia! (Parte 2)


A noite ia alto, os bombeiros e a ambulância iluminavam o local que apesar da mata que os cercava contornando o lago, ainda era maravilhosamente calma e convidativa… Ao longe relâmpagos se formavam, mas era impossível saber se aquela tempestade que parecia se formar viria até eles ou desaparecia em uma nova virada do vento norte… Ryuichi encontrava-se naquele momento sentado ao degrau de acesso ao interior da ambulância pela parte traseira, não apresentava mais que alguns arranhões ao corpo, ao passo que Fredriik tinha uma luxação na terceira costela esquerda, seu dano físico do acontecimento, digamos assim, mas o policial ainda teria de amargurar os danos emocionais do ocorrido e, sua expressão era clara, era de quem considerava que não se sentia ajudando o suficiente diante de tudo…

sábado, 25 de junho de 2022

Crônicas da Força Terrena - Cap. 02 - Vingança Vazia! (Parte 1)

Um guerreiro solitário, vivenciando uma situação da qual ele se culpa, buscando redenção e correção enquanto m mal considerado extinto, luta para surgir novamente diante deste mundo!

terça-feira, 15 de março de 2022

Perturbador - Caso 10 - O assalto!


O tumulto era grande, o abafamento daquele verão intragável não ajudava, a chuva atrapalhava bastante apesar de fraca e às vezes fazia a pistola não disparar… O alarme do banco soando alto, a cada freada de carro ou a cada grito eu cogitava que seria a polícia a chegar para me prender, e eu até quase queria isso depois do que vi… No entanto não era, e eu não iria encarar aquela coisa, eu estava conseguindo, eu estava fugindo, eu ia finalmente me dar bem, eu sentia isso!

Minha vida nunca foi fácil, mãe desconhecida, me deixou em uma calçada e fui recolhido pelo serviço público… Aí a lengalenga de vai e volta pra lares adotivos e tal, cada um pior que o outro, sempre cheio de gente babaca e a maioria, religiosos, alegando coisas sobre deus, céu e inferno, castigo após a morte para os pecadores, nossa... Como eu ria disso, tanta baboseira em uma vida só…

Cresci, atingi a maioridade e como qualquer serviço público, acham que alguém tinha um plano para o Spencer aqui quando saísse da aba do governo? Não, me soltaram nas ruas, se vira moleque… Drogas, espancamentos, furtos, bebida, cigarros, eis meus amigos e meus companheiros… O que sobra pra desgarrados como nós? Roubar, assaltar, óbvio… E assim surgiram os primeiros furtos, os assaltos à mão armada e enfim… Cá estou diante de um plano que finalmente deu certo…

Éramos oito, alugamos até um apartamento para onde iríamos após o assalto, era roubar e correr pra lá trocando de veículos diversas vezes no caminho e tudo quase deu certo pra todo mundo, mas no momento final, um carinha lá dentro se ergueu e comeu o Tommy na porrada para logo depois, comer ele de verdade… E eu não tô falando de putaria não, ele devorou ele parceiro, abriu uma bocarra sanguinolenta e mandou ele pra dentro… Os outros começaram a atirar nele e ele foi pra cima de todos, eu que não sou trouxa, corri com a grana antes de seja lá o que era aquilo fazer alvo no meu peito!

O troço foi assustador e eu não parava de pensar naquilo, no entanto, ao dobrar a esquina com a mala debaixo do braço, vi primeiro as luzes dos giroscópios, depois os gritos e o tiroteio começou… Milagrosamente não fui atingido mas, atingi e enviei três deles direto pro inferno, conseguindo entrar no beco à direita rapidamente, estreito como só ele mas eu me via correndo como nunca achei que correria!

Dobrei à esquerda e a à direita sem parar, aleatoriamente em cada esquina, pulei cercas, atravessei construções, eu simplesmente seguia buscando não dar um caminho aos policiais para me seguirem e quando menos esperei, finalmente atingi a estação de metrô. A mochila que havíamos comprado estava comigo, coloquei a mala da grana nela e a coloquei nas costas, tirando a jaqueta e a jogando no lixo, eu estava disfarçado agora, era só seguir o plano e ir para o apê esperar a poeira baixar…

Foram cinco metrôs e pelo menos quatro ônibus sem qualquer incidente além do silêncio anormal, mas acreditava eu, era por conta dos disparos que foram muitos e devem ter zoado meus tímpanos… Cheguei ao apê, entrei e de dentro espiei por alguns minutos para fora, nada nem ninguém me seguiu, eu estava salvo, era só esperar tudo acalmar e ficar com a grana toda pra mim sem dividir com ninguém… Por vezes pensava que merda tinha sido aquela que comeu o Tommy, mas preferia deixar aquilo de lado, não era mais assunto meu, ele me fez um favor, agora era dormir e esperar tudo acalmar…

A noite passa turbulenta, várias imagens, vários acontecimentos, a criatura, o confronto com a polícia… Acordo suado e assustado, alguém está mexendo na porta… Era de manhã, dormi despreocupado demais, talvez tenham me seguido… Pego a arma, me escondo atrás do armário e fico ali aguardando, o coração à mil…

Dois homens adentram o local, um deles bem mais velho, parecia mostrar o lugar, o outro mais jovem, parecia estudante… Os dois ficam à conversar, meu ouvido está bagunçado ainda, não consigo ouvir direito mas com certeza eram policiais ou algum parceiro dos que morreram… Me mexo com calma por detrás do armário, aponto a arma para o mais jovem primeiro, pois ele poderia revidar e puxo o gatilho…

A arma não dispara e eu puxo o gatilho de novo… Mais uma, duas, três vezes, nada… A maldita deve ter emperrado com a chuva de ontem, mas vejo que eles observam tudo e erguem o colchão, estão claramente buscando o dinheiro, e eu não ia deixar isso acontecer… Parto pra cima deles, eles sequer me veem e eu ataco e então... Eu que jurava que o aquilo que tinha comido o Tommy e os outros era a coisa mais assustadora da minha vida, me vi sem chão literalmente, atravessando os dois invasores com meu punho sem tocá-los, assim como a parede e acabando por cair lá embaixo na rua…

Me levanto, olho pra mim, nenhum ferimento... Olho para os lados, vejo muitos seres que mais pareciam zumbis à cambalear e fitar sua visão em mim, assim como todos as demais pessoas que passavam pelas ruas normalmente, mas os fantasmas… Porque estavam ali? Um arrepio correu por minhas costas atingindo minha nuca...

Corro em pânico para o quarto, os dois intrusos continuam ali como se nada tivesse acontecido, tento socá-los de novo, nada outra vez… A arma não está mais na minha mão, devo tê-la perdido, tento chutar exaustivamente e nada, até que os dois começam a se dirigir à porta e finalmente consigo ouvir a frase do mais velho, respondendo ao questionamento do mais novo:

“- Não seu preocupe, está vazio tem trinta dias… Eu aluguei para um grupo estranho, mas descobri depois pelos jornais que eram assaltantes de banco… Provavelmente iriam usar o local como esconderijo, mas infelizmente todos morreram de forma misteriosa, menos um deles que foi alvejado com dezenas de tiros em um confronto com a polícia… Coisa muito triste meu jovem!”

Aquilo me atingiu como um soco no nariz, ardeu tudo por dentro de mim e imagens começaram a pular à minha mente… O confronto com a polícia, o confronto com a criatura dentro do banco… As cenas voltam segundos antes do monstro surgir e sei lá de que forma minha mente revela a verdade que eu ocultava de mim com todas as forças… Do lado de fora, de cima de um prédio, os atiradores da SWAT nos alvejaram um a um, morremos quase todos dentro do banco e eu sei lá como, fugi atirando para fora, atingi diversas pessoas inclusive crianças e idosos, até que a polícia me parou…

O terror toma conta de minha alma, eu havia morrido, eu não estava mais ali, havia trinta dias desde o ocorrido que pra mim haviam parecido apenas horas… Eu havia morrido, crivado de balas e sequer consegui reagir, justo quando minha vida ia mudar eu perdi ela… Mas… Espera... Não pode ser verdade... Se morremos, como o monstro nos atacou? O que era aquele monstro que devorou a todos… Teria sido tudo aquilo um sonho então? Não houve um monstro e eu fantasiei tudo em meus últimos momentos de vida, seria isso?

Então as sombras do quarto começaram a se materializar, a se condensar em uma coisa única, algo grotesco e assustador… Eu o reconhecia, eu já o tinha visto antes… A criatura no banco… Ela estava ali agora… Aterradora… Dentes e boca aterrorizantes… Sua voz ecoa como um sibilar de cobra e consigo finalmente definir suas palavras enquanto tentava me afastar e me proteger:

“- Não se preocupe… O que está vendo nada mais é que crenças de religiosos, alegando castigos após a morte para os pecadores, muita baboseira em uma vida só… Devia ter acreditado mais nas histórias religiosas sobre pecadores, entenderia seu destino mais facilmente agora…”

Eu tento gritar e pedir ajuda quando ele avança, mas fantasmas, apesar de sofrerem, geralmente não são ouvidos por ninguém…

FIM

quinta-feira, 3 de março de 2022

Perturbador - Caso 09 - Frases e verdades...


Era noite de quarta-feira, estávamos a assistir ao jogo de rúgbi pela liga mundial, parecia que seria uma noite tranquila, mas como bem diria Edward Murphy, "Se alguma coisa pode dar errado, dará" e eu iria comprovar isso no chamado de hoje!

Somos do 28º Batalhão Anti-Chamas da cidade de Fort Lauderdale e combater incêndios e salvar vidas é nossa principal missão ou motivo de vivermos! O alarme soou e parecia que nossos corpos reagiam como que em modo automático… Todos sabiam onde tudo estava, tudo havia sido treinado uma infinidade de vezes e em poucos minutos, completamente equipados e com adrenalina ao máximo, estávamos saindo do quartel general em direção à avenida 375, trajeto para a cidade vizinha!

O chamado da emergência avisava que um carro havia saído da pista, provavelmente devido à chuva forte daquela noite e que o carro que vinha logo atrás e avisou da emergência, não pode ficar no local pois estava trazendo uma mulher em vias de dar à luz, com extrema urgência para o centro médico! Isso queria dizer que, os demais que passassem sem ter visto o acidente, sequer saberiam que haviam pessoas que talvez precisassem de ajuda ali!

No entanto, embora a necessidade de velocidade, eu mantinha para mim o mantra de Leon Tolstói, “Os dois guerreiros mais poderosos são a paciência e o tempo!” Na nossa profissão, se não mantermos a sanidade e a serenidade, vidas são perdidas e isso não é admissível para qualquer soldado de resgate que se preze!

Bastaram minutos para chegarmos perto do indicado pelo veículo que informou o acidente, a chuva estava cada vez mais forte e seria difícil naquele breu todo, encontrarmos o local exato do ocorrido, poderíamos perder segundos vitais para salvar qualquer um deles e em um gesto de ansiedade talvez e da minha vontade de poder salvar aquelas pessoas, mentalizei a frase de Aristóteles “A esperança é o sonho do homem acordado!”

Eis que alguns metros à frente, como que em resposta à minha esperança manifestada, víamos alguém, em plena rodovia, acenando freneticamente os braços para chamar nossa atenção! A pessoa parecia estar bastante machucada, era uma mulher, aparentava seus trinta e cinco anos, cabelo loiro, blusa clara, calça jeans marinho… Havia sangue nela se percebia de longe, mas assim que ela sentiu que a seguiríamos, ela correu barranco abaixo acenando sempre, com certeza nos mostrando o caminho do acidente!

Socorristas, brigada de incêndio, equipamentos para cortar e remover ferragens, medicamentos, macas, tudo que fosse necessário para agirmos no local seguia conosco e de forma incrível, a mulher se mantinha sempre distante de nós por mais que corrêssemos… Enquanto a coitada seguia valente como nenhum de nós conseguiria ser, minha mente insistia em buscar frases e lembrei da célebre frase de Erich Remarque, “No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma não sobreviveriam.” Aquilo era uma grande verdade e como esperado, seguimos firmes, bastaram alguns minutos para acharmos o veículo, capotado, gasolina vazando e de longe se ouvia o choro de um bebê, provavelmente preso às ferragens!

A mãe provavelmente era quem estava nos guiando, não conseguiu ajudar o bebê e foi à rodovia nos encontrar! Graças ao esforço dela, estávamos ali agora porém, diferente do que pensamos, o bebê não estava preso a nada, estava solto dentro do carro, de alguma forma ele foi jogado do assento e chorava muito devido ao susto provavelmente… Claro, era fato que sem o socorro ele morreria com a explosão que estava por acontecer, mas os ferimentos eram sem dúvida mínimos, o pequeno não corria mais riscos…

Removemos o bebê de meio dos ferros distorcidos o mais rápido que pudemos e então nos voltamos para o outro ocupante do carro, o motorista, que era o único ainda dentro do mesmo e se notava, pelo estado do corpo, estar sem vida já, infelizmente… No entanto, olhando com um pouco mais de atenção, o que chocou na verdade, não fora o estado do corpo ou mesmo a tristeza de perder uma vida, mas sim, os trajes e descrição daquela pessoa morta… Aparentava seus trinta e cinco anos, cabelo loiro, blusa clara e calça jeans marinho…

Olhamos todos uns para os outros e depois buscamos pela mulher que havia nos conduzido até ali e não mais a avistamos em lugar algum… Nenhum de nós era capaz de dizer qualquer coisa diante daquilo, daquela cena que tantos de nós já havíamos em algum momento ouvido relatar, a cena sobrenatural e porque não dizer fantástica, do fantasma determinado da mãe à buscar ajuda à seu filho prestes à morrer, mas era fato também que em sua grande maioria, ninguém acreditaria algo assim ser realmente verdade… No íntimo de meu ser, tentando resolver aquela sentença sem qualquer explicação, como sempre fiz em minha vida eu busquei uma frase famosa que me ajudasse a pelo menos acalmar meu coração diante daquilo e eis que a expressão proferida pelo inesquecível Shakespeare me veio à mente como um raio: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia…”

O carro começou a incendiar, todos tentaram correr e eu fui até a ribanceira para ver se havia mais alguém e então novamente o impossível me saltava aos olhos… Ao fundo do vale, perto da margem do rio, eu avisto novamente a mulher que nos guiou até ali… De pronto me ponho a questionar, como ela foi parar lá, como estava de braços abertos a nos chamar, como ela podia se manter de pé caindo por quase oito metros de altura… Então ouço meu colega gritar meu nome, viro-me para o veículo, a explosão acontece, eles são jogados para lá e eu ribanceira abaixo e assim, a visão que jamais conseguirei explicar…

A mulher, que havia nos trazido até ali, não era a mãe, não era um fantasma, era algo que eu não sabia definir, que explodiu em tentáculos e uma bocarra terrivelmente assustadora e repleta de dentes aterrorizantes… Sem ter onde me agarrar, como mudar minha queda, apenas caí direto em sua boca, senti seus dentes e meus ossos quebrando e meus órgãos sendo triturados… A explosão encobriu os sons, a chuva e o rio, diante da visão de meus colegas, deu destino a meus restos mortais… Meus últimos suspiros físicos foram dados dentro do estômago ácido do que quer que fosse aquela criatura e então, talvez por conta de tantas frases que já havia dito e da situação sem igual em que me encontrava, pela primeira vez eu não tinha uma frase para citar, e finalmente morri, consumido pelo ser…

Aí você se perguntaria, como estou contando essa história então? Venha comigo, se imagine dentro de uma jaula, com grades fortes e duas janelas para observar para fora… As janelas são os olhos de meu corpo, meus antigos olhos e a jaula é meu corpo agora possuído… A criatura ou seja lá o que for, ao consumir meu corpo se transformou em mim assim como antes de transformou na mãe do bebê e sabe-se lá quantos antes… Como o monstro não podia digerir minha alma, aqui estava eu, agarrado ao que me restou da materialidade, chorando dia e noite com o que ele é capaz de fazer, atacando e atraindo mais e mais pessoas para as encostas das rodovias, devorando tantas quanto pode, e o pior de tudo, sequer sei dizer porque não abandonou meu corpo assumindo a forma de suas novas vítimas…

Impotente, traumatizado, amarrado à meu corpo sem poder abandoná-lo, eu o vejo matar e matar sem parar, enganando homens, mulheres e crianças… Diante de tudo aquilo e do que seria minha eternidade, me restou buscar um último acalento, um último lampejo do que fui um dia, trazendo com toda força do meu ser ainda resistente, uma última expressão antes de deixar de existir pra sempre, sendo consumido por completo pela fúria insana daquele que agora era minha jaula e que nos tornou dois seres em um único corpo… Creio que a frase foi deveras adequada…

"Ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão" - Harvey Dent

FIM

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Perturbador - Caso 08 - A coisa certa a fazer...


Naquele momento único, tenso, de baixa capacidade de discernimento e de visão escurecendo, ela começa a lembrar-se de coisas que nunca havia parado para repensar ou reviver… Seu início, seus primórdios, suas primeiras etapas na vida… Era angustiante saber que ela podia ter feito aquilo antes, ter pensado antes, ter lembrado antes, mas infelizmente não aconteceu e agora… Era tarde demais para tentar corrigir… Rita nasceu em uma favela pobre do Rio de Janeiro! Desde muito cedo sua vida era trabalhar para ajudar os pais no sustento da casa, fosse nos semáforos, fosse ajudando na lida da casa… Seus pais sempre disseram à ela, sempre faça a coisa certa, mesmo que seja difícil e assim viverá em paz, não importa o problema que tenha para resolver!!

Dedicada e atenciosa aos ensinamentos dos pais, ela atingiu seus doze anos e começou a fazer serviços domésticos ao redor de onde moravam e assim, aumentou a renda da família sem precisar se voltar à situação à margem da lei que uma parte significativa dos mais pobres se voltavam… Agora, graças ao empenho de todos, eles tinham três refeições por dia para os quatro, seu pai, sua mãe, ela e seu irmão caçula… Na mente, sempre o conselho do pai quando se sentia fraquejar pelo cansaço e esforço:

 “- Nunca deixe de fazer a coisa certa, mesmo que seja quase impossível! Lembre-se disso minha filha!”

O tempo passou, e embora todo seu esforço e fé em dias melhores, quando tinha seus quinze anos um terrível incêndio na favela levou a vida de seus pais e irmão e uma nuvem negra abateu-se sobre ela… Sem casa, sem parentes, as ofertas da rua e da vida começaram a rondar-lhe, mas ela lembrava de seu pai: “- Nunca deixe de fazer a coisa certa, mesmo que seja quase impossível! Lembre-se disso minha filha!” De posse disso, Rita negou-se a deixar a conduta que sempre teve de lado, ia honrar os pedidos de seu pai! Buscou trabalho, dormiu algumas vezes na rua, mas conseguiu encontrar ajuda e um novo emprego, ergueu-se novamente com seu esforço e retidão!

Rita nunca estudou mas era uma empregada doméstica dedicada e profissional no que fazia, havia atingido seus dezoito anos apesar das dificuldades e persistência e agora, sua vida havia mudado… Estava trabalhando no centro do Rio de Janeiro, a família dos Moraes era íntegra, empática e a havia recebido muito bem… A patroa, professora de universidade particular estava grávida de seu segundo filho e feliz com o aumentar da família; o patrão, empresário do ramo de comércio internacional, estava radiante com o futuro onde Rita cuidaria deles e de seus filhos… Ambos com estabilidade e vida confortável, Rita conquistou a confiança da família, os Moraes admiravam e apoiavam a conduta da funcionária, sempre em qualquer tarefa destinada a ela, guiada pelos ensinamentos do pai falecido: “- Nunca deixe de fazer a coisa certa, mesmo que seja quase impossível! Lembre-se disso minha filha!” A nova oportunidade rendeu-lhe bom salário, foi convidada a morar com eles e incentivada a estudar para aprender a ler e escrever com mais facilidade, dando novas oportunidades! Rita estava feliz e convencia-se que seu pai estava certo, fazer sempre a coisa certa!

Alguns meses depois, o patrão foi convidado a assumir uma das filiais nos Estados Unidos e a família iria mudar-se… Rita foi convidada a ir com eles, teria moradia, escola e salário, além de folgas adequadas para ter uma nova vida… Nada mais prendia a jovem aqui e assim, em poucas semanas ela abandonava o Brasil e assumia nova pátria, com grandes expectativas no futuro junto dos Moraes… Em sua mente ela agradecia, “- Obrigado pai, por sempre fazer a coisa certa como me ensinou, hoje eu vivo bem e em paz!”

A família Moraes e Rita chegam ao seu destino, se instalam na nova casa, foram muitas semanas até tudo ficar pronto e finalmente estavam perfeitamente estabelecidos… Rita havia conhecido a vizinhança, estava matriculada em educação para jovens e adultos, mas adaptava-se maravilhosamente bem na nova cidade, na nova vida, e o lema de seu pai sempre à guiá-la… “- Nunca deixe de fazer a coisa certa, mesmo que seja quase impossível! Lembre-se disso minha filha!”

Em torno de um mês depois, o casal Moraes pediu à Rita que cuidasse do bebê recém-nascido e de seu filho mais velho, agora com doze anos, enquanto eles saiam para comemorar a nova fase de suas vidas. Com toda a responsabilidade do mundo, depois de colocar as crianças para dormir, Rita desceu as escadas e foi para a sala principal assistir TV. Do nada o telefone tocou, ela temia não saber responder pois conhecia muito pouco do inglês, mas resolveu arriscar… Do outro lado, ao invés de alô, a voz chiada e assustadora diz, em português: “- Estou aqui em cima com as crianças. É melhor você vir aqui”.

Rita, descrente de algo assim ser real, ignora a ligação, achou que fosse um trote e seguiu assistindo a TV. O telefone toca novamente, entre gargalhadas, a mesma voz sinistra dizia: “- Estou aqui em cima com as crianças. É melhor você vir aqui”.

Dessa vez Rita preocupou-se com a possibilidade de alguém estar rondando ou observando a casa, e ligou para a polícia avisando sobre o trote. Eles pediram para ela tentar prolongar a conversa com a pessoa no telefone caso ela ligasse de novo para que eles pudessem rastrear a ligação. O telefone como esperado pela polícia e indesejado por Rita toca outra vez, e a mesma voz sinistra sentencia: “- Estou aqui em cima com as crianças. É melhor você vir aqui”.

Rita não consegue prolongar a ligação e decide desligar e ir ver as escadarias, porém, quando largou o telefone ao gancho, embora receosa ela atende e seu espanto foi gigante ao perceber que era a polícia avisando que o tempo ao telefone havia permitido rastrearem a ligação e com voz apavorada, a oficial diz: “- Saia da casa, o homem está na outra linha, em outro cômodo da casa!”.

Assustada, ela ponderou as palavras da policial, mas também ponderou as palavras de seu pai…
“- Nunca deixe de fazer a coisa certa, mesmo que seja quase impossível! Lembre-se disso minha filha!”

Ao ouvir passos pesados no corredor, Rita entende que a policial estava certa e que as crianças eram sua responsabilidade, subindo as mesmas determinada ao mesmo tempo que em pânico, torcendo para que nada tivesse acontecido com elas quando então, fora como se o tempo tivesse parado… Uma sensação estranha e incômoda percorreu suas costas e ela resolveu parar e olhar para o espelho do corredor... A cena foi aterradora e ela não conseguia acreditar estar vendo aquilo...

No espelho, era ela, a mesma roupa, o mesmo cabelo, a mesma idade, mas... Sua expressão era sádica, estava coberta de sangue com uma enorme faca na mão direita à torcer a cabeça enquanto gargalhava… Sua mente então atacada por aquela visão, é invadida por uma recordação, algo destruidor, algo avassalador, algo que ela deveria saber o tempo todo e por algum motivo não lembrava… Ela enxerga em sua mente, o fogo... Lembra de que ela se viu no espelho no mesmo dia, mas com fósforo em, uma mão e álcool na outra, e lembra também de sua mãe e seu irmão já desfalecidos com as pancadas que com o rolo de massa ela havia feito nos dois... Seu pai? Ela nunca conheceu seu pai… Ela nunca teve um pai, fora fruto de violência sexual que sua mãe havia sofrido… Então, com a visão confusa e sua mente mais ainda, ela se pergunta: “- Então... Quem sempre… Me falou… Aquilo?"

Sua versão do espelho então sorri sadicamente se aproximando dela, mesmo que ela não houvesse se movido no corredor e eis que um vulto sombrio e demoníaco surge como que com a mão ao ombro da cópia maldita, satirizando: “- Oi filha… Que bom que fez a coisa certa…”

Rita grita de forma estridente, sua mão se move sob ordens do peso da culpa e da desilusão de ter fraquejado... Sua mão se guia pela fúria de ter sido tão fraca e sucumbido de novo... Agora ela tinha se decidido, estava determinada, aquilo nunca mais iria acontecer... Então, a dor lancinante e fina em seu pescoço e logo o liquido quente escorria abundante pelo mesmo trazendo a esperada redenção que a jovem finalmente teve coragem de procurar… Ela tenta levar as mãos, mas percebe que sua visão escurece aos poucos enquanto seu corpo chegava ao chão… Somente ali, naquele momento, ela sentia o prazer de organizar os pensamentos e entender tudo que acontecera desde sempre e naqueles segundos finais, enquanto por algum motivo obscuro ela mantinha a consciência, o vulto negro e disforme surge de novo, diante dela mas agora no corredor, sorrindo maliciosamente... "- Bem vinda de volta... Filha... Eu senti saudades..."

Quando a polícia invadiu a casa, encontrou Rita com o corte fatal no pescoço, as crianças esquartejadas, e centenas de pegadas descalças impressas com sangue por toda a residência…

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Perturbador - Caso 07 - Culpado acima de tudo...


A escuridão daquele cemitério era intensa, mal se enxergava o chão onde precisava cavar... Estava passado já da meia-noite como nos bons contos de história de terror… Em princípio eu deveria ter medo, ficar assustado, com o vento que imitava vozes à me chamar, com as sombras que pareciam monstros à espreita, com os portões e placas que batiam e rangiam como se os demais mortos quisessem sair dos túmulos…

Eu estava cansado, sujo, minhas mãos sangravam um pouco devido ao esforço para cavar o buraco que fosse adequado para seu tamanho… O velho estranho me disse que se o buraco fosse do tamanho certo, iria funcionar, que era a grande dádiva de sei povo à operar... A chuva atrapalhava, deixava a terra encharcada, não tinha apenas a terra para ser mexida, a água anexada aumentava o peso e tornava tudo mais difícil…

Além do esforço para abrir o buraco ao chão, as lágrimas e o choro me tiravam as forças... As imagens, as cenas, os momentos que nos levaram ali, me corroíam a alma e me faziam soluçar e por vezes gritar, desperdiçando energia valiosa… A autoestrada deserta, a discussão, os gritos, a noite, a falta de atenção, a curva e a água na pista… Tudo que lembro após é dolorido demais para analisar e mesmo assim, mesmo com a dor insuportável, tudo aquilo me salta à mente à cada instante, me culpando novamente por tudo…

Termino o serviço, saio dali como posso, não estou com medo, não tenho medo do ambiente nem dos que ali vivem, sou Eduardo Ramirez e minha meta é muito maior que isso, pois não poderia ter sido desse jeito, não poderia ter sido assim, não com Bianca… Isso não podia ter acontecido, eu tinha que resolver aquilo de qualquer forma... Eu entro em meu carro... Não, em nosso carro e me afasto em direção à nossa casa, com pressa, com ansiedade, com emoção, com a sensação de que fiz o certo…

Os relâmpagos cortam o céu terrivelmente quando adentro pela porta da frente de nossa casa, vou andando até perto da janela onde ficávamos a olhar as estrelas sentando-me pesadamente ao chão, mas desta vez, contemplando as nuvens turbulentas e o estrondar dos raios violentos lá fora... Alguns segundos de sobriedade e então de novo, a mente me assalta e minha consciência me cobra…

O carro sai da pista em plena floresta, rodopiou algumas vezes, ela foi jogada para fora pois havia removido o cinto para se jogar do carro… O carro seguiu descendo e se arrebatando, mas era mais lento que ela que foi arremessada mais à frente de forma brutal e quando finalmente tudo parou, lá estava Bianca em pé, expressão indescritível e aterradora, prensada contra uma árvore pelo nosso carro enquanto eu ainda estava ao volante, preso pelo cinto... Sua região abdominal esmagada pelo choque e ela ainda podia me olhar e respirar de forma fraca, o suficiente pra entender o que aconteceu antes de perder os sentidos e desfalecer…

O socorro chegou, a polícia chegou, ela foi levada e eu não fui culpado por ninguém… Ela foi examinada, liberada, sepultada e eu ainda assim não fui acusado de nada… Mas eu estava no volante, eu discuti por besteira, eu a acusei de algo que não havia feito à ponto dela tentar se jogar do carro… Então veio a curva e tudo aconteceu e eu a perdi…

Finalmente todas aquelas lembranças e dores me traziam para a realidade de novo, onde via o sangue escorrendo de minhas mãos pelos ferimentos da pá, era o início do meu êxtase naquela noite e minha espera parecia ter chegado ao fim, eu seria finalmente penalizado por tudo que fiz…

O local era ideal, me prometeram que encontraria li o que buscava… Apostei tudo nisso, removi ela de seu sepulcro e a levei para onde era o indicado, finalmente agora eu estava feliz e completo, minha hora de finalmente sorrir havia chegado…

A porta principal da casa se abre com um rangido que não tinha quando entrei, parecendo demonstrar um peso sem igual a forçar-lhe a abertura… Não ouso me virar, finamente eu tenho medo, finalmente eu temo por mim… Ouço passos encharcados, passos lamacentos, algo que parecia trôpego e falho na caminhada… Quero correr mas não o faço, eu esperei por aquilo, eu ansiava por aquilo… Então, dedos frios envolvem meu pescoço e começam a apertar até que sinto o ar começar à faltar em meus pulmões e meu sangue ter o fluxo interrompido… Sorrio... Ela voltou para mim... Finalmente alguém irá me culpar e me punir pelo que fiz!

FIM

Lion-Maru: O rugido da vingança! (Ato 7)

As profundezas da montanha já não pareciam pertencer ao mundo dos homens. Shimaru descia lentamente pelos corredores antigos, enquanto o eco...